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Receita para criar uma marca de relógios

Segundo as Nações Unidas somos 8 mil milhões no planeta. Alguns destes 8 mil milhões coleccionam relógios e alguns destes coleccionadores têm o desejo de criar a sua marca de relógios, contudo, muito poucos dão o primeiro passo. Para dar o primeiro passo é preciso coragem. Esta é uma receita para criar a coragem necessária para deixar a sua marca no Mundo.

As receitas são frequentemente alvo de opiniões bastante vincadas. Sejam culinárias, médicas ou financeiras. Todos já ouvimos discussões acerca do melhor arroz doce, do que ia pela cabeça do médico quando prescreveu aquela receita ou acerca da receita do Estado. Pode dizer-se que há boas e más receitas, mas também se deve ter em conta que há bons e maus cozinheiros, médicos ou financeiros, ou ainda, que há bons e maus produtos. Acertar com a combinação certa das imensas variáveis disponíveis pode parecer tarefa destinada ao acaso. Se estamos então a lidar com opiniões de pessoas, pode-se mesmo entregar a previsão do resultado ao caos absoluto. Somos impotentes para prever com certeza absoluta o resultado de uma receita. Quando criamos uma marca de relógios, que implica muito do nosso tempo, e muitos dos nossos recursos, esta imprevisibilidade pode ser ainda mais assustadora. O medo é absolutamente legítimo e cumpre a importante função de nos defender dos perigos. Sentimos medo principalmente do desconhecido. Em crianças temos medo do escuro, mas nunca da luz, temos medo dos cães dos outros, mas nunca dos nossos, temos medo do que pode acontecer, mas nunca do que já aconteceu. É seguro dizer que o medo surge apenas na ausência de conhecimento. O segredo está mesmo no conhecimento. No conhecimento do mundo e no conhecimento de si próprio. Por isso estude esta receita ao pormenor, e depois critique-a, vinque a sua opinião. No final, se ainda sentir que não tem conhecimento suficiente para dar o primeiro passo, faça o que todos os bons empreendedores fazem, ganhe coragem e arrisque.

Isotope Old Radium Bronze Pilot
Isotope Old Radium Bronze Pilot | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Primeiro passo – Criar um plano de negócios

A construção de uma marca pode começar por delinear um plano de negócios, o que poderá ser uma ferramenta muito útil. Para saber como se deve construir um bom plano de negócios e que tipos de empresas se ajustam às nossas necessidades, fomos falar com o Dr. Miguel Arromba, advogado especialista em registo de marcas e patentes, que nos esclareceu que «um Plano de Negócios é uma base fundamental para estruturar uma nova ideia de negócios, deve centrar-se nas áreas a desenvolver, definir muito bem a alocação dos recursos disponíveis por forma a prevenir da melhor forma possível os problemas inevitáveis e concretizar da melhor forma a ideia que se pretende implementar.» Recomendou também uma visita ao site do IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas Industriais, para consulta do Guia Explicativo sobre como criar um plano de negócios.

Callisto Silver Ice
Callisto Silver Ice | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Segundo passo – Criar uma empresa

Este é um passo que detalhamos bastante , apresentamos os tipos de empresa e os custos inerentes. Trata-se principalmente de encontrar a melhor forma de facturar os produtos vendidos. Vamos conhecer de um modo geral as diferenças entre os tipos de sociedades mais adequadas, tal como os custos associados à constituição de uma empresa.

Empresário em Nome Individual – é constituída por uma pessoa. Para iniciar atividade, deverá preencher a declaração de início de atividade numa repartição local ou através do Portal das Finanças e fazer o respetivo enquadramento na Segurança Social.

Embora pareça estranho é também possível criar sociedades unipessoais por quotas:

Sociedade Unipessoal por Quotas – é uma empresa que tem um único sócio. É obrigatório que a firma tenha na sua denominação a expressão “Sociedade Unipessoal” ou Unipessoal antes da palavra limitada ou Lda. O montante do capital social é livremente fixado no contrato de sociedade, com o limite mínimo de 1,00€.

Se a opção passar por incluir mais do que uma pessoa no projecto então existem várias opções, a mais comum será a:

Sociedade por Quotas – constituída por um mínimo de 2 sócios. À denominação da firma deve ser acrescentado “Limitada” ou “Lda.”.

Com uma diferença muito significativa no valor do Capital Social, existe a:

Sociedade Anónima – constituída com um mínimo de 5 sócios, sendo o capital social mínimo de 50.000,00€, tendo as ações um valor nominal mínimo de 1 euro. A denominação da firma deve constar a expressão Sociedade Anónima ou S.A..

