Bell & Ross x Defender Rally: tempo todo-o-terreno

A Bell & Ross reuniu forças com a equipa Defender montada pela Land Rover para competir no World Rally-Raid Championship. Fomos ver a escuderia em ação e aproveitámos para testar o BR-X3 Black Titanium ao volante do Defender Octa.

A colaboração entre a Bell & Ross e a Land Rover — mais concretamente através do universo Defender e da sua expressão competitiva Defender Rally — insere-se na lógica de convergência entre relojoaria mecânica e engenharia automóvel que existe desde os primórdios do século XX. Não se trata apenas de um exercício de co-branding: é uma aliança entre duas entidades que partilham valores estruturais semelhantes. A parceria arrancou no início da temporada e já esteve vigente no Dakar, como aliás fizemos questão de anunciar; na passada semana fomos acompanhar a atividade da escuderia no Rally-Raid Portugal 2026 (realizado entre o Alentejo e a Extremadura espanhola) e tivemos a oportunidade de experimentar no pulso o novo BR-X3 Black Titanium.

O BR-X3 Black Titanium ao volante de um Defender Octa | Foto: Defender Rally Team

Apesar de os seus famosos relógios quadriláteros terem sido inspirados nos painéis de instrumentos da aviação, a Bell & Ross sempre soube fazer evoluir os emblemáticos BR 01 e BR 03 para os dotar de maior versatilidade enquanto tool watches; é o caso dos BR 03 Diver de mergulho ou do BR 03 GMT e da recente variante BR-X3 — mais técnica, mais leve e dotada de um movimento especialmente concebido para a marca parisiense. E, no BR-X3 Black Titanium, a Bell & Ross traduziu em linguagem relojoeira os códigos visuais e técnicos de um dos nomes mais icónicos do todo-o-terreno.

Instrumento para todo-o-terreno: o BR-X3 Black Titanium | Foto: Defender Rally Team

O ponto de contacto mais evidente entre as duas marcas reside na filosofia de design. Tal como o Defender foi concebido como uma ferramenta utilitária extrema, também a Bell & Ross construiu a sua identidade em torno de instrumentos de leitura clara e imediata, inspirados na aviação e na instrumentação profissional. Na linha BR-X3 podem-se encontrar mostradores de alta legibilidade e uma estética funcional que é frequentemente complementada por cores e detalhes que evocam o universo automóvel. Ou seja, a linguagem formal de ambos os mundos converge, criando objetos coerentes.

Defender Rally Team

Com o Defender Rally Team, essa relação evolui no ambiente de extrema exigência do World Rally-Raid Championship (W2RC). Ao associar-se a um programa de competição em ralis, a Bell & Ross reforça a legitimidade técnica dos seus relógios enquanto instrumentos capazes de resistir a condições severas — vibrações, choques, variações térmicas e exposição ao pó e à água. A ligação ao desporto motorizado off-road funciona como um laboratório conceptual onde os valores da marca, tradicionalmente tão ligados à aviação, são reinterpretados à luz de um novo território: o da exploração terrestre em condições limite, após os anos da vertiginosa associação à escuderia Alpine (antes Renault) de Formula 1.

À partida em Badajoz: o Defender Dakar D7X-R no Rally-Raid Portugal | Foto: Defender Rally Team

No que diz respeito à Land Rover, e em particular no caso da linha Defender, a associação a uma marca de relojoaria independente e com forte identidade técnica contribui para reforçar o posicionamento premium do veículo — que tem um preço médio à volta dos 200 mil euros. Para a Bell & Ross, o acesso ao universo Defender também é prestigiante; o resultado, como em tantas parcerias entre a indústria relojoeira e o mundo automóvel, beneficia ambas as partes: o automóvel ganha uma extensão simbólica no pulso e o relógio ganha uma narrativa de uso real, ligada à aventura e à resistência.

Veículo todo-o-terreno a descer uma duna no deserto, levantando areia, ao lado de uma vista do interior com volante, bancos de competição e vários ecrãs digitais.
O Defender Dakar D7X-R preparado para as agruras do deserto | Foto: Bell & Ross

A entrada oficial da Land Rover no rally-raid fez-se no Dakar 2026, prova inaugural do campeonato. A equipa apresentou-se com o Defender Dakar D7X-R e conseguiu um feito raro: vencer na estreia. A dupla Rokas Baciuška/Oriol Vidal sagrou-se campeã na nova categoria Stock, com outro Defender a garantir o segundo lugar — num domínio quase absoluto que incluiu resultados ‘1-2-3’ em grande parte das etapas. Tal desempenho não só validou tecnicamente o projeto como reposicionou o Defender enquanto competidor em contexto extremo, algo que vai muito além da imagem de SUV premium ou da lendária fama de robusto veículo militar que tem encantado aficionados.

