Relógios com vocação: à prova de explorador

EdT51 — Os relógios mecânicos contemporâneos estão repletos de soluções técnicas que fazem frente às condições de utilização mais adversas. Convém saber quais são e para que servem, caso o leitor deseje soltar o explorador que há em si.

Texto publicado no número 51 da Espiral do Tempo.

Grandes exploradores do passado, como David Livingston, Roald Amundsen ou Sir Edmund Hillary, tiveram, em determinado momento das suas viagens, de enfrentar condições extremas para as quais os relógios que transportavam estavam tecnicamente mal preparados. Hoje, o explorador moderno, quer se movimente na orla do espaço, como Felix Baumgartner, nas regiões geladas dos polos, como Sir Ranulph Fiennes, quer no topo dos 14 picos mais altos do Planeta, como o nosso extraordinário João Garcia, tem necessidade de recorrer a relógios com argumentos técnicos à altura dos desafios que enfrenta.

No final, apenas se espera que — apesar das temperaturas, profundidades e condições extremas a que pulseiras, caixas e vidros são sujeitos — os relógios destes heróis da era moderna mantenham a função vital a que foram destinados: a medição precisa do tempo que passa. Enfrentar os extremos que as viagens de exploração colocam hoje na rota destes aventureiros requer, pois, soluções técnicas para as quais a relojoaria suíça tem vindo a desenvolver medidas cuja eficácia é posta à prova todos os dias.


Lubrificação

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Master Compressor Extreme LAB 2, edição de 2013, Ref. Q203T540 © Jaeger-LeCoultre
| Foto de abertura: Nenhum dos componentes do calibre que equipa o Master Compressor Extreme LAB 2 requer lubrificação. © Jaeger-LeCoultre

E um dos desafios que, desde há décadas, tem afrontado as mais importantes manufaturas helvéticas relaciona-se com a necessidade de lubrificação que a esmagadora maioria dos relógios mecânicos de hoje ainda exige. A possibilidade de reduzir ou mesmo eliminar a fricção entre elementos importantes de um relógio, como o conjunto composto por roda de escape e âncora, tem sido, desde sempre, um dos maiores desafios que a relojoaria tem enfrentado e cuja concretização prometia, entre outras vantagens, intervalos de manutenção prolongados ou mesmo inexistentes.

Particularmente em ambientes exigentes onde as amplitudes térmicas são extremas, o comportamento dos óleos usados na relojoaria pode condicionar o bom funcionamento de um relógio mecânico. É que tanto o calor como a exposição a temperaturas negativas alteram as propriedades dos óleos lubrificantes com particular incidência na sua viscosidade.

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Master Compressor Extreme LAB 2, Calibre 780 © Jaeger-LeCoultre

Um problema que a Jaeger-LeCoultre abordou de forma exemplar com o Master Compressor Extreme LAB, em 2007, e, novamente, com o Master Compressor Extreme LAB 2, que lhe sucedeu em 2013. É que nenhum dos 569 componentes do Calibre 780 de corda automática e mecanismo de cronógrafo integrado que equipa este último modelo requer lubrificação. Uma façanha técnica alcançada através do uso de componentes construídos à base de silício e cerâmica. Será então este o relógio ideal para uma travessia do deserto ou uma excursão a uma qualquer estação polar? Uma coisa é certa: a precisão com que o Extreme LAB 2 irá medir o tempo nestas temperaturas extremas está garantida.


Resistência aos impactos

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Rolex Oyster Perpetual GMT-Master II ‘Pepsi’ © Rolex/Alain Costa

Um outro desafio que sempre preocupou aqueles que se deixam seduzir pela aventura é a capacidade de os relógios — e, consequentemente, as suas caixas — suportarem os diversos impactos a que estão invariavelmente sujeitos durante estas longas viagens de exploração. Mais uma vez, o Master Compressor Extreme LAB 2 propõe uma solução simultaneamente resistente e leve. Com uma caixa construída à base de uma liga especial de titânio e vanádio, a Jaeger-LeCoultre propõe um material 15% mais resistente à abrasão do que o titânio tradicional. Conhecido como TiVan15, a liga especial é uma ajuda preciosa quando se trata de manter o movimento mecânico protegido das agressões exteriores.

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Luneta de Cerachrom, Rolex Oyster Perpetual GMT-Master II © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Entre os elementos mais expostos da caixa, e que consequentemente sofrem sempre mais com quaisquer impactos, está o bisel, rotativo ou não, que habitualmente contorna o cristal de safira de um relógio desportivo. No caso do Rolex GMT-Master II, este elemento é composto por um material cerâmico, batizado de Cerachrom. Após ser aquecido a 1500 ºC, este material endurece e purifica a cerâmica de maneira a dar-lhe uma resistência excecional, deixando-a virtualmente indestrutível.


Campos magnéticos

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IWC Ingenieur Automatic AMG Black Series Ceramic. © IWC
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A Gaiola de Faraday do Ingenieur da IWC.

