À vossa saúde!

Eis a história de amizade e otimismo que me permitiu curar uma insónia com nome de cocktail. Porque qualquer relógio que escolhemos para o pulso ganha redobrada importância se simbolizar algo mais do que o seu mero valor intrínseco.


Crónica originalmente publicada no número 75 da Espiral do Tempo (verão 2021).


Eram quatro horas da manhã e não parava de dar voltas na cama. Tinha acordado a meio da noite e não conseguia voltar a dormir – depois de tanto tempo e pela primeira vez na vida, um relógio estava a tirar-me o sono! Uma semana antes, o meu colega Wei Koh (fundador das revistas Revolution e The Rake) havia anunciado o lançamento de uma edição especial dupla de relógios Bell & Ross, assentes na estrutura do cronógrafo Bellytanker e inspirados em dois conhecidos cocktails italianos: o Negroni Time x The Rake, de mostrador avermelhado com contadores contrastantes pretos; e o Spritz O’Clock x Revolution, de mostrador laranja. Achei a ideia genial e os dois modelos sensacionais, mas o Negroni Time parecia mesmo ter sido feito para mim — não só porque aprecio a bebida, mas também porque de há alguns anos para cá ganhei afeição por mostradores de tons encarnados e ainda porque o Bellytanker é o meu modelo preferido da Bell & Ross.

Bell & Ross Bellytanker Chronograph para The Rake e Bell & Ross Bellytanker Chronograph #Spritzoclock para Revolution
Bell & Ross Bellytanker Chronograph Spritz O’Clock para Revolution e Bell & Ross Bellytanker Chronograph Negroni Time para The Rake | © Bell & Ross

Só que não estou comprador de relógios; já tenho mais do que suficientes e o timing não é o ideal. Para além disso, enquanto jornalista da especialidade sempre controlei quais-quer ímpetos despesistas — e ainda bem, tendo em conta as dúzias de fabulosos relógios que gostaria de ter entre as muitas centenas que me passam anualmente pelas mãos. Ganha-se uma certa distância profissional. No entanto… aquela edição dupla, e em particular o Negroni Time, personifica muito do que sempre disse sobre a relojoaria e em especial o que reafirmei por alturas da pandemia. 

Gosto muito de relógios, mas o que para mim sempre fez a diferença na indústria relojoeira foram as pessoas por trás deles; o Negroni Time e o Spritz O’Clock simbolizam a associação entre uma marca que acompanho praticamente desde a nascença e um dos seus fundadores com um editor que conheço há década e meia e que foi meu colega no júri do Grand Prix d’Horlogerie de Genève; para mais, estive com ambos — falo de Carlos Rosillo e Wei Koh — em Londres aquando do lançamento de uma primeira edição especial dupla de Bellytankers (o Dusty e o El Mirage), em 2018. O Carlos é um gentleman e ficamos amigos para além da relação profissional depois de uma longa conversa no mítico bar do Hotel Les Trois Rois, durante uma edição de Baselworld; o Wei, filho de um antigo embaixador de Singapura nos Estados Unidos, é uma figura carismática e um brilhante líder de opinião que revolucionou as revistas de relógios.

Carlos Rosillo, Wei Koh e Miguel Seabra
Carlos Rosillo, Wei Koh e Miguel Seabra na Boutique da Bell & Ross em Londres | © DR

Aprecio também o tom laranja e o Aperol Spritz é um clássico incontornável dos bares do Velho Continente, mas fixei-me nos tons mais avermelhados evocativos do Negroni. Sempre quis ter um relógio com um mostrador vermelho sangue da cor da camisola da seleção portuguesa do Mundial de 1966 (com Eusébio a empurrar os Magriços até ao terceiro lugar) e em 2018 a Maurice de Mauriac aceitou a minha sugestão para lançar o L2 Diver Deep Red com esse tom; desde então, e para minha própria surpresa, a cor encarnada (nas suas múltiplas variantes e desde que usada com bom gosto) saltou para o topo das minhas preferências relojoeiras por ser pouco usual e por traduzir emoção/paixão melhor do que qualquer outra. Também tenho dito a vários amigos que só pensaria em adquirir mais um relógio se tivesse mostrador de cor distinta dos banais preto, branco ou prateado. Para mais, desde que o mundo foi assolado pela pandemia que tenho pregado a necessidade de a relojoaria ousar e abusar das cores para combater o cinzentismo da depressão… daí ter colaborado na ‘deliciosa’ edição especial Strawberries & Cream, da Studio Underd0g.

