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A arte de acumular

Nunca me considerei colecionador de coisa alguma. Sou sobretudo acumulador. Mas, tal como o colecionismo, o ajuntamento também requer uma certa arte ou um determinado motivo. E, para mim, os relógios que interessam verdadeiramente são os que contam relacionamentos humanos.


Crónica originalmente publicada no número 79 da Espiral do Tempo (verão 2022) 


Um amigo de longa data que há curto tempo mergulhou de cabeça na relojoaria revelou-me que queria ter um relógio de cada uma das dez marcas mais antigas, para futuramente deixar o lote ao filho. Achei que se tratava de um excelente fio condutor para uma coleção… mas depois tive de lhe dizer para não ligar muito à data de fundação das marcas da sua lista – não só porque a antiguidade não equivale a superlatividade, mas também a suposta longevidade de algumas delas não teve sequer produção contínua. Como ele queria fixar-se na dezena para não ter a posterior tentação de ir à procura de mais, perguntou-me o que é que eu sugeria. Acabei por aconselhar um top dez de relógios consagrados como verdadeiros ícones da relojoaria de pulso (do Reverso ao Speedmaster), uma mini-coleção que qualquer aficionado gostaria de ter. E que eu, infelizmente, não tenho.

À conversa com Wei Koh no fórum A Arte de Colecionar da Dubai Watch Week
À conversa com Wei Koh no fórum A Arte de Colecionar da Dubai Watch Week | © DWW

Rio-me quando amigos se referem à minha ‘coleção’ ou quando perguntam quantos relógios tenho na ‘coleção’. Porque não tenho qualquer coleção digna desse nome (com uma temática definida), apenas um aglomerado de relógios. Também não tenho cabeça de colecionador porque essa via implicaria determinadas amarras psicológicas e financeiras. E quero a minha mente livre. Sou é um ajuntador impenitente, vou juntando coisas de que gosto e que normalmente estão associadas à relojoaria ou ao ténis – mas coisas que, pela minha atividade profissional, me caem nas mãos sem ter de ir à procura delas ou mesmo gastar dinheiro. Como revistas, catálogos, lembranças. Foi isso que expliquei aos meus colegas Wei Koh, Nick Foulkes e Ahmed S. Raman numa troca de impressões no fórum The Art Of Collecting, durante a Dubai Watch Week de 2021: «Posso dizer que tenho uma tendência clara por cronógrafos, mas não sou colecionador; sou um acumulador.» Rimo-nos todos, os acumuladores e os colecionadores. Percebemo-nos uns aos outros.

Validação social

Posso dizer que sou afortunado por ter as minhas duas paixões por profissão e isso dá-me acesso direto a muita coisa que custaria uma fortuna ao adepto comum. Nunca paguei para ver qualquer torneio de ténis, mas tenho a sorte de ter feito a cobertura in loco das maiores cimeiras da modalidade. Na relojoaria é diferente; se queremos uma certa peça especial não a vamos ter de graça, mas a acessibilidade é maior para qualquer profissional e as condições mais vantajosas sem que tenhamos de abdicar da integridade inerente à condição de jornalista.

O Isotope GMT 0º ‘Terra Maris’ com a correia e a bracelete que o acompanham | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Talvez por estar tão mergulhado no meio, nunca procurei validação social através do uso de um determinado modelo ou marca. Um relógio não precisa de ser reconhecido para ter estatuto e carisma – e até tenho prazer em contar as histórias e falar das pessoas por trás dos exemplares que vou tendo, muitos deles de companhias desconhecidas para o grande público. Alguns com o meu cunho, como os modelos L2 Diver e L3 Chronograph com mostrador degradé vermelho-sangue da Maurice de Mauriac… diretamente inspirados na camisola da seleção nacional liderada por Eusébio no Campeonato do Mundo de futebol, em 1966. É uma honra e um orgulho ver sugestões materializadas no pulso de outros, e recentemente esse sentimento saiu redobrado com o projeto de uma edição Strawberries & Cream da Studio Underd0g evocativa de Wimbledon e sobretudo com o convite da Isotope para uma colaboração com o meu nome. Duas micromarcas de preço democrático que podem perfeitamente ser ponto de partida para uma coleção ou servir de complemento a um acervo existente.

Studio Underd0g Strawberries & Cream | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Refutei a utilização do nome na já lançada colaboração com a Isotope, mas inspirei-me na geografia portuguesa para a paleta cromática e o batismo do GMT 0º ‘Terra Maris’ – que representa a ligação lusa entre a terra e o mar, na ponta mais ocidental do continente europeu e com o oceano pela frente. Daí a conjugação do castanho gradiente com o azul, também porque gosto de usar sapatos de camurça com calças de ganga. O modelo de base GMT 0º, dotado de um disco central para segundo fuso horário, também representa a ligação entre a Inglaterra, de onde a Isotope é originária, e Portugal: o meridiano de Greenwich serve de referência temporal aos dois países e o fundador da marca é o portuense José Mendes Miranda. A lusitanidade é sempre de realçar. E é um prazer ver aficionados portugueses aderirem à Isotope, ajudando a esgotar edições limitadas como o HydriumX ‘Will Return’.

O L2 Diver Deep Red da Maurice de Mauriac | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Max e a pandilha

Outro relógio que está a dar satisfação a muita gente é o M.A.D.1 Red, a segunda edição de um relógio especial que Max Büsser quis disponibilizar para pessoas especiais. Fundou a MB&F, mas diz que a família não tem dinheiro para comprar os relógios da sua marca de alta-relojoaria conceptual – nem mesmo os amigos (friends) representados no acrónimo do nome. Então pensou em fazer algo que representasse a sua visão da relojoaria e servisse de agradecimento a quem o tem acompanhado. Pegou num calibre Miyota que equipa tantos relógios mecânicos de primeiro preço, deu-lhe uma volta com a ajuda do reputado designer Eric Giroud e contou com a cumplicidade dos seus fornecedores para conseguir um espetacular produto de grande qualidade ao mais baixo custo possível.

M.A.D.1 Red no pulso com um court de ténis de fundo
M.A.D.1 Red | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Sem ser um MB&F, o M.A.D.1 simboliza a filosofia de Max Büsser sem custar dezenas de milhar de euros. No ano passado, o M.A.D.1 Blue foi oferecido aos colaboradores mais próximos e tornou-se num fenómeno. Este ano, o M.A.D.1 Red teve uma tiragem mais alargada e foi primeiramente colocado à disposição de amigos e conhecidos ao preço de 2.900 francos suíços; os restantes 500 exemplares foram distribuídos através de um sorteio supervisionado por um notário e que contou com a participação de quase 30 mil candidatos. Pena é que o M.A.D.1 Blue começasse a surgir no mercado secundário acima dos 20 mil euros, o que significa que alguns dos supostos friends são amigos da onça e fomentaram a especulação. Eu não vou trair a confiança que me permitiu ter um M.A.D1 Red, nem me vou separar dele – é outro relógio que me faz sentir especial, embora (tal como o Isotope GMT 0º ‘Terra Maris’) não seja um cronógrafo.

E eu considero-me um Chrono Guy. Se pudesse mesmo ter uma coleção estruturada, seria baseada em cronógrafos ou em alarmes mecânicos. Contento-me em ter vários exemplares com ambas as funções, mas sobretudo sinto-me privilegiado pela aventura humana que a ‘horofilia’ me tem proporcionado.

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