Por mais voltas que tentemos dar, o presente da relojoaria faz-se muito de viagens ao passado e de viagens ao futuro. Um verdadeiro encontro de tempos. Como acontece em Back to the future.
«Ele recuou no tempo.
E porque se chama Regresso ao Futuro?
Porque ele tem de regressar ao futuro, pois está no passado. O futuro é, na verdade, o presente, a época dele.»
Estas palavras são retiradas de uma cena de Stranger Things – mais especificamente, do episódio 7 da terceira temporada da série norte-americana que, em pleno século XXI, teve o condão de resgatar o imaginário dos anos 80 para nele aprisionar (no bom sentido) legiões de fãs de diversas gerações.
Robin Buckley (Maya Hawke) e Steve Harrington (Joe Keery) acabam de sair da sala de cinema na qual estiveram a assistir a Back to The Future. Estamos em 1985, ano em que o filme estreou. Porém, o momento é complicado. Ambas as personagens tentam recuperar a consciência depois de umas horas de euforia causada por uma substância que lhes foi deliberadamente injetada. Por motivos óbvios, não está fácil para Steve perceber o fio condutor do filme realizado por Robert Zemeckis. Mas Robin resume o argumento com perspicácia e as suas palavras servem-nos bem porque, descontextualizadas, são ideais para descrever uma realidade que, do nosso ponto de vista, parece evidente no setor em que nos movemos: a relojoaria contemporânea descobre-se cada vez mais como um encontro de tempos
E, assim de repente, o relógio destruído de Hill Valley, os imensos relógios de Doc Brown (Christopher Lloyd), o DeLorean DMC-12 enquanto máquina do tempo e o próprio Marty McFly, (Michael J. Fox) fazem-nos todo o sentido para descrever o atual panorama da relojoaria.
Encontro de tempos
Por mais voltas que tentemos dar, o presente da relojoaria faz-se muito de viagens no tempo: de viagens ao futuro quando nos deparamos com relógios visionários, com a criação de novos desenhos, com a adaptação de materiais de outras industrias e com a descoberta de novos caminhos a nível técnico; e de viagens ao passado quando temos a certeza de que os modos tradicionais de criação ainda têm espaço num mundo que parece evoluir à velocidade da luz, ou quando somos confrontados com as tendências que nos remetem para outras épocas, numa receita, muitas vezes de sucesso, que faz a ponte entre o ontem e o hoje.
Viajamos no tempo quando constatamos que, entre os avanços e os recuos que fazem da relojoaria uma realidade, há margem para a ponderação e para um meio-termo, há margem para desbravar o que está para vir e há margem para respeitar um legado sem o qual nada do que hoje se faz seria possível de concretizar. Chama-se a isto evolução. E nós estamos cá para assistir. Como se estivéssemos numa sala de cinema.
Posto isto, caro leitor, estas linhas são, em grande parte, resgatadas do editorial que introduziu, em 2019, o número 68 da nossa Espiral do Tempo. Na altura, a ideia foi fazer dessa edição uma espécie de portal para o lado mais cinematográfico da relojoaria, partindo do momento presente rumo a diferentes dimensões que dão vida à indústria relojoeira.
Desde 2019, muito mudou e se passou, é certo, e em alguns casos a evolução acelerou de tal forma que o futuro parece ter chegado mais cedo. Ainda assim, há coisas que ficaram na mesma.
Estamos numa altura em que a euforia da informação faz com que tudo se saiba rapidamente, em que a dinâmica da (re)criação é uma evidência e em que a necessidade de surpresa é uma constante. Este panorama, quase desajustado face ao conceito tradicional de fazer alta-relojoaria, torna-se desafiante, mas também prometedor, porque a indústria relojoeira tem uma maneira muito própria de resistir à passagem do tempo: através do encontro entre passado, presente e futuro. Nisto estamos realmente na mesma. E ainda bem.
