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Tempo à mesa

Dois dos seis finalistas na categoria Mecânica de Exceção do Grand Prix d’Horlogerie de 2021 eram relógios de mesa. O exemplar que mais dinheiro arrematou no último leilão Only Watch foi um relógio de mesa. E a mais recente revelação do universo relojoeiro faz relógios de mesa do outro mundo: Miki Eleta, o antigo treinador de futebol que brilhou na Dubai Watch Week com os seus monstros e marcianos. Aqui fica a necessária incursão por uma disciplina paralela da relojoaria contemporânea.


Artigo originalmente publicado no número 78 da Espiral do Tempo (primavera 2022) 


Durante séculos, e até à profusão dos relógios de bolso e de pulso, a noção de
tempo pessoal era, sobretudo, de índole doméstica — através dos relógios de pé ou caixa alta, de parede e de mesa. A primeira noção de portabilidade na relojoaria surgiu por volta de 1500; graças ao advento da corda em forma de mola espiralada, foi possível reduzir significativamente a dimensão dos relógios com sistema de pesos e poisá-los numa mesa. No arranque do século XVI, os lendários Ovos de Nuremberga fizeram furor; o século XVIII popularizou os Bracket, relógios com uma caixa de madeira e aba no topo para melhor poderem ser transportados. Sem esquecer os cronómetros de marinha, colocados no convés dos navios para consulta imediata, e os chamados relógios de prateleira ou chaminé, tradicionalmente posicionados sobre a lareira.

Konstantin Chaykin - Foundation Tourbillon Clock
O primeiro relógio do mestre Konstantin Chaykin foi um exemplar de mesa (Foundation Tourbillon Clock) | © Konstantin Chaykin

A introdução do relógio de bolso e a passagem para o pulso há cerca de cem anos revolucionaram o tempo pessoal — de tal modo que os relógios de pulso se tornaram num objeto incontornável para a humanidade na segunda metade do século XX. Excetuando o Big Ben e alguns outros exemplos míticos de relojoaria grossa, os mais icónicos relógios do mundo são modelos de pulso. O único relógio de mesa que historicamente poderá rivalizar com eles em fama é o Atmos, da Jaeger-LeCoultre. Mas, na década passada, Max Büsser e a sua MB&F estabeleceram uma parceria com a L’Epée (consubstanciada no lançamento regular de fantasiosos relógios em forma de robôs, animais ou naves espaciais) que trouxe um novo alento ao setor. E, nos últimos meses, outros relógios de mesa têm concitado as atenções da indústria ao mais alto nível.

→ Os relógios de mesa de Miki Eleta custam normalmente entre 100 e 300 mil euros, mas — e sobretudo em comparação com outros relógios nessa fasquia de preço — não há dúvida de que o valor se justifica. Cada peça é única e uma verdadeira obra-prima mecânica habitada por seres bizarros vindos de uma realidade alternativa.

Na verdade, a relojoaria de mesa nunca desapareceu completamente. Continua a ser uma área que muitas marcas aproveitam para exercícios de estilo ou aventuras técnicas, além da sua importância no design de interiores. Não têm é tido a devida mediatização, embora o cenário pareça estar a mudar. A primeira nota de destaque surgiu com a presença de dois exemplares de mesa entre os seis finalistas na categoria Mecânica de Exceção, do Grand Prix d’Horlogerie de 2021: o Svemir, de Miki Eleta, e o UFO, da Ulysse Nardin. Entretanto, deu-se a inclusão de três modelos de mesa nos 53 lotes do Only Watch: o relógio de secretária complicado da Patek Philippe foi mesmo o modelo que mais dinheiro granjeou para a causa (9,5 milhões de francos suíços), ao passo que uma execução única do UFO da Ulysse Nardin conseguiu 380.000 e a colaboração da Trilobe com o artista Daniel Buren alcançou 100.000. No mesmo mês, mas na Dubai Watch Week, as criações de Miki Eleta assumiram grande protagonismo no Clube do Colecionador e mistificaram por completo os mais exigentes aficionados.

