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Julião Sarmento

Julião Sarmento faleceu esta terça-feira, 4 de maio, na Fundação Champalimaud. O artista plástico nascido em Lisboa tinha 72 anos e vivia no Estoril. Com uma carreira abrangente e multifacetada que combinou diversos meios de expressão, é referido com um dos mais internacionais artistas portugueses. Em sua homenagem, recordamos hoje uma entrevista à Espiral do Tempo a propósito do lançamento do Jaeger-LeCoultre Reverso Arte Portuguesa com o seu nome. Estávamos em 2012.


Entrevista originalmente publicada na edição impressa da Espiral do Tempo 39 (Primavera 2012)


Imagem de abertura: © Espiral do Tempo / Nuno Correia

Julião Sarmento foi convidado para participar na criação do sexto modelo da coleção Arte Portuguesa da Jaeger-LeCoultre. Um projeto que, à semelhança do que foi pedido aos artistas que no passado nele colaboraram, tinha como proposta a interpretação do Tempo de um modo singular e que fosse perfeitamente identificável com a sua obra.

Perguntas por Hubert de Haro e Paulo Costa Dias.

Assim, a sua interpretação acabou por «girar em torno da iconografia feminina», tema que melhor caracteriza a obra daquele que é atualmente considerado um dos mais internacionais artistas portugueses. Numa entrevista exclusiva à Espiral do Tempo, Julião Sarmento falou sobre o resultado deste seu trabalho: um Reverso personalizado, disponível em duas limitadíssimas versões.

Em 2010, numa entrevista ao Jornal I, afirmou: «irrita-me pensar que, faça o que fizer, as pessoas compram, desde que esteja lá o meu nome.» Considera este projeto com a Jaeger-LeCoultre um mero aproveitamento comercial, ou revelou-se algo de mais profundo?

(risos) Essa pergunta é capciosa e essa frase foi descontextualizada. Está, portanto, a partir de uma premissa errada. Há, no entanto, um pouco de verdade nisso, infelizmente. Cada vez mais, com a globalização, muito mais do que os resultados práticos ou técnicos daquilo que as pessoas adquirem, o que interessa é a maneira como aquilo que se adquire soa. Tem que ver com a predominância das marcas. Não se compra um relógio, compra-se um LeCoultre; não se compra um carro, compra-se um Aston Martin, mas a realidade não está aí. Muitas vezes, as pessoas não compram as coisas por causa da qualidade, compram as coisas por aquilo que elas significam, pelo status social ou cultural que essa aquisição lhes outorga. E, neste sentido, infelizmente, tenho quase a certeza de que há pessoas que compram coisas que eu faço, não porque gostem, não porque se interessem, mas porque está lá o meu nome.

Julião Sarmento com a edição especial Jaeger-lecoultre Reverso Arte portuguesa Julião Sarmento
Esquerda: © Nuno Correia / Espiral do Tempo | Direita: © Paulo Pires / Espiral do Tempo

A proposta era desenhar o Tempo. Escolheu uma figura feminina. Decidiu representar o tempo feminino?

Não desenhei o tempo feminino, porque acho que o tempo feminino não tem tempo. Quando me foi pedido um projeto, foi-me pedida uma imagem que tivesse não só que ver com o tempo, mas que fosse assinatura visual absoluta e facilmente identificável, e eu sou, de facto, muito identificado com a representação do corpo feminino. Todo o meu trabalho gira à volta disso, gira à volta da representação, da iconografia feminina e, de facto, tenho uma série de obras que são uma espécie de mulher expetante, que está à espera, o que tem que ver com o espaço e com o tempo. Com o espaço no qual ela existe, o espaço que ela preenche, e com o tempo indeterminado em que ela lá está. Porque em qualquer altura em que você olhe para o desenho, ela continua lá, não se vai embora, e mesmo que você se vá embora, ela continua lá. Este não é um tempo fugaz, é um tempo eterno. E foi este o sentido que me interessou nesta conexão entre uma imagem de marca, a minha imagem de marca, e esta ideia do tempo que não acaba.

Verso do Jaeger-LeCoultre Reverso Julião Sarmento
Jaeger-LeCoultre Reverso Julião Sarmento © Paulo Pires / Espiral do Tempo

O que mudou na mulher portuguesa desde os anos 60/70?

Não sei, não sou mulher. (risos) Acho que estão muito mais aware; que estão muito mais cientes de como as coisas são; são mais informadas, e os homens também; são menos dependentes; fizeram a descoberta do seu corpo; têm um grande sentido de liberdade, que eu acho excelente; estão cada vez mais bonitas, que acho melhor ainda. Comparam-se aos homens a todos os níveis menos naqueles que, obviamente, não se deviam comparar. Nada que na altura já não devesse de ser assim, repare.

Já se assumiu como «um construtor de enigmas». É isto a mulher por si representada, um enigma?

Seguramente. Mas não é só isso, porque a representação da mulher no trabalho que eu faço tem um sentido mais histórico. Se vir, desde o início da representação, desde Lascaux, que as primeiras representações são do corpo humano, dos dedos, das mãos. O homem representa-se, e é a coisa mais representada em toda a história da arte. Na minha perspetiva, o corpo humano é o único símbolo que não é passível de se tornar um cliché, porque nós resistimos e renovamo-nos. Há coisas que se gastam, mas a representação do corpo não se gasta. É neste sentido que me interessa a representação do corpo, e só faço mulheres porque não gosto de fazer homens, é tão simples como isto (risos). A segunda leitura é a do lado enigmático. Que as mulheres são um enigma claro que são. Mas também há homens que são enigmas, as pessoas são enigmas.

