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Por trás de um nome…

Os nomes têm algo de mágico e, no jogo da semântica e da etimologia, um relógio bem designado torna-se especial e mais fácil de ser catapultado para a lenda… sobretudo se leva também com um cognome carismático em cima. Qual é o relógio mais bem batizado de sempre?

Versão atualizada da crónica originalmente publicada no número 40 da Espiral do Tempo.

Talvez tenha lido a peça A Importância de se Chamar Ernesto, de Oscar Wilde, demasiadas vezes – porque sempre atribuí aos nomes e à sua etimologia uma importância mágica. Deve ser o primitivo que há em mim, porque acredito piamente que um nome ou uma designação têm um significado transcendente e estão diretamente associados à pessoa (ou ao objeto) em questão.

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Experiment ZR012 by C3H5N3O9 © C3H5N309

Foi por essa razão que, há uns anos, entrei num animado debate com os meus colegas jornalistas Ian Skellern, Elizabeth Doerr e Carlos Torres relativamente ao relógio designado Experiment ZR012, no âmbito do projeto C3H5N3O9 estabelecido por Max Büsser e Serge Kriknoff (MB&F), Martin Frei, Felix Baumgartner e Cyrano Devanthey (Urwerk) e pelo designer Eric Giroud. C3H5N3O9? WTF!? Sim, C3H5N3O9 é a fórmula que representa três átomos de carbono, cinco de hidrogénio, três de nitrogénio e nove de oxigénio para dinamite, mas não quis acreditar numa tal algaraviada (passe a expressão; acho que nenhum algarvio se lembraria de batizar um relógio assim); pensava que o tempo de se batizarem os automóveis Renault com números já pertencia ao passado e confesso que a minha mente se recusou a fixar tão escaganifobético conjunto de números e letras, de tal modo que até tive de o gravar no iPhone para que ficasse memorizado de alguma maneira. Claro que o relógio – espetacular, não há dúvida alguma – teve se ser ‘popularmente’ batizado a posteriori, e o cognome ‘Nitro’ assenta-lhe que nem uma luva. Mas é uma alcunha, quando devia ser o nome escolhido à partida e mesmo tendo em conta que os cognomes também dão carisma a um relógio.

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MB&F Legacy Machine FlyingT © MB&F

Já agora, tratando-se de um projeto de Max Büsser, convém não esquecer que também a sua marca conceptual de alta relojoaria MB&F — Max Büsser & Friends — causou estranheza e muitos foram os críticos. «Disseram-me que não era nome para um artigo de luxo e que ter ‘Friends’ na designação era mais coisa do Rato Mickey», recorda o próprio Max Büsser. Curiosamente, o fundador quis inicialmente que a marca fosse chamada B&F para não colocar demasiado ênfase no seu nome e manter uma certa simetria, mas o seu advogado fez-lhe ver que poderia haver problemas com a B&R (Bell & Ross, a marca cujo nome é uma adaptação dos apelidos dos fundadores Bruno Belamich e Carlos Rosillo).

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Reedição de 2003 do Heuer Autavia ‘Jo Siffert’ de 1969/1970 © Miguel Seabra/Espiral do Tempo
A reedição 'Orange Boy' no Cascais Motorshow © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
A reedição do Heuer Autavia ‘Orange Boy’ no Cascais Motorshow © Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Na história da relojoaria, a nomenclatura sempre uma importância crucial. Quantas vezes um relógio não perdeu força devido a um nome mal atribuído – e quantas vezes não sucedeu o contrário? Os relógios que se transformaram em ícones são conhecidos pelo nome próprio e até dispensam ser acompanhados pela designação da marca. E, por vezes, o nome próprio até se confunde mesmo com a marca junto de um público menos conhecedor, como tantas vezes sucedeu com o Royal Oak (da Audemars Piguet, batizado segundo uma árvore e um vaso de guerra britânico) e com o Reverso (da Jaeger-LeCoultre, nomeado através da frase latina ‘dou a volta’). Depois há os nomes de guerra, as alcunhas: o ‘Paul Newman’ é a mais lendária variante dos Rolex Daytona; o ‘Jo Siffert’ é a mais famosa versão do Heuer Autavia – e, já agora, Autavia (contração de automobile e aviation) foi um nome que não pegou muito bem em Portugal… e nem tinha nada a ver com o treinador Octávio Machado ou com o Skoda Octavia. Simplesmente foi considerado um nome bizarro, mas hoje em dia a resistência à designação já não é a mesma.