Um dos três Defender Dakar D7X-R no Rally-Raid Portugal | Foto: Defender Rally Team

Durante cerca de duas semanas e milhares de quilómetros no deserto, os Defender D7X-R demonstraram consistência, resistência e capacidade de adaptação — qualidades essenciais numa disciplina mais determinante do que a velocidade pura. O facto de a categoria Stock limitar as modificações reforça ainda mais o significado da vitória: o sucesso do Defender Rally Team assentou numa base técnica próxima do veículo de produção regular, sublinhando a robustez do projeto original.

O Defender Dakar D7X-R no troço da Extremadura | Foto: Defender Rally Team

A transição para o Rally-Raid Portugal 2026 colocou a equipa perante um desafio de natureza completamente distinta, já que a prova luso-espanhola do World Rally-Raid Championship se baseia em etapas mais curtas, técnicas e sinuosas, com terrenos húmidos, rios e trilhos estreitos. O contraste expôs uma nova dimensão do Defender: a necessidade de precisão, agilidade e leitura rápida do terreno — competências mais próximas de um rali tradicional do que de um raid clássico.

Grande parte do staff da escuderia Defender Rally usa no pulso o BR-03 Black Matte | Foto: Defender Rally Team

O profissionalismo da escuderia impressiona: cinco camiões TIR de apoio aos três veículos de corrida, para além de toda uma estrutura que anda entre os 70 e os 100 colaboradores. Os pilotos e os responsáveis usam Bell & Ross no pulso, naturalmente.

Bell & Ross BR‑X3 Black Titanium

Se a maior parte do staff usa o BR-03 Black Matte, o novo BR‑X3 Black Titanium é o ‘modelo oficial’ do Defender Rally Team; trata-se de uma das interpretações mais recentes da linguagem ‘instrumento de bordo’ da Bell & Ross, levando o conceito ‘círculo dentro de um quadrado’ para um território mais técnico e contemporâneo. Integrado na linha experimental ‘X’ que tem por protagonista o BR-X3 Tourbillon Micro-Rotor, representa uma ponte entre o clássico BR-03 e propostas mais avançadas como o BR-X5.

Ao volante de um Defender Octa: o BR‑X3 Black Titanium | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

A caixa de 41mm em titânio de grau 2 microjateado é um dos elementos-chave: leve, resistente à corrosão e com acabamento mate não refletor, reforça o carácter utilitário e quase militar do relógio. A construção modular é do tipo multicamadas (em sanduíche), combinando placas de titânio com uma faixa intermédia preta contrastante, o que acrescenta profundidade visual e robustez estrutural. Ao mesmo tempo, elementos como o protetor de coroa e a luneta assente numa base de borracha sublinham a vocação funcional e a resistência a choques.

Relógio Bell & Ross de caixa quadrada e bracelete preta, pousado sobre areia, ao lado da vista do movimento mecânico automático suíço.
O BR‑X3 Black Titanium e a massa oscilante estilizada do Calibre BR-CAL.323 | Fotos: Bell & Ross

No interior, o BR-X3 é animado pelo movimento automático BR-CAL.323, desenvolvido em excluvivo com a manufatura Kenissi e certificado pelo COSC. Trata-se de um calibre moderno, com 70 horas de reserva de marcha e frequência de 4 Hz. A arquitetura do mostrador acompanha essa evolução técnica: construção em vários níveis, indicação de reserva de marcha às 9 horas e uma data panorâmica às 3, compondo um layout equilibrado e altamente legível.

A desconstrução da estrutura do BR-X3 Black Titanium | Foto: Bell & Ross

Exalando uma sofisticação escurecida, o BR‑X3 Black Titanium joga com tons de preto e cinzento para criar uma presença discreta mas assertiva — quase stealth. A profundidade do mostrador, a legibilidade noturna garantida por luminescência Super-LumiNova e o design tridimensional reforçam a ideia de instrumento profissional. Mais do que um exercício de estilo, é sobretudo uma peça de engenharia aplicada ao pulso — exatamente o tipo de relógio que faz sentido numa parceria com universos como o da aviação… ou do rally-raid.

