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Officine Panerai: do mito à manufatura

Em Neuchâtel | Mergulhando na sua história marítima, a Officine Panerai ressurgiu em força na década de 90 e foi fundamental tanto para a moda dos relógios sobredimensionados como para a instauração do estilo neo-vintage. Saiu do nicho dos aficionados puros e ganhou fama mundial sem perder um carácter exclusivo. Hoje em dia, é muito mais do que uma marca de culto de inspiração rétro-militar: é uma manufatura integrada com tecnologia de ponta.

Nasceu em 1860 como um pequeno negócio familiar dirigido por Giovanni Panerai, que comercializava e reparava relógios na Ponte alle Grazie, em Florença. Atualmente, é uma marca de culto à escala global, com uma produção própria praticamente integrada numa manufatura de última geração em Neuchâtel. A caminho do seu 160.º aniversário, a Officine Panerai contribuiu decisivamente ao longo das últimas duas décadas e meia para o estabelecimento da chamada relojoaria contemporânea — mas com raízes profundamente históricas e até politicamente complexas.

Alguns dos mais marcantes modelos ao longo da história da Officine Panerai, partindo dos primeiros protótipos do modelo Radiomir em 1936. © Panerai
Alguns dos mais marcantes modelos ao longo da história da Officine Panerai, partindo dos primeiros protótipos do modelo Radiomir em 1936. © Panerai

Se foi a Primeira Guerra Mundial que tornou socialmente aceitáveis os relógios de pulso, até então confinados a alguns pulsos femininos, a Segunda Guerra Mundial massificou essa adesão ao pulso devido a imperativos práticos; ao longo da década de 30, assistiu-se a um recrudescimento da atividade militar na Europa e a evolução da instrumentação passou a ser acompanhada de relógios à altura, nomeadamente enormes modelos de mostrador preto em sanduíche e indicadores luminosos radioativos para poderem ser lidos em situações precárias de luz. Várias marcas apresentaram variantes de aviador e algumas assinaram contratos governamentais para equipar as forças aéreas. Em Itália, o ditador Benito Mussolini foi em sentido inverso: em 1936, encomendou à firma da família Panerai um modelo para a marinha que fosse dotado de uma grande capacidade estanque e ótima legibilidade nas águas mais turvas. Os primeiros protótipos Radiomir apresentavam então uma luminescência patenteada em 1916 e uma caixa com 47 mm de diâmetro, começando a produção dois anos mais tarde. O Mare Nostrum surgiria em 1943. O Luminor, em 1950, e o monumental Egiziano (60 mm), em 1957.
Os relógios Panerai celebrizaram-se por equipar mergulhadores italianos que se sentavam em torpedos submarinos para colocar cargas explosivas nos cascos dos barcos aliados, provocando pesadas perdas materiais e humanas (um aspeto que a marca prefere nunca abordar) às forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. A fama entre colecionadores do estilo militar levou à recuperação do conceito Panerai em 1993 com três reedições — Luminor, Luminor Marina, Mare Nostrum — implementadas pelo lendário Dino Zei; esse reconhecimento rapidamente ganhou adeptos entre os aficionados da relojoaria, que aderiram entusiasticamente aos relógios grandes de estética tão vincada. O restabelecimento da marca florentina contribuiu para o gosto moderno por modelos sobredimensionados de inspiração militar adaptados a um design urbano e contemporâneo, sendo também pioneira no lançamento regular de edições especiais em tiragem restrita.

(Esq.) Giovani Panerai à porta da sua loja ‘Orologeria’, por volta de 1860. A Panerai afirma que a loja servia também como oficina e que terá sido a primeira escola de relojoaria em Florença. (Dta.) Os relógios Panerai celebrizaram-se por equipar mergulhadores italianos que se sentavam em torpedos submarinos (...) © Panerai
(Esq.) Giovani Panerai à porta da sua loja ‘Orologeria’, por volta de 1860. A Panerai afirma que a loja servia também como oficina e que terá sido a primeira escola de relojoaria em Florença. (Dta.) Os relógios Panerai celebrizaram-se por equipar mergulhadores italianos que se sentavam em torpedos submarinos (…) © Panerai

Em 1995, séries limitadas do Luminor Submersible e do Mare Nostrum foram dedicadas ao conhecido ator americano de ascendência italiana Sylvester Stallone — que, com o seu interesse pela marca florentina quando estava no auge da fama, acabou por se tornar no grande impulsionador da ressurgência da Panerai. Os enormes relógios passaram a ser frequentemente vistos no pulso de ‘Sly’ e dos seus famosos amigos de Hollywood, por quem ele distribuiu várias edições limitadas que encomendou, gerando grande interesse mediático. A curiosidade acerca do estilo desportivo-militar e a surpreendente volumetria para a época (44 mm, hoje um tamanho ‘normal’) levou os aficionados a mergulhar na história da Panerai; arrancava então a era dos relógios másculos e maiúsculos, ao mesmo tempo que começava a febre Paneristi e se criavam núcleos de fervorosos tiffosi da marca em todo o mundo.

