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Júlio Pomar e a alegria da força em movimento

Júlio Pomar morreu ontem, dia 22 de maio, no Hospital da Luz. Tinha 92 anos. Nascido em Lisboa, em 1926, distinguiu-se como um dos mais importantes artistas portugueses no panorama do século XX. Em 2003, Paula Moura Pinheiro, numa entrevista exclusiva para a Espiral do Tempo, no âmbito do lançamento da edição Arte Portuguesa da Jaeger-LeCoultre, afirmava que «conversar com ele é uma surpresa». É essa a entrevista cheia de energia que hoje recordamos como a nossa homenagem a Júlio Pomar. Até sempre, Júlio! Foi um privilégio.

Entrevista publicada no número 9 da Espiral do Tempo (2003)

© Nuno Correia/ Espiral do Tempo
© Nuno Correia/ Espiral do Tempo

Por entre a promessa de sagesse das suas barbas brancas, Júlio Pomar ferve ainda na irrequietude e na malícia. O espectáculo da energia em movimento continua, 60 anos passados, a mobilizar-lhe o gesto poderoso. Conversar com ele é uma surpresa.

por Paula Moura Pinheiro (Espiral do Tempo Nº 9/2003)

Vejo que usa um relógio da série numerada que tem gravada um desenho seu. Surpreende-me. Pensei que não gostava de relógios.
Ah, não (exibe o relógio com prazer, tira-o do pulso para mostrar o desenho, no verso). Os relógios são objectos muito úteis! Não me posso guiar pelo Sol (risos).

Mas podia ter quem o guiasse.
Isso era muito chato.

Como é que gere a sua relação com as horas?
O meu ideal de vida seria passar todo o dia no atelier e à noite estar ou sair com amigos. Agora, com esta provecta idade, muitas vezes já chego à noite cansado. Mas, por outro lado, há coisas que se vão descobrindo. Aprende-se a estar, aprende-se a ver. Imagine que somos como um rebanho de ovelhas. Elas seguem todas juntas, de cabeça baixa, e há uma que, de vez em quando, levanta a cabeça. Parece que a do lado lhe dá imediatamente um toque para ela baixar a cabeça e continuar a seguir o caminho marcado. O olhar para o lado não é bem visto (risos). Mas, com o Tempo, naturalmente, vamos aprendendo a olhar para o lado e vamos ganhando o direito a olhar para o lado. Ao longo dos anos, aprendi a gozar o Tempo de não fazer nada. Aprendi a disponibilidade, que, evidentemente, não é prolongável além de um certo limite. Este limite é o do ‘chateamento’. Mas aquele momento em que não se tem um programa a cumprir, em que não se tem um problema a resolver, esse momento é a porta do nirvana. É óptimo. E acho que devia haver na educação das criancinhas qualquer coisa que as expusesse a isso: saber estar consigo mesmo e disponível. Não ter sempre uma coisa para fazer. Antigamente dizia-se «matar o Tempo» — seria importante não estar sempre a matar o Tempo, mas antes aprender a gozar o Tempo.

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Júlio Pomar foi capa da Espiral do Tempo duas vezes no âmbito dos dois modelos lançados na coleção Jaeger-LeCoultre Arte Portuguesa: no número 9 (2003) e no número 19 (2005).

A maioria das pessoas não tem qualidade de vida para compreender sequer o conceito.
Estou ciente do luxo a que me dou. A maioria das pessoas está tão condicionada pelos afazeres obrigatórios, o trabalho, o trânsito, a dureza do dia-a-dia, que se limita a correr. E quando chega ao fim-de-semana, o período concebido para o lazer, há que tratar da casa, onde durante a semana se acumulou o pó e a roupa por lavar — uma nova escravatura. Sei que sou um privilegiado.

Também acha que mais difícil do que aprender a passear numa cidade é aprender a perder-se numa cidade?
Ah, sim! Com certeza! Há pouco Tempo, ouvi de alguém que para uma cidade que não conhecia três dias bastavam perfeitamente. É espantoso! Pessoalmente, não tenho a pretensão de conhecer cidade nenhuma. É próprio da cidade estar sempre a dar novidades ao paisano, ao disponível. Vivo há 40 anos em Paris e não tenho a veleidade de conhecer Paris. Que tristeza se pudesse dizer o contrário.

Imagino que esse direito de deambulação que conquistou tenha de ser defendido das constantes investidas do mundo.
Pois tem. Entre Paris e Lisboa, a chegada, digo-o com toda a sinceridade, é sempre agradável e desagradável. O correio, sabe, o correio é das piores invenções da humanidade: as toneladas de papel que circulam são, na maioria dos casos, inúteis e quase sempre ‘chateantes’. Não sei se o classifique como um dos direitos do homem, se como uma maldade de Deus (risos).