MB&F ‘Sherman’ by L’Epée 1839
À esquerda: o divertido MB&F ‘Sherman’ by L’Epée 1839 | © MB&F

Valorização de uma disciplina

Apesar de a relojoaria doméstica — seja ela de pé, de mesa, de estante ou de chaminé — já não ter a relevância de outrora devido à omnipresença de indicações digitais do tempo (do telemóvel à televisão, passando pelo micro-ondas!), mantém-se como uma área de exploração técnica e, sobretudo, criativa. Não só na criação de calibres mecânicos de exceção, mas também no estabelecimento de uma estética que possa fazer a diferença lá em casa. Daí se explicam os resultados dos relógios de mesa no leilão de beneficência Only Watch e a nova pujança da especialidade: endinheirados colecionadores com tantos relógios de pulso também gostam de ter na sala ou no escritório algo que possa ser mostrado e apreciado.

Patek Philippe Complicated Desk Clock - Only Watch 2021 | © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O Patek Philippe Complicated Desk Clock foi a proposta da marca para o leilão Only Watch 2021 | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

E se a Patek Philippe surpreendeu com a opção por um relógio de mesa no Only Watch, talvez a escolha não fosse tão inesperada, tendo em conta o rico historial da manufatura genebrina e todos os exemplares do género que se podem encontrar no seu acervo. O Complicated Desk Clock Ref. 27001-M001 foi precisamente inspirado num relógio de secretária encomendado por James Ward Packard em 1923 e que se encontra no Museu Patek Philippe. Dotado de um calibre especificamente idealizado para o efeito com 31 dias de autonomia, inclui um calendário perpétuo com original apresentação do calendário semanal; apesar de não ter chegado aos 31 milhões de dólares do Grand Master Chime do Only Watch de 2019, foi tão cobiçado que originou a mais encarniçada licitação do evento. Além de tudo o que já fez no passado, a coleção contemporânea Rare Handcrafts da Patek Philippe inclui o que se faz de melhor nos campos das artes decorativas (marqueteria, esmaltagem, gravação).

UFO da Ulysse Nardin e o La Réciproque da Trilobe por Daniel Buren | © Paulo Pires / Espiral do Tempo
UFO da Ulysse Nardin e o La Réciproque da Trilobe por Daniel Buren | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Também a escolha da Ulysse Nardin para o Only Watch garantiu um excelente posicionamento (foi o décimo primeiro relógio mais bem pago), embora a unicidade fosse relativa, comparada com a da Patek Philippe: a diferença para o modelo de produção regular residiu na aplicação da cor temática da iniciativa. De qualquer forma, o UFO é um exercício relojoeiro notável que se inspirou nos históricos cronómetros de marinha da marca para oferecer uma aura espacial; trata-se de um relógio mecânico de ficção científica feito de vidro e alumínio, com três fusos horários e reserva de corda para… um ano. É mesmo um relógio galáctico, daí o nome UFO tão em voga nos anos 70 — quando as séries de ficção científica exacerbavam a imaginação de muita gente. Só que, no caso, a designação é ambígua: não significa unidentified flying object (em português objeto voador não identificado, OVNI), mas sim unidentified floating object, devido à inspiração marítima das ondas e marés.

→ A associação da L’Épée à MB&F em 2014 catapultou a manufatura para a ribalta e rejuvenesceu-a graças a fantasiosas criações.

O relógio de mesa Trilobe x Daniel Buren La Réciproque ficou a meio na tabela de resultados do Only Watch, numa muito lisonjeira 25.ª posição. Aplicou o original conceito patenteado de três discos dos Trilobe (jovem marca fundada pelo francês Gautier Massonneau com o apoio técnico do mestre Jean-François Mojon) a uma peça cuja estética verticalmente listada foi idealizada pelo artista conceptual Daniel Buren. Ou seja, a arte relojoeira associou-se à arte plástica.