© Nuno Correia / Espiral do Tempo

Normalmente, ou sempre, há pouca cor na sua representação feminina? Vê a mulher a preto e branco?

Não é só nas mulheres, é no meu trabalho em geral. Salvo no início, em que andava um bocado à procura daquilo que queria fazer, sempre tive uma paleta de cores muito reduzida. Nunca fui um Fauve, nunca utilizei todas as cores do universo, tipo Matisse, uns azuis extraordinários, uns amarelos brilhantes, uns cor de laranja deliciosos. Sempre fui um artista muito mais sombrio, mais recatado na utilização da cor. Até ao ponto em que, em 1989, 1990, comecei a pensar «será que eu preciso de usar cores?». Comecei a interrogar-me porque é que eu usava cores e comecei a achar que, em determinadas circunstâncias, a cor não servia para nada, era uma espécie de fetiche kitsch, não tinha nenhum sentido prático, nem concetual, se quiser. Então, reduzi tanto a paleta que passei só a preto e branco. Só utilizo cor quando é absoluta e estritamente necessário, como de vez em quando o é. Uma das serigrafias que é feita para esta edição limitada da Jaeger-LeCoultre tem um amarelo venenoso. É uma imagem que tinha veneno e eu utilizei esse amarelo.

Aliás, nesta edição limitada, primeiro sentiu-se seduzido pelo relógio em aço e só depois pelo de ouro rosa.

Os dois são lindíssimos, mas eu só tinha visto os modelos dos relógios em fotografia, nos livros da marca, não os tinha visto ao natural — e é muito diferente. O sentido da cor, a junção de cores dá-lhe força e faz realçar o branco.

Verso do Jaeger-LeCoultre Reverso Julião Sarmento
© Paulo Pires / Espiral do Tempo

Uma das primeiras exposições coletivas foi em Luanda, em 1973, e acaba de vir de férias em África. Alguma relação especial com África?

Tenho, tenho uma relação especial. Mas a primeira relação com África foi dominada pelo medo, quando estava para ser incorporado e ir para a guerra. Acabei por não ir, mas o meu primeiro casamento foi com uma africana, com uma sul-africana. Vivi em Moçambique cerca de um ano e a minha relação com África começa aí. A minha primeira exposição a dois, aliás, inaugurar-se-ia em Lourenço Marques, na altura, no dia 25 de abril de 1974. (risos) Não foi inaugurada…

Poucos artistas conhecem o continente africano sem que isso venha a influenciar a obra deles. Não é muito visível no seu caso, no entanto.

Bem, vou dizer uma coisa pela qual as pessoas me vão matar, mas não me interessa rigorosamente nada a África do Norte. Eu gosto da África negra, da África do bush. Não são as cidades, não é o lado urbano do continente que me interessa. Falavam-me muito nisto e eu não acreditava, mas, depois de a pessoa entrar uma vez na mata, tem de lá voltar. É uma coisa estranha, é uma coisa que fica presa dentro de nós, não me pergunte porquê, mas é verdade.

Mas isso ainda não se refletiu na sua obra, pois não?

Por acaso, já. Esta primeira exposição que estava para ser inaugurada a 25 de abril de 74 era toda sobre África, foi toda feita em África e era uma exposição que trabalhava com África. É difícil explicar. Não quero estar a verbalizar aquilo que não é verbalizável, mas era uma exposição cujo leitmotiv era África.

Julião Sarmento sentado com a edição especial Jaeger-lecoultre Reverso Arte portuguesa Julião Sarmento e detalhe do mostrador preto do Jaeger-LeCoultre Reverso Julião Sarmento
© Nuno Correia / Espiral do Tempo

Daqui a seis meses, um ano, cruza-se na rua com uma pessoa que tem um Reverso Julião Sarmento no pulso. Como o, ou a, imagina?

(risos) Espero bem que seja uma pessoa que seja simpática, com a qual eu tenha empatia visual, senão é uma ‘chatice’. No fundo, não há grande diferença entre isto e algo que já me aconteceu, que foi ir a casa de alguém e haver lá um quadro meu, uma obra minha. Umas vezes fico contente, outras vezes fico tristíssimo, porque está num contexto que me apetece matar. (risos) Esta também é uma obra minha, não é numa tela, não é num papel, é num relógio. Imagino que neste caso se passe a mesma coisa, umas vezes será numa pessoa que me é agradável e que eu acho que tem bom gosto, outras vezes nem tanto.

Tem de se repartir pela criação, por permanentes viagens, pelas obrigações sociais e pessoais, o que obriga a alguma disciplina de horários. É um controlador do seu tempo?

Tem de ser, senão era uma desgraça. Tenho de ser um grande controlador do meu tempo. Enfim, q.b., porque aparecem coisas à última hora, a todo o momento. Tento controlar tudo com o meu BlackBerry e, às vezes, troco tudo (risos), mas tenho a minha vida quase marcada ao minuto.

Detalhe do mostrador branco do Jaeger-LeCoultre Reverso Julião Sarmento
Jaeger-LeCoultre Reverso Julião Sarmento © Nuno Correia / Espiral do Tempo

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