fbpx
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mount Street Shoe Company: paixão relojoeira da cabeça aos pés

A Mount Street Shoe Company ganhou fama entre os aficionados de relojoaria graças aos seus mocassins com costura evocativa de emblemáticos mostradores. Fomos conhecer o fundador Nigel Siwani e todo o processo de criação por trás de tão original calçado que tem feito as delícias de muitos colecionadores – e dos seus respetivos pés. Afinal de contas, tanto os relógios como os sapatos são componentes essenciais na indumentária do homem elegante…

Estilo Tudor Black Bay © Bruno Candeias
Estilo completo Black Bay © Bruno Candeias

A paixão de qualquer verdadeiro aficionado de relojoaria não se fica apenas por relógios: é frequentemente extensível a tudo o que tenha a ver com o tema, mesmo que se trate de coisas tão insignificantes como um simples autocolante de uma marca ou um pequeno pano de limpeza com o logótipo de outra. As gravatas Patek Philippe e as canetas Rolex são muito procuradas, havendo peças de merchandising das mais conhecidas manufaturas relojoeiras que atingem preços exorbitantes na internet. E depois há todo um universo de artigos que não são propriamente saídos das marcas mas que são pensados para os amantes da arte relojoeira – muitas vezes criados por gente apaixonada pela relojoaria. É o caso de Nigel Siwani, um gentleman londrino de bom gosto que fundou a Mount Street Shoe Company e criou uma linha de mocassins (ou slippers, em inglês) personalizáveis com mostradores inspirados em emblemáticos modelos. Afinal de contas, tanto os relógios como os sapatos são elementos fundamentais na indumentária do homem elegante…

Linha luminescente num mocassim de cores e bordado inspirados pelo GMT Master da Rolex © Adam Priscak
Costura luminescente num mocassim modelo Mark de cores e bordado inspirados pelo GMT-Master da Rolex © Adam Priscak

Comecei por ver os mocassins ‘relojoeiros’ nas redes sociais e o arrojo da ideia despertou-me imediatamente a atenção, até porque se notava claramente que se tratava de um produto sofisticado. Depois acabei por conhecer pessoalmente Nigel Siwani, curiosamente através de outra paixão que temos em comum: o ténis. Após vários contactos prévios, encontrámo-nos finalmente pela primeira vez em Wimbledon e, como não podia deixar de ser, ele apareceu no All England Club com calçado mais do que adequado à ocasião: uns slippers em veludo com a tradicional cor púrpura do clube pintalgados de bolas de ténis amarelas. Obviamente, todos quiseram tirar fotografias aos seus sapatos.

Com Nigel Siwani em Wimbledon e o modelo 'ténis' de 2019 © DR
Em Wimbledon e com o modelo Mark ‘ténis’ de 2019. No pulso de Nigel Siwani, um Tudor Black Bay ‘Harrods’ com bracelete NATO a condizer com as cores do torneio © DR

Entretanto ficámos amigos e regularmente vai-me colocando a par da sua coleção de relógios, tendo mais recentemente encomendado um Reverso Tribute Small Seconds ‘Lie de Vin’ da Jaeger-LeCoultre – sendo a sua coleção mais dominada por modelos Rolex da linha Oyster Professional em aço (Daytona, GMT-Master, Submariner, Sea-Dweller) e também várias edições limitadas, como o Tudor Black Bay Harrods, o Bell & Ross BR 03-92 BAPE ou um Zenith Tipo CP2 El Primero com a gravação da assinatura de Jean-Claude Biver. Normalmente encontramo-nos sempre que estou em Londres; em cada edição do torneio ele vem-me visitar a Wimbledon envergando um diferente modelo de sapato inspirado no ténis.

Nigel Siwani com um Rolex Seadweller Deep Sea numa camisa de 'punho Agnelli' © Adam Priscak
Nigel Siwani com um Rolex Sea-Dweller DeepSea ‘James Cameron’ numa camisa de ‘punho Agnelli’ e sapatos modelo Double Monk Mark © Adam Priscak

Mesmo sendo eu também jornalista especializado em ténis, os slippers com bolinhas amarelas nunca me fascinaram particularmente. Até porque nunca fui de colecionar memorabilia relacionada com a modalidade, por mais torneios que tenha visitado. A única coisa que guardo são as credenciais de imprensa. Já na vertente relojoeira, o caso é diferente. Sempre guardei aqueles pequenos presentes de cortesia oferecidos pelas marcas em apresentações ou visitas. E compro regularmente livros ou acessórios ligados à temática dos relógios. Obviamente, fiquei logo de olho nos mocassins da Mount Street Shoe Company inspirados em mostradores… e, ao dar uma vista de olhos no website da marca, não resisti à tentação de escolher uns para mim.

