Greubel Forsey: dois relógios, do menos complexo ao computador

Passámos o dia na manufatura da Greubel Forsey em La Chaux-de-Fonds e experimentámos os dois mais recentes prodígios da marca: o Balancier 3 e o QP Balancier — um menos complexo e o outro mais complicado, mas ambos perfeitos exemplos da superlatividade da marca.

A manufatura da Greubel Forsey fica mesmo na zona limítrofe de La Chaux- de-Fonds e apresenta uma arquitetura notável, sendo incrustada num morro como se fosse uma concha. No inverno e com neve, torna-se ainda mais imponente. Como os seus relógios.

A manufatura da Greubel Forsey em La Chaux-de -Fonds | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo
A manufatura da Greubel Forsey em La Chaux-de -Fonds | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Em pouco mais de duas décadas, a marca fundada em 2004 por Robert Greubel e Stephen Forsey estabeleceu-se na estratosfera do firmamento relojoeiro com criações superlativas de preços a condizer. O ano de 2026 arrancou com o anúncio de que Stephen Forsey deixou a companhia que tem por CEO Michel Nydegger desde 2024 e há vários projetos a correr (incluindo uma nova etapa do notável conceito Naissance d’Une Montre, que abordaremos em breve), mas vamos começar por escalpelizar duas recentes propostas bem reveladoras da fase em que atualmente se encontra a companhia: o Balancier 3 e o QP Balancier.

Aos 36 anos, Michel Nydegger é um dos mais jovens CEOs da alta-relojoaria | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Balancier 3: uma nova expressão

A linha Balancier é dedicada a relógios regulados exclusivamente por um ou dois balanços, sem turbilhões ou complicações adicionais. Expressam a filosofia cronométrica da Greubel Forsey na sua forma mais direta: precisão alcançada através da geometria, gestão de energia e estabilidade do sistema regulador. Cada relógio Balancier concentra todo o conhecimento da Greubel Forsey num único objetivo — extrair o máximo desempenho e excelência de acabamento de uma arquitetura mecânica minimalista.

Greubel Forsey Balancier 3
Novos tons celestes: o terceiro Balancier 3 é azul claro | Fotos: Greubel Forsey

O desportivo Balancier 3 é o novo modelo de entrada de gama da marca, mesmo que o preço de entrada se situe nos 170.000 francos suíços. É também um daqueles relógios que só fazem pleno sentido quando se percebe a ambição quase paradoxal que lhe deu origem: criar a peça ‘mais acessível’ da maison sem abdicar daquilo que define a Greubel Forsey — arquitetura mecânica tridimensional, acabamento manual irrepreensível e presença escultórica no pulso. A própria marca admite que foram precisos quase vinte anos para chegar a uma proposta como o Balancier 3; demorou tanto porque a questão não era simplificar apenas por simplificar, mas sobretudo encontrar uma nova linguagem que mantivesse intacta a força artesanal do atelier num relógio desportivo.

O resultado é uma peça que, apesar da relativa contenção conceptual, se apresenta profundamente teatral. Porque o mostrador é um anfiteatro. A designação Balancier 3 nasce das três grandes pontes visíveis no lado do mostrador, cada uma com uma função mecânica claramente assumida: a ponte do tambor, a do grande órgão regulador e a ponte central, a mais expressiva de todas, que sustenta a indicação horária e se prolonga em direção aos pequenos segundos. A clareza estrutural é talvez o seu maior trunfo: ao contrário de muitas peças openworked ou esqueletizadas que sacrificam a legibilidade em nome do espetáculo mecânico, aqui a leitura da mecânica é quase didática, como se a Greubel Forsey tivesse transformado a própria arquitetura do movimento numa gramática visual. E, no entanto, nada parece utilitário; as superfícies convexas polidas à mão, os ângulos internos tratados com esmero e os parafusos espelhados indicam que estamos perante alta-relojoaria contemporânea no seu estado mais puro.

