Racing Stripes: alistem-se!

Um elemento de estilo vincadamente rétro muito ligado ao automobilismo é o das ‘Racing Stripes’, as famosas listas que tanto se destacavam nos bólides e fatos de pilotos dos Anos Setenta — e que assumem regular protagonismo nos mostradores de marcas relojoeiras associadas ao desporto motorizado.

No rescaldo de mais uma edição das 24 Horas de Le Mans, vale a pena recordar a temática das chamadas Racing Stripes e o seu reaparecimento regular no contexto relojoeiro. Antoine Lavoisier garantia que «na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» — e quase se poderia ajustar a célebre frase do ‘Pai da Química Moderna’ para «na relojoaria nada se cria, nada se perde, tudo se copia»: tal como na moda, as grandes tendências estéticas apresentam uma dinâmica circular que periodicamente reciclam elementos de estilo anteriores.

Steve McQueen e o TAG Heuer Monaco no filme le Mans
Steve McQueen nas filmagens de Le Mans com um Monaco no pulso e as mais famosas Racing Stripes da história do cinema | Foto: cortesia TAG Heuer

Em muitos casos, essa reciclagem é feita para melhor; tem-se visto precisamente isso na recuperação e reutilização de códigos relevantes associados à década de Setenta, que acabou por ser um período prodigioso na história moderna. Basta atender à proliferação quase epidémica de reedições, reinterpretações e interpretações da tipologia do design integrado — nascido precisamente nos Anos 70. As Racing Stripes ganharam fama precisamente nesse período que continua a ser uma inesgotável fonte de inspiração em tantos domínios.

Racing Stripes no Maurice de Mauriac Chrono Modern Grand Prix Zurich
Um cartaz vintage alusivo à competição e o Maurice de Mauriac Chrono Modern Grand Prix Zurich com Racing Stripes nas cores da cidade | Fotos: cortesia Maurice de Mauriac

As listas foram uma marca indelével dos anos 1970 e têm sido recuperadas nos mostradores de relógios especialmente associados aos desportos motorizados. Foi na década de Setenta que a Adidas se tornou numa empresa à escala global e passou a dominar o negócio do equipamento desportivo com as inconfundíveis três bandas que passaram a identificar a marca à distância. E foi nos anos 1970 que se utilizaram com maior insistência as riscas nos carros de corrida.

Um TAG Heuer Autavia Reedition com listas Martini Racing… na bracelete | Foto: Miguel Seabra/ Espiral do Tempo

Desde os bólides vocacionados para circuitos fechados até aos de rali em vias públicas, as Racing Stripes pareciam omnipresentes até nos fatos dos pilotos; paralelamente, nos Estados Unidos o culto dos ‘Muscle Cars’ também atingia o auge, acompanhado de uma pintura caraterizada por duas bandas de tom contrastante. A passagem desses padrões geométricos e cromáticos para os mostradores de relógios mais desportivos acabou por ser natural…

Seguir à risca

As riscas em carros de competição profissional ou amadora receberam adequadamente o cognome de ‘Racing Stripes’ ou mesmo ‘Le Mans Stripes’ – e a sua origem remonta sobretudo à década de 1950, com vários motivos para a sua utilização.

Outra das edições limitadas do Monaco com Racing Stripes nos tons da Gulf | Foto: cortesia TAG Heuer

O principal motivo começou por ser o da identificação: em carros da mesma cor, eram as riscas de tons distintos que faziam a diferença e foi a equipa fundada por Briggs Cunningham que as popularizou em ambos os lados do Atlântico; as listas brancas em fundo azul tornavam a equipa imediatamente reconhecível e Carrol Shelby começou a usar esse tipo de pintura no seu modelo desportivo Cobra, que passou a ser conhecido por ‘Shelby’.

Um Raidillon com listas largas inspirado nos Muscle Cars americanos | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

O Dodge Viper também ficou associado a essa decoração, gerando mesmo a expressão ‘Viper Stripes’. E depois há o Ford Mustang, o Chevrolet Corvette… as listas passaram definitivamente dos carros de competição para as viaturas mais comuns e no presente milénio ficaram muito associadas ao regresso do Mini.

