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Leilões: a força do martelo

Em Genebra | Com a Dubai Watch Week a começar e o evento Espiral do Tempo/Leica no horizonte, aqui fica um último rescaldo aos extravagantes cinco dias em Genebra que estabeleceram vários recordes — e voltaram a provar que os leilões estão a contribuir muito para o valor intrínseco de uma marca, com excelentes resultados para a Phillips, a Christie’s, a Sotheby’s e a Antiquorum.

De facto, foi uma mão cheia de dias plenos de emoção e que marcaram o regresso em força da comunidade relojoeira a grandes eventos presenciais. Já abordámos devidamente a 20ª edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève e seguidamente fez-se o rescaldo a essa inolvidável celebração relojoeira que foi o leilão Only Watch. Devido às suas caraterísticas filantrópicas, exemplares únicos submetidos à subasta e frequência bienal, o Only Watch é um fenómeno à parte que até tem catapultado várias das chamadas marcas independentes para a ribalta e a valorização dos seus relógios — mas pode dizer-se que os restantes leilões genebrinos estiveram à altura e também contribuíram com recordes.

Aurel Bacs com a Espiral do Tempo e o F. P. Journe a leilão | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

No total, o conjunto dos leilões desenrolados em Genebra nessa primeira semana de novembro avizinhou os 150 milhões, distribuídos por 1203 lotes. Ou seja, muito dinheiro e muitos relógios, o que mostra bem que o nível de interesse de colecionadores e investidores pode estar no ponto mais alto de sempre. Para além dos 30 milhões de francos suíços do já analisado Only Watch (vale a pena consultar a peça já publicada no nosso site), só a Phillips atingiu 68,2 milhões pelos 249 lotes leiloados, quase duplicando o seu anterior recorde num leilão relojoeiro. Por seu lado, a sessão Christie’s Rare Watches teve 118 lotes que perfizeram 22,8 milhões. A Sotheby’s teve 220 lotes na sua sessão Important Watches e a Antiquorum leiloou 563 peças para um resultado final de 15,7 milhões.

Rolex | © Paulo Pires e Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O principal destaque tem de ir obrigatoriamente para a Phillips — melhor, para a Phillips ‘in Assotiation with Bacs & Russo’, porque o papel de Aurel Bacs e da sua mulher na gestão da equipa de especialistas relojoeiros da conhecida casa leiloeira é notável. Hoje em dia, e há já uma década, Aurel Bacs é sinónimo de sucesso e o êxito foi mesmo estrondoso. As grandes vedetas das duas sessões realizadas no La Réserve foram as quatro peças de Philippe Dufour, incluindo o Grande et Petite Sonnerie Nº1 vendido por 4,749 milhões (3,9 milhões mais buyer’s premium), e cinco peças ditas de subscrição da F.P. Journe, com o Chronomètre à Résonance ‘Souscription’ (3,9 milhões) e o Tourbillon Souverain à Remontoir d’Égalité ‘Souscription’ (3,54 milhões) a destacarem-se. O desfecho mais inesperado surgiu com o Omega Speedmaster Ref. 2915-1 Broad Arrow de mostrador ‘tropical’, que estabeleceu um novo recorde para a marca com 2,813 milhões de francos suíços pagos por um licitante chinês… quando a estimativa era de ‘apenas’ 80.000/120.000.

Aurel Bacs no leilão Phillips
Aurel Bacs no leilão Phillips | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

“Já sabíamos que iria ser o melhor de sempre porque nunca antes uma casa leiloeira teve um conjunto de relógios do outro mundo, daqueles que só aparecem uma vez na vida e no mesmo catálogo”, confessou-nos Aurel Bacs. “Ter o conjunto completo dos relógios de subscrição Nº1 do François-Paul Journe, ter o único conjunto completo de Philippe Dufours no mundo, ter um Patek 2499 com Serpico y Laino no mostrador em excelente condição, e por aí fora… foi como ter o dia de aniversário, o dia da graduação na universidade e o natal no mesmo dia, foi a tempestade perfeita. Teria preferido metade agora e a outra metade em Maio, porque ficava contente com duas sessões de 35 milhões de dólares e podia ir de férias para regressar com metade do trabalho feito. Mas, enquanto casa leiloeira, não podemos dizer para esperar. Os relógios aparecem quando aparecem e ou os recebemos ou os recusamos. Não poderia dizer não a um conjunto completo de Philippe Dufours — e o mercado reagiu entusiasticamente. A Elizabeth Doerr escreveu que era o leilão da década, houve quem dissesse que era do século… mas acho exagerado”, referiu.

