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“My Time”: a coleção impossível de Sandro Fratini

Houve algo que na juventude de Sandro Fratini o marcou para a vida e o levou a colecionar relógios. Não se sabe ao certo o que terá sido, mas o resultado representa a maior coleção de relógios de pulso vintage do mundo. O novo livro My Time, produzido em colaboração com a Christie’s, é a autobiografia da coleção de um italiano que não se considera um colecionador e que assume uma relação de verdadeiro amor com os seus relógios.

Sandro Fratini nunca vendeu um relógio que fosse dos mais de 2000 que adquiriu ao longo da sua vida. A valorização excecional que essas peças acabaram por alcançar no mercado vintage são um aspeto que nunca lhe suscitou interesse. Jamais adquiriu um relógio numa perspetiva de especulação ou valorização, nunca trocou um dos seus relógios por outro e, pasme-se, usa-os durante poucas horas apenas ou poucos dias, assim que os adquire. Depois, junta-os à restante coleção espalhada por diversas caixas-fortes na região de Florença. Um aspeto marcante da personalidade de Sandro Fratini que, compreensivamente, muitos colecionadores têm dificuldade em entender.

Sandro Fratini, colecionador de relógios de pulso vintage © Christie's
Sandro Fratini, colecionador de relógios de pulso vintage © Christie’s

A importância e a influência de Sandro Fratini no mundo do colecionismo de relógios ao mais alto nível eram, até agora, um segredo bem guardado e conhecido apenas por uns quantos. A abrangência e a importância das peças que adquiriu ao longo de mais de quatro décadas são de tal forma importantes que acabaram por definir uma tendência e apontar o caminho a seguir para muitos dos mais influentes colecionadores da atualidade. Houve períodos em que as aquisições de Fratini chegaram mesmo a ‘secar’ o mercado, no que se refere a determinadas marcas e linhas, levando a que outros colecionadores se deixassem levar pelas mesmas preferências quando começaram a compor as suas coleções. A elevada relevância dos colecionadores italianos na atualidade deriva, aliás, diretamente da ação e influência de Sandro Fratini junto do mercado. Por isto, e por muito mais, o italiano terá forçosamente de ser considerado um grande colecionador cujas caraterísticas o tornam num caso raro e absolutamente exótico entre os seus pares.

A recente publicação do livro My Time em parceria com a Christie’s vem permitir afirmar que, como colecionador, Sandro Fratini está ao nível de Philippe Stern, e que a coleção deste último, exposta no Museu da Patek Philippe, em Genebra, é a única capaz de suplantar o extraordinário património relojoeiro que acumulou. Este facto acaba por ser confirmado por diversos amigos mais chegados de Fratini.

© Christie's
© Christie’s

Paixão pela pátina

Entre os grandes amigos de Sandro Fratini, encontra-se John Goldberger, um dos mais respeitados conhecedores neste meio, que é também autor, historiador e um importante colecionador de relógios vintage. Goldberger não hesita em classificar o amigo como «um dos maiores e melhores colecionadores do mundo! Um homem que coleciona há mais tempo do que a maioria. Há 40 anos que anda nisto e coleciona apenas o melhor: Audemars Piguet, Cartier, Rolex, Vacheron Constantin e Patek Philippe».
Segundo Goldberger, Fratini foca-se maioritariamente em peças produzidas entre os anos 20 e 50 a 60. Peças com complicações relevantes e, especialmente, peças com mostradores em esmalte cloisonné. Aliás, no campo deste género de relógios, Goldberger confirma que Fratini tem, inequivocamente, a maior coleção do mundo.
John Goldberger acrescenta: «Enquanto a maioria dos colecionadores se está hoje a focar muito nos chamados NOS (new old stock) com Box & Papers (estojo e documentos originais), o Sandro interessa-se mais pela pátina, que, para ele, representa a verdadeira história do relógio».
O facto de Fratini ser italiano não é um aspeto sem significado. No início do colecionismo de relógios de pulso vintage, os melhores dealers ou revendedores eram italianos e, consequentemente, também os colecionadores de maior importância. Foram eles que associaram um determinado gosto e uma determinada preferência ao mercado, tornando-se nos pioneiros deste setor.

