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Design: relógios fora da caixa

O sucesso da relojoaria mecânica tradicional assenta muito numa delicada dialética entre inovação e tradição. Nos últimos tempos, algumas marcas têm ousado abalar esse equilíbrio saindo da sua zona de conforto. Casas como a Lange & Söhne e a Greubel Forsey lançaram recentemente os seus primeiros modelos desportivos, mas não são casos únicos. Aqui fica o enquadramento.

Como em qualquer outra indústria, a relojoaria fina assenta muito na inovação. Mas, tanto ou mais do que qualquer outra indústria, também precisa de manter a tradição — que tem sido a chave do sucesso para uma atividade que se baseia em premissas mecânicas seculares supostamente anacrónicas. Entre a inovação e a tradição, o design afigura-se como o fator mais desequilibrante e, sobretudo, capaz de conquistar ou afastar aficionados compradores. São muitos os casos em que o velho chavão de Fernando Pessoa, «Primeiro estranha-se, depois entranha-se», é perfeitamente adequado. E há vários ícones relojoeiros que até nasceram a partir de uma reação inicial desconfiada, como foi o caso de dois modelos de rotura nos anos 70 para as marcas que os lançaram: o Royal Oak e o Nautilus, os primeiros relógios desportivos e em aço, tanto para a Audemars Piguet como para a Patek Philippe.

Ao longo da história da relojoaria, há mesmo muitos modelos que pareceram inicialmente desajustados ou incompreendidos antes de se tornarem referências cobiçadas — os tais relógios aparentemente ‘fora da caixa’ ou ‘fora do baralho’ que mexeram com o mercado, capturaram o imaginário dos aficionados e acabaram por se impor pela diferença. Porque é preciso coragem e errar para se aprender e passar ao nível seguinte, até porque vivemos numa era em que a falta de inovação pode conduzir ao insucesso comercial. É sempre delicado estabelecer um corte epistemológico com o passado ou apresentar algo de revolucionário numa indústria onde a fidelização da clientela é tão importante, mas é esse o desafio supremo de cada casa relojoeira, de cada CEO ou de cada designer: criar novos ícones, arriscando para depois colher os frutos dessa ousadia.

Além do Black Bay P01 da Tudor, do BR05 da Bell & Ross ou do PPX da Oris e mesmo o Alpine Eagle da Chopard (recentemente lançados), aqui ficam alguns casos de lançamentos relevantes que foram disruptivos e/ou acompanhados de controvérsia.

Ao longo da história da relojoaria, há mesmo muitos modelos que pareceram inicialmente desajustados ou incompreendidos antes de se tornarem referências extremamente cobiçadas — os tais relógios aparentemente ‘fora da caixa’ ou ‘fora do baralho’ que mexeram com o mercado, capturaram o imaginário dos aficionados e acabaram por se impor precisamente pela diferença. 

Lange & Söhne: a saga do Odysseus

O Odysseus é um projeto que foi concretizado ao cabo de uma odisseia de 12 anos (!) e uma passagem diretiva de Fabian Kröne para Wilhelm Schmid, o atual CEO que chegou a afirmar que a Lange & Söhne nunca iria fazer um relógio de caraterísticas claramente desportivas. O Odysseus foi finalmente apresentado em outubro e recebido com emoções muito contraditórias: houve quem aplaudisse, mas também houve quem o considerasse redundante, entre aqueles que acharam que não era suficientemente desportivo e outros que que não era suficientemente diferente.

A. Lange & Söhne Odysseus © A. Lange & Söhne
A. Lange & Söhne Odysseus © A. Lange & Söhne

No caso do Odysseus, que em breve será transformado numa coleção de várias referências, a distinção começa logo pelo tamanho, não muito maior do que os relógios clássicos da casa saxónica mas com uma volumetria mais arrojada (40,5 mm e uma espessura de 11,5 mm), e pela força estética de uma bracelete metálica supostamente integrada — sem esquecer o material: o aço inoxidável, que surge pela primeira vez na história da Lange & Söhne como material de eleição deliberadamente escolhido para uma determinada coleção. Mas, obviamente, aço tratado como se fosse material precioso, tal como sucede em qualquer outro modelo da marca em ouro ou platina. Outra faceta inédita: o Odysseus é o primeiro relógio Lange dotado de uma caixa estanque com coroa de rosca, testado para funcionar sob uma pressão de 12 bar (estanqueidade a 120 metros). O facto de ser dotado de um movimento automático completamente novo e com uma arquitetura mais robusta a pensar precisamente em situações mais vigorosas também contribui para a sua personalidade mais desportiva.

