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A. Lange & Söhne: um presente para o 200º aniversário

Em Dresden — A manufatura A. Lange & Söhne celebrou o 200º aniversário do fundador Ferdinand Adolph Lange com uma reunião mundial e a apresentação de um novo modelo Handwerkskunst na Ópera de Dresden. Pessoalmente, foi como o fechar de um círculo  e com chave de ouro. Eis a reportagem e a análise ao 1815 Tourbillon Handverkskunst.

A. Lange & Söhne
© A. Lange & Söhne

«O fechar de um círculo». Foi exatamente essa a expressão que utilizei quando o CEO da A. Lange & Söhne, Wilhelm Schmid, me perguntou o que é que eu tinha achado sobre a cerimónia de apresentação do novo 1815 Tourbillon Handwerkskunst na Ópera de Semper, em Dresden. Tenho ido regularmente a Dresden desde 2000 e assistido fascinado ao renascimento de uma cidade que outrora tinha sido uma capital das artes, da ciência e da cultura  até ser terraplanada literalmente pelos bombardeamentos quase criminosos dos Aliados nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial quando o fim do conflito já tinha sido terminado e terraplanada psicologicamente por quase cinco décadas de comunismo que fizeram dela uma metrópole infeliz tanto nas ruas como no olhar das pessoas. Década e meia depois, recuperou o seu esplendor imperial. E década e meia depois tive finalmente a oportunidade de assistir a um espetáculo na Ópera de Semper.

A. Lange & Söhne
© A. Lange & Söhne

Antes do mais, tenho de referir que a observação sobre os efeitos da vigência comunista não é baseada em qualquer preconceito ideológico  baseia-se numa observação direta das gentes e da cidade. Johann Rupert, o patrão da Richemont, foi duramente eloquente quanto a esse aspeto quando, na inauguração do novo edifício de manufatura da A. Lange & Söhne em Glashütte, recordou: «Quando cá vim pela primeira vez, as pessoas não sorriam e nem nos conseguiam olhar nos olhos quando falavam connosco. É para verem o que quarenta e tal anos de comunismo fazem às pessoas». São palavras talvez demasiado ásperas, mas é verdade que as pessoas eram assim  e quando estive em Dresden e Glashütte pela primeira vez já o Muro de Berlim tinha caído há mais de uma década e o processo de reunificação da Alemanha há muito que estava em marcha. E a cidade, que achei cinzentona e pouco interessante, ainda não tinha renascido das suas cinzas como a mais bela fénix: hoje em dia já recuperou a esmagadora maioria dos principais marcos arquitetónicos que antigamente faziam dela a ‘Florença do Elba’.

© Espiral do Tempo / Miguel Seabra
© Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Entre os mais emblemáticos marcos arquitetónicos contam-se a Frauenkirche, que estava no chão quando visitei Dresden pela primeira vez e agora se ergue majestosamente, o Zwinger onde os monarcas da Saxónia se divertiam em festas que duravam semanas, e a Ópera de Semper. No caso da Ópera de Semper, a sua reconstrução até foi feita antes da Reunificação, na fase terminal da então denominada República Democrática da Alemanha. Inicialmente construída em 1814 por Gottfried Semper e palco de estreia de algumas das mais famosas obras de todos os tempos, teve de ser reconstruída várias vezes na sequência de incêndios até ser arrasada pelas bombas que devastaram a cidade no fim da Segunda Guerra Mundial. Foi reinaugurada precisamente 40 anos depois, em 1985, com a mesma ópera que tinha em cartaz antes da destruição: Der Freischütz, de Carl Maria von Weber. E com o relógio de 5 minutos concebido por Johan Christian Friedrich Gutkaes com a ajuda de Ferdinand Adolph Lange em destaque, lá em cima do palco.

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A. Lange & Söhne
© Espiral do Tempo / Miguel Seabra

A reunificação da Alemanha e a Ópera de Semper fazem parte do imaginário contemporâneo da A. Lange & Söhne. A reunificação permitiu o regresso a casa de Walter Lange, trineto de Ferdinand Adolph Lange, para fazer renascer a manufatura relojoeira dos seus antecessores que também fora bombardeada nos dias finais da guerra e cujos recursos técnicos e humanos foram recrutados para uma cooperativa (a Glashütte Uhren Betrieb, ou GUB) que passou a fazer relógios baratos para o povo que mais não eram do que Trabants para o pulso. O relógio da Ópera de Semper, construído para que os espetadores não se distraíssem ou fizessem barulho ao consultar os seus relógios de bolso (muitos deles com complicações acústicas) e assente em duas janelas (uma para as horas, outra para 5 minutos), inspirou diretamente a data sobredimensionada que em 1994 surgiu no mais emblemático relógio A. Lange & Söhne da nova geração (o Lange 1) e revolucionou a relojoaria.

A. Lange & Söhne
Lange 1 © A. Lange & Söhne

Sempre achei a história da A. Lange & Söhne a mais fascinante do mundo da alta-relojoaria e sempre tive um fascínio muito especial pela Ópera de Semper, mas nunca tinha tido a oportunidade de assistir a um espetáculo no interior. Por isso considerei que o círculo, ou o ciclo, se tinha completado com o anúncio de que seria lá que a A. Lange & Söhne iria apresentar o seu modelo anual em edição limitada Handwerkskunst como parte das festividades do 200º aniversário de Ferdinand Adolph Lange. Depois de a reunião de Dresden ter começado na véspera com um jantar no palacete Schloss Albrechtsberg, a comitiva de convidados locais e internacionais juntou-se ao final da manhã do dia 7 de dezembro (precisamente a data da fundação da A. Lange & Söhne, em 1815) na Semper Ópera para um espetáculo musical da Sächsische Staatskappelle Dresden e o Dresden Kreuzchor. 170 pessoas de 28 países viram um filme sobre a história dos 200 anos de Ferdinand Adolph Lange, seus descendentes e a firma relojoeira que estabeleceu em Glashütte.

