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Rolex e o escape da precisão

A reputação da Rolex assenta numa precisão e fiabilidade comprovadas ao longo das décadas — e uma das razões dessa qualidade técnica está alicerçada num dos mais aperfeiçoados sistemas de escape da indústria relojoeira. Vale a pena fazer uma viagem até ao centro nevrálgico dos calibres da marca genebrina e perceber tanto a relevância histórica do escape de âncora como as valências próprias do escape patenteado Chronergy.

O que é um escape no léxico da relojoaria? Localizado no coração de um movimento mecânico, o escape assume incontornável protagonismo na medição do tempo e é também responsável por um detalhe indissociável do imaginário relojoeiro: se os relógios mecânicos fazem tique-taque, é graças a ele. Trata-se de um dispositivo que está tradicionalmente posicionado entre as rodas e o órgão regulador e tem por função manter as oscilações desse mesmo órgão regulador; o conjunto mecânico designado por escape é formado por vários componentes e representa uma obra prima da microtecnologia que tem sido usada há três séculos. Há vários tipos de escape, mas o mais habitual na relojoaria (e sobretudo na relojoaria de pulso contemporânea) é o chamado escape de âncora suíça — baseado numa invenção do mestre britânico Thomas Mudge (1715-1794), o primeiro a usar rubis para as palhetas.

O calibre 3230 e o Rolex Submariner Ref. 124060
O Calibre 3230 e o Submariner ‘Sem Data’ Ref. 124060 | © Rolex

A Rolex utiliza o escape de âncora suíça (assim chamada por parecer a âncora de um barco, apresentando nas pontas palhetas feitas de rubis sintéticos) nos seus relógios, investindo desde há alguns anos no escape Chronergy de fabrico próprio. Apesar do seu ineditismo e brilhantismo, o escape patenteado Chronergy assenta num tradicional sistema de âncora suíça — mas que é o resultado de um aperfeiçoamento contínuo nos laboratórios da marca ao longo do tempo. A geometria dos seus componentes foi otimizada na sequência de uma prolongada pesquisa sobre o seu rendimento energético e graças às técnicas de fabrico LIGA.

O tique e o taque

O inconfundível palpitar do coração de um relógio mecânico tem uma sonoridade caraterística. O ‘tique’ é provocado quando um dente da roda de escape pára totalmente contra uma das paletas da âncora. Depois, liberada pela varredura circular do oscilador (o sistema oscilador é formado pelo balanço e pela espiral), a âncora solta a roda, que retoma seu curso para vir bater alinhada contra a segunda palheta da âncora e fazer o ‘taque’ uma fração de segundo depois.

O novo escape Chronergy da Rolex
A configuração do mais recente escape Chronergy idealizado pela Rolex, com roda de escape esqueletizada | © Rolex

O tique-taque rápido é, desde tempos ancestrais, um emblema característico dos relógios mecânicos — o dos relógios de quartzo, surgidos em massa na década de 70, é mais lento e tem normalmente a duração de um segundo. O tique-taque mecânico apresenta um som completamente distinto: ritmada pelas oscilações do balanço-espiral, a âncora assegura o seu movimento alternado contra os dentes da roda de escape à razão de dezenas de milhar de alternâncias por hora — que, no caso da Rolex, são normalmente 28.800/h (oito por segundo). Ou seja, 14.400 tiques e outros tantos taques.

Sistema de escape e sistema oscilador

A função do sistema de escape é o de receber e regular a energia bruta proporcionada pela mola de tambor — e distribuir essa energia por impulsos ao oscilador que, por sua vez, determina a divisão do tempo. Sem o escape, a mola de tambor libertaria toda a sua energia de uma só vez. Sem o escape para manter as suas oscilações, o binómio balanço-espiral perderia rapidamente força e o calibre do relógio pararia quase de imediato.

Caixa de 36 mm em ouro amarelo 18kt. Um dos novos Day-Date 36 lançados em 2021
Versão joalheira de um m dos novos Day-Date 36 lançados em 2021 com caixa em ouro amarelo | © Rolex

Por outras palavras, o movimento rotativo e a força propulsora são transmitidos à roda de escape por rodagens e respetivos carretes. Sem o escape, as rodas girariam a uma velocidade demasiado elevada, pelo que em apenas um minuto (ou até menos) a corda ficaria completamente esgotada. As peças mais visíveis de um escape típico são a roda de escape e a âncora com as suas duas palhetas de rubi: a extremidade da âncora em forma de forquilha está em contacto com o duplo disco (plateaux), ligando-se assim ao balanço; essa peça bi-seccionada está cravada sob pressão no eixo do balanço, suportando a cavilha do duplo disco em rubi.

Calibre Rolex 3255
A arquitetura robusta do Calibre 3255, dotado do escape Chronergy | © Rolex

O papel vital do escape faz dele um ícone da arte relojoeira, sendo objeto de numerosas pesquisas ao longo dos séculos e até utilizado no logótipo de algumas marcas. Em combinação com o oscilador, o escape faz parte dos elementos dos quais mais dependem a precisão, a fiabilidade e a autonomia de um movimento relojoeiro. É por essa razão e pelas suas próprias caraterísticas que o seu fabrico é extremamente complexo e delicado, com tolerâncias de produção e de funcionamento na ordem de somente alguns mícrons. Vários componentes que integram o escape, como a elipse do duplo disco, o dardo ou as palhetas da âncora, estão mesmo entre as mais pequenas peças de um movimento relojoeiro.

