Com a tendência para dress watches a tornar-se mais evidente na relojoaria atual, as técnicas ancestrais de decoração têm assumido cada vez maior importância. Como o guilloché. E ninguém domina o guilloché como o mestre Kari Voutilainen — que faz dele a sua imagem de marca e identidade cultural. Fomos visitá-lo a Val-de-Travers para a reportagem que se impunha.
O guilhoché é uma das expressões mais refinadas da relojoaria decorativa: a arte de entalhar padrões complexos e repetitivos em metal, utilizando tornos de roseta manuais ou tornos de linha reta, enriquece qualquer mostrador e dá-lhe mesmo uma dimensão hipnótica. Na relojoaria atual, há mesmo algumas marcas que fazem da guillochagem uma trave mestra da sua identidade; ao mais alto nível, não há dúvida de que o mestre Kari Voutilainen está na linha da frente e personifica essa arte — tal como, noutro patamar de preço, a Chronoswiss vem proclamando esse estilo decorativo.

Diversas outras maisons mantêm a tradição viva ao mais alto nível, embora somente em determinadas linhas. A Patek Philippe emprega-o seletivamente em altas complicações e peças raras feitas à mão; a Vacheron Constantin integra o guilhoché nas suas criações Métiers d’Art; a F.P. Journe utiliza mostradores dourados com acabamento guilloché para reforçar uma linguagem estética coerente; a Breguet continua a ser sinónimo de guilhoché clássico, combinando frequentemente múltiplos motivos num único mostrador. Mas os relógios Voutilainen estão numa dimensão à parte, como se pode constatar pelo preço mínimo de 100 mil euros e uma waiting list de 11 anos… que nos foi confirmada pelo próprio mestre finlandês, embora ele esteja a organizar-se de modo a reduzir esse longo período de espera que já o levou a parar de aceitar encomendas.

Fomos visitá-lo no Val de Travers, mais precisamente ao seu atelier localizado no topo do monte designado ‘Chapeau de Napoleon’ devido ao seu peculiar formato. E depois descemos até Fleurier, para conhecer a companhia Brodbeck Guillochage que ele adquiriu recentemente de modo a poder dar melhor vazão a todas as suas encomendas — ao mesmo tempo que garantia uma nova unidade de produção, assegurava um parque de históricas máquinas especializadas e ganhava espaço para formar novos artesãos para esticar a prática da guillochagem até às próximas gerações.
Raízes históricas
Num mostrador, o guilhoché não é um mero ornamento — é uma coreografia de luz. À medida que o pulso se move, os sulcos gravados captam e refractam a luz, criando profundidade, ritmo e legibilidade sem excessos. A técnica da guillochagem floresceu no século XVIII, particularmente em França e na Suíça, sendo utilizada em caixas de rapé, relógios de bolso e instrumentos científicos. Abraham-Louis Breguet, o maior de todos os relojoeiros, popularizou o guilhoché nos mostradores dos seus relógios — combinando a sua elegância tátil com uma clareza funcional. Diferentes padrões distinguiam as múltiplas indicações no mostrador (horas, pequenos segundos, reserva de marcha), estabelecendo uma hierarquia visual que se mantém relevante até aos dias de hoje.

O guilhoché tradicional interpretado pelas maisons de alta relojoaria é executado em máquinas centenárias guiadas inteiramente à mão, como sucede na Voutilainen ou na Urban Jurgensen. O artesão seleciona uma roseta (uma came padronizada), ajusta a profundidade e o espaçamento e avança a ferramenta de corte em incrementos micrométricos. Um único mostrador pode exigir horas — por vezes mesmo dias! — de concentração. A gravação CNC moderna pode imitar a aparência do guilloché, mas os colecionadores mais exigentes reconhecem as subtis irregularidades e a autenticidade do verdadeiro trabalho artesanal.

Os padrões variam amplamente, havendo alguns mais utilizados por se terem tornado emblemáticos da relojoaria fina. O Clous de Paris (prego de cavalo) forma um campo de pequenas pirâmides; o grão de cevada produz grãos alongados em forma de onda; o soleil (raio de sol) irradia a partir de um ponto central; o panier sugere a textura de um cesto entrançado; o flinqué sobrepõe esmalte translúcido sobre metal gravado; e o tapisserie, associado a certos modelos desportivos de luxo (com o Royal Oak da Audemars Piguet em primeiro lugar), reinterpreta a geometria do prego de cavalo numa escala maior.

