Porsche Design Chronotimer Series 1: uma mudança acima

Edição impressa | Em 2014, a Porsche Design parece ter engrenado uma nova mudança que, se os planos forem cumpridos, poderá elevar a marca a um novo patamar do panorama relojoeiro internacional.

Originalmente publicado no número 52 da Espiral do Tempo.

Evocar o nome Porsche é um exercício que leva invariavelmente à materialização no nosso imaginário do extraordinário 911. Isto, se não nos deixarmos distrair pela memória do som inebriante do famoso Flat Six, que, tradicionalmente, tem equipado as mais variadas versões do modelo. A versão inaugural do 911, conhecida como 901 (hoje produz-se a versão 991), debutou em 1963 no então Salão do Automóvel de Frankfurt. Tratava-se de uma evolução do célebre 356, mas com capacidade para quatro passageiros, estreando ainda um novíssimo motor de seis cilindros opostos de 1991 cc e 128 cv. Mas o mais marcante era indiscutivelmente a forma, as linhas, ou, se quiserem, o design deste automóvel saído diretamente do traço criativo de Ferdinand Alexander ‘Butzi’ Porsche.

Porsche 911
Porsche 911 2.0 Coupe, original, e Porsche 911 Carrera 4S Coupe © 2015 Porsche Cars North America, Inc.

As linhas mestras que compunham a carroçaria do 911 eram de tal forma inovadoras para a época que acabaram por se transformar num verdadeiro património da indústria automóvel mundial. A intemporalidade do seu design possibilita ainda hoje, passado mais de meio século do seu surgimento, identificar, sem dificuldade, o ADN do modelo original em qualquer novo modelo da casa de Estugarda.

Mas o nível de talento evidenciado por Ferdinand Porsche não se esgotou ao serviço da indústria automóvel. Nove anos depois do sucesso do lançamento do 911, o neto do fundador da dinastia criava a Porsche Design, um estúdio não subordinado ao construtor automóvel capaz de integrar no seu modus operandi uma forma especial de pensar o objeto ao invés da habitual, e mais restritiva, linguagem para a forma. Do estúdio em Estugarda, e posteriormente da pacata Zell am See, na Áustria, saíram todo o género de objetos, entre utensílios de cozinha, skis, óculos, cadeiras, capacetes, bicicletas e também relógios, que foram a primeira encomenda do estúdio.

Em Estugarda, a Porsche procurava uma oferta para colaboradores jubilados, garantindo pelo menos a encomenda de 20 peças por ano. Surgia o Chronograph 1, o primeiro relógio da Porsche Design, mas também o primeiro medidor do tempo integralmente negro, de acordo com a norma habitual dos instrumentos que se podem encontrar no interior de um carro de corridas. Seguindo as regras incontornáveis de Ferdinand Porsche, onde se incluíam uma excecional legibilidade, perfeição técnica, os melhores materiais e um foco absoluto na funcionalidade, o Chronograph 1 parecia estar a anos-luz de tudo o que se fazia na relojoaria em 1972.

Oito anos depois deste auspicioso início, Ferdinand Porsche atrevia-se a inovar mais uma vez, ao estrear um relógio de pulso com caixa e bracelete em titânio. Em parceria com a venerável IWC, a Porsche Design atrevera-se a lançar o Titan Chronograph, causando a mesma agitação no meio que, anos antes, o Chronograph 1 tinha provocado. Visivelmente marcado com a designação ‘Titan’, o relógio era incrivelmente leve e estreava, pela primeira vez, uma escala de taquímetro abaixo do vidro de forma a aumentar a legibilidade geral do mostrador. A esta nova abordagem, totalmente distinta à relojoaria por parte de Ferdinand Porsche, acrescia um par de botões de cronógrafo magistralmente integrados na lateral da caixa e uma pulseira em titânio com elementos de forma e dimensão similares.

Chronograph 1, Titan Chronograph
Chronograph 1, de 1972 e Titan Chronograph, de 1980. © Porsche Design

Estes dois marcos da relojoaria foram sendo acompanhados, ao longo dos anos, por outras criações estética e ideologicamente fiéis às regras estipuladas por Ferdinand Porsche para a sua Porsche Design. Em 1977, surgia o Kompassuhr, um instrumento de dupla função que se abria em dois e onde o movimento e mostrador de relógio estavam integrados numa tampa que revelava um nível inferior com uma bússola integrada. Em 1981, os adeptos do mergulho passavam a contar com o Ocean 2000, um modelo desenvolvido sob as especificações da marinha alemã, que, curiosamente, inscrevia no caderno de encargos que o relógio deveria poder ser usado tanto com um fato de mergulho, como com um fato formal. No mesmo ano, era lançado o Chrono 02, seguindo-se, em 1983, o Ultra Sportivo e, em 1991, um modelo com indicação de múltiplos fusos horários.

