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IWC Big Pilot 5002-01: o voo de uma vida

Os relógios contam histórias, diz-nos José Zenha, o nosso leitor convidado desta semana, que aceitou o desafio de nos contar então a história (por capítulos) que um dos seus relógios teria para nos contar. O protagonista das próximas linhas é um IWC Big Pilot 5002-01.

I – Contadores de tempo e de histórias

Os relógios são coletores de histórias. É incrível como sendo objetos tão pequenos e concretos, conseguem medir algo tão vago e tão vasto como o tempo. Mas possivelmente é por isso mesmo que conseguem passar pelo tempo, e o tempo não passar por eles. Os relógios têm a capacidade de guardar histórias, colecionar memórias, acompanhar vidas. Tenho alguns relógios que começaram a viver histórias no bolso do meu avô e que, se eu cuidar bem deles, poderão ainda participar em muitas outras histórias, nos bolsos ou pulsos dos meus filhos, netos ou bisnetos.

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

Bom, mas este desafio que a Espiral do Tempo me lançou foi para falar de um relógio, e não de todos; para escolher um especial, que se destacasse no meio dos outros. E a escolha não foi difícil, apesar de qualquer um dos outros poder ter sido escolhido. Todos eles carregam histórias, umas mais marcantes do que outras, mas, mais tarde ou mais cedo, eles estarão no pulso durante algum momento especial. O tempo encarregar-se-á disso seguramente.

II – Engenhos, mecanismos e geringonças

Desde pequeno que tenho um fascínio por engenhos, mecanismos e geringonças, sejam relógios, manómetros ou quaisquer contadores, e toda a parafernália de engrenagens que tenham por trás. E o contraste entre a simplicidade do mostrador e a complexidade dos mecanismos sempre me fez sonhar. Associado a isto havia outra paixão: aviões, aqueles pássaros de metal construídos pelo homem para conquistar os céus, pilotados dentro de um cockpit cheio de mostradores, indicadores e contas-qualquer-coisa, com os seus ‘ímetros’ e ‘ómetros’!

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

E a verdade é que a junção das duas temáticas não só já não era nova, como já fora inspiração para grandes histórias: desde o desabafo do aeronauta Alberto Santos-Dumont ao amigo Louis Cartier (dando origem ao primeiro relógio de pulso), até aos 14 segundos da manobra do Apollo 13 (que imortalizou o Speedmaster por ajudar a trazer a tripulação para Terra), que os relógios estão intimamente ligados à conquista dos ares.

III – IWC

Já na faculdade, o meu tio falou-me de um cronógrafo de piloto, de mostrador preto mate e algarismos brancos, caixa em aço escovado, robusta mas minimalista, com arestas polidas e bracelete preta em pele. Era um IWC Flieger Chronograph. Só sei que, quando o vi, tudo captou a minha atenção, desde a simplicidade e legibilidade do mostrador, à sobriedade da caixa, ao peixe na coroa, e outros tantos pormenores que semearam em mim o ‘bichinho’ IWC. Isto foi no final dos anos 90.

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

Pouco tempo mais tarde, o meu olhar fixou-se numa cena no filme Vanilla Sky de 2001, na qual Tom Cruise agarra um relógio que estava pousado na sua mesa de cabeceira, um IWC MkXV, um dos relógios mais simples e equilibrados de sempre da IWC. Em poucos instantes, aqueles segundos transformaram-se no momento com mais visualizações do filme inteiro! Nesse mesmo ano, ofereceram-me uma edição da revista International Watch — publicação trimestral da IWC — com a qual comecei a ‘respirar’ o espírito ‘Probus Scafusia’ — o lema da manufatura, que significa ‘produto bom e sólido de Schaffhausen’.

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

IV – Big Pilot

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

Quando em 2002 foi lançado o Big Pilot, a única coisa que me ocorreu foi: ‘Este poderia ser o último relógio da minha vida… poderia até ser o único!’ A verdade é que ele reunia o equilíbrio e simplicidade do MkXV com um subcontador de reserva de marcha que animava o mostrador como os contadores dos cronógrafos, e apesar de ser só um, tinha uma presença absolutamente marcante no conjunto do mostrador! Rapidamente, este relógio tornou-se no meu Holy Grail… Tal como uma Cruzada, iria procurá-lo pela vida fora! No entanto, devido ao seu preço exorbitante para a minha carteira, a demanda teria de ser adiada, e aquela ansiedade de quando queremos muito alguma coisa, aquela imagem ‘lateral’ a todos os pensamentos e sensações do dia-a-dia — que acontece quando há algo mais forte que nos motiva e inspira — tudo isso teria de ser arrumado numa caixa, num canto qualquer do esquecimento temporário. A vida seguiria o seu rumo, e com ela viriam novos sonhos, viriam os filhos e projetos, viriam momentos altos e baixos… enfim, a vida como ela é!