© A. Lange & Söhne
O Odysseus da Lange & Söhne foi apresentado em outubro e houve quem aplaudisse, mas também quem o considerasse redundante, entre aqueles que acharam que não era suficientemente desportivo e outros que acharam não era suficientemente diferente. © A. Lange & Söhne

No plano estético, e além da combinação entre a caixa e a bracelete, o que primeiro salta à vista no mostrador em tom azul-escuro é a nova indicação dupla do dia da semana e da data — com os respetivos corretores a surgirem sob a forma de botões que flanqueiam a coroa. Os tradicionais ponteiros Lange em lanceta surgem em maiores dimensões para acentuar o caráter mais casual da peça e, tal como os bastões aplicados das horas, estão carregados de matéria luminescente.

A bracelete em aço inoxidável é extremamente confortável de usar e contribui decisivamente para o visual impactante do Odysseus. Não é propriamente parte de um design integrado caixa/bracelete como se vê nos célebres modelos desportivos de outras marcas de alta-relojoaria, também eles modelos desportivos idealizados em aço com acabamentos superlativos. O Odysseus distingue-se relativamente a eles por ter asas convencionais, mas a bracelete foi concebida para dar seguimento à linha das asas e proporcionar a tal sensação de design integrado. Além de se tratar de uma bracelete particularmente sofisticada: o seu comprimento pode ser ajustado em pequenos incrementos até 7 mm através do fecho de báscula de segurança; ao pressionar-se o botão gravado com a assinatura da Lange, a bracelete pode ser puxada ou empurrada até se chegar ao comprimento desejado sem ser necessário abrir o fecho.

Greubel Forsey e o superdesportivo

É o exemplo mais recente, que nos foi mostrado antecipadamente sob embargo na Dubai Watch Week; o próprio Stephen Forsey brincou com a situação dizendo que ia lançar mais um relógio desportivo integrado em aço com mostrador azul… e claro que não era — é um relógio de estrutura integrada completamente diferente do que a Greubel Forsey já fez, mas que mantém claramente a identidade da marca. Para já, não há planos para fazer a tal bracelete metálica; a bracelete em cauchu fica particularmente bem com uma caixa desportiva escurecida, mas com o típico acabamento e as inscrições que se tornaram habituais nos anteriores modelos da marca.

© Greubel Forsey
a mais recente proposta da Greubel Forsey é também o seu primeiro modelo desportivo: o GMT Sport. © Greubel Forsey

Obviamente, como em outros casos de marcas prestigiosas, o novo Greubel Forsey foi criado para satisfazer os supercolecionadores que desejam manter-se na marca, mas ter um modelo com turbilhões mais condizente com um certo estilo de vida adequado ao que estão habituados: passar do iate para a praia, da piscina para o golfe.

F.P. Journe: mares nunca d’antes navegados

Na presente década, François-Paul Journe quebrou inesperadamente vários dogmas relacionados com as suas próprias convicções e a sua coleção. Primeiro, repensou a ideia de jamais conceber uma linha vincadamente desportiva com a idealização da lineSport devido à sugestão de um amigo que era também um importante cliente; a lineSport, de caixa integrada, tem recebido várias reformulações até adquirir uma maior maturidade a partir dos modelos de segunda geração estreados no ano passado. Depois, apesar do mestre de origem francesa ser um dos mais intransigentes defensores da relojoaria mecânica, lançou o Élegante numa combinação eletromecânica (sim, com pilha!) dedicada a um público mais feminino.

Dois modelos preponderantes na linha LineSport da F.P. Journe: o Centigraphe CT2 e o Automatique Réserve AR2. © F.P.Journe
Dois modelos preponderantes na linha LineSport da F.P. Journe: o
Centigraphe CT2 e o Automatique Réserve AR2. © F.P.Journe

A sua mais recente masterpiece, o Astronomic, também apresenta algo de completamente diferente, mas que ninguém se atreverá a criticar: pela primeira vez, combinou várias complicações/funções num relógio — quando até ao momento dava protagonismo a uma única função/complicação, mesmo nos seus modelos mais superlativos.

F.P. Journe Astronomic Souveraine © F.P.Journe
F.P. Journe Astronomic Souveraine © F.P.Journe

Audemars Piguet e um novo código

Apesar de o Royal Oak não ter tido grande sucesso numa fase inicial da sua existência, rapidamente se tornou na trave mestra da secular manufatura de Le Brassus — chegando mesmo a canibalizar o resto da coleção e tornando-se praticamente sinónimo da própria marca. Desde os finais da década de 90. O relativamente recente lema «to break the rules you must first master them» aplica-se na perfeição ao Royal Oak de 1972, desenhado por Gerald Genta, e mesmo ao Royal Oak Offshore de 1993, desenhado por Emmanuel Gueit. Mas, apesar da tecnologia de ponta e dos desenvolvimentos preconizados pela sua companhia associada Renaud & Papi, manteve-se sempre muito presa à imagem do Royal Oak até ser tomada a decisão de procurar criar um novo ícone. Pretensamente, o Code 11.59 desvelado no início de 2019, com 13 referências no total.

