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Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT: ensaio fotográfico

Iniciamos esta série de pequenas crónicas fotográficas com o Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT, o relógio que serviu de ensaio para os primeiros testes com nosso novo kit de estúdio, resultado da parceria da Espiral do Tempo com a Leica Portugal.


[As Crónicas Fotográficas resultam da parceria da Espiral do Tempo com a Leica Portugal, iniciada em 2021.]


Vamos por partes para ficar tudo muito bem explicado. Uma das áreas em que a Espiral do Tempo mais tem apostado desde há vários anos é a produção própria de conteúdos visuais. Os conteúdos visuais relojoeiros são difíceis e morosos de criar, mas muito antes de qualquer conceito vazio de significado como criatividade ou ‘artisticidade’, estão subordinados a outras adjetivações que me parecem muito mais eficazes e certeiras tal como técnica e qualidade dos ficheiros finais.

Leica Macro Elmar R 90mm f/4 short mount já no fole de extensão. Fotografado com uma Leica Q2 | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Para mim, em fotografia, o equipamento é quase tudo. Em boa verdade diria que o equipamento é responsável por 95% do sucesso do resultado final. O equipamento apresenta todas as opções e todas as possibilidades, cabendo apenas ao operador tomar as decisões mais acertadas. A partir deste ponto a conclusão óbvia é que quanto melhor for o equipamento, melhor será o ficheiro final pois, repito, não se trata de estética, trata-se de técnica.

Na procura pelo melhor equipamento possível, o encontro com a Leica Portugal veio abrir-nos as portas para a melhor qualidade ótica e para os melhores sensores do mercado, mas também para técnicas que, podendo ser consideradas de tempos já passados, são uma das pedras angulares do gigante alemão da fotografia – a adaptação e flexibilidade. Na realidade os equipamentos de hoje adaptam-se a equipamentos do passado com a simplicidade e qualidade a que a Leica já nos habituou. Alinham-se os pontos vermelhos, roda-se, adapta-se e está tudo a funcionar.

O anel de aberturas da lente Macro Elmar R 90mm já sem o anel de foco. Fotografado com uma Leica Q2 Monochrom | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

O primeiro kit que escolhemos para testar é composto por um corpo Leica SL, um adaptador R para L e um fole de extensão. A lente escolhida foi uma preciosidade, uma Macro Elmar R 90mm f/4 já adaptada ao fole de extensão. A designação técnica de lentes adaptadas é ‘short mount’ devido ao facto de, na adaptação, lhes ser retirado o anel de focagem visto que a mesma será feita através do fole. Preciosidades? Sim, sem dúvida, daquelas que gosto.

O essencial adaptador R adapter L que permite o uso das lentes Leica R em corpos SL. Fotografado com uma Leica Q2 Monochrom | © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O corpo Leica SL que atualmente faz parte do nosso kit de estúdio com a nova APO Summicron SL 90mm f/2 que terá outras crónicas para contar. Fotografado com uma Leica Q2 Monochrom | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Este kit permite-me trabalhar, obviamente, em todas as distâncias focais, do macro ao infinito. Quanto ao fole de extensão o seu uso é soberbo através da focagem manual (a única que possibilita claro). Sendo muito preciso e em situações tecnicamente um pouco mais complexas como fazer focus stacking, revelou-se uma ferramenta fantástica pelo controle que possibilita, mais do que qualquer sistema de autofocagem ou qualquer lente de focagem manual que tenha usado.

Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT

O Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT foi o relógio que serviu de ensaio para os primeiros testes com nosso novo kit.

Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT
Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

O primeiro contacto, e já com o relógio à frente da lente, não podia ter sido mais impactante. O grau de aproximação que o fole de extensão em combinação com a Macro Elmar R permite é incrível e o Revolution Fileteado GMT prestou-se na perfeição ao pretendido. Com a caixa em titânio e mostrador gravados, a quantidade de pormenores passíveis de serem explorados é enorme. São 43mm inspirados na adrenalina e romance da cidade de Buenos Aires e sua arte urbana.

Um dos vértices da caixa do Franck Dubarry Fileteado GMT com as suas gravações e acabamento escovado | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

A caixa em titânio grau 5 gravada e de acabamento escovado é visualmente muito sedutora e foi precisamente por ela que comecei a fazer os primeiros focus stacking. O maior problema quando se faz fotografia macro é a eterna questão da profundidade de campo. Quanto mais próximo do objeto, menos profundidade de campo. Significa na prática que iremos conseguir apenas uma fração da imagem em foco. Esta técnica pode ser usada para isolar um elemento e dar-lhe destaque visual, mas é uma limitação incontornável quando se pretende ter toda a imagem em foco.

O chamado focus stacking consiste em ir focando diversos pontos da imagem para que, quando juntas na edição, apenas as áreas em foco de cada fotografia sejam aproveitadas. Tudo isto faz com que para se ter uma imagem final com estas características seja necessário tirar quatro, cinco, seis, sete fotos. O processo é mais lento, mas por outro lado leva a um esforço de pensamento a priori. Só se começa a fazer stacking quando estiver tudo no lugar. Qualquer alteração nos elementos faz com que se tenha que voltar ao início.

Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT.
Uma das fotografias feitas através de focus stacking em que o foco cobre na totalidade a imagem | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Inserido na coleção de relógios desportivos de luxo da Franck Dubarry, o Revolution Fileteado GMT é uma peça arrojada e divertida com todo um mundo de detalhes em relevo polido no mostrador em alusão ao processo de cunhagem de moedas antigas. A verdade é que há uma aura pirata muito forte neste relógio com a sua caveira e respetivos ossos encimada por uma bandeira com a marca e rematada com as indicações «GMT» e «Automatic» em cada lado. A luneta é em fibra de carbono, pontuada pelos generosos parafusos.

Franck Dubarry Revolution Fileteado GMT
Exemplos da aproximação possibilitada pelo fole de extensão em dois detalhes do mostrador | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Foi com um misto de sentimentos que segui o modo como a Leica SL se adequou a este trabalho tão específico. A qualidade está lá. Não foi preciso muito tempo para perceber que é um chamado ‘cavalo de trabalho’. Se de início fiquei um pouco apreensivo em relações às aberrações cromáticas que poderiam surgir da combinação de um sensor moderno com uma lente vintage do sistema R, tais receios revelaram-se de todo infundados e tem sido uma das áreas menos problemáticas. A leitura da temperatura de cor é fantástica e os ajustes posteriores são mínimos.

Exemplo de como a proximidade do plano focal ao objeto causa a drástica redução da profundidade de campo | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Esta parceria veio abrir-nos as portas de um mundo encantado no que a equipamento fotográfico diz respeito. Mas por outro lado veio colocar-me pressão em tornar-me um operador de equipamentos melhor. Tomar melhores decisões, entregar imagens melhores, com mais detalhe, com mais qualidade. Um verdadeiro desafio, portanto.

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