© Christie's
© Christie’s

Viajante no tempo

O atual diretor do departamento de relojoaria do leiloeiro Christie’s é também um dos maiores especialistas do mundo em Patek Philippe. John Reardon escreveu um dos prefácios de My Time, e não mede palavras quando se trata de descrever o colecionador italiano: «Sandro Fratini não é um colecionador, Sandro Fratini é um artista! Nunca conheci outra pessoa com a personalidade dele em todo o mundo até hoje. Tem convicções extremamente fortes, sabe perfeitamente o que quer e tem a confiança necessária para comprar os relógios que lhe falam ao coração. Quando Sandro Fratini começou a colecionar nos anos 70, não havia revendedores nem ninguém para o aconselhar o que comprar ou onde comprar. Ele foi literalmente um dos primeiros. Existe já há algum tempo a crença, um pouco mítica, de que o colecionismo de relógios de pulso começou em Itália, mais precisamente durante a década de 80. O Sandro é claramente a prova desta afirmação.»
Reardon afirma que, ao aprender a colecionar às suas próprias custas e a adquirir peças desde bastante cedo, como o Patek Philippe ref. 1463 em aço, Sandro Fratini teve não só a coragem de estudar o mercado, como antecipou como ele se iria comportar: «Sandro era um caçador de tesouros, o Indiana Jones do mundo relojoeiro e caçava peças que mais ninguém estava sequer a considerar. Adquiria caixas cheias de Daytonas por 500 dólares, e isto numa altura em que ainda ninguém tinha tido a ideia de começar a trocar componentes ou dar novos acabamentos a mostradores. Fratini adquiria os relógios na sua condição original porque era, efetivamente, o primeiro a interessar-se por este tipo de relógios.
Costumo dizer ao Sandro Fratini que ele é uma espécie de viajante do tempo. Afinal, quem teria, há 30 ou 40 anos, a visão de adquirir este tipo de peças? Em 1980, adquiriu um ref. 1518 da Patek Philippe por cerca de 4000 dólares, um valor que nessa altura era uma verdadeira loucura, já que um ref. 2499 da quarta série custava apenas mais 3000 dólares. Quem quereria então uma versão antiga desse cronógrafo com calendário perpétuo? Sandro adquiriu também dois ref. 1518 em aço muito antes de este modelo bater o recorde do mundo para um relógio de pulso ao alcançar 18 milhões de dólares em leilão. Quem é Sandro Fratini? Eu diria que ele é um artista, um génio, um viajante do tempo!»
John Reardon e a Christie’s envolveram-se na conceção do livro My Time a partir de 2017 com o propósito de divulgar ao mundo esta coleção excecional. «As mais de 2000 peças da coleção de Sandro Fratini representam a melhor coleção que conheço, se excluirmos a do museu da Patek Philippe. E isso deve-se ao seu olho, gosto e à sua capacidade de adquirir o que de melhor se fez nos últimos 40 anos. A importância deste livro é tal que, mal foi apresentado, as conversas de como ele irá mudar o mercado começaram logo a fluir. Essa é uma das razões porque esta parceria entre o Sandro Fratini e a Christie’s é uma aposta ganha. Nos dias de hoje, existe um certo circo, do género P.T. Barnum, a rodear a indústria, o que justifica a necessidade de voltarmos a falar da razão por que gostamos de relógios, qual a nossa ligação com eles, quais as histórias que eles contam e quem são as pessoas por detrás deles, não só os proprietários originais, mas também os verdadeiros colecionadores.»
Reardon considera que, daqui a 100 anos, iremos olhar para este livro como uma cápsula do tempo e para Sandro Fratini como um viajante do tempo. «Imagine-se ter uma coleção completa dos pergaminhos do Mar Morto em condições perfeitas de ser lida. Este é o significado deste livro para o mundo dos relógios vintage. Trata-se de um testemunho de uma coleção de relógios constituída antes de um período em que começaram a ser modificados. Ela representa uma afirmação da nossa paixão pela relojoaria, e, afinal, muitas das peças constantes desta coleção acabaram por vir da Christie’s ao longo dos anos».