Um outro extremo a que um relógio mecânico pode estar sujeito talvez não preocupe de sobremaneira o intrépido explorador do nosso tempo, mas tem preocupado de forma séria, nos último anos, muitas manufaturas. A influência negativa que os campos magnéticos exercem sobre os movimentos mecânicos tem dado origem a soluções técnicas eficazes. A linha Ingenieur da IWC integra uma dessas soluções, na forma da Gaiola de Faraday. A solução é, essencialmente, uma caixa interna em ferro macio capaz de desviar os campos magnéticos do movimento que protege.

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Rolex Oyster Perpetual Milgauss © Rolex/Alain Costa

A mesma solução é proposta pela Rolex no célebre Milgauss, embora aqui a marca suíça tenha optado por acrescentar uma espiral Parachrom em silício e outros componentes em materiais não ferrosos ao movimento. Assim, melhorou ainda mais a sua capacidade de resistir à ação dos campos magnéticos que nos rodeiam e que são cada vez mais numerosos. Mas, neste campo, a última palavra pertence à Omega que, em 2013, estreou o calibre 8508. Este calibre é integralmente construído à base de materiais não ferrosos e é capaz de suportar campos magnéticos de até 15 000 gauss de intensidade. Esta tecnologia, apelidada Master, e que não recorre à clássica Gaiola de Faraday, deverá abranger toda a coleção Co-Axial da manufatura nos próximos anos.

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O escape coaxial do calibre 9300 da Omega, nova geração integrada num conjunto em silício. © Omega


Estanqueidade

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Rolex Oyster Perpetual Sea-Dweller 4000 © Rolex/Alain Costa

Para um ambiente não menos fascinante, e também não menos hostil, o explorador moderno requer soluções técnicas que exigem ainda mais das manufaturas relojoeiras. É o caso dos oceanos e da exploração dos seus abismos, onde o Rolex Submariner se tornou uma ferramenta indispensável para o mergulhador de grandes profundidades. Uma atividade que, quando se faz recurso dos famosos sinos ou câmaras de mergulho com atmosfera saturada de hélio, não dispensa a utilização de relógios equipados com válvulas de escape. Os Submariner e Sea-Dweller da Rolex foram pioneiros neste campo ao integrarem esta solução técnica nos anos 60 e desde então. A função desta válvula é a de poder deixar escapar os átomos de hélio que, por serem de menor dimensão, penetraram na caixa através dos vedantes quando o mergulhador estava na câmara de mergulho. De regresso à superfície, e durante a descompressão, estes mesmos átomos de hélio utilizam a válvula de escape para se escaparem para o exterior, evitando que o vidro do relógio salte por via da pressão acumulada.

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Jaeger-LeCoultre Master Compressor Diving Pro Geographic Navy SEALs. © Espiral do Tempo Studio

Equipamento vital para exploradores subaquáticos como o saudoso Jacques Cousteau, o relógio mecânico de mergulho acrescentou nos últimos anos à sua capacidade de se manter estanque e cronometrar o tempo de imersão a função de medir a profundidade. O Jaeger-LeCoultre Master Compressor Diving Pro inclui um profundímetro mecânico patenteado na lateral da caixa, capaz de medir mergulhos de até 80 metros de profundidade para o que recorre a uma membrana sensível às mudanças de pressão da água. Esta membrana, que contém um gás sensível às variações de pressão, comanda a indicação analógica de profundidade do Master Compressor Diving Pro legível sobre o mostrador.

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O profundímetro do Jaeger-LeCoultre Master Compressor Diving Pro Geographic Navy SEALs.


Nos ares

Finalmente, o ar, aquele outro universo que tem vindo a estimular os exploradores desde o advento do balonismo com Bartolomeu de Gusmão e os primeiros ensaios no campo da aviação pelos irmãos Wright. Também aqui a precisão e a fiabilidade dos relógios de piloto marcaram posição, tornando-se num equipamento essencial de aventureiros como Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Santos Dumont ou Amelia Earhart.

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Oris Big Crown ProPilot Altimeter. © Oris

E, neste campo, além da indispensável capacidade de marcar o tempo com precisão, a integração de um altímetro é uma ferramenta que hoje apenas poucos relógio contemplam. O Oris Big Crown ProPilot Altimeter é o primeiro relógio de pulso a integrar um altímetro mecânico funcional graduado em pés e comandado por um barómetro aneróide montado entre o movimento e o mostrador.

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O altimetro do Oris Big Crown ProPilot Altimeter.

O sistema consiste numa pequena cápsula hermética com um diafragma metálico flexível que encerra uma pequena quantidade de ar no seu interior. A câmara comprime-se quando a pressão aumenta e expande-se quando a pressão diminui, sendo estes movimentos transmitidos a um ponteiro que evolui sobre uma escala sobre um mostrador. Como a pressão do ar diminui com a altitude, o sistema permite saber a altitude aproximada do explorador dos céus.

Resta a última fronteira, o espaço. O ambiente mais hostil e exigente de todos e onde poucos medidores do tempo se aventuraram. Irá a relojoaria mecânica desenvolver soluções especificas para fazer face aos desafios que se escondem para lá da atmosfera terrestre? Os novos exploradores serão certamente os primeiros a saber. ET_simb

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