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A história do KonTiki e de uma saga a dois tempos

O ano de 2023 marca o 50º aniversário do Eterna Super KonTiki, um lendário relógio de mergulho com ADN caraterístico dos anos 70 e que foi mesmo adotado por um batalhão de élite do exército israelita. Uma boa oportunidade para recordar o trajeto épico do explorador Thor Heyerdahl, da sua saga através do oceano Pacífico a bordo da jangada KonTiki com relógios Eterna e do correspondente filme nomeado para os Óscares.

Foi uma reedição que talvez tenha surgido antes do tempo mas que ajudou a alavancar a forte tendência rétro que dominou a década transata na relojoaria. Em 2010, a Eterna apresentou em Baselworld o Super KonTiki 1973, uma tiragem limitada a 1973 exemplares que prestava homenagem ao original Super KonTiki de 1973 — que foi adotado pelo batalhão Shayetet 13, das forças especiais do exército israelita. 

Thor Heyerdahl a bordo da jangada KonTiki e a reedição do Eterna SuperKontiki de 1973, com o seu fecho caraterístico | © Eterna

O relógio capturou então a atenção dos conhecedores da saga KonTiki e da linha do mesmo nome que fez parte do catálogo da manufatura Eterna ao longo de décadas, mas não foi um êxito comercial instantâneo. Porque surgiu um pouco antes do tempo, numa altura em que a vaga neo-vintage ainda não tinha descolado completamente. Para mais, na altura ainda não existiam os múltiplos canais de divulgação que hoje potenciam o lançamento de novos modelos (em 2010, as redes sociais ainda estavam na infância) e que ajudam a explicar uma narrativa tão complexa quanto rica. Porque a saga do KonTiki e a história dos relógios da coleção da Eterna com o mesmo nome tem mesmo muito que se lhe diga, começando por outro nome incontornável — o do antropólogo e explorador Thor Heyerdahl.

O Heritage Super KonTiki 1973 de 2010 na praia da Crismina, em Cascais | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Thor Heyerdahl foi votado ‘Cidadão Norueguês do Século’ em 1999 e partiu para o Valhalla (o paraíso dos heróis e deuses vikings) em 2002, vítima de um tumor cerebral. Tinha 87 anos quando morreu no retiro de família em Colla Michari (Itália); a sua terceira mulher, Jacqueline, revelou que o irrequieto nórdico havia efetuado mais de 70 voos ao longo do ano anterior. Ou seja, nem a doença ou o espectro da morte o impediram de fazer o que mais gostava — ele que foi um dos mais famosos viajantes da história da humanidade, nunca desdenhando um arrojado desafio e empenhando-se pessoalmente na confirmação das suas teorias. Não conseguia estar parado: mesmo após a operação ao cancro prosseguiu com as suas pesquisas, palestras e debates — gerindo da melhor maneira a fama alcançada na sequência de uma inesquecível aventura ocorrida na década de 40: a saga do KonTiki, perpetuada através de um livro traduzido para 66 idiomas e uma linha de relógios que continua a fascinar os especialistas.

O mapa da travessia do KonTiki através do oceano Pacífico | © DR

O curioso é que o homem que enfrentou a fúria dos mares numa embarcação propositadamente rudimentar só deixou de ter medo da água aos 22 anos, quando caiu a um rio no Taiti e foi forçado a nadar até ficar a salvo. O receio tinha fundamento; enquanto criança, o escandinavo quase se afogou duas vezes na sua cidade natal de Larvik…  o que não o impediu de se tornar mais tarde num reputado cientista e etnólogo. O ponto de partida da sua saga exploradora e da nossa saga relojoeira ocorreu quando Heyerdahl constatou que a figura de Tiki (‘filho do sol’), adorada pelas gentes da Polinésia e evidente nas tradições locais, tinha grandes semelhanças mitológicas com as lendas presentes em velhos manuscritos incas acerca de KonTiki (‘deus do sol’); na altura, acreditava-se que os ancestrais dos polinésios eram oriundos da Ásia Central, pelo que a teoria que atribuía a sua ascendência aos incas causou polémica na comunidade científica…