Depois de vários testes no website da Mount Street Shoe, este foi o resultado final: um mocassim de verão inspirado pelo meu Black bay Blue © Paulo Pires/Espiral do Tempo
Depois de vários testes no website da Mount Street Shoe Company, eis o resultado: um mocassim Morton com parte superior em linho e rebordo de pele nas cores da Montauk Highway © Paulo Pires/Espiral do Tempo

A Mount Street Shoe Company não é uma marca de sapatos qualquer. Só vende sapatos feitos por encomenda, com escolha do modelo e de todas as variações a partir do website em mountstreetshoecompany.com. A coleção é alargada e os sapatos mais formais de pele são excecionais, mas são os ousados slippers de fantasia bordada que têm suscitado mais interesse devido à sua irreverência – baseados num formato de mocassim muito em voga atualmente entre um público mais sofisticado, especialmente os de veludo. Obviamente, a costura bordada evocativa de mostradores é a que suscita mais interesse entre os aficionados de relojoaria. Como eu.

A coleção dos mostradores inspirados por mostradores de relógios emblemáticos. © Adam Priscak
A coleção dos mostradores inspirados por mostradores de relógios emblemáticos com costura luminescente. © Adam Priscak

Vendo os mostradores disponíveis e pensando nos meus relógios, optei pelo design evocativo do Heritage Black Bay da Tudor, com o caraterístico ponteiro ‘Snowflake’ das horas – mas estão também disponíveis o Daytona, o Submariner, o GMT-Master e o Day-Date da Rolex, o Nautilus da Patek Philippe, o Royal Oak da Audemars Piguet, o Luminor da Panerai e o Seamaster da Omega. Depois começa-se por escolher entre a forma Mark (mais tradicional, arredondada na ponta) e a Morton (mais contemporânea); seguidamente a cor da sola e da base da sola, com ou sem iniciais gravadas; depois o material da parte superior, entre veludo ou linho, com ou sem iniciais bordadas lateralmente; depois a cor do interior em pele do sapato; depois o material e a cor do rebordo. Há centenas, senão mesmo milhares, de combinações possíveis entre todas as variantes disponíveis.

Tudor Black Bay © Bruno Candeias
O ponteiro ‘Snowflake’ das horas em destaque nos dois mostradores © Bruno Candeias

No meu caso, e para além do Black Bay, inspirei-me na caraterística combinação cromática da Montauk Highway… embora também possa dizer que as cores se podem igualmente aplicar a Cascais, onde vivo. Optei por uma sola castanha escura tanto na base como nas partes laterais (devia ter escolhido um tom natural mais claro, confesso); linho azul claro como material superior; interior de pele de tom castanho claro no mesmo tom do rebordo; e linha luminescente na costura do mostrador Black Bay. Em Portugal é-se demasiado conservador no que ao calçado diz respeito e é necessário ter alguma ‘lata’ para usar algo tão pouco usual ou divertido – mas é o sapato de verão que vou passar a usar nas reuniões relojoeiras…

Estilo de verão: Tudor Black Bay Blue com mocassim Mount Street Shoe Company a condizer © Bruno Candeias
Look estival: Tudor Black Bay Blue com mocassim modelo Morton da Mount Street Shoe Company © Bruno Candeias

Para além dos mostradores de relógios, há vários desenhos disponíveis com outros motivos – a maior parte deles diretamente relacionados com outras paixões, como a dos charutos ou do automobilismo. E, claro, é possível desenvolver um desenho/tema próprio e estudar a viabilidade da sua aplicação. O preço não é barato: 495 libras, valor que pode parecer elevado num país como Portugal, em que a indústria do calçado permite uma boa qualidade a um preço muito acessível; no entanto, cada mocassim de fantasia da Mount Street Shoe Company é único e manufaturado por encomenda segundo todas as especificações do cliente, sem esquecer a elevada qualidade dos materiais utilizados. Como explica o próprio Nigel Siwani, numa entrevista que lhe fizemos.

