Em menos de uma década, Rexhep Rexhepi tornou-se num dos protagonistas da alta-relojoaria contemporânea. O seu novo cronógrafo flyback de estilo neoclássico veio reforçar ainda mais a sua aura.
O novo Chronograph Flyback de Rexhep Rexhepi não é apenas o lançamento mais importante do ano na relojoaria independente até ao momento — muito provavelmente não haverá muitos outros de relevância similar e raros serão aqueles que terão importância maior. É mesmo um relógio que deixou a crítica relojoeira unanimemente rendida e, por outro lado, serve de declaração de princípios personificada numa elegante caixa de 38,8 mm por 9,7 mm dotada um calibre cronográfico de corda manual totalmente novo e integrado com flyback, roda de colunas, embraiagem horizontal, contador de minutos saltante e 72 horas de reserva de carga.

Disponível em platina ou ouro rosa e com mostrador azul claro ou preto, muito dificilmente lhe escapará o título de Cronógrafo do Ano nos múltiplos concursos que irão eleger os melhores exemplares de 2026 no final do outono — a começar pelo mais importante, o Grand Prix d’Horlogerie de Genève.

O novo RRCHF (sigla de Rexhep Rexhepi Chronograph Flyback) é também uma criação que vem reforçar a aura de menino-prodígio que tem sido aplicada a Rexhep Rexhepi e que faz com que as suas listas de espera tenham listas de espera, tal é o apetite dos grandes colecionadores pelos relógios idealizados pelo jovem mestre de ascendência kosovar. A fama trouxe-lhe fortuna e, depois de sensacionais registos nos leilões Only Watch, assinou uma celebrada parceria relojoeira com a Louis Vuitton que redundou no extraordinário LVRR Chronographe à Sonnerie; atualmente dispõe mesmo de quatro ateliers na zona antiga de Genebra, mas a produção vai permanecer muito restrita e à volta da meia centena de peças anuais.

É também interessante constatar que a designação de marca Akrivia com que Rexhep Rexhepi se lançou tem vindo a ser cada vez menos utilizada, com o jovem mestre a assumir claramente o seu próprio nome enquanto maison de relojoaria — tanto nos relógios como na fachada dos múltiplos ateliers.
Inversão de princípios
Apresentado em versões de platina com mostrador em esmalte azul designado‘stormy blue’ ou ouro rosa 5N com mostrador em esmalte preto, o novo Rexhep Rexhepi Chronograph Flyback inverte a hierarquia funcional tradicional do cronógrafo de pulso. Em quase todos os cronógrafos clássicos, a leitura do tempo civil domina o mostrador, enquanto a função da cronometragem surge como complicação acessória. Rexhep Rexhepi seguiu o caminho oposto: coloca o cronógrafo no centro conceptual e visual do relógio. O ponteiro central de segundos do cronógrafo, soberano e dominante, percorre a escala periférica como se estivéssemos perante um cronómetro científico miniaturizado para o pulso. As horas e minutos assumem um papel algo secundário no submostrador às 12 horas, numa inversão que é uma tomada de posição sobre a razão de ser do cronógrafo mecânico enquanto instrumento no século XXI.

É precisamente na técnica do movimento que a inversão de princípios ganha substância. O calibre foi desenvolvido de raiz como uma arquitetura integrada, e não com um movimento base de três ponteiros com módulo cronográfico sobreposto — uma escolha conforme os princípios da alta-relojoaria. O resultado é notável: um cronógrafo flyback abaixo dos 10mm de espessura total. A embraiagem horizontal foi escolhida não por nostalgia ou respeito pela tradição, mas porque oferece uma legibilidade mecânica e uma beleza cinética que uma embraiagem vertical dificilmente iguala. Ao acionar o cronógrafo, o colecionador pode ver o acoplamento das rodas, o engrenar do sistema e a coreografia da roda de colunas a comandar as alavancas num espetáculo didático de relojoaria superlativa.

A função flyback reforça o lado instrumental da peça e melhora a capacidade cronográfica. Em vez da sequência tradicional stop-zero-reset, um único toque faz regressar instantaneamente o ponteiro a zero e relança de imediato a medição, o que exige um controlo de forças incrivelmente preciso: martelos, molas e alavancas têm de trabalhar em perfeita sincronia para que o retorno não perturbe a amplitude do balanço nem introduza qualquer salto parasita no início da contagem. Rexhep Rexhepi sabe que, no patamar em que a sua marca está, é uma questão de ética relojoeira. Para além disso, e como é seu apanágio, cada superfície visível e invisível dos componentes do movimento é acabada como se fosse a face principal da peça.
Minutos saltantes
O que é particularmente notável no movimento é a forma como consegue conciliar a configuração assimétrica do mostrador com um equilíbrio harmonioso no verso. A grande roda de colunas, o acoplamento horizontal, o generoso balanço de inércia variável e o tambor de corda de 72 horas distribuem-se com uma clareza arquitetónica que faz lembrar os melhores cronógrafos clássicos de tradição genebrina, mas filtrados por um sentido mais contemporâneo do espaço e da profundidade. O totalizador de minutos saltantes é especialmente relevante do ponto de vista técnico, porque transforma a leitura do tempo decorrido numa indicação mais limpa e precisa, sem o habitual arrasto progressivo.

