Beda’a e Maghnam: duas marcas emergentes e diferentes, um único designer

Na era das micromarcas, dois novos nomes surgiram no cenário relojoeiro para serem mais do que isso: a Beda’a e a Maghnam, que nesta última semana lançaram novos modelos.

A Beda’s e a Maghnam são duas marcas completamente distintas que começaram a surgir mais recentemente e que já contam com presença entre os finalistas do Grand Prix d’Horlogerie de Genève; falámos delas aquando da nossa visita ao salão After Time by Milano Watch Week e destacámos o facto de, sendo tão diferentes, terem algo de fundamental em comum: o mesmo designer, Sohaib Maghnam — que dirige simultaneamente a Beda’a e a sua marca própria Maghnam.

Relógio Beda’a em ouro da Amir Watches com bracelete preta, ao lado de um homem a usá-lo no pulso.
O mais recente exercício de estilo de um relógio ‘digital’ tem a assinatura de Sohaib Maghnam | Fotos: Beda’a

Entre a Beda’a e a Maghnam há uma clara divisão conceptual; a primeira é mais clássica, arquitetónica e acessível, enquanto a segunda é mais experimental, escultural e mecânica. E, para além do designer, partilham também uma forte linguagem tridimensional, a influência do universo automobilístico e alguma identidade árabe… já que o multifacetado Sohaib Maghnam, que anteriormente fez carreira na indústria automóvel europeia, é jordano, tem ascendência palestiniana e reside no Qatar.

Um ‘guerreiro’ no pulso: o Mohareb da Maghnam | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Tivemos a oportunidade de o entrevistar em Milão e constatar a sua galopante criatividade. E está atualmente em foco porque as ‘suas’ marcas lançaram interessantes novidades ao longo da última semana.

Beda’a Angles Guichets e Stone Collection

A Beda’a granjeou um lugar muito particular na relojoaria contemporânea: não é uma marca suíça tradicional, nem um independente conceptual — é uma tentativa deliberada de criar uma identidade relojoeira do Médio Oriente, com uma linguagem própria, coerente e cada vez mais refinada. Fundada em 2016 por Hader Al Suwaidi e liderada criativamente por Sohaib Maghnam entre Doha e Londres, cresceu em torno de um princípio claro: usar o design como eixo central, não como consequência. É na linha Angles que essa filosofia se torna mais evidente — e onde os lançamentos recentes, Angles Guichets e Angles Stone Collection, revelam duas direções distintas mas complementares.

O novo Angles Guichets impressiona pelo reforço da sua base geométrica | Foto: Beda’a

Pode dizer-se que a linha Angles representa o ADN da Beda’a. Como já tivemos a oportunidade de o constatar no pulso, assenta numa emblemática estrutura que fica imediatamente na retina e que se adapta facilmente ao pulso. O seu elemento definidor é uma caixa octogonal que joga com planos, ângulos e superfícies como se fosse uma peça de design industrial. Mais do que homenagear Gérald Genta (é inevitável o seu nome vir à baila quando se fala de octógonos na relojoaria), o objetivo de Sohaib Maghnam foi sempre o de fazer o seu octógono, criando uma geometria própria, com proporções extremamente controladas e uma forte ligação à arte e arquitetura árabes.

exposição de relógios Beda's no After Time by Milano Watch Week
Modelos Angles da Beda’a com mostradores de pequenos segundos | Foto: After Time by Milano Watch Week

No contexto da marca, o novo Angles Guichets representa um momento importante — a introdução de uma complicação real dentro da linguagem minimalista da coleção, assente num modificado Calibre ETA 7001 (Peseux) de carga manual. Trata-se de um relógio com indicação de 24 horas em formato guichet (janela), escolha que não é inocente tendo em conta a predileção por tal configuração nos últimos tempos, desde a Cartier à Chronoswiss, passando pela Bremont. O conceito de guichet já tinha sido explorado por Sohaib Maghnam noutros projetos e está profundamente ligado a uma ideia de tempo como informação filtrada, não exposta de forma tradicional. Privilegia-se uma leitura mais abstrata e arquitetónica, ao mesmo tempo que reforça a geometria da caixa angular.

Angles Guichets e os discos para as horas e os minutos | Foto: Beda’a

E se o Angles original era design puro, a variante Guichets junta a narrativa temporal ao design; as estrias verticais também oferecem uma dinâmica muito interessante ao conjunto. Para além disso, com um preço na ordem dos 2.000€, posiciona-se num segmento onde a diferenciação estética é essencial. E nesse domínio, a Beda’a joga bem com os seus trunfos: não compete com tradição, compete com a originalidade.