Estilo em Florença: Nigel Siwani © Adam Priscak
Elegância em Florença: Nigel Siwani com camisa de ‘punho Agnelli’, um Rolex Sea-Dweller DeepSea ‘James Cameron’ e sapato Loafer Heddon Morton © Adam Priscak

Como nasceu a ideia de criar mocassins inspirados na relojoaria?

Interesso-me por relógios desde criança e esse interesse tornou-se numa paixão desde muito cedo; por isso, quando desenhei a minha coleção de slippers uma das primeiras ideias que tive foi a de criar uma linha de mocassins com os mostradores de alguns dos mais emblemáticos relógios que eu tinha na minha coleção ou que gostaria de ter. Os slippers são um calçado excelente que pode combinar as nossas paixões e interesses, por isso foi natural para mim criar os mostradores aplicados e apresentá-los em opções de costura prateada, dourada ou luminescente.

Nigel Siwani e a sua Mount Street Shoe Company © Adam Priscak
Nigel Siwani e um mostruário da coleção Mount Street Shoe Company © Adam Priscak

Quantos modelos inspirados na relojoaria integram a coleção da Mount Street Shoe Company e quais as suas principais caraterísticas?

Atualmente estão disponíveis nove diferentes tipos de mostrador no nosso website e mais um que é exclusivo dos armazéns Harrods, onde se pode comprar o sapato já feito – e todos eles podem ser usados tanto com black tie como com roupa casual elegante. Fazer cada sapato ou mocassim segundo as especificações de cada cliente é o que está na base da minha marca, por isso os mostradores de relógios estão disponíveis por encomenda com costuras em prata, dourado ou com uma linha especial luminescente que brilha na escuridão ou que sobressai quando iluminada por luzes ultra-violetas que muitas vezes existem em bares e discotecas. Pode ser um excelente desbloqueador ou motivo de conversa, tal como os relógios o são!

Tudor Black Bay © Bruno Candeias
A combinação cromática Montauk Highway esteve por trás da escolha do azul claro com o castanho © Bruno Candeias

Existe o risco de as marcas ameaçarem processar por existir uma fonte de inspiração por trás dos mostradores que é evidente?

Concebi a coleção com grande respeito e, se a inspiração é evidente, cada mostrador é estilizado e não há qualquer infração de qualquer marca registada. Pelo contrário, algumas marcas de relógios até já me abordaram para fazer sapatos especificamente para elas e para os seus clientes.

sapatos-1
O sapato e a inspiração: o Black Bay Blue com bracelete original Tudor de tecido feita pela empresa secular Julien Faure © Paulo Pires/Espiral do Tempo

Como é que desenvolveu a sua relação com o mundo da relojoaria e se tornou um colecionador?

O meu primeiro relógio foi um presente do meu pai quando tinha oito anos, um Timex para miúdos de escola. Costumava ficar acordado à noite a olhar para os pequenos pontos luminosos no mostrador e mais tarde comecei a admirar o estilo do meu avô, sempre elegante com o seu Omega dos anos 50. A minha coleção de modelos desportivos em aço da Rolex começou com um Submariner ref 16610 e desde então foi crescendo substancialmente.

Entre as várias peças da sua coleção, quais é que destacaria e porquê? Tem vários Rolex Oyster Professional muito procurados e também interessantes modelos de edição limitada…

Há alguns relógios que têm maior significado para mim devido a razões várias – é mesmo verdade que um relógio nos dá bem mais do que somente as horas. Mas, para destacar um único relógio, esse teria de ser o do meu falecido pai – só comprou um relógio em toda a sua vida e fê-lo apenas quando teve dinheiro para o fazer, escolhendo um Seiko Weekdater em aço que usou durante a maior parte da sua vida.

Mount Street Shoe Company em Gstaad © Miguel Seabra/Espiral do Tempo
Mount Street Shoe Company em Gstaad: modelo Morton de linho com iniciais bordadas © Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Onde são feitos os sapatos da Mount Street Shoe Company?