Outra das edições limitadas da TAG Heuer com as cores da Gulf e Racing Stripes num cronógrafo Formula 1 | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

O outro motivo apontado prendia-se com a própria condução, sendo que as linhas no capot ajudariam a alinhar o carro com a pista ou a estrada no campo visual do condutor, especialmente após curvas em velocidade. Entretanto, as listas começaram a ser também colocadas de lado para melhor revelar onde se sentava o piloto.

Maurice de Mauriac Chrono Modern Racing Le Mans Lucky Number | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Há ainda uma outra explicação que remonta ao início do século XX e que tem a ver com a colocação de bandas coloridas nos carros de pilotos novatos para que fossem facilmente identificados pelos mais experientes — diz-se que é daí que nasceu a expressão ‘Earn Your Stripes’, se bem que também esteja associada às listas das patentes militares.

A Raidillon faz construir os seus relógios na Suíça, vários deles com ‘Racing Stripes’ | Foto: cortesia Radillon

As listas nos carros também têm um efeito de ilusão óptica: fazem parecer as viaturas mais rápidas, originando o nome ‘Go Faster Stripes’. E a sua utilização, com origens práticas, acabou depois por se tornar em padrões decorativos de patrocinadores (talvez o mais famoso seja o da Martini Racing) e numa moda apreciada tanto por entusiastas do desporto motorizado como por todos aqueles com um sentido estético mais apurado.

Na hora certa

Tal como as listas na combinação de um piloto acabam por ser o prolongamento da decoração do respetivo carro, também as riscas em determinados mostradores de certas marcas relojoeiras são uma extensão dessa tradição.

A mais recente das edições limitadas do Monaco com as cores da Gulf | Foto: TAG Heuer

Há mesmo edições regulares do Monaco e do Formula 1 com as cores do mítico Porsche 917 Gulf que dominou Le Mans no início da década de Setenta e que o ator americano guiou no filme; várias outras versões especiais do Monaco que adoptaram outras cores e padrões de riscas e o patrocínio ao Automobile Club do Monaco também originou no passado versões listadas do Carrera. A Chopard, mais ocasionalmente, e a Tudor, mais declaradamente nas entretanto extintas linhas Fastrider e Gransport, também recorram a esse exercício de estilo.

Um dos cronógrafos Chopard Mille Miglia lançados este ano no âmbito da parceria da marca com a lendária corrida | Foto: cortesia Chopard

Mas são sobretudo as marcas de nicho ligadas ao universo automóvel que criaram uma ligação estreita aos mostradores com bandas. Como a Maurice de Mauriac e a linha Racing (listas azul claro/laranja ou azul e vermelho). Ou a belga Raidillon, batizada segundo a lendária curva de Spa-Francorchamps e que faz construir os seus relógios na Suíça, vários deles com ‘Racing Stripes’ de lado e outros ao centro segundo a tradição americana. A francesa BRM aproveita a sua ligação oficial à Gulf para usar as famosas cores azul e laranja nas riscas. 

A marca belga Raidillon está intimamente ligada a Spa-Francorchamps e às corridas | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

E depois há modelos que surgem de modo mais avulso nas respetivas coleções — como por exemplo o P3-3 (alcunhado ‘Big Block’) da SevenFriday, notoriamente inspirado nos ‘Muscle Cars’ americanos. Os ‘Muscle Cars’ conseguem capturar o imaginário dos aficionados porque, para além da velocidade, estão associados a aventuras hollywoodescas, aos grandes outdoors americanos e a uma certa rebeldia; a Breitling investiu muito nesse imaginário com a criação recente de uma coleção cápsula que presta homenagem a vários ícones motorizados dos Estados Unidos.

O Big Block da SevenFriday homenageia os Muscle Cars americanos | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Para concluir: alistem-se voluntariamente, porque vale sempre a pena ter um relógio com Racing Stripes no mostrador! 

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