Angles Stones Tiger Eye: a adesão aos mostradores em pedra decorativa | Foto: Beda’a

Enquanto o Angles Guichets explora a complicação, a coleção cápsula Angles Stone Collection explora a matéria. Lançada um pouco antes, pega na base ultrafina da linha Angles para modelos de quartzo (37mm para 5,6mm de espessura) e introduz mostradores em pedra natural semipreciosa: malaquita, aventurina azul, hawkeye africano e olho de tigre. Cada relógio torna-se único, porque nenhuma pedra é igual; os padrões são orgânicos e a luz interage de forma imprevisível com a superfície do mostrador — o que faz com que o foco passe da força geométrica da caixa para a textura e profundidade do mostrador.

Força geométrica e cromática no modelo Angles Stones Malachite | Foto: Beda’a

Quanto ao movimento utilizado, a Stone Collection usa um calibre de quartzo (o Ronda Slimtech) para manter a espessura da caixa extremamente fina, preservar proporções (essenciais na Beda’a) e manter um preço tão acessível quão apetecível… abaixo dos 1.000 euros. Uma variante na qual a integridade do design vem antes da ortodoxia mecânica, como sucede com os Dennison.

Geometria e proporções: o Angles Guichets é uma excelente proposta relojoeira | Foto: Beda’a

Os novos Angles Guichets e Angles Stone Collection não são apenas extensões de gama — são duas declarações complementares sobre o que a Beda’a quer ser: o Guichets como exploração do tempo como conceito, o Stone enquanto exploração do objeto como matéria. Pelo meio, a marca afirma uma identidade relojoeira contemporânea que não depende da Suíça, nem imita o passado.

Maghnam Mohareb Gen II

O Mohareb original já era um objeto singular, inspirado na iconografia do guerreiro (mohareb significa precisamente fighter ou gladiador em árabe); a recentemente anunciada segunda geração leva o conceito para um território de maior sofisticação técnica e maior coerência formal. E dá à Maghnam um maior prestígio, reforçando também a reputação de Sohaib Maghnam.

A aura futurístico-espacial do Mohareb | Foto: Maghnam

A nova geração do Mohareb apresenta uma estética que se mantém futurista, mas mais madura. O grande trunfo continua a ser a arquitetura modular e intermutável da caixa, mas ainda mais refinada. O corpo central em aço 904L mede 39,5mm, com apenas 8,6mm no ponto mais alto e um afunilamento extremo até 3,5mm nos flancos, criando um contraste fascinante entre a aparência brutalista e a leveza que se sente no pulso (somente 43,5g).

O Mohareb e as aplicações modulares que lhe podem alterar o formato exterior | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

À volta do ‘núcleo’ podem ser montados três módulos — designados Blades, Halo e Wings — que transformam completamente a silhueta do relógio. Como se fossem carroçarias intercambiáveis de um concept car. É aí que se sente o passado de Sohaib Maghnam enquanto engenheiro e designer ligado aos automóveis. O relógio deixa de ser um simples volume estático para se tornar numa identidade dinâmica com múltiplas facetas.

O Mohareb exala um edspírito guerreiro inspiorado também na imagética árabe | Foto: Maghnam

O grande salto qualitativo da nova geração está na forma como a transformação formal é acompanhada por uma complicação mecânica que reforça a aura do Mohareb. O calibre MCR01-B, baseado no Sellita SW210 de corda manual, integra um módulo próprio da Maghnam com horas retrógradas num arco de 120 graus e minutos lineares verticais. Uma solução que reforça a peculiar simetria ‘de capacete’ do mostrador e dá ao relógio uma teatralidade mecânica que dialoga com a sua aparência de armadura futurista. Ao contrário de alguns independentes conceptuais e à semelhança de outros, a mecânica não é um adorno colado ao design do Mohareb: é parte orgânica da ideia.

Uma caixa assimétrica que se adapta ao ângulo de visão do utilizador | Foto: Maghnam

Também se pode dizer que é no Mohareb que melhor se percebe a evolução de Sohaib Maghnam enquanto criativo. Formado em engenharia mecânica, com treino na escola de design italiano influenciada pelo universo automobilístico (como Fabrizio Buonamassa) e atualmente à frente da Maghnam e da Beda’a, está a dar uma importante voz relojoeira do Médio Oriente que não depende de quaisquer clichés ornamentais, mas sim de engenharia, mitologia e identidade cultural. O Mohareb Gen II não tenta parecer suíço, nem japonês, nem ser um derivado da Urwerk ou da MB&F a um preço muito inferior (embora a sua linguagem seja a dos independentes experimentais).

A nova geração do Mohareb apresenta-se especialmente delgada e anatómica | Foto: Maghnam

Ao preço de CHF 7.200 mais impostos, é original na forma, tem presença no pulso e ostenta uma estética de autor. Um relógio e uma marca de salutar num mercado que continua ainda muito saturado de propostas neo-vintage e de tool watches demasiado previsíveis. Com as suas duas marcas de estilos tão distintos, Sohaib Maghnam está a provar que ainda é possível criar um relógio que pareça genuinamente original não só no design muito tridimensional, mas também na forma como se usa, se transforma e se contempla. Uma verdadeira lufada de ar fresco!

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