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Isotope GMT Oº ‘Terra Maris’ e uma inspiração muito portuguesa

A Isotope, micromarca britânica fundada por um português, acabou de lançar a sua mais recente edição limitada. Mas cabe aqui fazer uma declaração de intenções: o autor do texto é o autor da ideia por trás do novo GMT 0º ‘Terra Maris’, inspirado na costa atlântica e na elegância casual das calças de ganga com sapatos de camurça. Testemunho na primeira pessoa.

No trajeto de vida da Espiral do Tempo, não foram poucas as vezes em que foi abordada a temática das colaborações — e ainda na pretérita semana destacámos as parcerias da Ressence e da Louis Erard com o autodenominado ‘arquiteto relojoeiro’ Alain Silberstein, duas edições limitadas que foram anunciadas em dias consecutivos. O conceito cooperativo abrange normalmente duas marcas ou uma marca e um nome, tendo ganho tração ao longo da última década com vários exemplos bem sucedidos. Na moda, tornaram-se famosas as colaborações entre marcas de grande consumo e criadores normalmente associados ao luxo; a parceria entre a H&M e Karl Lagerfeld é uma delas. Na relojoaria, a parceria da Swatch com a Omega na série MoonSwatch rebentou com a internet e provocou congestionamentos em boutiques à volta do mundo. Mas este texto conta a história de uma colaboração bem mais modesta e muito mais próxima: o Isotope GMT 0º ‘Terra Maris’.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ numa mesa com ferramentas relojoeiras
O GMT 0º ‘Terra Maris’; o segundo fuso horário indica 11 horas e o ponto negro destaca o dia 12 na data | © Isotope

Pela primeira vez, vou escrever sobre uma colaboração que envolve o meu nome. Confesso que fiquei constrangido a ponto de falar com a equipa da Espiral do Tempo — afinal de contas, estaria a usar o ‘nosso’ canal para falar da ‘minha’ colaboração. Também poderia ser outra pessoa a fazê-lo. Mas porque não eu? Estive dentro do processo de A a Z e há muitos detalhes para contar sobre o Isotope 0º GMT ‘Terra Maris’. O importante é que fique bem clara a declaração de intenções, a par do orgulho de ter participado na elaboração de uma edição personalizada que tem a ver com o meu próprio universo.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ no pulso com o court do Millenium Estoril Open no fundo
A testar o GMT 0º ‘Terra Maris’ no recente Millennium Estoril Open | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Não é a primeira vez que é lançado um relógio com a minha contribuição. Em 2018, a Maurice de Mauriac apresentou o L2 Diver Deep Red com um mostrador dégradé em tom vermelho sangue baseado no meu gosto por mostradores gradientes e numa fotografia da camisola da Seleção Nacional de futebol de 1966 (a que, liderada por Eusébio, foi terceira no Mundial em Inglaterra); Daniel Dreifuss, fundador da marca, materializou a minha insistente sugestão e estendeu depois o conceito ao L3 Chronograph Red Sphere. Sempre achei que o vermelho sangue ou o bordeaux seriam tons que dariam emoção a um relógio e o certo é que, nos últimos anos, essas cores têm sido mais utilizadas do que nunca. Mas a minha contribuição para a edição ‘Terra Maris’ do Isotope GMT 0º foi mais do que isso. Foi mesmo uma colaboração.

Em plena pandemia

A ideia partiu de José Mendes Miranda, o português radicado em Londres que fundou a Isotope. Estávamos nos primeiros meses da pandemia, em 2020, quando me lançou o desafio de imaginar uma edição do então recém-lançado GMT 0º com o meu nome. Respondi que achava que o meu nome não era suficientemente forte, mas fiquei espicaçado pela proposta e aceitei de imediato. Desde sempre que tenho a mania de olhar para qualquer relógio e imaginar como é que ele ficaria se tivesse uma outra cor ali ou um outro pormenor acolá, para não falar do tipo mais rápido e comum de personalização: optar por uma correia diferente. E já tinha algumas ideias para edições limitadas desde que Jorn Werdelin, fundador da Linde Werdelin, me lançou um desafio semelhante há já alguns anos — na sequência de uma edição do seu 3-Timer que fez com um nosso amigo comum, o também jornalista Kristian Haagen. Essa edição Linde Werdelin há-de concretizar-se um dia, mas para já o Isotope GMT 0º ‘Terra Maris’ já está feito e ao alcance de quem o quiser ter antes de se esgotar a tiragem de 49 exemplares.