Era de transição

Começando a partir de uma pequena sala com uma mesa, uma cadeira e um computador, andando seguidamente de porta em porta com protótipos numa mala para mostrar a lojistas italianos, Angelo Bonati presidiu aos destinos da Officine Panerai desde a sua aquisição pelo grupo Vendôme (depois Richemont). Em 2001, reabria a histórica loja da família na Piazza San Giovanni, pormenor relevante para a narrativa da marca transalpina. Também estabeleceu os alicerces de uma produção autónoma mais consentânea com as crescentes exigências do mercado e do próprio estatuto entretanto alcançado — primeiro com instalações próprias num velho posto da polícia em Neuchâtel para garantir a qualidade ‘Swiss Made’; depois, lançando uma manufatura de maiores dimensões numa colina sobre a cidade, idealizada com pressupostos ecológicos e inaugurada em 2014.

© Panerai
© Panerai

Angelo Bonati retirou-se no início deste ano após mais de duas décadas de carismática liderança e passou o cargo de CEO a Jean-Marc Pontrué, o anterior responsável da Roger Dubuis no seio do grupo Richemont. O legado de Angelo Bonati é simultaneamente pesado, por se tratar de alguém tão colado à imagem da marca, e leve, por deixar uma infraestrutura (desde a manufatura às boutiques) e uma equipa (desde mestres relojoeiros a técnicos de vendas) preparadas para o futuro. Para já, a fonte de produção é um trunfo decisivo, garantindo o fabrico e a montagem de 95% das peças (o resto é feito na Manufacture Horlogère Valfleurier, também da Richemont): as novas instalações de Pierre-à-Bot, em Neuchâtel, incluem igualmente um atelier de grandes complicações e também um laboratório de ideias, que trabalha diretamente com o departamento de design da marca estrategicamente sediado em Milão; a ‘italianidade’ da Officine Panerai mantém-se fundamental.

Novas instalações da manufatura Panerai © Panerai
Novas instalações da manufatura Panerai © Panerai

A manufatura é resolutamente moderna e não tem nada daquela ideia arcaica do relojoeiro encolhido numa pequena mesa de madeira, apesar de alguns adereços originais e muita documentação histórica da marca exibida nas paredes. O edifício com 10.000 metros quadrados foi construído de raiz tendo em conta a sustentabilidade e segundo modernos parâmetros ecológicos, maximizando a reutilização de energia (solar e geotérmica) e reduzindo o impacto no meio ambiente. A superfície envidraçada dominante assegura excelente luz natural ao longo do dia e, evidentemente, a madeira tão associada ao universo náutico e omnipresente nas boutiques da marca surge em grande destaque logo na entrada das instalações. Lá dentro, 260 empregados trabalham em prol das múltiplas etapas associadas ao fabrico: ideia, design, modelagem, prototipagem, desenho final de produto, bateria de testes, produção final e controlo de qualidade.

Testes de estanqueidade às caixas dos relógios realizados nas instalações da Officine Panerai em Neuchâtel. © Panerai
Testes de estanqueidade às caixas dos relógios realizados nas instalações da Officine Panerai em Neuchâtel. © Panerai

O andar inferior alberga, em 800 metros quadrados, máquinas eletrónicas capazes de produzir componentes e peças com uma precisão na ordem dos mícrons; depois há o processo de lavagem e tratamento galvânico, seguindo-se o de acabamento e decoração. No patamar acima, ficam localizadas as salas onde a tecnologia se associa ao fator humano, com máquinas robotizadas a facilitarem a circulação de caixas e movimentos através de calhas até aos postos de trabalho individuais dos relojoeiros que procedem à sua montagem. Verdadeiramente espetacular é a chamada ‘Câmara de Tortura’, onde os relógios são colocados à prova — com duros testes de estanqueidade, choque e mudanças térmicas. Existe mesmo um processo rápido de aceleração da vida do relógio para aferir a sua fiabilidade a longo termo. Cada exemplar é submetido a testes de pressão atmosférica e de impermeabilidade à água (25% mais salgada do que a do mar) ou partículas; a tolerância tem de ser 25% superior ao dos limites oficialmente declarados. Já o departamento de alta-relojoaria é uma espécie de santuário onde evoluem os melhores relojoeiros (incluindo um par de portugueses) e são criadas ou testadas as peças tecnicamente mais sofisticadas; alguns desses mestres relojoeiros também colaboram com o departamento vintage e de restauro.