Os sapatos são feitos individualmente sob encomenda e manufaturados em Espanha por apertados parâmetros de qualidade e especialização. São feitos à mão por sapateiros de grande qualidade e incrivelmente apaixonados pelo seu ofício, pertencentes a uma linhagem de sapateiros de várias gerações. Tal como relojoeiros e marcas de relógios de reputação, também os meus sapatos se valorizam. Cada sapato é feito por encomenda, o que essencialmente faz deles únicos porque depois de estabelecido o tamanho é tudo feito exatamente segundo as indicações do cliente. Faço sapatos formais com sola Goodyear ou costura Blake e também uma alargada coleção de mocassins para homem e senhora. Usamos apenas as melhores peles e materiais. Orgulho-me da minha coleção de slippers e é preciso bastante tempo para desenhar e aperfeiçoar o design de cada bordado, sendo necessário aplicá-lo e testá-lo antes de ficar disponível para encomenda. Cada bordado é costurado na parte superior. Nunca uso retalhos ou etiquetas baratas e cada sapato ou mocassim só sai da minha casa de produção quando está perfeitamente acabado. Com mais de mil sapatos feitos por encomenda, não houve dois pares de sapatos iguais – garantindo que os meus clientes estão a usar algo de único e pessoal para eles, e isso para mim é a verdadeira definição de luxo.

A irreverente coleção de mocassins da Mount Street Shoe Company. Os de inspiração relojoeira estão à direita. © Adam Priscak
A irreverente coleção de mocassins da Mount Street Shoe Company. Os de inspiração relojoeira estão no meio, à direita. © Adam Priscak

Como situa a fasquia de preço dos seus sapatos?

Não se pode por um preço num bom par de sapatos que é confortável e que foi concebido especialmente para cada cliente, sendo feito para durar muitos e bons anos. Quando vejo o prazer que os meus clientes têm ao usar os sapatos ou quando me contam histórias sobre a admiração que atraem quando usam os sapatos, fico com um sentimento de realização que sei ser mútuo. Também acredito em não só proporcionar às pessoas um sapato de luxo mas também um serviço de luxo. Ou seja, estou sempre contactável por telefone, e-mail ou redes sociais; comunico pessoalmente com cada cliente e eles sabem que podem contactar-me diretamente com quaisquer pedidos ou questões. A minha marca foi construída com base na integridade de produto e no serviço personalizado. Não consigo trabalhar de outra maneira.

Estilo Black Bay © Bruno Candeias
Visual ‘Snowflake’ em triplicado © Bruno Candeias

Quais considera ser as principais caraterísticas que um sapato deve ter? Tem alguns conselhos sobre como prolongar a sua longevidade?

Um conforto supremo e a qualidade são essenciais em qualquer bom sapato. O calçado é submetido a um enorme desgaste, por isso eu coloco sempre formas em madeira de cedro para não só manterem a forma mas também para que a madeira absorva a humidade que pode afetar peles e materiais naturais. Nunca uso o mesmo par de sapatos em dias consecutivos, dou-lhes sempre alguns dias de descanso com as formas dentro e todos os meus sapatos são engraxados regularmente e colocados em sacos próprios. Cada sapato que faço é entregue com dois sacos de tecido, um interior que pode ser usado para uma limpadela rápida e o exterior com o logótipo que pode ser utilizado para transportar o calçado nas viagens.

Tem uma alargada variedade de motivos disponíveis para os slippers, alguns deles bem ousados ou divertidos. Já teve alguns pedidos mais bizarros?

Tenho muitos pedidos de desenhos para os bordados – e muitas vezes são logótipos bem conhecidos de marcas que eu recuso fazer, a não ser que tenha autorização expressa para o efeito ou o cliente me dê provas de que é proprietário da marca. Pedem-me frequentemente para fazer bordados com brasões, que são habitualmente muito detalhados e complexos de executar para aplicação num mocassim. Trabalho de perto com os clientes na aplicação das suas ideias e execução dos seus pedidos. É essencial que o design, especialmente num mocassim, não comprometa o conforto e o uso do calçado.

No azul de Cascais © Bruno Candeias
No azul da Marina de Cascais © Bruno Candeias

Para terminar, aqui fica o link para a irreverente coleção de slippers da Mount Street Shoe Company:  https://mountstreetshoecompany.com/men-slippers

Outras leituras