Primeiros sketches do Isotope GMT 0 ‘Terra Maris com várias cores de mostradores diferentes
As três primeiras sugestões de mostrador apresentadas pelo designer da Isotope | © Isotope

Colocado o desafio pelo José Mendes Miranda, a primeira coisa que lhe disse após aceitar foi que não queria o meu nome no relógio; a segunda coisa foi que já tinha umas ideias na cabeça que poderíamos utilizar. Quis que o esquema cromático andasse à volta da combinação do castanho com o azul claro; que o mostrador tivesse algum tipo de dégradé; que o relógio representasse um pouco a zona costeira onde vivo e que tivesse cores pouco usuais para que fosse mesmo diferente. A partir daí e até aos primeiros sketches foi tudo muito rápido; o José trabalhou com o seu designer — de seu nome Vikenty Gryaznov — e escassos dias depois já tinhamos várias alternativas à escolha em imagens ‘soldat’. Tudo tratado por telefone e por WhatsApp (naquela altura ainda andávamos em confinamento) e sem eu nunca ter tido entre mãos o novo modelo GMT 0º que serviu de base à ‘minha’ edição limitada.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ sobre um fundo de ganga
O GMT 0º ‘Terra Maris’ com a correia e a bracelete que o acompanham | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Sendo o GMT 0º um típico relógio de viagem pelo segundo fuso horário proporcionado pelo disco ao centro e tendo a alusão a Greenwich (Greenwich Mean Time) no nome, e sendo a Isotope uma marca baseada num país com o mesmo fuso horário do que o português, quis que o relógio refletisse a bonita zona costeira onde vivo e que evocasse não só a ideia de férias mas também de elegância casual. Para mim, um excelente exemplo de elegância casual é usar sapatos castanhos de camurça com calças de ganga, uma camisa branca e um bom blazer.

Sketches do Isotope GMT 0 ‘Terra Maris até à versão final
As duas versões finais, tendo sido escolhida a da direita com indexes brancos; posteriormente, escolheu-se um ponto preto para a data sobre fundo branco | © Isotope

O castanho e o azul também representam a terra e o mar, e Cascais fica praticamente na ponta mais ocidental da Europa (oficialmente, é o cabo da Roca), onde o continente acaba e começa o oceano. Daí o nome em latim ‘Terra Maris’, que já andava na minha cabeça. A terra e o mar, o castanho e o azul, camurça castanha e blue jeans. Mesmo que, para melhor contraste, o azul acabasse por ser mais celeste do que propriamente marítimo.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ no pulso com o farol de Cascais de fundo
O GMT 0º ‘Terra Maris’ em Cascais, com o Farol de Sta Marta como cenário de fundo | © Isotope

Também me aliciou muito a ideia de elaborar um relógio com a Isotope, no sentido em que as micromarcas têm feito o excelente trabalho de proporcionar um acesso mais económico ao oneroso mundo da relojoaria mecânica — ao mesmo tempo que muitas delas também oferecem interessantes alternativas para quem quer algo mais fora da caixa, fora do mainstream. E o GMTº da Isotope é mesmo um relógio diferente, apresentando a inédita combinação de um disco central para indicação do segundo fuso horário com a data assinalada por um ponto que vai percorrendo os 31 orifícios do mês.

Mostrador azul e castanho do Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’
A força cromática do Isotope GMT 0º ‘Terra Maris’ | © Isotope

Tratando-se de um relógio apropriado para férias de verão, também convinha que tivesse um bom nível de estanqueidade. E tem: a arquitetura da caixa, a coroa de rosca e o vidro de safira com 3mm de espessura garantem uma resistência até 200 metros. A robusta construção do Isotope GMT 0º (41,5mm por 14,2mm) quase faz do ‘Terra Maris’ um tool watch de mergulho; está pronto para usar e ser abusado sem qualquer necessidade de o retirar do pulso no mar ou na praia.

Pormenores exclusivos

Para além da combinação de cores muito pouco usual, vários outros pormenores destacam o ‘Terra Maris’ das outras edições do GMT 0º. Por exemplo, a nomenclatura ‘Terra Maris’ em discreto relevo no disco central do segundo fuso horário; no fundo da caixa, que ostenta a gravação das tradicionais 24 cidades correspondentes aos 24 fusos horários à volta de uma escotilha com vista para o movimento, surge o nome de Lisboa em vez de Londres. E tem luminescência suplementar nos indexes, ao passo que as restantes edições do GMT 0º só incluem luminescência nos ponteiros e no ponto em forma de ‘lacrima’ que surge no disco GMT ao centro. A ‘lacrima’, elemento estílistico transversal na coleção da Isotope, também surge na abertura do fundo da caixa.

