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Only Watch e a vitamina relojoeira

Em Genebra | Sob o signo da cor laranja, embora não vinculativa na apresentação dos exemplares únicos, a nona edição do leilão de beneficência Only Watch desenrolou-se com um sucesso estrondoso. Aqui fica o rescaldo, com declarações exclusivas de Luc Pettavino e um especial piscar de olho a Portugal.

Duas semanas depois, já assentou o pó sobre mais uma edição do Only Watch — mas a euforia da épica sessão numa sala especialmente montada para o leilão na Palexpo ainda se faz sentir, até porque muitos dos protagonistas já começam a chegar ao médio oriente para um novo reencontro na Dubai Watch Week (que arranca oficialmente nesta próxima quarta-feira).

Vista para o público presente no salão do Only Watch
Rahul Kadakia na condução do leilão; à direita, na primeira fila, destacam-se o colecionador Claude Sfeir, o Príncipe Alberto e Luc Pettavino | © Only Watch

Não há dúvida de que os resultados agregados foram uma injeção vitaminada numa indústria relojoeira que parece reerguer-se em forma do rude golpe provocado pela pandemia e consequentes confinamentos. E a vitamina R (relojoeira) saiu da vitamina C que catapultou a nona edição do Only Watch para a ribalta. «A cada dois anos penso numa nova cor para que haja uma clara diferença relativamente aos relógios da edição anterior», explicou Luc Pettavino. «Gosto de passear e deixar as ideias aparecerem. De repente vi o nascer do sol, cheio de vitamina. Após um período tão complicado, estávamos a precisar de sentir a vida, de sentir a vibração de nos encontramos de novo com as pessoas e comemorarmos — e o laranja é uma cor que se adequa perfeitamente a essa disposição».

O catálogo oficial e a Espiral do Tempo com Hind Seddiqi (Dubai Watch Week), Luc Pettavino (Only Watch), Jean-Marc Wiederrecht (Agenhor), Julien Tornare (Zenith), Pierre Jacques (De Bethune), Max Büsser (MB&F), Ricardo Guadalupe (Hublot), François-Paul Journe (F.P. Journe) e Carlos Rosillo (Bell & Ross) | © Miguel Seabra e Paulo Pires / Espiral do Tempo

E que comemoração. O mentor do leilão bienal de caridade em benefício da pesquisa contra a distrofia muscular teve o condão de reunir os colossos da indústria em torno da sua causa, tornando-se numa das figuras mais relevantes da relojoaria contemporânea. Este ano, Luc Pettavino contou com o apoio de 54 marcas na sua aventura filantrópica; os 53 relógios únicos submetidos a hasta pública proporcionaram cerca de 30 milhões de francos suíços, com a iniciativa a perfazer um total que já ultrapassou os 100 milhões de euros desde o seu advento, em 2005.

Ocasião solene: a peregrinação ao Palexpo | © Only Watch

Outro número se destacou: o das 850 pessoas que lotaram a sala preparada para o efeito no Palexpo, depois de as primeiras edições terem decorrido numa tenda no Mónaco com algumas dezenas de convidados e as seguintes num salão lotado do Hotel des Bergues, com pouco mais de uma centena de presentes devido a contingências de espaço. No Palexpo, houve mais gente e um desfilar de protagonistas e individualidades; também houve beijinhos e abraços, antes e depois da subasta. Antes, pelo reencontro e pela solenidade da ocasião; depois, pela extraordinária demonstração de vitalidade relojoeira e generosidade financeira. E alguns dos protagonistas posaram com a Espiral do Tempo, celebrando também os 20 anos da nossa revista.

O Bell & Ross Cyber Skull Only Watch em exibição; no pulso, o Bell & Ross ‘Negroni Time’ | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Sob a batuta e o martelo do experiente Rahul Kadakia, da leiloeira Christie’s, o Only Watch de 2021 acumulou precisamente 27.740.000 francos suíços — verba depois arredondada para os 30 milhões pela generosidade suplementar de um licitante. Claro que o registo recorde da edição de 2019 não foi repetido, porque há dois anos o Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 6300A chegou, só por si, aos 31 milhões para se tornar no relógio de pulso mais caro de sempre. Mas o valor médio elevou-se substancialmente e a locomotiva voltou a ser a Patek Philippe, com o seu Relógio de Mesa Complicado Ref. 27001M (inspirado num relógio de mesa feito para o milionário James Ward Packard, em 1923) a ser arrematado por 9,5 milhões. Comparando o valor alcançado pela pièce unique proposta pela Patek Philippe em 2019 e em 2021, não há dúvida de que os relógios de pulso são bem mais cobiçados do que os relógios de mesa ou de bolso. Outros dois relógios de mesa apresentados — pela Ulysse Nardin e pela Trilobe, com Daniel Buren — registaram valores interessantes, mas perderam-se um pouco entre a constelação de estrelas portáteis.