Design integrado: Royal Oak
Royal Oak, de 1972, acompanhado pelo sketch original. © Audemars Piguet

E o trabalho por trás do lançamento do Code 11.59 foi descomunal, com todos os pormenores pensados até ao mais ínfimo detalhe. A campanha de lançamento foi poderosa. Mas houve muita gente a pensar que se tratava de um produto pretensioso por tudo isso, tornando-se alvo de uma reação muito negativa nas redes sociais. Foi apresentada uma coleção muito completa, embora os modelos mais complicados e de gama alta tivessem sido negativamente e injustamente afetados por alguma falta de legibilidade do modelo básico de três ponteiros e do cronógrafo. O tempo dirá se a Audemars Piguet irá afinar os mostradores desses modelos e se o Code 11.59 conseguirá tornar-se num fenómeno idêntico ao Royal Oak.

O Code 11.59 Perpetual Calendar da Audemars Piguet. © Audemars Piguet
O Code 11.59 Perpetual Calendar da Audemars Piguet. © Audemars Piguet

Patek Philippe a descolar

Até a mui respeitada Patek Philippe esteve sob intenso escrutínio quando lançou em 2015 o primeiro dos seus modelos inspirados na aviação. O Calatrava Pilot Travel Time rapidamente se tornou num dos relógios mais badalados da edição desse ano de Baselworld, não só porque o lançamento de um modelo com as suas caraterísticas por parte de uma marca tão conservadora foi completamente inesperado, mas também por todo o debate que suscitou.

Calatrava Pilot Travel Time da Patek Philippe. © Patek Philippe
Calatrava Pilot Travel Time da Patek Philippe. © Patek Philippe

O Calatrava Pilot Travel Time evoca os tempos épicos da aviação militar e exala um inconfundível espírito vintage, assumindo-se como um excelente companheiro de aventura feito à maneira da Patek Phillipe: com uma qualidade mecânica inigualável e acabamentos estéticos irrepreensíveis. Sem esquecer algo de muito importante: a legitimidade histórica desconhecida pelo público em geral. O Museu Patek Philippe inclui dois relógios de aviador concebidos na década de 30 que eram sobredimensionados (55,3 mm) instrumentos de navegação utilizados com sextante e sinal de rádio. O Calatrava Pilot Travel Time adaptou alguns elementos estéticos desses modelos num relógio completamente diferente com caixa em ouro branco dotada de uma dimensão além da fasquia dos 40 mm, algo que a manufatura genebrina antes renunciava. O mais recente Calatrava Pilot Alarm Travel Time apresenta 42,5 mm de diâmetro.

Rolex foi mais fundo

Outra casa sobejamente reconhecida pelo seu apego à tradição é a Rolex, que faz dela a base do seu negócio — embora seja muito mais inovadora do que quer dar a parecer, precisamente pelo seu ideal de estar constantemente a melhorar um produto bem amadurecido sem dar a ideia de proceder a grandes mudanças.

Rolex Sea-Dweller Deepsea © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Rolex Sea-Dweller Deepsea © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Ao longo da primeira década do novo milénio, a marca da coroa ainda resistiu à moda dos relógios totalmente pretos (em DLC ou PVD); no entanto, não foi insensível aos apelos da sua fiel clientela na fase mais predominante dos relógios sobredimensionados com o lançamento do Oyster Perpetual Date Sea-Dweller Deepsea — que, em 2008, se tornou no maior relógio do catálogo regular com os seus 44 mm de diâmetro.

Mas foi um tamanho justificado pelo cocktail de tecnologia e pelo curso da história: tornou-se no digno herdeiro de uma linhagem de ‘mergulhadores’ profissionais estreada com o protótipo Deepsea Special, que, em 1960, desceu até aos 10.916 metros na Fossa das Marianas para inspirar o lançamento do Sea-Dweller de 1967; mais recentemente, o cineasta James Cameron usou um protótipo Sea-Dweller Deepsea Challenge para atingir os 10.990 metros e existe uma versão própria do Deepsea associada a essa efeméride que também estabeleceu uma novidade no âmbito da Rolex: o mostrador em degradê horizontal.

O Sky-Dweller da Rolex destaca-se pelo seu inovador calendário anual. © Rolex
O Sky-Dweller da Rolex destaca-se pelo seu inovador calendário anual. © Rolex

Outras aventuras da Rolex no presente milénio incluem o Sky-Dweller, com o seu calendário anual (e a Rolex refutava fazer relógios mais complicados), o Milgauss, com vidro verde (algo de surpreendente, atendendo ao conservadorismo geralmente associado à marca) e o AirKing, com o seu mostrador de múltiplas fontes e tipos de algarismos influenciado pela instrumentação de bordo do bólide experimental Bloodhound.

Leia a versão completa deste artigo no número 69 da Espiral do Tempo.

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