Verso de caixa Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’
O fundo da caixa aparafusado e com a referência aos 24 fusos horários, sendo que Lisboa substitui Londres | © Isotope

Na parte do design, a primeira coisa a fazer foi a escolha de cores do mostrador e a respetiva tonalidade. Depois, decidir qual a cor da luminescência e a cor do ponteiro dos segundos. Nesse aspeto, alguns avanços e recuos e sobretudo algumas afinações. Mas a concretização foi lenta. Com a pandemia e os confinamentos, as coisas atrasaram-se devido à incapacidade de os fornecedores responderem prontamente. E quando os primeiros protótipos de mostrador chegaram, estavam muito longe do desejado porque os tons certos e o degradé do mostrador não foram nada fáceis de alcançar. Esse acabou por ser apenas uma parte do problema.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ com bracelete preta e no pulso
Visuais diferentes: com correias de outras cores | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O outro aspeto a considerar tinha a ver com o calibre automático mais adequado. E aí deixei o José, muito mais habituado a lidar com os fornecedores, tomar as decisões mais adequadas ao projeto. E a escolha acabou por recair num movimento automático suíço Landeron com função GMT; o facto de ser suíço (inicialmente pensou-se num calibre japonês e foi mesmo tentado um calibre helvético SwissTech) e também porque a pandemia encareceu substancialmente os componentes forçaram o José a elevar o preço acima da barreira psicológica dos mil euros — até porque o Brexit implica uma série de taxas sobre tudo o que sai de Inglaterra. O preço final situa-se nos 1.228 euros, já com a contabilização dos custos alfandegários.

Originalidade e personalidade

Mas trata-se de uma edição original, numerada e limitada a 49 exemplares. A tiragem pode parecer estranha, mas também tem uma explicação: o meu número preferido é o 13, mas 13 relógios seriam poucos e 130 demasiados; como a ideia inicial era a de fazer cerca de meia centena, a opção final recaiu no 49 porque… 4+9 = 13! Espero que o meu número da sorte também o seja para quem adquirir o GMT 0º ‘Terra Maris’.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ no pulso com paisagens de Veneza no pulso
Um relógio perfeito para o viajante, como se pôde constatar em Veneza | © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

E quem adquirir o GMT 0º ‘Terra Maris’ terá mais do que o relógio. Como strapaholic que sou, disse logo que gostaria que tivesse várias alternativas para mudança de visual. No final, ficou decidido que uma das opções seria a nova bracelete em aço com fecho de báscula desenhada especialmente para o GMT 0º; a outra opção foi mais complicada de concretizar, quando aparentemente deveria ser de simples resolução. Inicialmente pensou-se numa bracelete castanha de tela técnica impermeável, depois discutimos a possibilidade de uma correia em pele castanha ou azul com pesponto vintage do tipo ‘mosca’. Estive em S. João da Madeira com o meu amigo André Sampaio e combinou-se com o fornecedor de correias para a sua Watch Garage uma versão azul clara 24/20mm, mas a empresa não pôde dar seguimento à encomenda por se encontrar ocupada com outras coisas. A escolha recaiu numa robusta correia 24/22mm do tipo Panerai em couro castanho envelhecido com pespontos azuis tipo ‘mosca’ e uma fivela sobredimensionada. Em breve a Isotope terá na sua loja correias castanhas 24/18mm (pessoalmente, as proporções que considero ideais para o relógio em questão) com superfície de camurça para melhor estabelecer a associação a uma das inspirações por trás do ‘Terra Maris’.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ num fundo azul e preto
A correia de couro com pespontos da cor do ponteiro dos segundos que acompanha a bracelete de aço no conjunto | © Isotope

Para além das duas opções (bracelete de aço e correia em couro, ambas dotadas de um sistema de troca rápida), o estojo inclui também uma pequena ferramenta Isotope e o documento que assegura uma garantia de três anos. Mais um ano do que levou o processo de concretização do ‘Terra Maris’, que é apresentado agora em maio porque é neste mês que a marca comemora o seu sexto aniversário.

Isotope GMT 0 ‘Terra Maris’ no pulso com uma ponte de Venza no fundo
O dégradé do mostrador bem evidente nas imagens de estúdio e ao ar livre em Veneza | © Isotope e Miguel Seabra / Espiral do Tempo

E só posso terminar acrescentando que espero ter sido suficiente explícito na explicação do relógio. E, já agora, que se adquirirem um ‘Terra Maris’ possam desfrutar dele da melhor maneira possível!

Características técnicas

Isotope
GMT 0º ‘Terra Maris’
x Miguel Seabra
Ano de lançamento | 2022

Edição limitada a 49 exemplares.

Movimento | Mecânico de corda automática. Calibre GMT Swiss Landeron. 40h de reserva de corda. 28 rubis. 28.800 alt/h.
Funções | Horas, minutos, segundos, data e segundo fuso horário.
Caixa ø 41,5 mm | Aço 316L. Vidro de safira com tratamento antirreflexo. Coroa de rosca. Fundo com os fusos horários das principais cidades do mundo. Estanque até 200m.
Bracelete | Aço GMT 0º com fecho de báscula ou couro castanho envelhecido de 24/22mm com pespontos azuis e uma fivela sobredimensionada. Ambas com sistema de troca rápida.
Preço | 1.228 €

Visite o site oficial da Isotope para mais informações.

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