Ir e vir
No mundo dos relógios, o regresso a outras épocas permanece de facto evidente. Muitas marcas encontram inspiração no seu património, vivendo do equilíbrio entre o respeito pela sua herança histórica e a adaptação às necessidades e gostos contemporâneos. A relojoaria segue assim em frente, com um pé no presente e outro no passado. Mas importa acrescentar uma nota no que ao passado diz respeito. Se é verdade que os arquivos das marcas são fontes para a criação, recuar aos tempos de outrora não tem de significar falta de inspiração. A tendência para ir ao encontro de outros tempos não é de agora. Tem, antes, vindo a instalar-se confortavelmente à medida que novas tendências vão surgindo e envolve diferentes contextos e abordagens na relojoaria.
De um lado, temos os relógios que vão permanecendo nos catálogos ao longo dos anos com as atualizações necessárias – talvez possamos chamá-los de ‘atemporais’, sem tempo, icónicos, porque encaixam em todos os tempos. Do outro, estão os modelos que desapareceram ou foram descontinuados, mas que ressurgem como reedições fiéis ou reinterpretações à medida dos padrões contemporâneos. O Mido Ocean Star Decompression Timer 1961 Limited Edition, de que falámos há uns dias, representa bem esta vertente.
Na mesma linha, faz sentido relembrar os modelos que não vingaram quando foram lançados, mas que acabaram por ter sucesso mais tarde. E é aqui que entra a noção de lançamentos certos na época errada. Há passados que merecem ser resgatados para serem aceites na altura certa, porque o distanciamento temporal pode levar-nos a ver muita coisa com outros olhos. Nesta medida, a aposta noutros tempos pode ser encarada como uma primeira ou uma segunda oportunidade para relógios esquecidos e de fazer com que o futuro (e o presente, já agora) se torne mais rico e enriquecedor.
Inspiração
Como referimos no início, viajar no tempo não significa necessariamente regressar apenas ao passado. Por vezes, o futuro também pode dar origem a novas ideias, mesmo que nunca lá se tenha estado. A Urwerk, a HYT ou até a Ressence são bons exemplos nesse sentido, no entanto, a De Bethune e a Max Büsser & Friends merecem menção especial pelo modo como conseguiram, cada uma há sua maneira, estabelecer um original estilo ‘retrofuturista’ que liga o passado e o futuro. Ambas têm a capacidade de dar vida a prodígios mecânicos com uma estética vanguardista muito ao gosto de quem vive com os olhos no que poderia estar para vir e reinventaram soluções técnicas da relojoaria tradicional de uma maneira única.
Constantemente premiadas e reconhecidas, estas marcas são a prova de que as viagens no tempo estimulam sem limites a criatividade. Na mesma linha, mas numa abordagem diferente, há quem se atreva a explorar conceitos de design e arquitetura de outras épocas, através de relógios que não são reinterpretações, mas antes relógios assumidamente novos que não se guiam propriamente por modelo específico. Este tendência tem-se visto ultimamente com o regresso em relojoaria do designado ‘brutalismo’ que vigorou na arquitetura entre as décadas de 50 e 70. E o que dizer da Hautlence que, no âmbito do seu 20.º aniversário, resolveu imaginar como seria um relógio da marca se esta tivesse surgido na década de 1970? O resultado é um divertido relógio de pulso em forma de um característico rádio dessa altura.
Por tudo isto, encaramos os encontros de tempos em relojoaria como um desafio saudável para a criatividade – e como mais uma possível forma de contagiar diferentes gerações. Tal como o prova a série Stranger Things (que tem regresso agendado para 2025) e a trilogia Back to the Future, o mundo do passado e o mundo do futuro podem apelar às mais diversas idades, pelas mais diversas razões.
E, assim de repente, o relógio destruído de Hill Valley, os imensos relógios de Doc Brown, o DeLorean DMC-12 enquanto máquina do tempo e o próprio Marty McFly fazem-nos ainda mais sentido para descrever o atual panorama. É que, se não fossem as viagens no tempo, o futuro teria sido bem menos interessante para o genial cientista e o intempestivo jovem. O mesmo é válido para a relojoaria.