Usa e-mail?
Uso, uso.

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© João Palmeiro/ Espiral do Tempo

Então é bombardeado de todos os lados…
De todos os lados. E está cada vez pior, mesmo tendo quem me selecciona as coisas de forma a só ter de ver o indispensável, mesmo assim é uma chatice. É por isso que deliro chegar a um hotel.

Isso confere com o facto de não acumular, nas suas casas, objectos-lembrança. 

Abomino souvenirs. Preciso de espaço para respirar.



Vive em Paris há 40 anos. Entre Paris e Lisboa, há quase 30. Não pensa voltar de vez a Portugal?
Não, não. Não é questão que hoje se me coloque. A ida para Paris foi muito importante para mim e acho até que teria ganho se tivesse ido mais cedo — sendo que isso agora já não interessa para nada. O que interessa, sim, é que, hoje, com a nova facilidade de comunicações, é perfeitamente possível viver-se longe do país de origem, mantendo-se com ele um estreito contacto. É cada vez mais corrente e eu sinto-me bem assim. Sou como as galinhas que, quando se sentam, procuram ajeitar-se ao chão. Estou ajeitado ao chão de Paris e ao chão de Lisboa.

Tem 77 anos.
Sim, acho que é isso. Nasci em 1926. Se quiser fazer as contas…

A idade só tem importância para dar a dimensão do Tempo das experiências acumuladas. No seu caso, é muito Tempo, são muitas vidas, muitas histórias.

As memórias vêm sozinhas, a propósito de qualquer coisa que as suscita. Há pessoas que vivem obcecadas com o passado — Deus seja louvado (gargalhada), não é o meu caso… E isto não deriva de qualquer premeditação, a gente não premedita nada, as pulsões vão sempre para o outro lado (risos)… Simplesmente, não sou nostálgico. O presente absorve-me.



É uma forma de tentar a liberdade. 

Sim, mas a liberdade é uma aprendizagem que nunca está esgotada.

Cresceu entre mulheres: mãe, avó, tias, irmãs. As figuras masculinas foram todas, precocemente, afastadas na sua infância. 
É verdade que cresci no meio de saias e que fui muito marcado por isso: nunca mais deixei de as procurar (risos)… É uma necessidade imperiosa (risos). O facto de ter crescido entre saias determinou muitas coisas no meu comportamento…

Foi o menino na mão das bruxas. Imagino que fosse mais sobreprotegido que os seus amigos que cresceram com pai. 

Isso não sei. Mas sei que não fui um menino na mão das bruxas. Não era o principezinho. A verdade é que, lá em casa, se reconhecia que eu era um elemento diferente, de uma espécie diversa da feminina, mas isto não me trazia nem obrigações, nem privilégios especiais. Estou convencido de que teria podido ir precocemente para a Escola António Arroio, como fui, se tivesse nascido rapariga. Analisando agora, à distância, creio que o que foi determinante foi ter crescido num ambiente fechado e tê-lo feito lateralmente: fui como uma linha ao lado de um círculo.

Às vezes, é pelo mais difícil que chega o mais importante… 

Sim. Por exemplo, quando eu era criança vivíamos numa casa na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, que tinha uma varanda sobre o Tejo. Cresci com aquela luz, com os reflexos dos paquetes nas águas do rio, à noite. Por volta dos meus sete, oito anos mudámos para as Avenidas Novas e eu perdi o contacto com o Tejo. Quanto desta perda contribuiu para ser pintor? Não sei. Se calhar, se eu continuasse com o Tejo servido de bandeja à minha janela, nunca o teria valorizado. Foi uma mudança brusca, marcante.

© Nuno Correia/ Espiral do Tempo
© Nuno Correia/ Espiral do Tempo

Que deu os seus frutos. Também considera proverbial aquilo a que chama a sua falta de habilidade como pintor.
É a mais pura das verdades: nunca fui habilidoso. Sempre tive dificuldades a desenhar, a pintar. Mas uma certa inabilidade pode ser útil: obriga a pensar. Sobretudo isso, a pensar. Como sou inábil, não faço as coisas à primeira e isto obriga a um diálogo constante entre aquilo que sai da mão, aquilo que a cabeça pensa e aquilo que os olhos vêem. Ao contrário, e como dizia Picasso sobre um artista que me interessa muito pouco, Dali sofria de demasiado talento…

Voltando ao seu início entre saias, é curioso que tenha vindo a desenvolver um interesse, tão visível na sua pintura, por artes masculinas: os touros, o futebol, o rugby
É o espectáculo, sabe, é o espectáculo visual. É a movimentação da força, a força em movimento. E depois, tudo isso são ritos que têm muito a ver connosco e com a dimensão da nossa irracionalidade, que sempre me interessou. São micromundos extremamente sugestivos. Mas nunca fui um espectador assíduo de nenhuma destas artes, de vez em quando assisto a um jogo de futebol na televisão, mas pouco mais. Para mim, tudo começou com uma fotografia de jornal: de repente impressionaram-me os corpos dos jogadores, a atracção e a repulsão daqueles corpos — tinha tudo a ver com a maneira como vivemos, era uma espécie de modelo.

