Nivada Grenchen e o Autochron perdido dos anos 70

No ano em que celebra o seu centenário, a Nivada Grenchen continua a revisitar alguns dos capítulos mais interessantes da sua história. E (re)apresenta um alegre cronógrafo disponível na tradicional versão automática e na acessível versão meca-quartzo.

A influência dos anos 70 na relojoaria contemporânea tem duas vertentes completamente distintas. Uma está relacionada com o design integrado e a sua aplicação em relógios de bracelete metálica normalmente monocromáticos, hoje em dia uma tipologia extremamente popular assente em lendários modelos como o Royal Oak, o Nautilus, o Ingenieur, o Laureato e todos os sucedâneos. A outra tem a ver com a explosão pluricromática que então se verificou em modelos mais desportivos, na sua grande maioria cronógrafos. Deve-se acrescentar também que a década ficou marcada pela popularização dos cronógrafos automáticos e pela eclosão do quartzo, que a partir da segunda metade da década quase arruinou a indústria relojoeira tradicional.

Chronosport | Foto: Nivada Grenchen
O Autochron foi originalmente relançado em 2024 sob o nome Chronosport | Foto: Nivada Grenchen

É nesse contexto que se explica o Autochron, da Nivada Grenchen — uma das muitas marcas que desapareceram ou entraram em hibernação nesse tão difícil período para a relojoaria mecânica. A Nivada Grenchen renasceu há cerca de uma década e, após recuperar várias referências emblemáticas do seu arquivo, virou a sua atenção para um modelo praticamente desconhecido do grande público: um cronógrafo de inspiração automobilística que nunca chegou a ser comercializado durante a década de 1970… mas que permaneceu durante décadas como uma espécie de lenda entre colecionadores.

relógio em mesa Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
A aura vintage e muito 70s do Autochron Automatic | Foto: Nivada Grenchen

A história desse cronógrafo, originalmente identificado como Chronosport e agora rebaptizado Autochron, é particularmente invulgar e já a abordamos por aqui há dois anos. No início da década de 70, a Nivada Grenchen desenvolveu um protótipo de cronógrafo desportivo do qual terão sido produzidos apenas cerca de vinte exemplares. Por razões que permanecem pouco claras, o projeto nunca passou à fase de produção regular, acabando por desaparecer dos catálogos da marca antes mesmo de chegar ao mercado. Durante muitos anos, o relógio foi praticamente um mito, conhecido apenas por um reduzido círculo de colecionadores especializados.

‘Even better than the real thing’

O renascimento começou de forma quase acidental. Guillaume Laidet, responsável pelo relançamento contemporâneo da Nivada Grenchen (também tomou conta da Vulcain e de outros projetos), descobriu um desses raríssimos exemplares num site de leilões e partilhou imediatamente as imagens com a comunidade de entusiastas da marca. A reação foi imediata: muitos colecionadores manifestaram o desejo de ver aquele cronógrafo esquecido regressar à produção. O entusiasmo acabou por convencer a Nivada Grenchen a transformar um projeto nunca concretizado num novo modelo de catálogo.

Chronosport | Foto: Nivada Grenchen
A primeira reedição do Chronosport que deu origem ao Autochron | Foto: Nivada Grenchen

Depois de uma primeira experiência em 2024 concretizada através de uma versão automática e meio século depois do original, o Autochron regressa agora totalmente repensado e numa linha propriamente dita, respeitando de forma notável a identidade estética do protótipo original. E, para satisfazer aficionados de todas as bolsas, a marca de Grenchen optou por disponibilizar duas interpretações distintas: uma equipada com movimento meca-quartzo, privilegiando robustez, precisão e um preço particularmente competitivo, e outra dotada de um cronógrafo mecânico automático, destinada aos puristas que procuram a experiência tradicional da relojoaria mecânica.

cinco relógios Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
As cinco variantes do Autochron que entram na coleção | Foto: Nivada Grenchen

A nova família Autochron estreia quatro versões meca-quartzo (Blue, Orange, Panda e Reverse Panda), cada qual com uma personalidade muito própria. A versão Blue aposta num mostrador azul mate texturado; a Orange conjuga um mostrador com um expressivo degradé alaranjado inspirado no universo das pistas; já as versões Panda e Reverse Panda recorrem ao clássico contraste entre preton e branco nos mostradores e contadores, recuperando uma das linguagens estéticas mais emblemáticas dos cronógrafos de competição.

no puslo ao volante relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
No pulso: o Autochron Automatic Orange | Foto: Nivada Grenchen

A esse quarteto junta-se o Autochron Automatic Orange, a interpretação mais mecânica e sofisticada da coleção. Mantendo o mesmo espírito inspirado nos automóveis de competição dos anos 70, distingue-se por um mostrador assimétrico com apenas dois submostradores contrastantes; o mostrador com efeito fumé alaranjado e índices aplicados revestidos com Super-LumiNova confere-lhe uma presença visual mais técnica e contemporânea.