As duas versões existentes do Rexhep Rexhepi Chronograph Flyback são bem reveladoras de como a cor e o metal alteram a personalidade de um relógio sem tocar na mecânica. A versão em platina, com mostrador em esmalte dito stormy blue, apresenta uma aura quase atmosférica que, combinada com a frieza metálica da platina, dá ao relógio uma aura de instrumento científico entre o relógio de observatório e o cronómetro de marinha. Já a versão em ouro rosa 5N com esmalte preto introduz uma dimensão mais calorosa, mais clássica e talvez mais dramática. O contraste do dourado com o negro absoluto do esmalte grand feu torna a peça mais teatral. Em ambos os casos, os submostradores fumados em safira deixam entrever o movimento, criando tensão visual entre a opacidade vitrificada do esmalte e a transparência mecânica.

Há também uma elegância fundamental nas proporções exteriores que muito contribui para a fama já granjeada nas duas semanas de vida do relógio e que já estava patente no Chronomètre Contemporain. Os 38,8mm do Chronograph Flyback colocam-no num território quase ideal para um cronógrafo neo-clássico, evitando tanto o gigantismo dos anos 2000 como o miniaturismo saudosista. A espessura de 9,7mm é notável para um flyback integrado de refinado pendor técnico. Mas a complexidade técnica quase que desaparece no pulso, dando lugar à sensação de um objeto elegante de grande ‘vestibilidade’. O novo Chronograph Flyback talvez seja a síntese mais pura da filosofia relojoeira de Rexhep Rexhepi até agora.

Após ter conquistado o Olimpo da relojoaria independente com o Chronomètre Contemporain e ganho um correspondente prémio no Grand Prix d’Horlogerie de Genève, o relojoeiro genebrino escolhe a complicação mais popular da tradição mecânica — o cronógrafo — e reforçar o seu papel funcional e emocional.
Comparação com os clássicos
O que torna o RRCHF verdadeiramente revolucionário, sobretudo quando comparado com cronógrafos de referência da Patek Philippe ou da A. Lange & Söhne, é a inversão do processo criativo. Os grandes cronógrafos clássicos, como o CH 29-535 da Patek ou o Datograph da Lange, nascem tradicionalmente do movimento para a caixa. Rexhep Rexhepi começou pelo mostrador, pela caixa e pelas proporções ideais no pulso, e só depois desenhou um calibre absolutamente exclusivo para esse invólucro. A integração entre posição da coroa, alinhamento dos botões, profundidade do mostrador e distribuição dos submostradores é ao mesmo tempo peculiar e perfeita. O processo de maturação foi longo: 14 anos até ao produto final.

As já frequentes comparações com o Datograph, que também tem um mostrador ligeiramente assimétrico com o plano dos totalizadores mais baixo do que o eixo central dos ponteiros principais, são particularmente interessantes. O Datograph é, para muitos, a grande referência do cronógrafo clássoco moderno pelo virtuosismo da sua arquitetura no verso e pela adição mecânica do flyback. Rexhep Rexhepi apresenta algo conceptualmente distinto: uma simetria axial quase impossível num cronógrafo, impondo ao calibre uma ordem vertical que vai do tambor de corda superior ao grande balanço inferior, unidos por uma ponte transversal que lhe dá identidade. O Datograph apresenta uma exuberância mecânica quase barroca, digna da fama artística de Dresden do antigamente; o RRCHF evoca um classicismo moderno, mais calmo, linear e calvinista, tendo em conta a influência protestante que caraterizou Genebra no passado.

A escolha da embraiagem horizontal é outro ponto onde Rexhepi entra em diálogo direto com a tradição. Em termos puramente funcionais, uma embraiagem vertical, como a que se encontra em alguns cronógrafos contemporâneos de alto rendimento, oferece vantagens objetivas no arranque sem salto do ponteiro. Mas Rexhepi escolhe deliberadamente a solução lateral porque ela permite ao utilizador observar o cronógrafo a trabalhar: vê-se a roda engatar, sente-se a ação da roda de colunas, percebe-se o instante em que a mecânica ganha vida.

Tecnicamente, o elemento mais refinado do RRCHF talvez seja o contador de minutos de salto instantâneo. Nos Patek históricos, nos Valjoux mais lendários e mesmo na esmagadora maioria dos cronógrafos de mestres independentes, a leitura dos minutos decorre por arrastamento progressivo. A opção pelos minutos saltantes implica um sistema próprio de acumulação e libertação de energia, calibrado para libertar exatamente a força necessária no sexagésimo segundo, sem comprometer a amplitude do balanço nem a estabilidade da rodagem.

As variantes azul e preta reforçam duas leituras emocionais muito diferentes do mesmo calibre. A platina com mostrador grand feu ‘stormy blue‘ é a interpretação mais etérea e de serenidade cromática. Já a versão em ouro rosa com esmalte preto aproxima-se da solenidade dos grandes cronógrafos clássicos de bolso. E há já muita gente a colocá-lo entre os melhores cronógrafos manuais do século XXI. Em certos aspetos de coerência estética e pureza conceptual, talvez seja mesmo o melhor… mesmo que, no plano técnico funcional, o LM Sequential da MB&F, o Nano Foudroyante da Greubel Forsey e os cronógrafos dotados do calibre cronográfico AgenGraphe (Singer Reimagined, H. Moser & Cie, Fabergé) também estejam na linha da frente.

Com o RRCHF, Rexhep Rexhepi confirma a identidade visual do Chronomètre Contemporain e sobretudo do Chronomètre Antimagnétique concebido pelo lendário especialista de caixas Jean-Pierre Hagmann e vendido por 2,1 milhões de francos suíços na 10ª edição do Only Watch; não só se afirma como um grande artesão, mas também como um dos raríssimos mestres relojoeiros capazes de redefinir a linguagem do cronógrafo clássico. Quem quiser um vai ter de pagar 150.000 CHF… e ter muita sorte com as listas de espera.