Presume-se que o seu bestiário, os tigres por exemplo, também derive do mesmo gosto por tentar agarrar a força em movimento.
Sim. E pela semelhança connosco, a semelhança com o bicho-homem. Sabe que antigamente se estudava o corpo humano pelo corpo dos porcos? Parece que há imensas similitudes…

Já os retratos são situações muito particulares, que levantarão dificuldades específicas…
Muito específicas. Fazer um retrato de alguém é sempre uma prática, potencialmente, suicidária… Pergunto-me como é que o Goya se safou com aqueles retratos terríficos da família real espanhola (risos)…

Alguma vez teve uma reacção desagradável de um retratado seu?
Não… que me lembre não. Geralmente, as pessoas sentem-se gratificadas.

Isso indica que deve ser benévolo.
Procuro ser o mais verdadeiro possível, mas também só pinto pessoas com quem tenho uma relação qualquer. Pessoas com quem tenho alguma afinidade.

É o gosto pela vida?
Ora, nem mais! Para que hei-de eu ir a um restaurante onde já sei que se come mal?

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© Nuno Correia/ Espiral do Tempo

Mas o Mal tem sido, precisamente, o objecto dilecto dos maiores artistas…
Pois a mim não me interessa. E não perco Tempo com o que não me interessa ou com o que me repugna. Os retratos do Bacon ou os do Freud, por exemplo, são… o que resta depois do ataque de uma hiena — as carnes todas despedaçadas e pútridas. Digamos que esta leitura sobre a condição humana não é, para dizer o mínimo, razoável… Pessoalmente, prefiro outra relação com a existência. Para resumir, diria que o tempo está mal para retratistas.

No caso de Mário Soares…
Estava precisamente a pensar nisso. Quando ele me convidou para lhe pintar o retrato, lá para a galeria de Belém, perguntei-lhe se ele queria que eu o pintasse em personagem de função, com condecorações e atitude de cena — coisas que o Goya resolveu sempre muito bem. E ele respondeu-me: «faz o que quiseres, pá!» E eu fiz. Trabalhei essencialmente com a memória (ele só posou para mim uma vez) e lembrei-me quando, alheado, ele acorda de repente e avança com uma das suas interpelações: «Ó pá, o gajo…» É a imagem mais forte que tenho do Mário, a avançar, inflamado, para a malta.

Novamente, o movimento.
Sim. O espectáculo da energia em movimento.

Destrói muito do que faz?
Sim, algumas coisas. Gosto de que o que mostro apareça limpinho, tenho de fazer esta batota (risos). Um quadro, um romance têm de ter vida própria ou não valem a pena. Ou se resolvem ou não se resolvem. Às vezes, não se resolvem. Um dos prazeres que tenho é o de encontrar uma ‘Maria Queixosa’ com quem desenrolar as minhas queixas. O António Lobo Antunes é uma ‘Maria Queixosa’, como aliás os artistas têm tendência a ser, e quando nos juntamos cada um se queixa imenso do trabalho que não corre etc. etc. etc. Convivi muito com a Menez e as conversas eram carpições perfeitas. Agora a carpição faz-se com o António Lobo Antunes.

Como é que tem a certeza de que a coisa não se resolve?
Imaginemos um relógio. O relógio tem de ser milimetricamente preparado para não nos dar surpresas. Para que quereria eu um relógio, se os ponteiros começassem a ter vontade própria? A um relógio pede-se que não tenha imaginação, que seja o mais regular possível. Ora, o que é que nos dá gozo na criação? Certo tipo de surpresas. Uma mulher, ou um homem, que não dêem surpresas são uma chatice, não é? Como dizem os membros de casais com muitos anos: não tenho nada a dizer! É uma tristeza muito grande. É como dormir com um relógio. Imagine uma conversa entre namorados. Ele diz, eu gosto de ti. Ela pergunta porquê. Ele começa com explicações, mas se não chega a um ponto onde não há mais explicação possível, então não existe razão para a atracção: a atracção resulta da mistura da razão com a irracionalidade dominante — e ainda bem que a irracionalidade é dominante.

