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Muito pode acontecer num segundo. Essa máxima tem sido afirmada em campanhas de todos os tipos. Não há dúvida de que podemos morrer num segundo, mas também é verdade que podemos viver uma vida inteira, composta por tudo o que precisamos, durante um segundo.

Agora existe apenas este ponteiro. A sua elegância retilínea parece estabelecer o essencial para a vida, como se contivesse algo anterior à própria natureza. Talvez tenha sido essa intensidade primordial que me fez parar a olhá-lo, hipnotizado por minha própria vontade, por meu próprio interesse. Entre o indicador e o polegar, sou ainda capaz de sentir a serrilha meio gasta, oiço ainda as voltas da corda, imagino a mola a acumular força e a contê-la, imagino as pequenas rodas dentadas e todo o mecanismo que, agora, determina este ponteiro, que o lança em voltas sucessivas.

O seu caminho interrompe-se regularmente, é tentador considerar que são esses pontos que o determinam, mas há aquele segundo de movimento, a deslocação entre uma e outra paragem. A vertigem do movimento, ainda que tão curta e controlada, dá a impressão que são esses pontos que importam realmente. Em canções infantis, quando queremos exprimir este movimento, dizemos tic-tac, tic-tac e, no entanto, entre o tic e o tac, há um silêncio medido. Não somos capazes de dizer o silêncio, as palavras falham todas nesse propósito e, por isso, corre o risco de passar despercebido.

Sem desviar o olhar, parece-me que consigo encontrar diferenças na forma como o ponteiro faz o caminho de cada segundo. Às vezes com um ligeiríssimo abrandamento no início do percurso, a compensar no final, outras vezes ao contrário. As dissemelhanças nesse movimento dependem, no entanto, da paragem, do tic e do tac. Acertado com a linha que mede a sua posição no mostrador, pode parar com mais estalo ou com mais suavidade, como se não chegasse realmente a parar, sabendo que continua logo a seguir.

Impressiona-me pensar que, enquanto eu andava em tantos lugares, a fazer tantas coisas, absorto, existia este ponteiro, o seu trajeto, regular e irregular ao mesmo tempo, trajeto paradoxal, a sua ordem e a sua loucura. Agora, aqui. Este tempo à minha volta, esta delicadeza, como um abrigo. Parece tão simples.

Agora existe apenas este ponteiro. O círculo que desenha protege-me de tudo o que poderia imaginar, que existe ou não depois deste horizonte à minha volta. Como se estivesse dentro de uma casa de tempo, paredes e telhado a envolverem-me, a consciência do meu próprio tempo. Sim, porque o tempo é meu. Quem vive possui o tempo, é apenas seu, depende da forma como for capaz de senti-lo e entendê-lo. Como em tantas outras situações, também neste caso, sentir e entender são verbos sinónimos. Tudo isto sintetizado no movimento deste ponteiro, esta linha. Tanto e, em simultâneo, pouco, não demasiado. E faz sentido que os seus segundos não passem de modo exatamente igual porque, na vida, em tudo, os segundos nunca são exatamente iguais.

Crónica originalmente publicada no número 69 da Espiral do Tempo.

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