Este tipo de sociedades pode ser criada através da Empresa Online ou presencialmente nos balcões da Empresa na Hora. Deve ter em conta que através do serviço Empresa na Hora não é possível escolher o nome da empresa, este é seleccionado entre os disponíveis. Se pretender um nome criado por si, pode igualmente usar o serviço Empresa Online.

Destacamos ainda as EIRL (Entidades Individuais de responsabilidade limitada) sociedades em comandita e sociedades em nome coletivo, as quais optámos por não explorar não só por terem caído em desuso, como também por serem visivelmente mais desvantajosas quanto ao património pessoal dos seus sócios.

Quanto aos custos associados ficámos a saber que o custo de criação de uma empresa, com recurso ao serviço da Empresa na Hora, varia entre os 220€ e os 360€, em 2022, consoante o tipo de pacto social da empresa a constituir.

Contar MK I
Contar MK I | © Contar

Terceiro passo – Registo da marca

É possível criar marcas mundiais (1 país específico) na WIPO, europeias (27 países) na Euipo, ou nacionais no INPl. Vamos focar-nos nas nacionais. O registo é feito através do portal do INPI, em: https://inpi.justica.gov.pt.

O registo de uma marca com uma classe de produtos ou serviços tem o valor de 100€, por cada classe adicional o valor aumenta 44€. Estes são os valores para quando o pedido está associado à criação de uma empresa, os pedidos avulso custam 129,08€. O registo pode ser Nominativo, Figurativo, Sinal Figurativo com elementos verbais, ou Tridimensional.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ numa mesa com ferramentas relojoeiras
Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ | © Isotope

Consultámos novamente o Dr. Miguel Arromba para perceber como decorre o processo de criação de uma marca, que nos indicou que, ao longo do processo se deve confirmar que o registo da marca não está em conflito com outra marca já registada, para esse efeito o INPI disponibiliza algumas ferramentas. Feito o pedido, passado não mais que uma semana, este é publicado no Boletim da Propriedade Industrial. É então aberto um prazo de dois meses para que terceiros que entendam que este está em conflito com as suas marcas possam deduzir oposição ao registo mediante reclamação. Se reclamar, o requerente do pedido pode contestar a reclamação no prazo de dois meses. Após a fase de publicação, o pedido de registo é alvo de exame pelo INPI o que demora sensivelmente um mês. Se a marca for concedida, segue-se um despacho de concessão. Se não for concedida, segue-se um despacho de recusa provisória. É possível dar resposta à recusa provisória e aguardar despacho de recusa ou de concessão após essa resposta. É um processo que demora cerca de três meses se a marca não entrar em conflito com outra já existente, caso isso aconteça, cerca de sete meses se houver uma reclamação com resolução simples, ou mais do que um ano se houver um recurso para o tribunal da propriedade intelectual. Por esta razão deve ser um processo iniciado o mais cedo possível, de preferência com a criação da própria empresa. É também de salientar que o registo da marca não implica uma vigilância de registos semelhantes, já que esse trabalho pode ser feito pelo próprio ou delegado a uma firma de profissionais na qual se destacam os agentes oficiais de propriedade industrial.

Borealis Bull Shark V2
Borealis Bull Shark V2 | Foto cedida por IPR

Quarto passo – O primeiro relógio

Enquanto toda a estrutura burocrática decorre é sempre possível iniciar os passos seguintes. A criação do primeiro relógio será a fase mais prazerosa do processo. Muitas marcas optam por manter uma linha condutora forte entre a história da marca e todos os relógios produzidos. As marcas mais recentes optam muitas vezes por valorizar a inovação, especialmente através da introdução de novos materiais e da combinação de pequenas complicações. É importante que todo o relógio esteja em consonância com o espírito da marca, da qualidade dos materiais ao formato da caixa, passando pela correia.

O movimento

Os movimentos mais reputados continuam a ser os suíços, seguidos dos japoneses. Os movimentos chineses são frequentemente associados a menor qualidade. Este é um ponto de crescente divergência, recentemente surgiram relógios com movimentos chineses, como o da Studio Underdøg, e naturalmente qualquer amante da Grand Seiko vai sempre discordar acerca da ordem de reputação aqui apresentada.

É possível encontrar fornecedores de movimentos em todos estes países. As marcas portuguesas optaram, até ao momento, geralmente, por movimentos suíços como os ETA, Sellita, Landeron, ou japoneses como os Miyota, ou Seiko. A diferença de preços entre os primeiros e os segundos é substancial. Por vezes pode ser necessário fazer algumas alterações aos movimentos para acrescentar módulos de complicações específicas, ou simplesmente para fazer acabamentos melhores ou personalizados. Caso se opte por um fundo transparente é mesmo melhor ter em conta o aspecto do movimento. A escolha do mecanismo deve considerar, antes de mais, o tipo de relógio a ser criado, as suas possíveis utilizações, e o tipo de serviço pós-venda que se pretende oferecer, os movimentos de melhor qualidade são mais seguros a longo prazo.