Motorização distinta

Apesar das diferentes motorizações, todos os modelos partilham os elementos que fizeram do protótipo original uma peça tão apelativa. A caixa em aço inoxidável 316L mantém um diâmetro contido de 38 milímetros, acompanhado por mostradores de forte personalidade, escala taquimétrica e uma linguagem gráfica profundamente enraizada nos cronógrafos de competição da década de 1970. A nova geração introduz ainda uma luneta rotativa de 120 cliques, proporcionando um funcionamento mais preciso e uma utilização mais satisfatória, enquanto a inscrição ‘660 ft = 200 m’ reforça o carácter utilitário do relógio e presta homenagem às convenções estéticas da época.

fundo de relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
O fundo fechado do Autochron | Foto: Nivada Grenchen

A distinção entre as duas famílias da nova coleção encontra-se naturalmente no seu interior. As versões meca-quartzo recorrem ao conhecido calibre Seiko VK67, uma solução híbrida que combina a precisão de um movimento de quartzo com uma arquitetura de cronógrafo concebida para reproduzir a sensação de funcionamento de um mecanismo mecânico. O ponteiro central do cronógrafo mede intervalos de um quinto de segundo, sendo complementado por contadores dedicados aos minutos e às horas, pequenos segundos permanentes e janela de data. O movimento apresenta uma precisão aproximada de ±20 segundos por mês e uma autonomia de cerca de três anos, constituindo uma opção particularmente interessante para quem privilegia facilidade de utilização e custos de manutenção reduzidos.

relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
O Autochron Automatic Orange com movimento de corda automática | Foto: Nivada Grenchen

No topo da gama encontra-se o Autochron Automatic Orange, equipado com um dos movimentos de cronógrafo mais emblemáticos da relojoaria contemporânea: o Valjoux 7750. A escolha não poderia ser mais apropriada para um relógio que presta homenagem aos cronógrafos de competição dos anos 70. Com frequência de 28.800 alternâncias por hora (4 Hz) e uma reserva de marcha de aproximadamente 48 horas, o histórico calibre automático oferece a robustez e a fiabilidade que lhe granjearam uma reputação praticamente incontestável ao longo de décadas. O mostrador preto mate com degradé alaranjado e os índices aplicados preenchidos com Super-LumiNova reforçam ainda mais a identidade automobilística desta versão, tornando-a na interpretação mais fiel ao espírito dos grandes cronógrafos de competição da época.

As quatro variantes do Autochron meca-quartzo | Foto: Nivada Grenchen
As quatro variantes do Autochron meca-quartzo | Foto: Nivada Grenchen

Independentemente da motorização escolhida, toda a coleção preserva uma dimensão particularmente equilibrada para os padrões atuais. A caixa em aço inoxidável 316L mantém um diâmetro de 38 milímetros, uma escolha que respeita as proporções do protótipo original e acompanha a atual tendência de regresso a relógios de dimensões mais compactas.

no puslo ao volante relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
O Autochron de mostrador Reverse Panda | Foto: Nivada Grenchen

As versões meca-quartz apresentam 12,65 milímetros de espessura e uma distância lug to lug de 44,3 milímetros, enquanto a versão automática mede 12,75 milímetros sem contabilizar o vidro e 15,20 milímetros incluindo o cristal de safira de perfil duplamente abaulado.

Estilo e cores

A construção evidencia igualmente a vocação desportiva do Autochron. O cristal de safira de dupla curvatura protege o mostrador, enquanto a caixa garante uma estanqueidade de 20 atmosferas (200 metros), um valor pouco habitual num cronógrafo de inspiração vintage e que confirma a intenção da Nivada Grenchen de criar um verdadeiro relógio utilitário, preparado para acompanhar o utilizador muito para além do ambiente automobilístico que lhe serve de inspiração. Até porque uma pitada de cor alegra sempre o espírito!

no puslo ao volante relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
Ao volante: o Autochron de mostrador azul com movimento meca-quartzo | Foto: Nivada Grenchen

No que respeita às opções de utilização, a marca disponibiliza o Autochron com uma bracelete em pele perfurada de inspiração racing, coerente com o espírito da coleção, ou com uma nova bracelete metálica em aço especialmente desenvolvida para o modelo em questão. Algumas versões poderão ainda ser equipadas com braceletes em borracha Tropic, outro apontamento vintage que reforça o carácter descontraído e nostálgico do cronógrafo.

luminescência de relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
A forte luminescência dos ponteiros principais e índices do Autochron | Foto: Nivada Grenchen

O novo Autochron passará a integrar a coleção permanente da Nivada Grenchen a partir de agosto de 2026. No mercado europeu, as versões Autochron Mecaquartz terão um preço recomendado a partir de 550€, independentemente da opção de bracelete; já o Autochron Automatic, equipado com o calibre Valjoux 7750, terá um preço oficial de 2.705€ com bracelete de pele racing preta (mais 176 euros com bracelete em aço).

no puslo ao volante relógio Nivada Grenchen Autochron | Foto: Nivada Grenchen
O Autochron laranja em versão meca-quartzo | Foto: Nivada Grenchen

Ao recuperar um projeto que nunca chegou verdadeiramente a ver a luz do dia, a Nivada Grenchen não se limitou a acrescentar mais uma reedição ao seu catálogo. O Autochron representa antes a concretização tardia de uma ideia interrompida há mais de meio século, preservando o caráter muito próprio de um cronógrafo concebido na era dourada das corridas automóveis e adaptando-o às exigências técnicas e qualitativas da relojoaria contemporânea. E ao gosto de quem continua a apreciar o estilo rétro. Para uma marca que celebra cem anos de história, dificilmente poderia existir uma forma mais simbólica de olhar para o passado enquanto continua a escrever o seu presente.

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