Audemars Piguet Royal Oak -Jumbo- Extra-thin © GPHG
Audemars Piguet Royal Oak Jumbo Extra-Thin © GPHG

Nomes malditos

A marca Vulcain, famosa pelos seus mecanismos com alarme, não teve sucesso no nosso país devido à inevitável comparação com os esquentadores Vulcano — mas esse estigma entretanto desapareceu precisamente com o desaparecimento dos ditos esquentadores. A Tudor conheceu uma situação similar: durante muitos anos ficou associada às baterias Tudor, entretanto saídas de circulação e desconhecidas da nova geração. Pior ainda sucedeu com a Roamer: a torre do relógio da praia da Figueira da Foz recebeu o nome Roamer num acordo com o antigo distribuidor da marca mas, por causa do ar marítimo salgado, a precisão do relógio era severamente muito afetada e a indicação deixou de ser fiável… logo o povo denominou-o ‘Roamerde’ e a marca não mais teve sucesso em terras lusas, sendo que hoje em dia até está desaparecida do cenário internacional. Outro caso de estudo é a Levrette, marca antepassada da Paul Picot; no calão francês, equivale a uma posição sexual demasiado caraterística para ser esquecida…

Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O Zenith El Primero A384 original de 1969 que deu origem ao recente A384 Revival © Paulo Pires/Espiral do Tempo

A alteração pejorativa de um nome é o pior que pode haver para uma marca. E com tantos nomes registados e patenteados, não deve ser fácil inventar novas designações para linhas em geral e para modelos em particular. Mas deve ser um desafio aliciante. Muitos nomes andam à volta de composições a partir dos termos ‘chrono’ e ‘master’. A Zenith, tão feliz com a designação ‘El Primero’ (de origem espanhola e não em esperanto, como chegou a pensar-se) para o primeiro cronógrafo de corda automática, juntou-os no termo Chronomaster que designa certas variantes. Depois há o Chronofighter, o Speedmaster, o Chronosplit e tantos outros. O Navitimer, da Breitling, derivado da expressão navigational timer para pilotos. E há também os nomes que têm a ver com lugares, histórias, lendas, geometrias, parceiros, eventos, datas – como Hampton, Monaco, Nautilus, KonTiki, Squadra, AMVOX, Mille Miglia, 1911. E, claro, há os relógios dotados de grandes complicações que são devidamente refletidas no nome: Audemars Piguet Jules Audemars Calendário Perpétuo com Equação do Tempo e Nascer e Pôr do Sol é um dos casos, entretanto já saído do catálogo.

Rolex Daytona
Paul Newman com um Rolex Daytona ‘Paul Newman’ no pulso © Douglas Kirkland/Corbis

A Rolex é a mais famosa marca de relógios do planeta e uma das mais conhecidas marcas em todo o mundo — mas foi a primeira companhia relojoeira suíça dotada de um nome inventado e não tradicional, uma autêntica revolução na altura. Reza a lenda que o fundador Hans Wilsdorf, que até era de origem germânica, estava num autocarro de dois andares em Londres quando teve a inspiração para o nome registado em 1908 (e há quem diga que Rolex é uma contração de horlogerie exquise). O nome Oyster da sua caixa estanque patenteada também contribuiu para o sucesso da marca, porque o molusco de onde se extraem as pérolas dava automaticamente a ideia de hermetismo que o conceito preconizava. A designação evoluiu para careterizar também um tipo de bracelete e também o aço cirúrgico — denominado Oystersteel — utilizado pela Rolex.