Miki Eleta com o modelo BY 21Dez12ME durante a Dubai Watch Week
Miki Eleta com o modelo BY 21Dez12ME durante a Dubai Watch Week | © Miki Eleta

Arlequins e alienígenas

No caso de Miki Eleta, essa associação redunda em autênticas esculturas cinéticas. As suas origens são tão extraordinárias como as suas criações: nasceu na antiga Jugoslávia, estudou para ser cientista, tornou-se músico, radicou-se na Suíça e foi treinador de futebol até se interessar por relojoaria cinética aos 50 anos. O facto de o relojoeiro autodidata trabalhar quase exclusivamente em encomendas privadas manteve-o relativamente anónimo, apesar de algumas obras exibidas na MAD Gallery da MB&F, em Genebra, e da fonte à entrada do Museu Internacional da Relojoaria, em La Chaux-de-Fonds, ou da escultura viva com arlequins músicos sobre a entrada do Centro Internacional da Mecânica de Arte, em Sainte-Croix.

Esq MB&F X L'Epée 1839 Orb Dir MB&F + L’Epée 1839 Destination Moon
À esqueda: MB&F X L’Epée 1839 Orb; À direita: MB&F + L’Epée 1839 Destination Moon | © MB&F

Os relógios de mesa de Miki Eleta custam, normalmente, entre 100 e 300 mil euros, mas — e sobretudo em comparação com outros relógios nessa fasquia de preço — não há dúvida de que o valor se justifica. Cada peça é única e uma verdadeira obra-prima mecânica habitada por seres bizarros. Como o BY12Dec21ME, relógio cujo nome alude à previsão Maia de que um deus chamado Bolon Yokte desceria dos céus à terra a 21 de dezembro de 2012, no meio de uma transformação espiritual do Planeta; a parte superior evoca uma nave espacial, e vários alienígenas verdes fazem parte do cenário. O Minute Muncher representa a natureza fluída do tempo e inclui uma espécie de carrossel em forma de tambor que tem um monstro a tentar comer os minutos que passam; inclui uma função que relembra uma data especificamente escolhida, porque o relojoeiro esqueceu-se do seu 45.º aniversário de casamento! Já o Svemir é um relógio astronómico com indicação geocêntrica e heliocêntrica, a par de todas as indicações de calendário perpétuo mais equação do tempo, zodíaco, estações do ano, equinócios e solstícios.

O relógio Svemir, nomeado para a categoria Mecânica de Exceção do Grand Prix d'Horlogerie de 2021.
O relógio Svemir, nomeado para a categoria Mecânica de Exceção do Grand Prix d’Horlogerie de 2021 | © Miki Eleta

Nostalgia moderna

Miki Eleta é um perfeito exemplo de fabulosas criações que são frequentemente concebidas para grandes colecionadores e que, muitas vezes, não chegam ao conhecimento do público em geral — sejam elas da autoria de mestres relojoeiros ou saídas dos ateliers de grandes marcas. Por exemplo, a primeira peça de Konstantin Chaykin foi um relógio de mesa dotado de um turbilhão de um minuto. A última também: o ultracomplicado Lucomorye, com composição exterior do joalheiro Ilgiz Fazulzyanov. E depois há manufaturas especializadas nesse tipo específico de relojoaria. Como a alemã Erwin Sättler ou a franco-suíça L’Épée.

Konstantin Chaykin - Foundation Tourbillon Clock
O primeiro relógio do mestre Konstantin Chaykin foi um exemplar de mesa (Foundation Tourbillon Clock) | © Konstantin Chaykin

A Erwin Sättler produz alguns dos melhores relógios de pêndulo ou de mesa desde 1958; além da incontornável precisão, toda a sofisticação mecânica e decorativa surge bem embrulhada numa sobriedade muito germânica e o tique-taque proporciona aquele som nostálgico que (pre)enche qualquer domicílio. Recentemente, a marca bávara optou por ir mais além do seu look tradicional assente sobretudo em caixas de madeira escura ou metal para investir no visual mais translúcido e contemporâneo das caixas em vidro com vista desobstruída para os movimentos. É o caso dos novos Opera e Operetta.