O Relógio de Mesa Complicado Ref. 27001M da Patek Philippe chegou aos 9,5 milhões; o Príncipe Alberto é o patrono da iniciativa | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

E foi mesmo um desfile de estrelas, que brilharam ainda mais com as concorridas licitações que colocaram pela primeira vez cinco peças acima da fasquia do milhão. Para além do já mencionado relógio de bolso da Patek Philippe, o F.P. Journe FFC Blue baseado numa ideia do lendário realizador Francis Ford Coppola chegou aos 4,5 milhões; o Audemars Piguet Royal Oak Ref. 15202 saiu por 3,1 milhões; o protótipo Richard Mille RM67-02 Charles Leclerc valeu 2,1 milhões e a aliança cooperativa De Bethune x Kari Voutilainen Kind of Magic atingiu 1,3 milhões.

‘Milionários’ lado a lado: o De Bethune x Voutilainen (com o mostrador reversível do lado Voutilainen) e o F.P. Journe FFC Blue | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Para além desses cinco relógios milionários, mais de 20 marcas tiveram os seus exemplares únicos a ultrapassar a fasquia dos 100.000 francos e quase todas eclipsaram as estimativas mais altas. O Akrivia Chronomètre Contemporain II chegou aos 800.000 e confirmou o precoce mestre Rexhep Rexhepi como o messias da nova geração; o Zenith Defy Tourbillon Felipe Pantone fechou o leilão a roçar o meio milhão, sendo um dos vários exemplos de pacotes colaborativos (o lote incluiu uma tela de Felipe Pantone; o Artya Son of Sound Guitar John McLoughlin juntava uma guitarra pintada). A ‘económica’ Baltic bateu nos 50.000, confirmando a ascensão das micromarcas — um fenómeno por muita gente descurado, mas que está a servir de porta de entrada para a relojoaria a muitos aficionados.

No preview do Hotel des Bergues: os relógios de mesa da Ulysse Nardin e da Trilobe; o Artya John McLoughlin acompanhado de uma guitarra do famoso guitarrista | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

A subasta teve a duração total de três horas e meia, com 650 ofertantes registados a participarem online, por telefone ou na plateia. E o Príncipe Alberto do Mónaco, patrono da iniciativa e que presencialmente arrematou o conjunto relógio/guitarra da Artya, anunciou que as equipas de pesquisa financiadas pelo projeto Only Watch estão em condições de lançar brevemente um medicamento experimental que pode revolucionar o combate à distrofia muscular!

Uma abelha agregadora

Conversámos com Luc Pettavino sobre a admirável unanimidade que logrou granjear à volta da louvável iniciativa, que nasceu da tragédia de ver o seu filho Paul padecer da fatal doença degenerativa que acabaria por vitimá-lo. «Quando a intenção é clara e há competência, as pessoas sabem como se posicionar e percebem o tipo de energia. Não conheço muito o mundo dos relógios, não é propriamente a minha especialidade. Mas também é bom ser alguém vindo do exterior… sou como uma abelha que vem polenizar um campo de flores — e depois parto para outros espaços, não permaneço o tempo suficiente para fazer parte do campo mas tento polenizar para que haja mais beleza e diversidade, que haja harmonia», confessou.

Luc Pettavino com a Espiral do Tempo em mãos
Amante de Portugal e da Vitamina C: Luc Pettavino de laranja durante a entrevista à Espiral do Tempo com a tela de Felipe Pantone (Zenith) atrás | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

«Não faço julgamentos e todos compreendem que estão em casa, com uma força que não é uma autoridade vertical mas uma responsabilidade horizontal de colaboração e harmonia entre as pessoas. Isso ajuda. Depois há outros fatores. Criei o Monaco Yacht Show, pelo que tenho a escola do luxo; isso isso permite-me encarar as coisas de maneira mais desapegada. O Príncipe Alberto também aderiu logo ao projeto Only Watch. E, claro, o nosso filho Paul, que foi e se mantém como inspiração, que era magnífico na sua energia. E depois é uma escolha que se faz; podemos ter todos os problemas da vida, estar no fundo de um buraco, duvidar e ter medo, mas também podemos escolher a felicidade, a luz e o modo como nos comportamos». Sobre a marota questão acerca da estreia da Rolex entre as marcas participantes no leilão, respondeu à altura: «O grupo Rolex já está presente através da Tudor!». E sempre com excelentes resultados, com o Black Bay GMT One ‘envelhecido’ a ultrapassar claramente o meio milhão. E se houver mais marcas aderentes? «No dia em que tivermos 100 marcas com uma qualidade aproximada faremos duas sessões», rematou.

O colecionador Claude Sfeir, o leiloador Rahul Kadakia, o anfitrião Luc Pettavino, o Príncipe Alberto e Frédéric Arnault (TAG Heuer) | © Only Watch

O filosófico Luc Pettavino, que envergou sempre um blazer em tons laranja nos dias do preview dos relógios no Hotel des Bergues e no leilão propriamente dito no Palexpo, partilhou também connosco alguns considerandos sobre Portugal: «Em Portugal sinto-me como em casa. É uma cultura de acolhimento e de boa índole, virada para os outros; de simplicidade, mas ao mesmo tempo com uma grande história de conquista. A gastronomia, os vinhos, as gentes — visitar Portugal é sempre uma experiência calorosa, mesmo quando se vai do sul ao norte e se sente a toda a diversidade que existe no vosso pequeno grande país!». Um país que, seguramente, acolheria de braços abertos a realização de uma das próximas edições do Only Watch…

Vista para o salão do Only Watch
Discurso de Luc Pettavino perante casa cheia na Palexpo | © Only Watch

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