Rolex Oyster Perpetual Sea-Dweller Oystersteel and Yellow Gold | © Paulo Pires/Espiral do Tempo
Rolex Oyster Perpetual Sea-Dweller Oystersteel & Yellow Gold © Paulo Pires/Espiral do Tempo

E todos os nomes e os cognomes da Rolex fazem parte do léxico atual da relojoaria, desde o Daytona até ao Explorer, passando pelos ‘Pepsi’, ‘Batman’, ‘Freccione’, ‘Hulk’, ‘Root Beer’, ‘Jean-Claude Killy’, o já referenciado ‘Paul Newman’ e todos os demais… embora muitos dos colecionadores prefiram entre si mencionar os números das referências, o mesmo acontecendo com os exemplares da Patek Philippe e alguns Royal Oak da Audemars Piguet. E convém não esquecer de registar os nomes: foi o que aconteceu com Gerd-Rüdiger Lang, fundador da Chronoswiss, que não patenteou os nomes Opus e Pathos no âmbito relojoeiro, perdendo depois o direito a essas designações de origem grega — o termo Opus é agora exclusivamente usado pela Harry Winston. Mas o nome de origem grega mais interessante dos últimos tempos é sem dúvida Odysseus, da nova linha desportiva de luxo da A. Lange & Söhne — uma outra designação do nome Ulisses bem conhecido da literatura greco-romana e que transmite bem a odisseia (demorou mais de 10 anos a dar à costa!) que foi o lançamento do relógio.

Odysseus com bracelete em cauch © A. Lange & Söhne
Odysseus com bracelete em cauchu © A. Lange & Söhne

E depois há os nomes poéticos, mais regularmente associados a marcas joalheiras e a modelos que são demonstrações dos métiers d’art… como o Piaget Protocole XXL Secrets & Lights Venice Micro-Mosaic, o Louis Vuitton Tambour Color Blossom Spin Time, o Boucheron Epure Je Pense à Toi, o Romain Gauthier Logical One Secret Kakau Höfke ou o Pont des Amoureux e o Heure d’Ici Heure d’Ailleurs da Van Cleef & Arpels, exemplos entre muitos que puxam pela imaginação (e pela memória, de tão longos que são!). Noutro patamar, a H. Moser e a De Bethune são especialmente imaginativos na nomenclatura dos seus modelos. Irritante mesmo é quando as marcas dobram o próprio nome, como no Hermès Slim d’Hermès Heure Impaciente ou o Chanel Mounsieur de Chanel…

Nomes contratados

Hoje em dia, várias marcas trabalham com empresas especializadas na atribuição de nomes. Como a Nomen, de Paris, que encontrou as designações Grantour e Pelagos para a Tudor — a primeira um nome que entretanto perdeu destaque na coleção e que saiu da expressão italiana Gran Tourismo que carateriza uma categoria específica do desporto automóvel e a segunda um termo grego que define a parte mais funda dos oceanos e as criaturas que lá vivem. A marca Urwerk tem no início uma alusão à antiga cidade suméria Ur e depois werk (trabalho, em alemão), remetendo para uhrwerk (mecanismo). Mas a anedota mais deliciosa relacionada com nomes relojoeiros tem a ver com uma colega minha, a jornalista americana Victoria Gomelsky. A Shinola, fundada pelo ex-CEO da Fossil Tom Kartsotis e cujo nome foi encontrado numa marca de graxa desaparecida em meados do século passado, buscava uma designação para um novo modelo a apresentar em Baselworld e não havia sugestões suficientemente satisfatórias; então decidiram que a primeira pessoa a entrar pela porta daria o nome de batismo ao relógio — felizmente para eles que ficou Gomelsky e não Camataru ou Schweinsteiger ou Silva ou Antunes! O nome Gomelsky pegou tão bem que hoje em dia até é uma marca própria dentro do grupo Shinola.

Master Compressor Extreme W-Alarm
Jaeger-LeCoultre Master Compressor Extreme World Alarm Tides of Time © Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Sou muito esquisito em relação a nomes. Muito mesmo. Nunca poderia ter ou oferecer um relógio chamado Kalparisma (googlem para ver a correspondente marca). E posso sempre dizer que tenho um dos relógios com o nome mais comprido: o Jaeger-LeCoultre Master Compressor Extreme World Alarm Tides of Time Limited Edition. Devia vir com brasão…

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