Konstantin Chaykin - Lucomorye, com exterior decorativo de Ilgiz Fazulzyanov
Konstantin Chaykin – Lucomorye, com exterior decorativo de Ilgiz Fazulzyanov | © Konstantin Chaykin

A L’Épée foi fundada em 1839 e, desde cedo, especializou-se em relógios de mesa, despertadores e caixas de música. Em 1976, chegou mesmo a produzir relógios de parede para o supersónico Concorde e, em 1981, foram oferecidos cem relógios L’Épée com invólucro em pele Hermès aos convidados do casamento real de Carlos e Diana. A associação à MB&F em 2014 catapultou a manufatura para a ribalta e rejuvenesceu-a graças a fantasiosas criações — dos roboclocks (Melchior, Balthazar, Sherman, Grant) aos animais mecanizados (Octopod, T-Rex, Medusa, Aracnophobia), sem esquecer as naves espaciais (Starfleet Machine, Destination Moon, The Fifth Element). E inspirou outras colaborações, como a pistola de mesa Hasta la Vista, da Unnamed Society.

A pistola Hasta la Vista do coletivo The Unnamed Society e um exemplar Colonne du Temps idealizado por Jorg Hysek
A pistola Hasta la Vista do coletivo The Unnamed Society e um exemplar Colonne du Temps idealizado por Jorg Hysek | © DR

Um excelente exemplo colaborativo de topo é o Dream Watch 6 Table Clock x ByJorgHysek, que juntou o génio relojoeiro de Denis Flageollet ao lendário designer Jorg Hysek, numa adaptação soberba da habitual estética do outro mundo da De Bethune. O próprio Jorg Hysek, autor do design de alguns lendários relógios de pulso (do Vacheron Constantin 222 ao Seiko Kinetic), dedica-se, hoje em dia, a fazer esculturas do tempo para mesa ou de pé: os Colonne du Temps e os Time Drones.

Mestre Denis Flageollet e o De Bethune Dream Watch 6 Table Clock da parceria com Jorg Hysek.
Mestre Denis Flageollet e o De Bethune Dream Watch 6 Table Clock da parceria com Jorg Hysek | © De Bethune

Mas o mais famoso e lendário relógio de mesa continua a ser o Atmos, uma grande especialidade da Jaeger-LeCoultre desde 1936. O mecanismo é tão perfeito que não requer óleo: a cápsula hermeticamente fechada contém uma mistura de gás que se dilata quando a temperatura sobe e contrai quando baixa; essa dilatação e/ou contração deforma a cápsula como se fosse um fole de um acordeão e, sendo solidária com a mola do pêndulo, dá permanentemente corda ao mecanismo com um mínimo de esforço. A diferença de um único grau é suficiente para proporcionar dois dias de reserva de corda.

Marc Newson com o Atmos 568 desenhado pelo próprio
Marc Newson com o Atmos 568 desenhado pelo próprio | © Jaeger-LeCoultre

Escolhido como presente preferencial da Confederação Helvética para os convidados de estado, o Atmos passou a ser declinado em várias formas de apresentação. Gradualmente, foi ganhando versões cada vez mais sofisticadas, com caixas assinadas por designers famosos ou pelos melhores artesãos. Atualmente, numa era em que todos os instrumentos da vida quotidiana procuram orientar-se para a economia de energia e para a sustentabilidade, o Atmos pode orgulhar-se de sempre ter estado à frente do tempo.

Atmos 566 desenhado por Marc Newson e Atmos Hybris Mechanica calibre 590
Atmos 566 desenhado por Marc Newson e Atmos Hybris Mechanica Calibre 590 | © Jaeger-LeCoultre

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