A qualidade Rolex

Tendo em conta a importância do escape, a Rolex desde cedo desenvolveu ferramentas próprias, máquinas específicas e métodos avançados para o seu fabrico, controlo e assemblagem na sede da Manufacture des Montres Rolex S.A., em Bienne. O nível de qualidade alcançado é tal que o delicado trabalho de retoque final, habitualmente necessário para garantir um funcionamento perfeito do escape, é reduzido ao mínimo. Pode mesmo dizer-se que é quase um ‘milagre’, tendo em conta os numerosos parâmetros que influenciam o bom funcionamento do sistema de escape — em particular a precisa interação das palhetas da âncora com os dentes da roda de escape, que ocorre a não mais do que uma pequena dezena de mícrons: menos de 0,01 milímetro de diferença… e o mecanismo pára.

Detalhe do escape num movimento Rolex
Detalhe do escape de |ancora num movimento automático da Rolex | © Rolex

Os excelentes resultados obtidos pela Rolex são fruto do know-how de ponta, de uma grande competência técnica e de rigorosos métodos de controlo das tolerâncias que permitem produzir em série minúsculos componentes de grande precisão. Em todos os calibres da Rolex, cada um dos dentes da roda de escape é criteriosamente controlado e medido a fim de verificar o cumprimento de rígidas tolerâncias na ordem de mícrons.

Componentes e lubrificantes

O que se designa por escape é, na verdade e como já referido, um sistema — um conjunto formado por quatro componentes: a roda de escape, a âncora, a ponte de âncora (que mantêm a âncora no devido lugar, limitando ao mesmo tempo os seus movimentos pelos suportes integrados) e o duplo disco com a sua elipse em rubi, fixada sobre o eixo do oscilador. Esse conjunto trabalha em cadeia — desde a roda de escape até ao duplo disco, passando pela âncora — e sofre tensões mecânicas significativas: à volta de 700.000 choques e fricções por dia entre a âncora e a roda de escape, o que perfaz mais de 250 milhões por ano. Os componentes em rubi sintético são utilizados precisamente para minimizar as fricções contra o metal (palhetas da âncora, elipse do duplo disco/plateaux, pivôs); as superfícies de contato, entre as quais os dentes da roda de escape, devem ser perfeitamente planas e polidas.

Sistema de escape da Rolex
Outro exemplo de um sistema de escape da Rolex com a âncora e os rubis em destaque | © Rolex

Para potenciar o funcionamento dos diferentes elementos do escape é indispensável uma boa lubrificação. Cada dente e os dois pivôs da roda de escape devem ser lubrificados com uma quantidade exata de óleo. O óleo utilizado também deve permanecer eficiente durante vários anos tendo em conta as variações de temperatura. Para conseguir uma tal fiabilidade ao longo do tempo, a Rolex elaborou métodos de aplicação e desenvolveu lubrificantes exclusivos que contribuem para melhorar a duração da vida do escape e a sua estabilidade por muitos anos. A fiabilidade e o desempenho do relógio a longo prazo são assim reforçados, fazendo com que a manutenção possa ser efetuada em intervalos mais espaçados.

O novo escape Chronergy da Rolex
O escape Chronergy da Rolex integrado no calibre 3255 | © Rolex

Escape Chronergy

Para aumentar ainda mais o rendimento de seus calibres, a Rolex desenvolveu e patenteou uma versão melhorada do tradicional escape de âncora suíço que tem sido incontornável na relojoaria mecânica. Trata-se de um escape otimizado que a Rolex baptizou de Chronergy e engloba um total de 14 patentes — sendo fruto de pesquisas extremamente avançadas que conduziram a um novo conceito da âncora e da roda de escape.

Os novos Day-Date 36 lançados em 2021
Os novos Day-Date 36 de pendor joalheiro lançados em 2021. O Day-Date foi o primeiro modelo a receber o escape Chronergy graças ao Calibre 3255 estreado em 2015 | © Rolex

Enquanto componentes fulcrais, a a

âncora e a roda de escape foram redesenhadas e são fabricadas numa liga de níquel-fósforo que as torna insensíveis aos campos magnéticos. Para mais, a mais recente roda de escape do Chronergy foi perfurada/esqueletizada para diminuir peso e reduzir inércia. A inédita geometria desses dois componentes aumenta em 15% o rendimento do escape e assegura-lhes uma ótima resistência e fiabilidade. Atualmente, o escape Chronergy assume grande preponderância no catálogo da Rolex: é utilizado nos Calibres 3235 e 3255, estreados em 2015, e no Calibre 3285 de 2018 (todos com função de calendário), tal como no mais recente Calibre 3230 (sem calendário), que foi lançado em 2020.

Esquerda: Calibre 2335 | Direita: Rolex Submariner Date Ref. 126610LV
O Calibre 2335 e o Submariner Date Ref. 126610LV | © Rolex e Paulo Pires / Espiral do Tempo

Cada Rolex é o resultado de um longo processo composto por mais de mil etapas distintas. O fabrico de um relógio mecânico congrega normalmente um mínimo de 27 profissões especializadas. Uma pequena máquina do tempo que executa uma tarefa de gigante ao longo dos tempos, embalando-nos com o seu suave e contínuo tique-taque…

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