© Nuno Correia/ Espiral do Tempo
© Nuno Correia/ Espiral do Tempo

A pintura, como a poesia, procura operar no inominável.
Exactamente. A palavra é muito complicada. Cada palavra tem o seu lote de significados, que estão mais ou menos nos dicionários, e há uns sujeitos chamados poetas que têm o condão de juntar palavras cujo significado, isoladamente, toda a gente conhece, mas que em conjunto abrem para um outro sentido. A poesia é a falência do dicionário. Um exemplo claro: um dos últimos poemas de Rimbaud, «Ô Saisons, ô Châteaux!», dá para pensarmos milhentas coisas. Acontece que saison, estação, é uma marca de cerveja, e château, um vinho de qualidade. Então o  «Ô Saisons, ô Châteaux!» poder-se-ia traduzir em português como «Ó Bejecas, ó Pomada!» (gargalhada). E o verso seguinte, «Quelle âme est sans défaux?», neste contexto, poder-se-ia ler: «Quem é que nunca deu umas cabeçadas?» (gargalhada). É ou não é a falência completa do dicionário? O encanto da poesia é esta relação imprevista de sentidos, que ilumina a conversa.

Costuma dizer que não pinta os quadros na cabeça porque eles acontecem com a mão.
Claro.

Às vezes, revisita Cézanne para lhe ir buscar, e a expressão é sua, «companhia e coragem».
É verdade, é verdade. E também costumo dizer, e não se leia nisto qualquer vaidade tonta, que vou ao Louvre ver a família. Há um tipo de obras, que são as que me interessam, que parece que estão sempre a ser vistas pela primeira vez, têm qualquer coisa que mexe sempre connosco. É como a frescura da manhã.

Isso remete-me para o período, nos anos 40, em que frequentou a Escola Superior de Belas Artes, no Chiado, e preferia ir ao Museu de Arte Antiga visitar os primitivos, o Bosch ou o Nuno Gonçalves, que ir ao Museu de Arte Contemporânea, ao lado da ESBAL, ver os modernos.
Ah, sim. Aquilo era uma tristeza. A maior parte das coisas tinham um ar cadavérico. Até os estrangeiros, naquele contexto, pareciam mortos. Mas o pior eram mesmo os portugueses. É muito curiosa esta tristeza profunda dos portugueses. Por exemplo, António Nobre — um poeta extraordinário, que tem um livro maravilhoso — fez uma quantidade de versos mais que deprimentes: «Oh, meu amor, antes fosses ceguinha.» Bolas! Se isto é amor, não me amem assim (risos). Esta tristeza é como um hábito, uma coisa que já vem, não sei, talvez do regresso da Índia. Porque se os que foram à Índia fossem assim tão deprimidos, não tinham lá chegado.

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© Nuno Correia/ Espiral do Tempo

É essa a patologia nacional? Esta alegria de ser tão triste?
Não diria patologia, mas em Portugal há, sim, uma tendência para uma profunda tristeza. Tomemos o Jorge de Sena. Superiormente inteligente. Mas no Sinais de Fogo, por exemplo. Aquilo que começa muito bem, que vai com um balanço bestial, a partir de certa altura… cai. Cai numa espécie do contrário do que seria ganhar distância. É aflitivo. Mas não acho que seja uma fatalidade. Até porque ao lado de um António Nobre, há um Cesário Verde que celebra a vida à vista de uma abóbora, de uma couve.

É interessante que um dos artistas portugueses que mais cita seja Almada Negreiros.
Aprecio o escritor, o poeta, a figura, muito lisboeta, não propriamente o artista plástico. Mas o Almada tinha essa coisa espantosa de declarar a alegria a coisa mais séria da vida…

Porque é que a sua escultura não nos é acessível? Porque é que não podemos vê-la? É um segredo?
Não é um segredo, mas não é constante. Os períodos em que fiz escultura estão afastados uns dos outros por boas porções de anos. É uma coisa que às vezes acontece, como a escrita. Nunca escrevi continuamente. Em relação à escultura, tenho aí umas coisas a chegar… estou exactamente a trabalhar numas peças que são lebres e, sobretudo, tartarugas. As peças das tartarugas são feitas a partir de cascas verdadeiras.

E vai colocá-las no mercado?
Sim, sim.

Eis uma novidade. E porquê a tartaruga mais que a lebre? Afinidades electivas?
Não. É pura preguiça. Estou a trabalhar a partir de carcaças de tartaruga e como nunca me apareceu uma carcaça de lebre…(risos)

O que é que aprendeu na vida?
O que eu acho que é talvez possível de aprender é a pessoa mover-se entre as coisas que se movem em todas as direcções. Como nas artes orientais: aproveita-se a energia que circula e transforma-se. Acho que é qualquer coisa que vai por aí. Que penso que vai por aí… Está a ver como sou cauteloso? (risos) ET_simb

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