Uma das imagens do filme KonTiki, nomeado para o Óscar de melhor película estrangeira | © DR

Para confirmar essa tese migratória, Heyerdahl fez questão de mostrar ao mundo que uma tão longa viagem seria possível. Seguindo os princípios pouco sofisticados da época dos incas, construiu uma balsa baptizada com leite de coco e com a imagem de KonTiki a adornar a vela. Rodeada de grande alarido, a expedição saiu do porto de Collao (no Peru) em 26 de Abril de 1947 e atravessou mesmo o Pacífico na tal simples jangada de madeira com apenas 14 metros… chegando ao destino 7.600 quilómetros e 101 dias depois, no atol de Raroia!

O primeiro relógio da Eterna com o nome KonTiki e imagens várias alusivas à expedição | © Eterna

Entre os poucos utensílios ‘modernos’ usados pela equipa estavam os relógios Eterna, especialmente comissionados pelo norueguês e manufacturados segundo rigorosos parâmetros de estanqueidade e fiabilidade. Thor Heyerdahl não queria um cronómetro marítimo que precisasse de corda manual e cujas volumosas dimensões poderiam fazê-lo cair da jangada; resolveu contactar o dr. Rudolf Schild-Contesse, então director da Eterna, e apresentou as especificações dos instrumentos desejados. Foi feita uma pequena série — projeto que nasceu com o adequado nome de KonTiki.

KonTiki: um antigo deus inca que deu nome a uma jangada, a uma expedição, a uma coleção relojoeira, a um filme e a muitos cocktails e bares por esse mundo fora | © Eterna

As cinco esferas

A partir do momento em que John Harrison resolveu o problema da longitude com o recurso à relojoaria (criando os primeiros cronómetros marítimos no século XVIII), todas as viagens no mar passaram a assentar na fiabilidade de relógios — fundamentais para a localização no espaço e no tempo em condições adversas. Thor Heyerdahl não queria um volumoso cronómetro marinho e optou por robustos modelos de pulso. Com razão: a tripulação do KonTiki enfrentou as mais duras provações, desde ondas de mais de cinco metros a ataques de tubarões-baleia…

O cartaz do filme KonTiki e publicidade ao primeiro modelo Eterna inspirado pela saga | © Eterna

A opção pela manufactura suíça Eterna provou ser a ideal. Fundada em 1856 por Josef Girad e Urs Schild e depois comprada pela família Porsche (a Eterna chegou a conceber os relógios Porsche Design durante quase duas décadas), começou por se especializar em relógios com alarme mas marcou decisivamente a indústria relojoeira com a invenção do sistema de rolamento de esferas que optimizou os relógios automáticos — facilitando a rotação da massa oscilante (rotor) que permite dar corda aos relógios automáticos através do movimento do pulso do utilizador.

O modelo ‘extremo’ da coleção KonTiki: o Heritage Super KonTiki 1973 | © Eterna

Essa simples solução possibilitava um melhor armazenamento da corda, oferecia melhor resistência aos choques e proporcionava maior longevidade ao mecanismo, sendo imediatamente adoptada pela generalidade da indústria. Para vincar bem as suas credenciais, a manufactura sediada em Grenchen passou a ostentar um logótipo com cinco esferas, baptizando de Eterna-Matic a colecção que abrangia os seus relógios automáticos. Foi precisamente a reputação da Eterna e a excelência dos seus mecanismos que seduziram Thor Heyerdahl.

O fundo habitual dos modelos da linha KonTiki, no caso o KonTiki Automatic Date | © Eterna

Após a concretização do feito, o norueguês não mais parou. Escreveu um best-seller sobre a história da viagem que posteriormente foi a base para um documentário galardoado com um Óscar. E, como não podia deixar de ser, liderou outras expedições a bordo de balsas (Ra, Ra II, Tigris). Nos intervalos das suas aventuras, também passava o tempo a viajar — especialmente entre a sua villa romana comprada e restaurada na década de 50 em Colla Michari e a sua outra casa na ilha de Tenerife.