Os movimentos próprios

Jérôme Cavadini é o diretor da infraestrutura e reforçou-nos a ideia de robustez inerente ao conceito Panerai: «Ao contrário do que se costuma fazer, nós certificamos a prestação individual de cada relógio e não a média; cada exemplar é entregue com um livrete onde está registada a sua prestação nos testes que fazemos. E temos a nossa própria bateria de testes de homologação, com valores sempre acima dos que são enunciados — ou seja, se a estanqueidade é anunciada como sendo de 100 metros, construímos o relógio para 125 metros e fazemos testes para 125 metros. Temos também uma máquina de testes de 5.000 G. E ainda três ou quatro máquinas de envelhecimento rápido especialmente idealizadas para nós onde simulamos o desgaste do órgão regulador e também da corda até 25 anos, porque o que nos distingue é precisamente a longa reserva de marcha que começa nos três dias e vai até aos dez, consoante o calibre. Outra das nossas valências é o programa Wolf, através do qual cada problema e cada reparação de qualquer relógio em qualquer parte do mundo é imediatamente partilhada em rede de modo a otimizarmos instantaneamente os nossos produtos».

© Miguel Seabra / Espiral do Tempo
© Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Se, em meados do século passado, utilizou movimentos Rolex e depois adotou movimentos ETA (especialmente modificados) que foram complementados posteriormente por calibres Frédéric Piguet, Zenith, Soprod e Jaquet aquando do seu (re)começo na década de 90, a Officine Panerai goza atualmente de uma autonomia absoluta. Lançou o seu primeiro movimento próprio em 2005 e assumiu uma estratégia de verticalização a partir daí, focando-se sobretudo em dimensões assinaláveis (que garantem maior estabilidade) e reservas de corda duradouras (a partir dos três dias). Seis famílias de calibres proporcionam 24 diferentes movimentos de manufatura que misturam a robustez utilitária que faz parte da herança italiana da marca com a finesse da melhor relojoaria suíça.

A Officine Panerai lançou o seu primeiro movimento próprio em 2005 e assumiu uma estratégia de verticalização a partir daí, focando-se sobretudo em dimensões assinaláveis e reservas de corda duradouras. © Panerai
A Officine Panerai lançou o seu primeiro movimento próprio em 2005 e assumiu uma estratégia de verticalização a partir daí, focando-se sobretudo em dimensões assinaláveis e reservas de corda duradouras. © Panerai

O primeiro calibre próprio foi o P.2002, de corda manual e oito dias de reserva de marcha graças a três tambores de corda, com indicação das horas, dos minutos, dos pequenos segundos, da data, do segundo fuso horário e do indicador da autonomia. Depois, vieram os movimentos automáticos. E os cada vez mais complicados. O calibre P.2005 surgiu em 2007 com o primeiro turbilhão da casa, assente num eixo perpendicular ao balanço. Em 2010, por ocasião do 400.º aniversário das primeiras observações celestiais de Galileu Galilei, a Panerai lança um tríptico de modelos dedicados ao genial toscano: L’Astronomo, Lo Scienziato e Jupiterium. A história florentina validava a passagem da marca para as complicações celestiais, sendo que os astros também estão intimamente ligados ao mar e às marés. Em 2016, foi desvelado o 1940 Minute Repeater Carillon Tourbillon, que tecnicamente se tornou na peça mais complexa da marca devido à conjugação do turbilhão com um mecanismo de repetição capaz de fazer soar as horas em dois fusos horários; o lançamento da linha Due nesse mesmo ano implicou a conceção dos calibres automáticos mais finos da Panerai.

Materiais de ponta

Apesar da sua inspiração vincadamente rétro, a Officine Panerai também se lançou na exploração de novos materiais de ponta tanto nas caixas como no próprio movimento — afinal de contas, a influência náutica e a ligação à America’s Cup (mais precisamente ao Oracle Team) implicam igualmente um papel inovador nessa área. Por exemplo, o LAB-ID Luminor Carbotech 3 Days é um cocktail futurista que proporciona uma inédita garantia de 50 anos; o seu movimento não necessita de lubrificantes e elimina a fricção graças a um revestimento DLC especial nos seus componentes.

