Leilões de maio: valores exorbitantes e resultados inesperados

Houve recordes e indicadores muito interessantes no tradicional fim-de-semana primaveril de leilões em Genebra. Patek Philippe, F.P. Journe, Akrivia de Rexhep Rexhepi e outros nomes da alta-relojoaria independente estiveram em grande, houve relógios de bolso a surpreender e um ‘simples’ relógio de parede a valer uma casa.

O fim de semana genebrino de leilões relojoeiros da primavera confirmou uma sensação que já vinha crescendo desde o ano passado: o mercado deixou definitivamente para trás a correção pós-euforia pandémica e entrou numa nova fase, mais seletiva, mais madura e paradoxalmente mais sólida. É certo que há recordes a registar, mas a especulação fácil desapareceu em grande parte — mesmo que os grandes colecionadores continuem dispostos a pagar somas verdadeiramente extraordinárias por relógios raros, frescos para o mercado e com proveniência impecável.

homem em leilão com rplaca Phillips levantada Leilões Genebra © Joy Corthesy for PHILLIPS
Como é habitual, houve muita licitação presencial a acompanhar as licitações online e por telefone | Foto: Joy Corthesy/Phillips

E nunca isso ficou tão evidente como nas vendas deste passado fim de semana das casas Phillips, Christie’s e Antiquorum. Está confirmada a confirma a força e a abrangência do mercado relojoeiro internacional num contexto geopolítico global particularmente desafiante. O mercado não está apenas saudável, está ávido. Aurel Bacs e Livia Russo, da Phillips, afirmaram mesmo que «Há cerca de 30 anos, um volume de negócios anual de cem milhões de dólares para um departamento de relógios era impensável. Agora, com este leilão, os relógios estão lado a lado com obras de arte, joias extraordinárias e carros históricos raros no topo do mundo do colecionismo, e continuarão a sua trajetória ascendente». E mais uma vez ficou provado que há gente com dinheiro para tudo.

Phillips

A grande vencedora foi a Phillips (mais precisamente Phillips in Association with Bacs & Russo). O Geneva Watch Auction: XXIII tornou-se oficialmente o maior leilão relojoeiro da história em valor total, alcançando cerca de 74,8 milhões de francos suíços — mais de 96 milhões de dólares — com uma taxa de venda praticamente perfeita: 224 lotes vendidos em 225 apresentados. Catorze relógios ultrapassaram a barreira do milhão de francos suíços e a leiloeira anunciou ainda 43 recordes mundiais. Os resultados recorde do leilão de dois dias no Hotel President coroam várias temporadas de crescimento consistente, impulsionado pela expertise dos especialistas da Phillips (sobretudo Aurel Bacs) e pelo compromisso em proporcionar aos consignadores e compradores uma experiência excecional.

Relógio de pulso Patek Philippe Ref. 2523 Worldtimer | Foto: Phillips
Recordista com 7,96 milhões de CHF: o Patek Philippe Ref. 2523 World Time ‘South America’ | Foto: Phillips

O símbolo máximo da venda foi um extraordinário Patek Philippe World Time Ref. 2523 ‘South America’, em ouro amarelo e com mostrador em esmalte cloisonné, que atingiu cerca de 7,96 milhões de francos suíços após uma longa disputa de licitações telefónicas e presenciais. Torna-se no segundo Patek Philippe vintage e o terceiro relógio de pulso vintage a ultrapassar os 10 milhões de dólares em leilão (todos vendidos pela Phillips). O valor não surpreende apenas pela raridade do relógio — um dos mais desejados da relojoaria vintage — mas também porque confirma uma tendência muito clara: o mercado voltou a privilegiar relógios historicamente importantes e artisticamente relevantes em vez de peças que se podem catalogar como hype. O cloisonné foi um autêntico chamariz para os colecionadores. E isso viu-se não só no World Time Ref. 2523 ‘South America’, mas também em vários outros resultados fortes de peças com mostradores esmaltados artísticos.