A coleção KonTiki

Mas foi a saga do KonTiki que capturou a imaginação do planeta. O sucesso da expedição correu mundo e granjeou enorme fama ao aventureiro nórdico e à manufactura Eterna, que desde então passou a incluir na sua coleção uma linha naturalmente baptizada KonTiki de notáveis características à prova de água.

Eterna Heritage Super KonTiki 1973 no seu habitat natural | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Sempre com a silhueta do KonTiki no fundo, os modelos foram variando ao longo das últimas décadas e surgiu mesmo uma série de mergulho apelidada Super KonTiki. Houve também o KonTiki 10 e o KonTiki 20, mas entre os exemplares mais conhecidos encontram-se os primeiros originais de 1956 com indexes triangulares no mostrador, a reedição 1956 e o tão celebrado Heritage Super KonTiki 1973 — que cumpre este ano o seu 50º aniversário.

A primeira reedição do Super KonTiki surgiu em 2010, mantendo as proporções do modelo de 1973. Um relógio robusto, dotado de uma robusta bracelete de malha milanaise equipada com um fecho do tipo cinto de segurança. A Eterna, através do então chefe de produto Patrick Kury, optou pela caixa totalmente polida e respeitou escrupulosamente os códigos de estilo do original: mostrador preto de elevada legibilidade e um caraterístico ponteiro das horas completamente distinto do dos minutos e dos segundos, graças a um formato com um pequeno retângulo na ponta. Também em destaque, as cinco esferas do logótipo da Eterna (alusivas aos movimentos automáticos Eterna-Matic) surgem aplicadas em metal.

Exercício de estilo

A caixa é volumosa e equivalente à de 1973 — a revolucionária década de 70 bateu então recordes no que às dimensões dos relógios dizia respeito. A luneta unidirecional está adornada com algarismos árabes e bastões retangulares, com o ponto triangular de referência amarelo torrado a contrariar a tendência monocromática da peça. No fundo encontra-se o medalhão com a jangada KonTiki que deu origem à linha relojoeira da Eterna. E lá dentro bate o Calibre ETA 2894-2 — sendo que a manufatura de movimentos ETA (hoje em dia pertencente ao Grupo Swatch) é precisamente uma descendente da Eterna. O calibre de carga automática apresenta 37 rubis e 38 horas de autonomia.

O KonTiki Automatic Date com os índexes triângulares que evocam o primeiro modelo KonTiki e a reedição do Super KonTiki | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Trata-se de um relógio concebido para fazer face a ambientes hostis — e com uma estanqueidade até aos 200 metros de profundidade. Por isso foi adotada por um batalhão tão exigente como o das forças especiais de intervenção do exército israelita (Israeli Defense Force), para mais numa altura em que a situação bélica no Médio Oriente era explosiva. E em que agentes secretos patrulhavam o mundo à caça de criminosos de guerra da Segunda Guerra Mundial, atuando mesmo noutros países (é de recordar o filme ‘Munique’ sobre os atentados durante os Jogos Olímpicos). 

Eterna KonTiki Automatic Date | © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Eterna KonTiki Automatic Date, com a gravura do atol de Raroia no centro do mostrador | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Em 2016, a Eterna passaria o Super KonTiki 1973 para a coleção regular e ainda lançou o Super KonTiki Chronograph. Mas a mudança consecutiva de donos e de direção da companhia, juntamente com a perda de influência da feira de Basileia, afetou seriamente companhia de Grenchen. Face a uma concorrência feroz de marcas caras que apostam em maciças campanhas de marketing, a Eterna sofreu com a sua discrição e está atualmente adormecida após mudar várias vezes de mãos. Enquanto não regressa com a força que o seu peso histórico merece, a linha KonTiki mantém especialmente atrativa pela sua conotação épica e acrescido valor de coleção…

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