Depois, Ton de Haas — o popular Diretor de Desenvolvimento de Produto da A. Lange & Söhne — apresentou no palco a mais recente edição limitada que todos aguardavam. O 1815 Tourbillon Handwerkskunst. 1815 é a linha inspirada no ano de fundação da histórica manufatura saxónica; o 1815 Tourbillon ‘Pour le Mérite’ foi um dos quatro modelos apresentados em 1994 (juntamente com o Lange 1, o Saxónia e o Arkade) no lançamento da A. Lange & Söhne da nova era pós reunificação. O 1815 Tourbillon foi o primeiro relógio da A. Lange & Söhne a combinar a paragem dos segundos do turbilhão e o mecanismo de acerto zero-reset. E Handverkskunst é a palavra alemã que significa artesanato, sendo também o termo que a A. Lange & Söhne tem atribuído desde 2011 às suas edições limitadas especialmente elaboradas com mostradores e mecanismos que incorporam raras técnicas de gravação e acabamento.

A. Lange & Söhne
1815 Tourbillon Handwerkskunst © A. Lange & Söhne

A primeira edição Handwerkskunst surgiu em 2011 — o Richard Lange Tourbillon ‘Pour le Mérite’ Handwerkskunst em ouro tom de mel. Seguiram-se-lhe o Zeitwerk Handwerkskunst (2012) em platina, o Lange 1 Perpetual Calendar Handwerkskunst em platina (2013) e o Lange 1 Tourbillon Handwerkskunst em platina (2014). O 1815 Tourbillon Handwerkskunst em ouro rosa deste ano junta os mecanismos patenteados zero-reset (estreada em 1997) e stop-seconds de paragem dos segundos para o turbilhão (introduzido em 2008) que tornam possível parar e acertar o relógio com a precisão de um segundo. A principal diferença reside no mostrador, elaborado a partir de uma placa de ouro rosa galvanizada e trabalhada segundo a elegante técnica decorativa denominada tremblage.

Handwerkskunst © A. Lange & Söhne
1815 Tourbillon Handwerkskunst © A. Lange & Söhne
Handwerkskunst © A. Lange & Söhne
1815 Tourbillon Handwerkskunst © A. Lange & Söhne

O mestre gravador que utiliza a técnica decorativa do tremblage vai esculpindo o material com um buril especialmente concebido para a obtenção de uma superfície granular fina e uniforme que produz um efeito ótico espetacular. Os elementos em relevo no mostrador, incluindo o logótipo arqueado e os algarismos, são posteriormente polidos de modo espelhado e contrastam significativamente com o fundo acinzentado; a abertura às 6 horas revela o sobredimensionado turbilhão de um minuto; tanto a ponte do turbilhão como a parte superior da gaiola são polidas em espelhado negro — uma das técnicas de acabamento mais demoradas e exigentes. Definitivamente um relógio diferente, que tive o privilégio de sentir no pulso antes de mais ninguém: já é uma tradição que Ton de Haas me dê o novo relógio anualmente apresentado pela A. Lange & Söhne para o primeiro wristshot oficial.

© Espiral do Tempo / Miguel Seabra
© Espiral do Tempo / Miguel Seabra

As novidades decorativas do 1815 Tourbillon Handwerkskunst estendem-se à parte de trás do calibre de manufatura L102.1, passível de ser apreciado através do fundo transparente em vidro de safira. As elegantes formas curvas da tradicional platina de três quartos de Glashütte em prata alemã (cuja superfície granulada é inspirada por históricos relógios de bolso) acompanham uma nova e mais esqueletizada configuração: o turbilhão fica também mais visível do lado do fundo pelo facto de a ponte dos segundos ter sido aberta, tal como o tambor da corda e elementos do trem de engrenagem estão mais à vista devido aos cortes. O polimento dos ângulos interiores desses cortes constitui um desafio de destreza excecional e só pode ser executado manualmente com uma ferramenta especificamente desenhada para o efeito. O contra-pivô de diamante do turbilhão é a cereja no topo do bolo do trabalho decorativo do movimento.

Handwerkskunst © A. Lange & Söhne
Handwerkskunst © A. Lange & Söhne

Numa colaboração com a Espiral do Tempo, o nosso colega Gabriel Vachette do site francês Les Rhabilleurs teve a oportunidade de tirar as chamadas ‘live pictures’ do 1815 Tourbillon Handwerkskunst no meu pulso e aqui ficam algumas dessas imagens — a caixa com 39,5 mm de diâmetro assenta mesmo bem e o contraste entre os ponteiros e indicadores em ouro rosa e o fundo acinzentado em tremblage no mostrador afigura-se extraordinário.

Limitado a 30 exemplares, o 1815 Tourbillon Handwerkskunst terá um preço na ordem dos 180 mil euros — uma ‘pechincha’, comparados com os cerca de 490 mil do Zeitwerk Minute Repeater, que foi o principal relógio apresentado pela A. Lange & Söhne e cuja complicação acústica merece destaque particular na mais recente edição da Espiral do Tempo, dedicada à temática da música. Tive a oportunidade de revisitar a nova manufatura que a marca inaugurou em Glashütte no passado mês de agosto e dedicar alguma atenção suplementar aos modelos Zeitwerk e essa parte da reportagem ficará para uma próxima ocasião, juntamente com o resto dos apontamentos que ficaram no bloco de notas desta incursão a Dresden. Fiquem atentos… ET_simb

A. Lange & Söhne
© Espiral do Tempo / Miguel Seabra

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