© Miguel Seabra / Espiral do Tempo
© Miguel Seabra / Espiral do Tempo

A Panerai também patenteou no setor dos relógios uma nova forma de impressão de titânio em três dimensões, atualizando a fibra de carbono numa variante Carbotech especialmente leve e avançada. Mais recentemente, apresentou um modelo BMG-Tech com caixa feita a partir de um vidro metálico especialmente resistente ao choque e aos riscos.

Os mostradores da Panerai são inconfundíveis graças à sua estrutura de tipo sanduíche e inspiração marcadamente vintage. © Panerai
Os mostradores da Panerai são inconfundíveis graças à sua estrutura de tipo sanduíche e inspiração marcadamente vintage. © Panerai

A utilização de materiais tão técnicos afetou naturalmente o visual dos respetivos modelos, dotando-os de uma aura futurista que contrasta com a auréola vintage que sempre acompanhou a marca e que está presente nos modelos em bronze que puseram na moda essa tão antiga liga metálica — mas os códigos estéticos identificativos continuam lá, sobretudo a caixa em ‘almofada’ (ou cushion) que deu fama à Panerai tanto nos modelos Radiomir como Luminor, as duas linhas-mestras que constituem os alicerces da coleção. Já dizia Angelo Bonati: «Esteticamente, a Panerai soube congelar o seu estilo. Nunca atraiçoou o seu design histórico, apesar de termos de adaptar as caixas aos calibres que fomos criando e aos materiais inovadores que fomos descobrindo. A Panerai continuará a ter a sua própria personalidade e coerência».

© Miguel Seabra / Espiral do Tempo
© Miguel Seabra / Espiral do Tempo

As linhas da coleção

Na viragem do milénio, o catálogo da Officine Panerai assentava sobretudo nas vertentes Radiomir (com um sistema de asas específico para a correia e coroa cónica) e Luminor (com a sua ponte patenteada sobre a coroa) com mostradores pretos e caixas em aço ou titânio. Hoje em dia, a coleção distingue-se entre as linhas Radiomir, Radiomir 1940, Luminor 1950, Luminor e a recente Luminor Due de pendor mais ‘civil’ — com caixas em aço, titânio, ouro, cerâmica e materiais inovadores (como o Carbotech ou o MMC) conjugadas com mostradores pretos, brancos, castanhos, verdes, azuis e mesmo esfumados. Sem esquecer as chamadas ‘edições especiais’ lançadas anualmente e que fazem as delícias dos colecionadores.
A mais recente edição especial recorda-nos precisamente as duas grandes tendências implementadas pela marca de origem italiana na relojoaria das últimas duas décadas — o tamanho sobredimensionado e a conotação vintage — ao mesmo tempo que apresenta um mostrador completamente inédito no historial dos seus relógios de pulso. Porque a inspiração das duas novas variantes do Radiomir 1940 3 Days Acciaio 47 veio de um antigo relógio de parede da Orologeria Svizzera, nome pelo qual era conhecida a loja histórica da família Panerai na Piazza San Giovanni, em frente ao famoso Batistério de Florença; o mostrador bege ou ébano com dois anéis dourados é uma novidade com perfume de outrora. No formato de caixa de sempre.

Officine Panerai Radiomir 1940 3 Days Acciaio - 47 mm; Officine Panerai Luminor Due 3 Days Automatic Acciaio - 42mm; Officine Panerai Luminor Submersible 1950 Carbotech TM 3 Days Automatic - 47mm © Panerai
Officine Panerai Radiomir 1940 3 Days Acciaio – 47 mm; Officine Panerai Luminor Due 3 Days Automatic Acciaio – 42mm; Officine Panerai Luminor Submersible 1950 Carbotech TM 3 Days Automatic – 47mm © Panerai

«O segredo de uma marca é manter a sua coerência e assegurar continuidade, investindo na inovação, mas evitando andar ao sabor das modas», confessou Angelo Bonati à Espiral do Tempo aquando da sua última visita a Portugal. «Toda a gente na indústria gostaria de ter o nosso formato, que é tão peculiar; a caixa já está feita e é a base da nossa identidade.» E a identidade é mesmo o grande património da Officine Panerai.

Artigo originalmente publicado no número 65 da Espiral do Tempo (edição inverno 2018).

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