Sempre em destaque: Aurel Bacs como chefe de orquestra da Phillips | Foto: Joy Corthesy/Phillips
Sempre em destaque: Aurel Bacs como chefe de orquestra da Phillips | Foto: Joy Corthesy/Phillips

Mas talvez mais interessante do que o valor absoluto tenha sido aquilo que a Phillips revelou sobre o estado atual do mercado. Há dois ou três anos, muitos analistas previam que os independentes contemporâneos iriam arrefecer drasticamente após o pico especulativo de 2021-2022. Em vez disso, o que aconteceu foi uma separação muito clara entre ‘moda’ e relevância horológica. Os independentes importantes continuam em grande — sobretudo primeiras séries, peças raras e relógios tecnicamente significativos.

relógio de pulso: um raro F.P. Journe Octa Chronograph do leilão da Phillips | Foto: Phillips
Um cronógrafo especial: o F.P. Journe Octa Chronograph | Foto: Phillips

A Phillips apresentou resultados muito sólidos ou mesmo extraordinários para nomes como F.P. Journe (uma seleção de nove relógios que estabeleceram nada menos que seis recordes mundiais) e Akrivia (que atualmente usa apenas o nome do fundador Rexhep Rexhepi; o AK-06 em aço inoxidável atingiu 3.000.000 francos suíços!).

Relógio de pulso Akrivia Rexhep Rexhepi AK-06 | Foto: Phillips
Rexhep Rexhepi em alta: o seu Akrivia AK-06 chegou aos três milhões de CHF | Foto: Phillips

O Naissance d’une Montre N.º 1/11 da Greubel Forsey, em colaboração com Philippe Dufour e Michel Boulanger, foi vendido por 1.651.000 francos suíços. Peças da Daniel Roth, da De Bethune, e de Roger Smith reforçaram a ideia de que o colecionismo sofisticado está hoje mais centrado em autoria e legitimidade histórica do que em mera escassez artificial.

Relógio de pulso Greubel Forsey Naissance d'une Montre | Foto: Phillips
O excecional Greubel Forsey Naissance d’une Montre completamente feito à mão | Foto: Phillips

Houve também várias surpresas deliciosas entre os 24 relógios de bolso. A liderar a categoria estava o exclusivo Louis Richard ‘Triple Detent Constant Force One Minute Tourbillon Chronometer’, que atingiu 3.968.000 francos suíços. Outros resultados de destaque incluíram o Louis Audemars & Co. ‘La Royale’ Super Complication, que atingiu 2.516.000 francos suíços, o Agassiz Watch Co. ‘Victory Watch’, oferecido a Charles de Gaulle, alcançou 1.460.500 francos suíços, e o Paul Ditisheim ‘Minute Detent Escapement Tourbillon’ foi vendido por 1.270.000 francos suíços. Um Charles Frodsham Split Seconds Chronograph Tourbillon, estimado modestamente entre 30 e 60 mil francos suíços, explodiu para mais de 150 mil.

relógio de bolso em ouro Paul Ditisheim do leilão da Phillips | Foto: Phillips
Lote 138: um belo exemplar de bolso em ouro Paul Ditisheim | Foto: Phillips

Tais resultados são importantes porque mostram outra tendência crescente: os colecionadores mais avançados estão novamente a olhar para relojoeiros independentes menos conhecidos mas tecnicamente fascinantes, algo que não acontecia com tanta intensidade desde os anos 1990.

Christie’s

Como habitual, a Christie’s teve uma abordagem diferente da Phillips: menos espetáculo mediático e mais curadoria clássica. Mas também confirmou um mercado extremamente saudável. Embora os números finais globais da temporada ainda não estejam totalmente consolidados publicamente, a venda Rare Watches confirmou o excelente momento da leiloeira no segmento relojoeiro de topo. A Christie’s apostou fortemente na combinação entre proveniência com pedigree, raridade vintage e independentes de primeira linha, apresentando lotes altamente mediáticos como o Patek Philippe Nautilus pertencente ao espólio de Quincy Jones e um raríssimo Cartier Crash de 1967.

relógio do pulso na mesa Cartier Crash | Foto: Christie's
O Cartier Crash continua especialmente cobiçado | Foto: Christie’s

Aliás, uma das leituras mais interessantes a ter relativamente à Christie’s foi precisamente a consolidação dos Cartier vintage como categoria absolutamente dominante. Durante muito tempo, a Cartier foi encarada como uma marca de design first, watchmaking second no universo leiloeiro… mas essa ideia pertence ao passado. Hoje, modelos históricos como os Crash (uma variante Cartier London atingiu 1,575 milhões1), Tank Cintrée ou Tank à Guichets são vistos como objetos culturais tão importantes quanto muitos Patek Philippe ou Rolex mais raros. E há uma nova geração de colecionadores — sobretudo mais jovens e a Gen Z — que se identifica profundamente com esse lado artístico, iconográfico e menos puramente mecânico do relógio vintage. O mercado atual está muito menos obcecado com complicações e muito mais atento à identidade estética e à narrativa cultural.

