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«O tempo aqui»

EdT50 — Há momentos a passar em todos os lugares onde estou. É assim com todos os que aceitam estar vivos, ventura e aventura, sorte que se sente em certas manhãs de abril ou, mesmo, quando se procura palavras que expliquem paradoxos.

Crónica originalmente publicada no número 50 da Espiral do Tempo.

Agora, está aqui uma pessoa com as minhas caraterísticas, mas eu estou bastante longe daqui, a aproveitar esta manhã de abril. Esta pessoa partilha todas as minhas caraterísticas fundamentais: aspeto, nome. Se disserem o meu nome, esta pessoa deixa de escrever estas palavras e, muito provavelmente, vira-se na direção de onde a chamarem. Tudo isto é uma probabilidade porque, aqui, sozinha, está apenas esta pessoa. Aqui, não estou sequer eu próprio, porque eu estou perto do rio, a respirar.

Hoje, separámo-nos cedo. Logo depois de acordar, quando abri os estores e esta luz ocupou toda a janela, saí para a rua, levando o meu sorriso, e esta pessoa ficou aqui, a preparar-se para escrever e, depois, a escrever. Esta pessoa tem alguma consciência daquilo que é estar perto do rio, analisar o brilho do Tejo, medi-lo por instantes e deixá-lo escapar para sempre, mas não sabe, como eu, aquilo que é estar agora a sentir os pequenos pontos de água que se libertam do rio, que se misturam com o ar e que, com o sol, pousam sobre a pele do meu rosto.

Lisboa, esta cidade é incandescente. Lisboa divide-se em: pessoas, carros, ruas, casas, céu e rio. As pessoas são universos e são formigas. Cada pessoa é um universo inteiro e completo, mas também são como formigas. Os carros existem pelo som e pela forma como as pessoas têm de esperar por eles antes de atravessar, ou conduzi-los, semáforos, ou estacioná-los. As ruas são as linhas pavimentadas que levam de um lugar ao outro, têm sombras em abril. Por dentro, as casas são cenários para universos, para pessoas. Por fora, as casas são cores que se esbatem no olhar, manchas embaciadas que contornam as ruas. O céu é o céu. E o rio, já se sabe, é o rio.

Esta pessoa com as minhas características está aqui, mas eu estou bastante longe daqui. Estamos separados pelo caminho que fiz para chegar ao rio e pela escolha que a pessoa com as minhas caraterísticas fez de continuar em casa. Não foi a primeira vez que nos separámos. Esse tempo de distância não foi suficiente para deixarmos de partilhar caraterísticas e, no entanto, agora olhamos para lugares diferentes, ouvimos sons diferentes e, por isso, somos diferentes. Somos dois materiais. Sabemos também que o tempo é feito de momentos como agora, como agora, como agora.

Confiamos demasiado na nossa memória. Confiamos demasiado em papéis escritos e em cicatrizes. Se perguntar o que é o passado, sei que vou fugir da resposta. Se perguntar o que é o futuro, sei que não existe resposta. Agora. Agora, está aqui uma pessoa com as minhas caraterísticas, mas eu estou bastante longe daqui, a aproveitar esta manhã de abril. Seria talvez demasiado fácil ir-me embora, voltar para junto da pessoa que tem as minhas caraterísticas, enquanto ela deixava de escrever e vinha para junto do rio. Trocávamos de lugar. Quando essa pessoa com as minhas caraterísticas saía, o texto acabava. Ponto final, silêncio.

Para o melhor e para o pior, nem sempre o mundo é tão certo. A pessoa com as minhas caraterísticas vai continuar aqui, eu vou continuar longe, junto ao rio. É assim. Entretanto, a casa continua, o rio continua, a cidade continua, o tempo continua. ET_simb

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