Em ano de aniversário, a Ulysse Nardin investiu fortemente no seu ex-libris — e, depois de ter apresentado o Super Freak no Watches and Wonders, desvelou o novo Freak X para quem prefere algo menos conceptual.
Há relógios importantes, há relógios revolucionários e há relógios que alteram permanentemente a trajetória da relojoaria. O Freak pertence a essa última categoria. Quando a Ulysse Nardin apresentou o primeiro Freak em 2001, a indústria encontrou-se perante um objeto que parecia ter chegado do futuro. Concebido sob a liderança de Rolf Schnyder e desenvolvido por Ludwig Oechslin com o contributo de Carole Kasapi-Forestier, era um relógio revolucionário que dispensava mostrador, ponteiros e coroa. Em vez disso, era o próprio movimento que indicava as horas: uma ponte central girava sobre si mesma para assinalar os minutos, enquanto um disco rotativo indicava as horas. Mais importante ainda, o Freak inaugurou a utilização industrial do silício na alta-relojoaria, uma inovação que acabaria por transformar profundamente o desenvolvimento dos órgãos reguladores modernos.

Ao longo dos vinte e cinco anos seguintes, a Ulysse Nardin utilizou o Freak como laboratório de investigação permanente. Surgiram sucessivas gerações e interpretações que expandiram progressivamente o conceito original. O Freak 28’800 introduziu uma frequência mais elevada; o Freak Diavolo acrescentou um turbilhão volante; o Freak Cruiser modernizou a ergonomia; o Freak Vision, apresentado em 2018, introduziu o revolucionário sistema automático Grinder e uma nova geração de tecnologias em silício; o Freak X, lançado em 2019, tornou-se a versão mais acessível e quotidiana da família ao introduzir uma coroa convencional e uma arquitetura mais simples, sem abandonar a característica exibição do tempo através do movimento. Ou seja, o Freak deixou assim de ser apenas uma demonstração conceptual para se tornar numa linha alargada com uma predominância ainda maior no catálogo.

O ano de 2026 marca um momento particularmente simbólico nessa evolução. No Watches and Wonders realizado em Genebra, em abril, a Ulysse Nardin apresentou o Super Freak, provavelmente o mais ambicioso Freak alguma vez produzido. Longe de constituir uma simples edição comemorativa do 25.º aniversário, o Super Freak representa a concentração máxima de um quarto de século de investigação. Equipado com o novo Calibre UN-252, composto por 511 componentes, incorpora dois turbilhões volantes inclinados e contra-rotativos, um indicador de segundos (estreia absoluta na história do Freak), um sistema de transmissão por gimbal patenteado e um diferencial vertical de apenas cinco milímetros, que a marca descreve como o mais pequeno do mundo. Não surpreende que seja considerado por muitos como relógio apenas de horas e minutos mais complexo alguma vez criado.
Mais contido
Contudo, o verdadeiro interesse estratégico de 2026 reside no facto de a Ulysse Nardin ter apresentado poucos meses depois uma segunda geração completamente renovada do Freak X. Se o Super Freak representa o limite extremo da experimentação relojoeira, o novo Freak X representa a aplicação prática dessa mesma filosofia para uma clientela mais lata. Não é um relógio concebido para demonstrar até onde a engenharia pode chegar; é um relógio concebido para demonstrar até que ponto o conceito Freak pode ser aperfeiçoado para utilização diária a um preço mais acessível.

À primeira vista, a nova geração parece uma evolução discreta. Na realidade, trata-se da transformação mais profunda sofrida pelo Freak X desde a sua estreia em 2019. O elemento central da renovação é o Calibre UN-232 de manufatura, desenvolvido especificamente para o novo modelo após mais de dois anos de investigação e desenvolvimento. Ao contrário do movimento utilizado pela geração anterior, o UN-232 não constitui uma adaptação de uma arquitetura existente; foi concebido de raiz para responder às exigências específicas do Freak X.

As vantagens dessa nova construção tornam-se imediatamente visíveis nas proporções do relógio. A caixa passa de 43 milímetros para 41 milímetros, ao mesmo tempo que a espessura diminui significativamente. Tal redução pode parecer modesta no papel, mas transforma radicalmente a experiência de utilização e o resultado é um relógio de dimensões mais contidas para satisfazer as preferências atuais. Desde o lançamento do primeiro Freak X, uma das observações mais frequentes por parte de colecionadores e jornalistas especializados era que o relógio permanecia relativamente volumoso para um uso quotidiano. O modelo de 2026 responde diretamente a essa questão e torna-se, provavelmente, o Freak mais versátil (porque adaptado a mais pulsos) alguma vez produzido.
Automático de Micro-Rotor
A evolução mecânica é igualmente relevante. O novo Calibre UN-232 integra um microrrotor em ouro rosa diretamente incorporado no movimento, uma solução inédita na família Freak X. A frequência mantém-se nas 21.600 alternâncias por hora, enquanto a reserva de carga sobe para as 72 horas. Mais importante ainda, o movimento beneficia de várias décadas de experiência acumulada pela Ulysse Nardin no domínio do silício, incorporando um escape DIAMonSIL, espiral de silício termocompensada e diversas soluções patenteadas destinadas a reduzir o atrito e aumentar a estabilidade cronométrica.

Visualmente, o relógio permanece imediatamente identificável como um Freak. O movimento continua a funcionar como ponteiro dos minutos, enquanto o disco periférico continua a indicar as horas. A ausência de mostrador tradicional continua a constituir o elemento definidor da coleção. No entanto, tudo parece mais refinado, mais coerente e mais maduro. As proporções foram revistas, a integração do movimento é mais elegante e a presença de um sistema de troca rápida de braceletes reforça ainda mais a vocação quotidiana da peça.

É precisamente nesta dualidade que reside o interesse do ano de 2026 para a história do Freak. O Super Freak demonstra até onde pode ir a imaginação técnica da Ulysse Nardin; o novo Freak X demonstra até onde pode ir a sua maturidade. Um representa o laboratório. O outro representa a síntese. O primeiro olha para o futuro da alta-relojoaria experimental e está destinado aos grandes colecionadores; o segundo procura tornar esse futuro utilizável no presente e é pensado para os aficionados mais ‘comuns’.
Le Freak, C’est Chic
Vinte e cinco anos após o lançamento do Freak original, a Ulysse Nardin continua a provar que o conceito permanece extraordinariamente atual. Quase cinquenta anos depois, continua a ser quase impossível ser confrontado com a designação Freak sem uma associação imediata ao famoso tema disco ‘Le Freak’ do duo Chic, que chegou ao topo das tabelas em 1978 precisamente com o refrão ‘Le freak, c’est chic… freak out!” — embora o significado mais corrente do termo tenha a ver com uma pessoa ou animal que seja diferente, seja de uma boa ou má maneira.

E é no significado positivo do dicionário urbano que se deve incluir o nome de batismo daquela que será a mais famosa criação relojoeira da secular manufatura Ulysse Nardin. O Freak continua mesmo a ser chic, qualquer que seja a sua interpretação. E se o Super Freak celebra a revolução, o novo Freak X celebra a sua evolução — e, em muitos aspetos, essa evolução poderá revelar-se tão importante para a saúde comercial da marca quanto a própria revolução técnica iniciada em 2001.