Relógio de parede wall clock F.P. Journe Octa Reserve do leilão da Christie's
O relógio promocional de parede F.P. Journe Octa Reserve com movimento de quartzo faturou mais de 150.000 euros! | Foto: Christie’s

A F.P. Journe confirmou toda a sua potência atual, registando acentuado interesse e vendas condizentes… com alguns laivos de loucura, como se pode constatar pela venda de um relógio Octa de parede por 158.750 CHF! Tais relógios de parede, feitos pela empresa suíça Ruegg S.A. e com movimento eletrónico alimentado por pulhas, nunca foram produtos comerciais normais; eram objetos promocionais extremamente limitados distribuídos pela manufatura a boutiques e revendedores autorizados no início dos anos 2000, normalmente inspirados no design do Octa Réserve ou do Octa Lune. Hoje são muito difíceis de encontrar no mercado.

relógio do pulso de lado Rolex Daytona | Foto: Christie's
O exótico e precioso Rolex Daytona ‘Eye of the Tiger’ | Foto: Christie’s

A Rolex, naturalmente, continuou omnipresente. Mas também no que diz respeito à marca da coroa se notou uma evolução importante: já não é qualquer Daytona ou Submariner mais raro que desencadeia loucura automática. O mercado tornou-se muito mais criterioso. Protótipos, configurações anómalas, proveniências irrepetíveis ou estados de conservação absolutamente excecionais continuam a gerar batalhas entre licitadores; peças ‘simplesmente raras’ já não chegam para licitações épicas. Um dos exemplos mais comentados foi o protótipo de Submariner em ouro branco apresentado pela Christie’s, uma peça misteriosa e fascinante que voltou a demonstrar como o mercado Rolex se tornou cada vez mais académico e historiográfico.

Antiquorum

Quanto à Antiquorum, o papel da histórica leiloeira especializada foi diferente, mas não menos revelador. A casa fundada em 1974 continua a funcionar como um barómetro particularmente interessante do colecionismo intermédio e especializado. Ao contrário da Phillips ou da Christie’s, que hoje operam fortemente no ultra topo do mercado, a Antiquorum mantém uma oferta muito mais vasta, com enorme diversidade de marcas e de lotes, desde cronógrafos vintage acessíveis até peças museológicas ou especialidades contemporâneas.

relógio de pulso japonês na mesa Otsuka Lotec | Foto. Antiquorum
Uma especialidade contemporânea com marca japonesa: o Otsuka Lotec Ref. 6 faturou 6.250 CHF | Foto. Antiquorum

E justamente aí reside uma das mensagens mais relevantes do passado fim de semana: o mercado médio parece estar finalmente a estabilizar depois de dois anos difíceis. Houve procura sólida por cronógrafos clássicos da Breitling, Gallet, Movado e Lemania, sobretudo quando bem preservados e corretamente estimados. O que mostra um alargamento saudável da base de colecionadores. Durante o boom especulativo, o mercado parecia concentrar-se apenas em seis ou sete referências mais mediáticas (ou Instagramáveis…). Agora começa novamente a existir espaço para conhecimento e descoberta, começando a ressurgir modelos relativamente recentes de marcas que entretanto estão a hibernar.

Indicadores

As vendas do fim de semana transato mostraram um mercado muito mais sofisticado do que aquele que existia há quatro ou cinco anos. O dinheiro continua lá — e em quantidades gigantescas — mas está bem mais exigente. Os colecionadores querem qualidade absoluta, originalidade impecável, proveniência documentada e significado histórico real.

relógio de pulso F.P. Journe Chronometre Resonance do leilão da Phillips | Foto: Phillips
F.P. Journe Chronometre à Resonance numa configuração rara | Foto: Phillips

Ou seja, a era em que bastava colocar os nomes Daytona, Nautilus ou Royal Oak num catálogo para garantir folia instantânea parece estar a desaparecer. No seu lugar está a surgir um mercado mais seletivo, mais maduro e talvez até mais sustentável. E essa poderá ser a notícia mais importante de todas. Mesmo que continue a haver gente com dinheiro para tudo, inclusivamente para adquirir um wall clock F.P. Journe por valores que dariam para comprar um apartamento em muitas cidades europeias — e a F.P. Journe está a tornar-se mesmo num case study que em breve iremos dissecar..

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