Os quatro magníficos do mestre Philippe Dufour
Os quatro magníficos do mestre Philippe Dufour | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Os quatro magníficos do mestre Philippe Dufour perfizeram a bagatela de 11 milhões: o Grande et Petite Sonnerie Nº1 foi vendido por 4,749 milhões de francos suíços, o Grande et Petite Sonnerie de bolso por 2,3 milhões, o Duality n°8 por 3,66 milhões e o Simplicity n° 57 por ‘apenas’ 756 mil. A raridade contribuiu para o resultado de cada relógio vendido, mas algumas tendências ficaram bem claras no cruzamento dos vários leilões.

Richard Mille e MB&F | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Notou-se que a antiguidade não fez tanto a diferença como o peso da marca, com a Patek Philippe, a Rolex, a Audemars Piguet (mais na linha Royal Oak) e a Richard Mille a reforçarem o seu estatuto atual que tem levado o mercado quase à loucura. Tal como os relógios desportivos de luxo dessas marcas (o Nautilus, o Royal Oak, os modelos da linha Professional e Oyster Perpetual da Rolex, qualquer exemplar Richard Mille), também a alta relojoaria independente está na moda. Como se tem visto, os mestres Philippe Dufour e François-Paul Journe estão num patamar à parte mas têm ‘contagiado’ a De Bethune, a MB&F, a Urwerk e a Akrivia. Também históricas manufaturas de grandes grupos como a A. Lange & Söhne, a Vacheron Constantin e a Jaeger-LeCoultre (Richemont) ou a Zenith (LVMH) começam a surgir em alta.

Harry Winston desenhado por François-Paul Journe
Harry Winston com mostrador desenhado por François-Paul Journe | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

“Tivemos 3000 pessoas a participar, acho que foi um recorde, especialmente porque estavam apenas 250 relógios em leilão. Mesmo que cada pessoa só tivesse comprado um, significaria que todos os outros foram para casa sem nada. O leilão foi oversubscribed. O apetite por grandes relógios é maior do que nunca. E depois vemos o sistema económico global e pensamos: porque é que há criptomoedas, porque é que as propriedades estão tão caras, porque é que a bolsa está em alta? Porque há mais dinheiro do que nunca a circular e não tantas coisas belas para comprar. É a história da oferta e da procura. A procura aumentou e, consequentemente, os preços aumentaram”, disse-nos Aurel Bacs numa longa entrevista a ser publicada na edição da Espiral do Tempo que em breve estará nas bancas.

A Espiral do Tempo no leilão Phillips ‘in Assotiation with Bacs & Russo’ | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O mais insólito da ponta final do leilão da Christie’s prendeu-se com a verba mirabolante paga por… duas caixas de madeira sem relógios: a caixa dos relógios de Souscription da F.P. Journe e a caixa de Philippe Dufour eram de conjuntos de relógios que foram individualmente adquiridos por compradores diferentes. E, porque já se sabia que isso iria acontecer, foi determinado antecipadamente que o preço da sua venda reverteria para a instituição de caridade de Luc Pettavino em favor do combate à distrofia muscular: o Only Watch. O próprio Luc Pettavino esteve sentado entre vários licitadores que foram competindo entre si até se chegar aos 100 mil francos pala caixa F.P. Journe, um recorde mundial para uma caixa de relógios!

A sala do leilão da Phillips
A sala onde teve lugar o leilão da Phillips | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O carisma de Aurel Bacs e os valores da Phillips (sem esquecer o próprio leilão Only Watch) empurraram as restantes subastas para a sombra, mas não os eclipsaram. Sobretudo o leilão Christie’s Rare Watches — que teve 118 lotes a perfazer 22,8 milhões gerados por uma participação global de licitantes oriundos de 26 países e cinco continentes. — incluindo 2,67 milhões pelo Patek Philippe Worldtimer Ref. 2523, o primeiro exemplar do género com duas coroas e centro em ouro decorado a guilloché; e 1,89 milhões pelo Rolex Deep Sea Special Nº1 de 1953, uma das peças experimentais concebidas para se colarem ao batiscafo Trieste do explorador Auguste Piccard numa descida a 3150 metros de profundidade.

Antiquorum
Antiquorum | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O leilão da Antiquorum contou com 1300 licitantes que estabeleceram quatro recordes numa verba total de 15,7 milhões: o Patek Philippe ref. 3971 de mostrador opalino/dourado foi vendido por 437.500 francos suíços; o Cartier Tank à guichet nº 1/03 perfez 200.000; o Audemars Piguet repetidor de minutos com caixa tonneau foi vendido por 525.000; e o Audemars Piguet Royal Oak ref. 25654 de mostrador salmão chegou aos 462.500. Valores de tirar o fôlego, não? Errado. A Phillips já está a preparar o seu leilão de amanhã (25 de novembro!) em Hong Kong…

Antiquorum
| © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

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