No nosso pulso: o novo Balancier 3 da Greubel Forsey e a sua curvatura acentuada | Foto: MIguel Seabra/Espiral do Tempo

A caixa Convexe em titânio continua a ser um dos elementos mais identificativos do projeto. Com 41,5mm, vidro curvo e uma geometria variável que acompanha a anatomia do pulso, o Balancier 3 consegue parecer simultaneamente técnico e orgânico. É um relógio de presença forte, mas surpreendentemente ergonómico e muito mais confortável do que a complexidade visual deixa supor. Após duas edições anteriores (preto e azul royal), a Greubel Forsey foi mais longe na edição de 2026 ao introduzir uma predominância cromática azul-clara e, sobretudo, uma nova abordagem de acabamento: a ponte central em titânio escovado com textura fosca, uma estreia na marca, cria contrastes inéditos entre as zonas polidas e os planos acetinados, dando ainda mais profundidade ao conjunto. Não é uma reinvenção do modelo, mas uma evolução subtil e extremamente sofisticada da sua identidade.

Greubel Forsey Balancier 3
Elementos mecânicos chave brilham acima do mostrador do Balancier 3 | Fotos: Greubel Forsey

Mecanicamente, o Balancier 3 mantém aquilo que verdadeiramente importa: os dois tambores rápidos acoplados em série, com reserva de carga de 72 horas, e sobretudo o majestoso balanço de 12,6mm entre as 4 e as 6 horas, um dos maiores e mais belos órgãos reguladores da relojoaria contemporânea. É um relógio onde se sente bem a filosofia da Greubel Forsey: apesar da aparência simples (ou, pelo menos, mais simples do que a dos outros modelos do catálogo), a prioridade continua a ser a pureza cronométrica e a exposição do fluxo de energia, desde a força armazenada nos tambores de corda até à pulsação hipnótica do balanço. Os pequenos segundos às 8 horas, com disco rotativo em vez de ponteiro convencional, reforçam essa ideia de tempo como movimento físico e visível, quase coreográfico.

Mas talvez o mais interessante no Balancier 3 seja o momento estratégico que ele representa. Com a saída de Stephen Forsey e a anunciada renovação progressiva de toda a coleção, o novo relógio desportivo da marca parece funcionar como uma espécie de ponte entre a Greubel Forsey clássica e a próxima fase. Não é por acaso que a peça é limitada a 22 exemplares, preservando a sua exclusividade, mas ao mesmo tempo introduz um vocabulário mais direto, menos dependente de complicações ostensivas e mais focado na arquitetura do movimento como experiência estética. O Balancier 3 representa quase uma depuração da linguagem Greubel Forsey.

O Balancier 3 é um dos relógios mais estratégicos que a Greubel Forsey produziu nos últimos anos. Não porque seja o mais complicado da coleção (e está bem longe disso), mas porque demonstra que a marca consegue aplicar o seu rigor a uma peça mais pura, mais centrada e conceptualmente mais legível… a um preço abaixo dos 200.000 euros. É um relógio que substitui a exuberância da complicação pela exuberância da forma, do acabamento e da tensão espacial entre os seus elementos. E isso, vindo de uma casa tantas vezes associada ao excesso virtuoso, torna-o particularmente fascinante.

Conceção orgânica: a caixa ergonómica e o vidro convexo do Balancier 3 da Greubel Forsey | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Mecanicamente, o Balancier 3 dá continuidade à evolução do movimento apresentado pela primeira vez em 2023. Alojado na emblemática caixa convexa de titânio com 41,5mm de diâmetro, a nova edição apresenta um acabamento inédito no atelier: uma ponte de titânio mate com acabamento escovado em toda a sua superfície curva. Contrastes acentuados e múltiplas tonalidades de azul enfatizam ainda mais a pureza do movimento, oferecendo uma interpretação renovada do Balancier 3 ao mesmo tempo que preserva a sua identidade mecânica.

Desde a sua origem, o Balancier 3 foi concebido em torno da clareza estrutural. A sua arquitetura é definida pelas três referidas pontes: a ponte do tambor, a ponte do balanço e a grande ponte central. Em conjunto, criam uma composição onde cada função mecânica permanece claramente legível, contribuindo para um conjunto arquitetónico coerente. A caixa convexa em titânio enquadra esta construção através de uma curvatura ergonómica que acompanha a linha natural do pulso, enquanto o bisel de geometria variável e o vidro de safira curvo reforçam a continuidade entre a forma exterior e a arquitetura do movimento.

Greubel Forsey Balancier 3
O Balancier 3 é desportivo e o modelo ‘mais acessível’ da marca | Fotos: Greubel Forsey

No coração do relógio encontra-se o balanço de inércia variável de fabrico próprio da Greubel Forsey, com 12,6mm de diâmetro e equipado com seis parafusos de ouro para ajuste do tempo. O movimento é composto por 282 componentes e alimentado por dois tambores de rotação rápida acoplados em série, proporcionando uma reserva de marcha cronométrica de 72 horas, combinando a densidade técnica com a transparência e a profundidade visual.

