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Os dias que não voltarão a passar

EdT55 — Nos volumes de Conta-corrente, o diário que Vergílio Ferreira manteve a partir dos cinquenta e três anos, é muito comum referir-se apenas pelas iniciais a pessoas que fizeram parte dos seus dias. Hoje, esses diários apenas se encontram em alfarrabistas, entre livros de outros tempos. Quem se interessará ainda por saber a que nomes correspondem essas iniciais?

Crónica publicada no número 55 da Espiral do Tempo (verão 2016).

Naquela idade em que se lê os livros que serão lembrados durante toda a vida, tive à minha disposição uma biblioteca. Ao longo de uma vertigem, como se caísse num poço de onde nunca poderia sair, aquelas prateleiras mudavam-me o destino. Com sofreguidão, virava-me em todas as direções, esticava-me para chegar aos livros mais altos da secção de poesia ou, sem medo, enfrentava romances com centenas de páginas, sabendo que, depois de longas tardes, não seriam capazes de me resistir. Eu tinha quinze, dezasseis, dezassete anos e, agora, quando olho para trás, surpreendo-me com esse tempo e, ao mesmo tempo, orgulho-me dele. É a minha história.

Ao longo desses anos, foram os autores portugueses que me formaram. Não posso garantir a que não haja ausências, essa é uma afirmação demasiado difícil, no entanto, não me recordo de qualquer nome importante da literatura portuguesa do século xx de que não tenha lido pelo menos uma obra, da primeira à última página. Uma parte significativa dessas leituras foram feitas durante esse período, de forma obsessiva.

Os diários faziam parte das leituras que me cativavam, que me ensinavam a pensar e a olhar. No entanto, quando lia contextualizações críticas, ficava sempre perplexo com o papel secundário que lhes era atribuído. Poderia citar outros exemplos, mas escolho três importantes autores que descobri nessa altura e que me parecem significativos daquilo a que me refiro: José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Vergílio Ferreira. Nas muitas diferenças que estas três obras apresentam, o registo dos dias ocupa uma posição importante em todas elas.

Em prateleiras organizadas por ordem alfabética, em livros com um código colado na lombada, os diários destes autores são oportunidades de acesso a uma dimensão única daquilo que escreveram. Por contraste com a solenidade dos títulos de prosa ou de poesia, os diários permitem-nos conhecer estes autores a um nível mais prosaico, pessoal, profundamente humano. Como numa conversa, num passeio pelo pensamento de todos os dias, tudo pode ser assunto: as visitas lá de casa, as impressões acerca de um filme, a família, as amizades, as pequenas alegrias, as queixas, os ressentimentos, o medo dos críticos. Nos temas profundos ou superficiais, nas reflexões grandes ou pequenas, ficamos a pouca distância destes autores, ficamos debaixo da sua pele, é-nos oferecida a possibilidade de lhes entrar no olhar.

No entanto, após estas décadas, os diários continuam a ser ignorados na hora de se identificar as obras principais destes autores. Implicitamente, afirma-se que as palavras quotidianas não podem ser eternas. É como se preferíssemos recordar esses autores com uma máscara mitificada, como se não suportássemos a nitidez das fotografias.

Também deste modo e, mais uma vez, os livros nos falam do tempo e, ao fazê-lo, nos falam de nós. Falam da maneira como lidamos com o tempo, falam da memória que escolhemos. ET_simb

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