Larga escala

A entrada do Defender Rally Team no campeonato do mundo de rally-raid não é apenas uma operação desportiva — é um projeto industrial e logístico de grande escala, típico de um construtor com ambições globais. Ao contrário de equipas privadas ou semioficiais, trata-se de uma estrutura de fábrica apoiada pela Land Rover, o que implica níveis elevados de coordenação, investimento e integração entre engenharia, competição e comunicação. Desde a base operacional no Reino Unido até aos bivouacs no deserto ou na Europa, o projeto foi desenhado para funcionar como uma extensão direta da marca Defender no terreno competitivo.

O Defender Dakar D7X-R entre a Extremadura e o Alentejo | Foto: Defender Rally Team

A logística é um dos aspetos mais impressionantes. Para provas como o Rally-Raid Portugal, a equipa mobilizou uma significativa frota de apoio, incluindo cinco camiões TIR: três para transporte de peças e apoio mecânico, um para logística geral e outro para hospitalidade e operações. Este tipo de infraestrutura é essencial num campeonato em que as equipas precisam de ser auto-suficientes durante dias ou semanas, garantindo manutenção, reparações rápidas e gestão de componentes em ambientes remotos. No Dakar, essa escala é ainda maior — com contentores, veículos de assistência rápida e equipas avançadas a preparar etapas com dias de antecedência.

Instalações da equipa Defender Rally no bivouac de Badajoz | Foto: Defender Rally Team

No centro do projeto está o Defender Dakar D7X-R, uma evolução direta do modelo de produção Defender Octa. Apesar das modificações — suspensão reforçada, maior altura ao solo, vias alargadas e sistemas de arrefecimento melhorados — o regulamento da categoria Stock obriga a manter uma estreita proximidade ao modelo de série. O motor V8 biturbo de 4,4 litros permanece essencialmente inalterado, o que reforça a narrativa técnica do construtor britânico: competir com um veículo próximo do que qualquer cliente pode comprar, ainda que otimizado para condições extremas.

Os Defender Octa em frente ao Torre de Palma Wine Hotel, no Alentejo | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

No plano humano, o Defender Rally Team reuniu um alinhamento de pilotos e navegadores de topo, incluindo nomes como Stéphane Peterhansel, uma lenda do Dakar, ao lado de talentos mais jovens como Rokas Baciuška e perfis emergentes como Sara Price. Juntam-se-lhes dezenas de engenheiros, mecânicos, estrategas e especialistas em logística — uma equipa invisível mas fundamental, que garante que cada carro está no lugar certo, à hora certa e em condições de competir. Em rally-raid, onde o erro logístico pode ser tão penalizador quanto o erro de condução, a dimensão humana é absolutamente crítica.

Defenders Octa a caminho da etapa do Rally Raid Portugal em Badajoz | Foto: Defender Rally Team

O projeto assenta também numa rede de parcerias cuidadosamente escolhidas. A Bell & Ross assume a cronometragem oficial, sendo acompanhada de parceiros técnicos e lifestyle como a Castrol, Bilstein, YETI, Alpinestars e Shackleton — num ecossistema de marcas que não só apoia tecnicamente a equipa, como também amplifica a sua presença mediática, transformando o Defender Rally Team numa plataforma de comunicação global. Como se viu na apresentação da equipa no bonito Torre de Palma Wine Hotel, em Monforte.

O Bell & Ross BR-X3 Black Titanium no Rally Raid Portugal 2026 | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Relativamente ao orçamento, e embora os números exatos não sejam divulgados, é evidente se trata de um investimento de dezenas de milhões de euros. Entre desenvolvimento de viaturas, logística intercontinental, salários de pessoal especializado e ativação de patrocinadores, o Defender Rally Team posiciona-se claramente como um projeto de longo prazo, pensado não apenas para competir, mas para reforçar uma narrativa. Mais do que uma equipa de ralis, o Defender Rally Team é um laboratório vivo onde engenharia, marketing e aventura convergem — e onde cada etapa serve tanto para ganhar tempo no cronómetro como para reforçar o mito do Defender.

Leve mas robusto, técnico mas sofisticado: o BR-X3 Black Titanium | Foto: Bell & Ross

Em particular, a parceria entre Bell & Ross e o Defender Rally Team no World Rally-Raid Championship exemplifica autenticidade através da função. Ao traduzir o espírito do Defender em relógios que privilegiam legibilidade, robustez e clareza formal como o BR-X3 Black Titanium, a Bell & Ross contribui para uma narrativa onde o tempo deixa de ser apenas medido para ser vivido em movimento, no terreno e sob condições reais.

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