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«Os enganos verídicos da memória»

EdT50 — Por circunstâncias profissionais (quando as coisas atacam todas ao mesmo tempo) e climatéricas (as intermitências da primavera), encontro-me, ao escrever agora, em sintonia com um desabafo que há longos anos escutei a uma personagem literária. Algures na vida, disse Austerlitz, tinha chegado a um tal momento de prostração e desespero que até o mais simples gesto quotidiano, como abrir uma gaveta de papéis, lhe parecia uma violência para lá de qualquer capacidade humana.

Crónica originalmente publicada na edição 50 da Espiral do Tempo.

Na verdade, exagero e, mais do que exagerar, cito de memória, e esta preguiça de encontrar a frase original na estante de livros decerto que a distorceu, a deixou pior. Mas não lhe tirou, espero, algumas das qualidades — clareza, inquietação e melancolia — que o alemão W. G. Sebald conquistou na escrita de uma das obras mais densas, belas e historicamente incisivas da passagem do século XX para o XXI. Por sinal, Winfried Georg (nomes que odiava por soarem a III Reich) Sebald nasceu perto da derrocada do regime nazi (a 18 de maio, em Wertach, Estado da Baviera) e dobrou o milénio mas morreu em Inglaterra, em dezembro de 2001. Isto é, pouco depois da queda das Torres Gémeas de Nova Iorque e de editar o seu último romance, Austerlitz.

Comprei-o em março de 2002, na livraria americana de Paris, sem nunca ter ouvido falar do autor, num impulso ingénuo (porque gostei do aspeto da capa e era um romance novo, acabado de editar, mas intercalado de fotos antigas). Esse acaso faz com que tenha em casa um exemplar cuja tradução inglesa estava fresquíssima e fora revista diretamente pelo autor alemão, que desde os anos 60 dava aulas de literatura em Manchester e era já restritamente famoso no mundo anglo-saxão pelos livros The Emigrants, The Rings of Saturn e Vertigo. O Austerlitz que tenho em casa, uma primeira edição, saiu com Sebald quase, quase a morrer num acidente de carro (antecedido de aneurisma fatal), mas falando dele nas badanas como de alguém vivo e com «todos os direitos morais» assegurados. Bom, pelo menos são estas as contas que faço, espero não estar enganado.

Imagino que Sebald encontraria maneira de, com o seu brilho intrigante, encontrar/inventar uma história à medida deste facto curioso do seu próprio Tempo. Do que lhe conheço (recomendo toda a obra em prosa, alguma dela traduzida em português), joga precisamente na questão da memória, do apagamento deliberado ou esquizofrénico das recordações — por que é que os alemães não falavam da guerra e os escritores alemães não escreviam quase nada sobre o nazismo? Nada sequer sobre os horrores civis da noite em que os aliados cozeram vivas dezenas de milhares de pessoas nas caves de Dresden (conferências de História Natural da Destruição). E também joga no mistério das armadilhas e falsidades em que o nosso cérebro cai sempre que desata a lembrar, principalmente as tragédias e enganos, mas também uma viagem, um encontro inesperado, um passeio pelas costas da Inglaterra, a foto antiga de uma mulher deitada na relva ou um miúdo em traje de carnaval…

Sebald é um autor cuja escrita ‘se pega’, tal a sua leveza clássica, misturada com um profundo conhecimento da história (em Vertigo, fala das aventuras da juventude de Marie-Henri Beyle, aliás Stendhal, com tal exatidão psicológica que é como se também o académico tivesse atravessado, em 1800, os Alpes com as tropas de Napoleão, ou entrasse no Scala de Milão para uma ópera). No entanto, tantas vezes nem percebemos se aquilo que escreve — ou aquela fotografia do homem em fato de cavalheiro, mas com um papagaio de pirata no ombro — correspondem a pessoas que existiram, e viveram acontecimentos tão detalhados, ou se é um jogo inventado com as máscaras de outros. Não sabemos nem isso interessa, porque tudo faz um enorme sentido no seu universo. As vidas particulares das personagens são dilaceradas poeticamente pelos ventos negros da história, do progresso, da arquitetura (campos de concentração, estações de comboios, palácios, fábricas) e, finalmente, pela maldade humana.

Austerlitz é um homem que nos conta, através de um narrador que o encontra, a sua busca pela origem do mal-estar que o acompanha desde sempre, sem aparente explicação.

Viremos a saber, acompanhando a sua viagem a Praga, que o historiador de arquitetura Jacques Austerlitz, 50 anos antes, fora afastado à pressa dos pais biológicos, judeus que desapareceram no Holocausto. Austerlitz fora enfiado num comboio de crianças judias para Inglaterra e aí criado com pais novos. Separou-se no preciso instante da vida em que as memórias se começam a instalar na cabeça de uma criança. Portanto, lembrava-se de coisas que não sabia o que eram, sem ligação com a sua vida, numa névoa de incógnitas. Em Praga, encontra uma vizinha e antiga amiga da mãe que logo o reconhece, apesar de velho. Dirige-se ao campo de concentração de Terezín, ou Theresienstadt, em alemão. Um dia, os nazis (enganando a Cruz Vermelha e o mundo) pintaram as paredes, encheram de flores os espaços e encenaram todos os gestos dos prisioneiros para parecerem felizes. O cinquentão, como uma criança, tenta encontrar a imagem da sua mãe nos fotogramas que restam de um filme de propaganda feito por essa altura. Todos os intervenientes no filme, afinal, foram mortos nos meses seguintes. Todos, até o realizador.

Também há em Austerlitz a excelente descrição de um gerente de hotel de luxo, o português Pereira, uma dessas pessoas ‘misteriosas’ que «podemos infalivelmente encontrar no seu posto» e que nem sequer conseguimos imaginar com vontade de ir para a cama. Recomendo — para quem se interessa pelos temas desta curta memória sobre um grande escritor — o livro Terezín, de Daniel Blaufuks e, já agora, a sua exposição Toda a Memória do Mundo, no Museu do Chiado, Lisboa. ET_simb

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