Exímio Doctor's Watch
Exímio Doctor’s Watch | © Exímio

O design

Esta é possivelmente a etapa do processo mais ligada com o sucesso do relógio e da própria marca. Os relógios perderam muito do seu protagonismo na vida profissional e enquanto instrumentos práticos, passaram a ser considerados principalmente jóias e peças artísticas. Actualmente o design é um dos principais critérios na escolha de um relógio e as opiniões acerca do melhor aspecto variam com bastante frequência. Ultimamente as cores têm sido mais predominantes do que nos últimos anos, surgiram bastantes relógios com mostradores de cores mais fortes, e com mais aventuras de estilo. É altamente recomendável que o aspecto do relógio seja completamente consonante com a história e o espírito da marca, deve permitir que num relance se identifique imediatamente a marca. Para esta etapa pode ser uma mais-valia contratar um designer com experiência em relojoaria, pois pode dar-se o caso da opinião do criador da marca acerca do que é um relógio muito agradável à vista, não ser partilhada com a maioria dos clientes finais. Hoje em dia é possível e não muito difícil ter no pulso uma versão do relógio impresso em 3D, por forma a perceber como o design funciona num pulso, fora do computador. Esta será a primeira altura em que a ideia ganha uma forma física, é um momento muito especial. Assim que todos os aspectos do movimento e do design estiverem bem definidos é possível ter finalmente os primeiros protótipos. Esta fase é muito importante e não se deve ter medo de fazer as alterações necessárias, o que interessa é ter um bom produto final. José Miranda, fundador da marca de relógios Isotope, refere que os protótipos podem ajudar a financiar a produção dos relógios, uma vez que permitem não só detectar problemas como também despertar o interesse de potenciais clientes e, por fim, são muito importantes para a imprensa especializada.

O design do relógio pode terminar com a correcção final do protótipo, mas é ainda necessário definir muitos pormenores como a correia, a caixa, ou mesmo a embalagem.

Fundo de caixa do Borealis Bull Shark V2
Fundo de caixa do Borealis Bull Shark V2 | Foto cedida por IPR

A assemblagem

Após ter escolhido todos os elementos do relógio e ter a garantia de que são compatíveis, é importante garantir que temos um serviço de assemblagem eficaz e acessível. Mais uma vez estes serviços podem ser contratados na Suíça, Japão e China, entre outros. Porém, este é claramente um serviço que muitas oficinas de relojoaria portuguesas podem oferecer.

Caixas e envio

Após a assemblagem resta definir como se vão colocar os relógios nas caixas e como se vão proteger no envio. José Miranda, da Isotope, recomenda que se negoceie um acordo com uma transportadora de confiança, mesmo que essa seja uma opção mais dispendiosa. Acrescenta que as transportadoras mais reputadas têm mais taxas de sucesso na entrega e que, mesmo sendo mais caras, acabam por sair mais baratas, visto que perder um relógio implica perder muito tempo e dinheiro.

Exímio Farey MkIII
Exímio Farey MkIII | © Exímio

Divulgação

A divulgação é uma das fases mais importantes. É altamente recomendável fazer um site que pode ser apenas de apresentação, se se optar por colaborar com distribuidores, ou de apresentação e venda directa. Este é o principal elemento de divulgação. Aqui deve seguir-se uma estratégia de comunicação bem delineada, há várias empresas que prestam estes serviços. Muitas marcas optam por recorrer a artigos pagos em blogues conhecidos, ou em comprar a participação em podcasts de relojoaria. Restam os canais naturais como a publicidade directa nos motores de pesquisa, em revistas de relojoaria, entre outros. A apresentação em eventos organizados para colecionadores é igualmente uma boa opção.

Callisto Monochrome Ion Black e Callisto Halfmoon de lado com destaque para a coroa e o pormenor de uma meia lua
Meia Lua Callisto Monochrome Ion Black e pormenor na coroa do Callisto Halfmoon | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Pós-venda

Os serviços de pós-venda garantem que os clientes se mantêm satisfeitos e que permanecem fiéis à marca durante muito tempo. É possível e não muito complicado montar uma rede de serviços em vários países, basta criar acordos com várias oficinas de relojoaria que se tornam centros de assistência técnica. É igualmente muito importante garantir um bom atendimento ao cliente para as mais variadas situações que possam ocorrer.

Agradecimentos: Miguel Arromba, José Miranda, Lourenço Salgueiro

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