Mas foi o incrível sucesso do Chronograph 1 e do Titan Chronograph que, ao estrearem de forma absoluta o negro integral e o titânio na relojoaria, os transformaram instantaneamente em ícones, levando marcas de todos os níveis de qualidade a lançar propostas com as mesmas caraterísticas. Hoje, são poucos os nomes na alta-relojoaria que não integram nas suas coleções modelos negros ou com caixas em titânio.

Ferdinand Porsche tinha criado dois modelos que, passado décadas desde o seu lançamento, viriam a servir de inspiração à equipa que produziu a dupla de relógios destinada a estrear a Porsche Design Timepieces AG, a nova empresa sediada em Solothurn, na Suíça, e sob a qual todos os relógios concebidos pelo estúdio passarão a ser desenvolvidos.

Chronotimer Series 1
Chronotimer Series 1 Matte Black, fundo. © Porsche Design

Os atuais responsáveis por este ambicioso projeto de autonomia industrial da Porsche Design no campo da relojoaria são Patrick Kury e Gerhard Novak, respetivamente CEO e diretor-geral da nova empresa. Novak é preciso nos objetivos que pretende alcançar: «Prevemos chegar ao final deste ano com uma produção na ordem dos quatro a cinco mil exemplares», afirma, acrescentando que o objetivo de alcançar 500 pontos de venda até 2018 está a ser integralmente cumprido. «O processo de desenvolvimento de produto está neste momento totalmente concluído e representou um passo fundamental para a produção que, até junho, já tinha alcançado as primeiras 1000 unidades.»

Segundo Patrick Kury, «Esta é uma história totalmente nova para a Porsche Design, que, pela primeira vez, está a controlar todo o processo desde o início, com o design de cada relógio a sair do estúdio em Zell am See, passando pela produção na Suíça, e, finalmente, com a distribuição a nível global. Depois da Orfina em 1972, seguida da IWC e posteriormente da Eterna, é agora a vez da própria Porsche Design assumir a total autoria e controlo dos relógios que produz».
Este sucesso global das ideias de Ferdinand Porsche levou, passados 42 anos sobre a sua criação, a Porsche Design a apresentar o Timepiece 1 e o Chronograph Titanium Limited Edition. Dois cronógrafos equipados com calibres Valjoux 7750 destinados a celebrar as mais relevantes inovações do fundador da marca e ambos limitados a 500 exemplares cada. Os dois modelos seguem já a nova filosofia da marca que define o titânio como o material de base para todos os seus relógios.


O lançamento

Chronotimer Series 1
Chronotimer Series 1 Deep Blue © Porsche Design

Decorrido um ano sobre este relançamento, a Porsche Design desvendou uma nova linha de cronógrafos, igualmente com movimentos Valjoux 7750, caixa em titânio, ou titânio e ouro, batizada Chronotimer Series 1. Mantendo sempre o titânio nas caixas como elemento transversal à coleção, e que varia entre acabamentos polido e escovado, os modelos alternam atraentes mostradores em preto, carbono e um em azul profundo particularmente bem conseguido. A presença de ouro rosa, neste caso, na luneta, permite a alguns modelos do Chronotimer Series 1 assumirem uma imagem mais distinta que não deixa de se integrar bastante bem com o design eminentemente desportivo do modelo.

Mas apesar de estes modelos serem novidade absoluta, o melhor ainda está para vir. É que os conceitos revelados em 2014 à Espiral do Tempo em Zell am See, e que deverão orientar a produção futura da Porsche Design Timepieces AG, aproximam muito mais a marca daquilo que sempre norteou a excecional criatividade de Ferdinand Alexander Porsche.

Chronotimer Series 1
Chronotimer Series 1 © Porsche Design

Os modelos que no futuro integrarão as coleções da Porsche Design contemplam não só as caraterísticas que permitem à marca anunciar-se como sendo os «first in black» e «first in titanium», mas também elementos de design que distinguirão de forma definitiva a Porsche Design de todas as outras marcas de relojoaria da atualidade. Tudo está ainda no segredo dos deuses, e, apesar de os conceitos não poderem ainda ser revelados, é possível garantir que, a serem transformados em realidade, a Porsche Design promete tornar-se numa marca de referência entre as suas congéneres suíças, no que se refere a inovação e estética.

Para Ferdinand Porsche, o bom design teria de ser honesto e intemporal, um credo que, mesmo após a sua morte, em 2012, se mantém como linha mestra do estilo particular com que o estúdio assina as suas criações. Se hoje o fabuloso Porsche 918 Spyder é, estética e tecnologicamente, o digno sucessor do mítico 911 original, aquilo que se prepara em Zell am See não parece ser menos auspicioso para a boa relojoaria que ostenta a assinatura Porsche Design. ET_simb

Chronotimer Series 1
Chronotimer Series 1 Tangerine © Porsche Design

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