Um dos mais coloridos personagens da indústria relojoeira deixou-nos. A indústria relojoeira vai sentir a falta do carismático Jean-Marie Schaller, o líder da Louis Moinet que descobriu a verdadeira paternidade do cronógrafo.
A indústria relojoeira está de luto. A recente morte de Jean-Marie Schaller, ocorrida a 16 de maio de 2026 mas somente tornada conhecida na presente semana, deixa um vazio raro — daqueles que não se medem apenas em cargos ou marcas, mas em presença, em energia e em visão. Tinha somente 66 anos e foi vítima de doença prolongada, não tendo sequer marcado presença no stand da sua Louis Moinet durante o salão Watches and Wonders e no ano da comemoração do 210.º aniversário do cronógrafo.

Jean-Marie Schaller era um dos mais genuínos ‘personagens’ da relojoaria contemporânea: um homem de sorriso aberto, olhar vivo e um gosto assumido por casacos exuberantes que refletiam exatamente aquilo que era — alguém que recusava a neutralidade num mundo frequentemente demasiado uniforme e numa indústria geralmente catalogada como sendo excessivamente conservadora. Era um humanista, alguém empático que privilegiava o contacto direto com a imprensa e os aficionados.

Por detrás do inseparável adereço que quase equivalia ao seu cartão de visita (o blazer, muitos deles!) havia muito mais do que uma manifestação cromática. Ou seja, para além da forma havia muita substância. E sobretudo uma convicção profunda. Jean-Marie Schaller não se limitou a dirigir uma marca: ressuscitou uma ideia.

Quando relançou a Ateliers Louis Moinet em 2004, fê-lo com o objetivo de criar obras-primas da relojoaria até que, oito anos depois, a sua missão passou a ter uma dimensão suplementar quase arqueológica: devolver ao fundador o lugar que lhe pertencia na história da relojoaria. Essa inesperada missão, despoletada com a inusitada aquisição de um relógio de bolso num leilão em Genebra que se descobriu ser o primeiro utensílio de cronometragem mecânica, culminou com o reconhecimento oficial de Louis Moinet como inventor do cronógrafo.

Graças a esse Compteur de Tierces de 1816 foi possível fazer uma correção histórica que mudou definitivamente a narrativa dominante — até então associada a Nicolas Rieussec, a quem era anteriormente atribuída a paternidade do cronógrafo. Erradamente, como ficou comprovado. Sem o esperar, Jean-Louis Schaller viu o passado abrilhantar a sua vida e dar uma nova perspetiva à relojoaria. Na sequência dessa descoberta, visitou Lisboa na década passada e foi mesmo entrevistado para um artigo de quatro páginas na edição 45 da Espiral do Tempo… intitulado ‘À Conversa com Robin Hood’.


Mas Jean-Marie Schaller não era apenas um homem do passado. Era, acima de tudo, um criador de universos. Fascinado pelo cosmos, pelos meteoritos (que colecionava) e pelos vestígios de outros tempos e mundos, construiu uma linguagem relojoeira única — uma mistura de ciência, arte e poesia mecânica. Os relógios Louis Moinet não são apenas instrumentos de medição do tempo; sob a sua batuta tornaram-se fragmentos do infinito, pequenas arquiteturas onde o espaço e a matéria ganhavam forma no pulso.
No princípio era o verbo
Quando relançou a Louis Moinet em 2004, Jean-Marie Schaller não vinha propriamente do ‘circuito clássico’ da alta-relojoaria suíça no seu sentido mais tradicional (proveniente de manufaturas históricas ou com carreira técnica dentro de grandes grupos), embora tenha crescido numa zona fortemente influenciada pela indústria relojoeira — Corban, nas montanhas do Jura. O seu percurso foi mais híbrido e, de certa forma, mais livre, o que explica muito da abordagem pouco convencional que depois imprimiu à Louis Moinet, numa trajetória que se pode comparar à de Xavier de Roquemaurel, que tem feito da Czapek uma grande marca sem ter tido formação na indústria relojoeira.

Antes da Louis Moinet, Jean-Marie Schaller teve uma carreira ligada sobretudo ao universo do marketing e desenvolvimento de produto, com experiência em áreas que cruzavam a joalharia e os objetos de luxo. Trabalhou em projetos de distribuição e posicionamento de marcas de prestígio, o que lhe deu uma compreensão muito apurada de narrativa, identidade e diferenciação — três vetores que mais tarde se tornariam absolutamente centrais na forma como construiu a sua marca.

Jean-Marie Schaller foi sobretudo um estratega e criador de conceito, alguém de forte sensibilidade estética e histórica — sobretudo alguém com capacidade de contar histórias e dar-lhes corpo através de objetos. Essa faceta emocional ajuda a perceber por que razão a Louis Moinet nunca tentou competir diretamente com as grandes maisons tradicionais em termos de legitimidade ‘clássica’, optando antes por um território próprio — mais experimental, mais narrativo, mais cósmico e muito original. A descoberta e valorização do Compteur de Tierces como primeiro cronógrafo não foi um acaso, foi o resultado dessa combinação entre curiosidade histórica, inteligência estratégica e instinto de diferenciação que sempre foram seu apanágio.

Sob a sua liderança, a Louis Moinet transformou-se numa das vozes mais singulares da relojoaria independente, afirmando-se pela ousadia conceptual, pela teatralidade técnica e por uma liberdade criativa que ele próprio resumia numa ideia simples: não seguir caminhos já traçados. As suas criações talvez não tenham tido o impacto mediático que mereciam, mas uma breve visita ao catálogo da Louis Moinet confirma toda a singularidade do projeto.

Os relógios estão divididos entre as linhas‘Mechanical Wonders’ e ‘Cosmic Art’, para além das criações únicas por encomenda. O Cosmopolis, com o seu mostrador polvilhado por 12 fragmentos de meteoritos distintos (um recorde!) seduziu os aficionados mais exigentes, tal como os seus carismáticos cronógrafos fascinavam os amantes da velocidade — desde a linha 1816 evocativa do Compteur de Tierces à série Time to Race.

Enfim, Jean-Marie Schaller deixou-nos fisicamente… mas também nos deixou mais do que uma marca — deixou-nos a memória de uma figura carismática e a assinatura especial de alguém que acreditava que a relojoaria podia ser simultaneamente memória e futuro, ciência e sonho, rigor e imaginação.