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

V – Volte Face

(Imagine-se um filme) Corria o ano de 2015, estava eu em Luanda, deviam ser umas 09 horas da manhã, de um qualquer dia de trabalho, quando recebo uma mensagem de um amigo meu relojoeiro, dono de uma pequena loja de relógios vintage em Lisboa, situada bem em frente à Gulbenkian: «Caro Amigo, espero que esta mensagem o encontre bem! Como vai a vida por Angola? Apareceu-me aqui um Big Pilot 5002-01! Achei que podia estar interessado!’ Ao que respondi: ’Ilustre! Obrigado por se ter lembrado de mim! Vou em junho a Portugal… pelos meus 40 anos! Acha que o aguenta até lá? » Não devemos ter falado muitas mais vezes até eu regressar a Lisboa, para reunir família e amigos no meu quadragésimo aniversário, mas não é que ele o aguentou mesmo? Alguém me disse por esses dias (não sei se por experiência própria, se como ato motivacional) que os 40 são os novos 30! Do que tinha vivido para trás, tinham ficado os meus filhos, os meus pais, irmã, tios, primos e amigos! Ah! E uns relógios! Com a contabilidade ainda a refazer-se de um divórcio, seguido de um recomeço de vida no Hemisfério Sul, decidi recomeçar também a minha coleção de relógios! E esta seria liderada em grande! Think big! Big Pilot! E assim foi: sem olhar para trás, troquei quatro relógios da minha coleção anterior por um… este, como que, marcaria a minha nova vida, ‘engolindo’ para sempre aqueles quatro relógios e, com eles, o tempo que ficou para trás! Os 40 avizinhavam-se grandiosos!

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
Big Pilot 5002-01_06

VI – Smoke on

O Big Pilot é um relógio grande! 46mm por 15,5mm de heavy metal. É mesmo grande, mas a IWC é exímia em ergonomia, e mesmo no meu pulso estreito (sim, uso todos os relógios no último furo da bracelete), este relógio é confortável! Na sua simplicidade minimalista (passo a redundância), de austeridade militar, transborda detalhes hipnotizantes! Por fora, sobressai logo a ‘onion crown’ com o célebre peixe, e os rebites na bracelete de pele. Debaixo do vidro suavemente abaulado, destaca-se o longo ponteiro de segundos com a base em forma de bago de arroz, a janela da data trapezoidal com moldura aplicada, o ritmo da escala das horas com os longos indexes em SuperLuminova, as marcações mais estreitas e pequenas dos minutos, os numerais idênticos ao original B-uhr de 55mm e, por fim, mas não menos importante, o indicador de reserva de marcha, com a escala a transitar entre os seis setores vazados, o do último dia a cheio, e o topo apenas com a palavra «days». O resto é um fundo preto mate que, pela generosa dimensão, tem espaço para receber diferentes graduações da luz que nele incida.

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

VII – In-House

A par disto tudo, este é um daqueles relógios em que o movimento, por si só, já é um ‘must have’: calibre 5011 de 38,2mm, com frequência ‘slow beat’ de 2,5Hz (dá tanto prazer ver a deslocação lenta dos 18 000 bph do ponteiro dos segundos, que chega a ser terapêutico!), corda automática com sistema Pellaton e 7 dias de reserva de marcha. Resumindo, este movimento foi uma das primeiras consequências da revolução do Senhor Nicolas Hayek que, com o anúncio em 2002 do bloqueio dos mecanismos ETA a relojoeiras fora da família Swatch, empurrou muitas manufaturas a aventurar-se na independência dos calibres in-house. Enfim, há males que vêm por bem! Os calibres da família 5000 representaram o início da transformação da IWC numa verdadeira manufatura!

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

VIII – Apto para todos os voos

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

No momento em que o coloquei no pulso, o Big Pilot ‘vestiu’ imponentemente! Naquele instante, senti que estava preparado para qualquer imprevisto. Tal como acontece no cinema, eu podia ser destacado para o lugar mais remoto do planeta ou sobreviver a uma qualquer catástrofe global, que o meu Big Pilot passaria a ser o meu companheiro, uma extensão de mim. Mas como na vida real não acontecem muitas cenas ‘hollywoodescas’, vou aproveitando para ir levar os miúdos à escola, comparecer numa reunião importantíssima de última hora, descer umas ruas de skate ou apanhar umas ondas em bodyboard… Quando tenho o meu 5002-01 no pulso, sinto muito mais do que o seu peso físico! Sinto a sua aura, sinto as histórias que ele carrega, sinto a sua vontade por mais histórias, por continuar a acompanhar-me, por continuar a ser o meu ‘escritor-fantasma’… já esteve comigo em Angola e hoje anda comigo por onde quer que eu ‘voe’ — seja pelas ruas de Lisboa, seja por qualquer lugar, seja por tudo o que eu sonhar…

IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.
IWC Big Pilot 5002-01. © José Zenha.

IX – Slow Beat 

Vivemos numa época fantástica, de evoluções, de revoluções! Somos donos do nosso tempo, comandamos a nossa vida, numa nova atitude que foca em muito mais coisas, do que só a família (sem dúvida, a estrutura base de tudo — o pilar principal), ou o trabalho (estrutura secundária de estabilidade e realização pessoal — o veículo para atingir alguns sonhos). O foco agora está no ‘sal da vida’, está em tudo o que conseguirmos fazer além desses dois pilares, e o tempo que a isso conseguirmos dedicar: seja amigos, desportos ou paixões! Haja um relógio no pulso a acompanhar isso tudo, e as histórias serão infindáveis e absolutamente memoráveis! Ponham-me um relógio na mão, que eu conto uma história! Haja tempo!

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