A principal evolução da nova edição reside no tratamento das pontes. As pontes do baloiço e dos tambores são executadas em titânio polido, preservando uma presença brilhante e reflexiva na arquitetura. Em contraste, a grande ponte central introduz uma nova linguagem de acabamento. Estendendo-se desde a borda do movimento entre a 1 e as 2 horas até ao disco de pequenos segundos rotativo entre as 7 e as 8 horas, o acabamento mate destaca-se por uma textura excecionalmente profunda, aplicada manualmente com uma escova de aço em toda a sua superfície curva. Essa textura mate pronunciada contrasta com o acabamento mate mais claro nas pontes do movimento, enquanto os chanfros polidos conferem definição e nitidez aos seus contornos. Em conjunto, estes acabamentos criam uma interação envolvente entre a estética da superfície e a luz, reforçando o caráter tridimensional do Balancier 3.

A profundidade visual é ainda mais reforçada por um jogo de cores subtil. Diferentes tons de azul criam um contraste mais forte, guiando o olhar através dos múltiplos níveis da arquitetura e realçando a legibilidade. O layout funcional mantém-se fiel ao conceito original: horas e minutos exibidos na ponte central suspensa, um disco rotativo de pequenos segundos com indicador fixo e uma indicação de reserva de marcha visível na lateral do movimento. Ao diferenciar a linguagem visual das pontes e ao introduzir um novo tratamento para as superfícies curvas de titânio, a Greubel Forsey expande as possibilidades expressivas da arquitetura mecânica, mantendo-se fiel à visão original do Balancier 3.

QP Balancier e o Computador Mecânico

Um calendário perpétuo limitado a 22 exemplares e construído em torno da sétima invenção da Greubel Forsey, designada Computador Mecânico. Calendário perpétuo bidirecional, dia, data, mês, ano civil e ano bissexto, dia/noite, equação do tempo com mês, estação do ano, solstício e equinócio, seletor de funções, turbilhão de 24 segundos, horas e minutos, pequenos segundos e reserva de marcha numa caixa em ouro branco de 45,1mm que integra 612 componentes, num movimento com 72 horas de autonomia. Um cocktail mecânico de exceção.

QP Balancier: um calendário perpétuo de exceção com estilização única | Foto: Greubel Forsey
QP Balancier: um calendário perpétuo de exceção com estilização única | Foto: Greubel Forsey

Mas o novo QP Balancier da Greubel Forsey é, antes de tudo, uma afirmação de maturidade. Não apenas porque representa a cristalização de mais de uma década de investigação da manufatura em torno da complicação do calendário perpétuo, mas porque consegue algo que parecia quase paradoxal no universo da alta-relojoaria extrema: tornar intuitivo aquilo que historicamente sempre foi delicado. Desde as primeiras execuções do QP à Equation, a manufatura de La Chaux de Fonds perseguia a ideia de um calendário perpétuo que não obrigasse o proprietário a decorar sequências de corretores, posições de coroa ou janelas horárias perigosas. No QP Balancier, essa visão atinge uma forma de depuração quase filosófica. Tudo converge para uma única coroa, um único interface, uma única experiência mecânica. E, no entanto, por trás dessa aparente simplicidade esconde-se um dos sistemas de programação de calendário mais sofisticados da relojoaria contemporânea.

No nosso pulso: o notável QP Balancier da Greubel Forsey | Foto: MIguel Seabra/Espiral do Tempo
No nosso pulso: o notável QP Balancier da Greubel Forsey | Foto: MIguel Seabra/Espiral do Tempo

A grande inovação conceptual está no chamado Mechanical Computer, a sétima invenção fundamental da marca. Em vez do tradicional calendário perpétuo vulnerável a manipulações erradas, o QP Balancier permite correções instantâneas em ambos os sentidos, a qualquer hora do dia, sem risco de danificar o movimento. Isso muda radicalmente a relação do utilizador com a complicação. O calendário deixa de ser uma maravilha reverenciada à distância para se tornar numa ferramenta viva, tátil e quase lúdica. Há um simbolismo nessa solução que vai muito além da mera engenharia: trata-se de devolver liberdade ao utilizador sem abdicar do rigor programático até 2100. A verdadeira genialidade da Greubel Forsey não está apenas em complicar, mas em domesticar a complexidade sem a empobrecer.

