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A Cerca da Vida

Tudo na natureza é belo. Porém, tudo na natureza morre; logo, tudo na natureza é horrível. Este pensamento surgiu numa conversa entre dois amigos que passeavam nos Alpes suíços. Um deles era um reputado psicanalista de então, que levaria consigo, provavelmente, o seu relógio de bolso Carl Suchy & Söhne; o outro, um poeta por essa altura também bastante conhecido. O primeiro era Sigmund Freud; o segundo, Rainer Maria Rilke. A história deste passeio é contada por Freud num texto seu de 1915 intitulado «Sobre a transitoriedade».

O relógio de Freud

Durante o passeio que descrevemos na entrada desta crónica, no bolso de Sigmund Freud, estaria provavelmente o seu Carl Suchy & Söhne. A marca de Carl Suchy era bastante reputada na altura. Este relojoeiro começou por abrir a sua oficina no centro de Praga, após uma viagem pela Suíça e pela Alemanha. Devido aos seus relógios de pêndulo e de parede tecnicamente avançados, teve um crescimento muito rápido, ganhou vários prémios, abriu uma oficina em La Chaux-de-Fonds, na Suíça, e uma loja em Viena de Áustria. Possivelmente, terá sido nesta loja que Freud adquiriu o seu famoso relógio de bolso Carl Suchy & Söhne.

→ Para o poeta, a impossibilidade de apreciar eternamente a natureza retira-lhe valor. Para o psicanalista, a impossibilidade de investimento nas pessoas que perdemos é compensada por um maior investimento em nós próprios, o que não lhes retira valor.

O passeio

O passeio é descrito por Freud da seguinte forma: «Não faz muito tempo, empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno. Um poeta jovem, mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraia disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o Inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e o esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, noutra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade». *

Sigmund Freud por Max Halberstadt (Fonte: Christie's) e Rainer Maria Rilke por Lou Andreas-Salomé.
Sigmund Freud por Max Halberstadt (Fonte: Christie’s) e Rainer Maria Rilke por Lou Andreas-Salomé.

Luto e transitoriedade

A ideia de que o fim das coisas as envia para o nada, tanto nas artes, como na natureza, como nas sensações, é rejeitada por Freud. Parece-lhe ingénuo pensar que a beleza não consegue escapar ao nada e ao poder da destruição. Na natureza, por exemplo, existe uma renovação constante e uma beleza também ela constante. A flor da dama-da-noite (Epiphyllum oxipetalum) dura uma só noite, isso não lhe retira beleza. É precisamente nessa escassez de tempo que reside a beleza das coisas. A flor morre, mas com ela não morre a beleza das flores. Essa transita de flor em flor, em direção ao infinito. É uma beleza infinita, tão infinita como a presença em nós das pessoas que perdemos. Quando alguém que amamos morre, o amor que lhe era dirigido transita para nós e fica connosco até encontrar espontaneamente um novo alvo; é desta forma que se faz um processo de luto. A transitoriedade do amor é, porém, extremamente dolorosa, todos o sabemos.

A conversa com Rilke ocorreu durante o início da Primeira Guerra Mundial, num tempo muito difícil em que a maior parte das pessoas já estava de luto por alguém que tinha perdido em combate. Era por esta razão compreensível a revolta do poeta com o fim das coisas em seu redor. Porém, a preocupação intelectual com o fim das coisas era, na verdade, uma forma de fugir à dor do luto.

Para o poeta, a impossibilidade de apreciar eternamente a natureza retira-lhe valor. Para o psicanalista, a impossibilidade de investimento nas pessoas que perdemos é compensada por um maior investimento em nós próprios, o que não lhes retira valor.

Generations

Há pessoas que nunca deixam de existir dentro de nós. Mesmo após a sua morte, os relógios que sobrevivem aos seus donos recordam-nos disso mesmo. Na campanha Generations, da Patek Philippe, há um slogan acerca deste assunto: «Nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Philippe. Apenas cuidamos dele para a geração seguinte». A transição dos relógios entre gerações permite continuar o espírito da família de uma forma muito especial. Olhamos para um relógio e sabemos que ele, como nós, luta pela vida. Se for resistente, identificamo-nos com a sua resistência; se for preciso, identificamo-nos com a sua precisão, e a sua beleza passa a ser nossa também. Os materiais dos relógios são, contudo, perecíveis. Sabemos que o ciclo de renovações, por mais eficaz que seja o nosso relojoeiro, tem um fim. Por esta razão, quando os relógios são muito antigos usamo-los menos, garantimos apenas o seu funcionamento. É o jogo da eternidade: queremos os melhores relógios, fazemos tudo para que durem para sempre.

Seja de dama-da-noite em dama-da-noite, seja de geração em geração, há alguma coisa que transita. E é aí que reside a beleza de que Freud falava e que Rainer Maria Rilke se recusava a perceber.

Estudo para o modelo Porciama pelo autor, com o contador de gerações às 6h. © Nuno Margalha
Estudo para o modelo Porciama pelo autor, com o contador de gerações às 6h. © Nuno Margalha

O relógio: Porĉiama

Os relógios medem uma das mais belas invenções de sempre, aquela que confere beleza a tudo o que existe, o tempo. A ideia de tempo permite-nos saber que tudo tem um fim, mas também nos permite sonhar com a eternidade. Para manter o mesmo relógio no pulso de todas as futuras gerações, basta substituir e construir novas peças, basta renová-lo. Por esta razão, desta vez, venho sugerir a criação de um relógio eternamente renovável e, como a eternidade da mecânica depende do relojoeiro, para aumentar a segurança de que será eterno, sugiro que seja um relógio com garantia vitalícia multimarca. Todas as marcas teriam peças, conhecimento sobre como as construir, e um compromisso para aceitarem e consertarem estas máquinas, para sempre. Desta forma, estaria conseguida a capacidade de renovação. Porém, o polimento da caixa estaria fora de questão. A história de cada mossa, cada risco, passaria de geração em geração. Sobre o funcionamento, sugiro uma nova complicação, um contador de gerações perpétuo. Seria um mecanismo de calendário, adaptado para contar simplesmente o número de gerações. Para o nome, sugiro uma palavra em Esperanto que significa perpétuo: Porĉiama.

* «Sobre a Transitoriedade». Texto de S. Freud (1916/1915), retirado do vol. XIV das Obras Completas – Ed Imago.

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