Título: My Time | Edição: Christie's 2018 | Preço: €750 - €850 (silver edition) © Christie's
Título: My Time | Edição: Christie’s 2018 | Preço: €750 – €850 (silver edition) © Christie’s

Relógios com história e com histórias

Vendeu seguramente mais de metade da coleção atual de Sandro Fratini. Algo que não é de espantar, se considerarmos que Davide Parmegiani é, atualmente, o revendedor mais prestigiado e importante no mundo dos relógios vintage. Também ele assina um prefácio em My Time. Sobre o amigo, as palavras fluem-lhe com facilidade: «Sandro Fratini é um colecionador genial. Conheci-o há cerca de 30 anos, quando ainda era bastante jovem, e, desde então, somos grandes amigos. Foi através da sua fortuna que tive a oportunidade de viajar por todo o mundo à procura de peças extraordinárias para a sua coleção. Sandro estava sempre à procura de relógios com uma história para contar e deixava-se fascinar pela pátina original dos mostradores, assim como pela condição original de uma caixa. Mas, acima de tudo, Sandro tem uma capacidade ímpar para identificar relógios extremamente raros e significativamente colecionáveis. O seu talento para perceber se um relógio está na sua condição original é realmente fora do comum. A sua procura permanente pelos mostradores mais importantes levou a que se focasse bastante na raridade, e o resultado está patente neste magnífico livro do qual estou muito orgulhoso de fazer parte.»

© Christie's
© Christie’s

Segundo Davide Parmegiani, Fratini é tudo menos um colecionador fácil. Durante o processo de aquisição, ele discute todos os aspetos do relógio e se o preço é o apropriado para aquela peça. Depois, quando o relógio já está na sua posse, esquece-se completamente desse diálogo e guarda-o num cofre para sempre. Neste momento, são os filhos que cuidam da sua coleção, e Fratini mantém-se como o mais importante colecionador que Parmegiani alguma vez conheceu. «Nenhum dos outros colecionadores alcançou alguma vez as 2000 peças, mantendo-se pelas centenas, o que, por si só, já é fora do normal. Mas o que é único em Fratini é que todos os outros, nalgum momento das suas carreiras de colecionadores, venderam ou trocaram peças. Não o Sandro Fratini! Para ele, cada peça tem uma história e recorda-se de tudo em relação à mesma: quando foi adquirida, quanto pagou por ela, assim como a particularidade que o levou a adquiri-la.»
O envolvimento de Davide Parmegiani na produção deste livro prendeu-se com o aconselhamento e seleção sobre quais as peças da coleção que o deviam compor. Havia a necessidade de selecionar peças que não tivessem demasiado pátina ou não apresentassem demasiados traços do percurso de vida que tiveram. Uma particularidade associada ao desgaste e ao polimento das caixas que muitos colecionadores, menos educados no colecionismo de relógios vintage, têm dificuldade em entender. O título My Time foi, aliás, sugerido pelo próprio Parmegiani, numa perspetiva de que seria a melhor forma de refletir a história de vida e o percurso notável de Sandro Fratini no colecionismo de relógios vintage.