Esteticamente, o relógio é um exercício de ordem tridimensional, faceta na qual a Greubel Forsey se mantém numa categoria à parte. A caixa de ouro branco de 45,1 mm — inevitavelmente imponente, mas coerente com a arquitetura interna — serve de anfiteatro a uma composição em múltiplos níveis de extraordinária clareza. O mostrador em ouro organiza a informação do calendário numa linha visual contínua: dia, data, mês, ano civil, ano bissexto, ciclo dia/noite, indicação de 24 horas, reserva de marcha, horas, minutos e pequenos segundos convivem num espaço surpreendentemente legível. O que impressiona não é apenas a densidade informativa, mas a ausência de ‘ruído’. Cada abertura, cada disco, cada ponte existe com um propósito ótico. E isso, num calendário perpétuo de tal complexidade, é talvez tão difícil quanto conceber o próprio mecanismo.

As indicações de calendário no fundo do QP Balancier | Foto: Greubel Forsey
As indicações de calendário no fundo do QP Balancier | Foto: Greubel Forsey

Mas é claro que o coração emocional do QP Balancier continua a ser o órgão regulador inclinado a 30 graus, assinatura técnica e visual da manufatura. A presença do grande balanço suspenso em relevo não é um mero gesto identitário: é a reafirmação de que, para a Greubel Forsey, alta complicação e alta cronometria são indissociáveis. O calendário perpétuo poderia, por si só, justificar a existência do relógio; contudo, a marca insiste em colocar no centro do palco a performance de marcha, o espetáculo cinético do volante inclinado e a obsessão pelo isocronismo que sempre distinguiu Robert Greubel e Stephen Forsey. Os duplos tambores de corda, com 72 horas de autonomia cronometricamente estáveis, reforçam essa ideia de reserva útil e não meramente nominal.

Dimensões consideráveis mas adequadas à complicação/função do QP Balancier da Greubel Forsey | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo
Dimensões consideráveis mas adequadas à complicação/função do QP Balancier da Greubel Forsey | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Depois há o acabamento — domínio onde a Greubel Forsey deixa de competir e simplesmente define a fasquia. Os 612 componentes não são apenas um número; são obsessivamente acabados à mão ao nível microscópico. Chanfros polidos, superfícies granulares, flancos retos, polimentos negros e chatons em ouro não surgem como ornamento, mas como linguagem moral da manufatura. No QP Balancier, a decoração não mascara a mecânica: revela a dignidade de cada peça, mesmo das que não se vêem. É um objeto cuja contemplação recompensa a lupa, a macrofotografia e, sobretudo, o tempo. Talvez seja esse o luxo último do QP Balancier: exigir apreciação demorada num mundo de consumo instantâneo.

É fascinante perceber como representa a fase atual da Greubel Forsey. Num momento em que a marca tem vindo a encerrar capítulos importantes do seu catálogo e a reposicionar-se em torno de peças mais raras e mais escultóricas, o QP Balancier surge quase como um manifesto. Afirma o que significa, nos tempos modernos, um relógio de alta complicação no topo absoluto da relojoaria independente. Não é um relógio sobre nostalgia ou virtuosismo gratuito. É sobre resolver um problema centenário — a fragilidade prática do calendário perpétuo — com uma resposta que só poderia nascer de uma manufatura de topo.

Foco nas indicações imediatas de calendário do QP Balancier | Foto: Greubel Forsey
Foco nas indicações imediatas de calendário do QP Balancier | Foto: Greubel Forsey

O QP Balancier é um dos raríssimos relógios recentes que consegue ser simultaneamente avanço funcional, obra escultórica e tese filosófica sobre uma alta complicação mecânica útil e utilizavel. Muitos calendários perpétuos impressionam; poucos mudam a própria definição do que um calendário perpétuo pode ser. O QP Balancier, herdeiro do histórico QP à Equation de 2015, muda. O volume de informação é excecional; a legibilidade é excelente. E, apesar da sua complexidade mecânica, o QP Balancier é ajustado com uma única coroa — em ambas as direções, sem risco de danificar o mecanismo. O sistema foi concebido desde a sua conceção para que a complexidade de construção nunca se traduzisse em dificuldade de utilização. E fica muito bem no pulso… por 490 francos suíços.

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