Bell & Ross Bellytanker Chronograph #Negronitime for The Rake & Bell & Ross Bellytanker Chronograph #Spritzoclock for Revolution
As edições Negroni Time e Spritz O’Clock da Bell & Ross representam um brinde ao otimismo | © Bell & Ross

Um brinde e uma missão

Mais uma volta na cama e a noção de que a tiragem limitada de 50 exemplares já deveria estar prestes a esgotar ou mesmo esgotada levou-me a tomar uma decisão drástica. Enviei uma mensagem ao Wei Koh — que estava então do outro lado do mundo, confinado a Singapura — a contar exatamente o que me estava a impedir de dormir e perguntei-lhe se ainda havia um Negroni Time para mim. Ele respondeu prontamente, dizendo-me que a edição limitada tinha sido um tremendo sucesso e que achava que ainda havia alguns Spritz O’Clock… mas que provavelmente o Negroni Time já não seria possível. Só que um pouco mais tarde, e talvez impressionado com a minha insónia, mandou-me uma mensagem mais animadora; disse que conhecia pessoalmente alguém que tinha reservado um e que o ia desviar para mim. Os amigos são mesmo para as ocasiões!

Bell & Ross Bellytanker Chronograph #Negronitime for The Rake & Bell & Ross Bellytanker Chronograph #Spritzoclock for Revolution no pulso
Bell & Ross Bellytanker Chronograph para The Rake e Bell & Ross Bellytanker Chronograph #Spritzoclock para Revolution | © Bell & Ross

Quando o Carlos Rosillo soube da saga, telefonou-me a dizer que tinha ficado sensibilizado. Afinal de contas, a história é bem representativa do que nos une aos três: paixão pela relojoaria, otimismo, amizade, a vontade de nos voltarmos a encontrar e bebermos um copo (idealmente Negroni, mas um Aperol Spritz também marcha) para brindar à vida. «O que mais nos tem feito falta é o contacto humano, passar tempo com os amigos, a convivialidade; estas duas edições especiais representam a esperança de que melhores dias estão a chegar e celebram a amizade, o companheirismo e a compaixão», disse-me o cofundador da Bell & Ross. Que me revelou também que o ator Robert Downey Jr. tinha comprado um exemplar de cada e que pediu que lhos fossem entregues logo que possível, para os poder levar nas férias de verão para as ilhas gregas — certamente para serem complementados pelas respetivas bebidas.

Criado há exatamente 100 anos pelo conde Camillo Negroni com a cumplicidade do barista florentino Fosco Scarselli, o cocktail Negroni ganhou fama na Riviera no final da década de 40, em pleno período de pós-guerra marcado pelo otimismo e recuperação económica; foi a partir daí que cresceu a geração que iria estabelecer o chamado jet-set. A cor avermelhada da bebida tem alguns reflexos alaranjados e não foi nada fácil fixar a tonalidade certa para o mostrador e a luneta, mas o Negroni Time ficou mesmo perfeito. Atualmente até o uso com uma bracelete metálica, que entretanto adquiri numa das visitas à sede da Bell & Ross em Paris.

Zenith Chronomaster Revival Pink Dial
O Chronomaster Revival Pink Dial da Zenith simboliza o altruísmo da indústria relojoeira | © Zenith

Pegando na temática da cor e para concluir, até porque o incontornável Wei Koh também esteve envolvido, vale a pena destacar nesse mesmo ano de 2021 o Pink Dial Project — um conjunto de peças únicas de mostrador rosa (com a assinatura da Bulgari, IWC, Zenith, Panerai, Baltic, TAG Heuer, Rado, Bamford) destinadas a leilão em proveito da luta contra o cancro da mama. De todos, a versão rosa pastel do Zenith Chronomaster Revival A3818 Cover Girl era a minha preferida… mas essa está mesmo fora do alcance e muito para lá das insónias. 


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