© Christie's
© Christie’s

Uma obsessão

«A minha relação com os relógios de pulso é uma história de amor. Eu não me considero um colecionador, uma expressão que considero demasiado pobre para descrever a minha relação com estes objetos. Eu estou apaixonado pelos meus relógios, eu amo os meus relógios, sinto-lhes a alma! Quando lhes toco, não sinto apenas o aço ou o ouro, mas também o que está dentro, e sinto-o como se fosse uma obra de arte. Isto para mim é um sentimento muito forte e é uma das razões pelas quais eu não vendo nenhum dos meus relógios».
Claro que o design também é muito importante para Sandro Fratini, mas ele mantém a convicção de que o elemento mais expressivo num relógio é indiscutivelmente o mostrador. É ele quem mais emoção lhe transmite e é nele que reconhece a vida e a idade de um relógio. «Claro que o movimento é importante, mas não tão importante como o mostrador. Para mim, um relógio tem de estar impecável e isso, infelizmente, é hoje bastante difícil de encontrar. Um relógio em estado novo com 70 ou 80 anos, é impossível. Na maioria dos casos, a caixa foi polida, o mostrador foi lavado, e isso não me agrada, porque essa marca da passagem do tempo pela caixa é a sua identidade. A pátina é essencial num relógio com uma determinada idade, é um traço genuíno da sua identidade que é natural e deve ser preservada. O mais importante é que o relógio fale comigo, que se estabeleça um diálogo. O relógio no seu conjunto é uma sinfonia para mim».

© Christie's
© Christie’s

A forma de colecionar de Sandro Fratini está muito dependente do que encontra. «Não tenho uma estratégia. Compro o que gosto e não sigo tendências. Eu construo as minhas próprias tendências. É o caso do ref. 6062 da Rolex. Gosto daquele relógio, por isso compro-o cada vez que encontro um exemplar que me agrada. Tenho mais do dobro dos exemplares do que os que foram publicados no livro. Apesar da enorme coleção que possuo, recordo-me de todos os relógios que tenho. E amo todos da mesma forma, independentemente do valor de mercado. Cada um representa uma parte do meu coração. Se tivesse de escolher apenas uma peça da minha coleção seria um Patek Philippe com mostrador negro e a inscrição Serpico & Laino. Adoro mostradores negros mais do que tudo. Os relógios tornaram-se para mim uma obsessão, da mesma forma que uma bela mulher o pode ser. Às vezes, sou obrigado a pagar o que me pedem, porque aquela peça se tornou uma verdadeira obsessão para mim. Quando era novo e não tinha dinheiro, esta obsessão não tinha remédio, mas quando me tornei adulto, se é que sou adulto…, e ganhei os meus próprios recursos, deixei-me sucumbir por esta paixão. Posso dizer que a partir daí, todos os relógios que desejei, comprei. Houve vezes em que paguei bastante mais do que devia, mas o tempo acabou por me dar razão, porque hoje valem muito mais do que o que me custaram. Eu sou italiano. Sou apaixonado por natureza, pelo que é possível ver de imediato quando me apaixono por um relógio. Não consigo esconder os meus sentimentos. My Time, o título do livro, traduz o tempo que passei a procurar os meus relógios. E o tempo é o elemento mais precioso na vida de uma pessoa. Passei muito tempo à procura dos meus relógios. A ganga que serve de fundo a cada imagem é um tributo aos jeans, à minha empresa, Rifle. Foi devido a ela que pude dar-me ao luxo de adquirir os meus relógios. A Christie’s foi também uma casa essencial na construção da minha coleção, e não poderia associar-me a mais ninguém para publicar esta obra».

Tal como afirmou Davide Parmegiani, a seleção de 650 peças da coleção de Sandro Fratini no livro My Time representa uma coleção impossível de ser composta atualmente, tal como representa um catálogo impossível para qualquer leiloeiro. Mas no final, todos são unanimes: Sandro Fratini tem a invulgar coragem de possuir uma coleção de relógios constituída apenas por peças que gosta e pelas quais se apaixonou verdadeiramente.

Que mais alguém poderia desejar?…

Artigo originalmente publicado no número 65 da Espiral do Tempo.

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