Mais do que um mero adorno, o guilhoché incorpora uma intimidade mecânica associada à relojoaria tradicional. Exige paciência, inteligência manual e respeito pelo material. Numa era de precisão digital, os mostradores gravados à mão permanecem como uma afirmação silenciosa de que a beleza ainda pode ser esculpida, linha a linha, por mãos humanas. E poucos relojoeiros contemporâneos fizeram mais para salvaguardar a arte do guilhoché do que Kari Voutilainen. «Cada relógio que fazemos é diferente e participo pessoalmente em cada etapa do processo criativo», diz.

Sobretudo no que diz respeito à extraordinária decoração dos seus mostradores. Para o mestre finlandês há muito radicado na Suíça, o torneamento mecânico não é um mero detalhe decorativo, mas antes uma componente estrutural da cultura relojoeira — uma disciplina viva que requer máquinas, conhecimento dos materiais e sensibilidade humana a trabalhar em harmonia. Como o próprio fez questão de revelar aquando da visita a Portugal promovida pelo Instituto Português de Relojoaria, em fevereiro de 2025.
Brodbeck Guillochage
Com formação em restauro e um profundo conhecimento da relojoaria histórica, Kari Voutilainen compreende o guilhoché tanto como ofício como património. Ao longo dos anos, adquiriu e restaurou ativamente máquinas antigas de roseta e guilhoché de linha reta — algumas com mais de um século de idade — reconhecendo que preservar a arte significa também preservar as ferramentas.

Essas máquinas operadas manualmente, guiadas por rosetas e cames, permitem a criação de padrões de notável profundidade e subtil irregularidade, impossíveis de replicar autenticamente através de processos industriais CNC. E o seu empenho atingiu um novo patamar com a aquisição da histórica empresa especializada Brodbeck Guillochage, integrando a expertise tradicional em guilloché diretamente na sua manufatura.

Ao fazê-lo, Kari Voutilainen garantiu não só a continuidade da produção, mas também a transmissão de um conhecimento artesanal raro. E as oito máquinas de guilloché que tinha anteriormente no seu atelier no Chapeau de Napoleon estão agora reunidas com as restantes que integravam a Brodbeck Guillochage para fabrico próprio ou para terceiros (como sucedeu na notável colaboração com a Zenith e a Phillips). Numa indústria cada vez mais dependente do outsourcing ou da simulação mecanizada, tal integração vertical é uma declaração de intenções: o universo de Voutilainen, que inclui outras empresas fornecedoras como a manufatura de mostradores e tratamentos galvânicos Comblémine (localizada em Saint-Sulpice, também no Val-de-Travers), tem crescido paulatinamente e discretamente… à imagem da personalidade do próprio mestre finlandês. E convém não esquecer o seu papel na aquisição e relançamento da Urban Urgensen, que meses depois estava a ganhar um prémio no Grand Prix d’Horlogerie de Genève.

Nos relógios Urban Jurgensen e Voutilainen, o guilloché serve múltiplos propósitos. Visualmente, anima o mostrador com um jogo de luz refinado — ondas delicadas, raios de sol radiantes, texturas em grãos de cevada ou motivos personalizados executados com extraordinária precisão. Estruturalmente, cria profundidade e hierarquia, contrastando frequentemente os medalhões centrais com os anéis de capítulo ou segundos subsidiários. Emocionalmente, reforça o carácter táctil da peça: não se tratam de superfícies estampadas, mas de metal recortado, gravado linha a linha.

O que distingue o guilloché nos relógios Voutilainen ou Urban Jurgensen é a sobriedade clássica. Os padrões são nítidos, mas não ostensivos; o acabamento é irrepreensível, porém com calor humano. Variações subtis de profundidade e espaçamento revelam a mão humana por detrás da máquina. Combinados com o seu trabalho de esmalte próprio e o acabamento tradicional da caixa, os mostradores gravados na Brodbeck Guillochage contribuem para uma linguagem estética coerente, enraizada no artesanato do século XIX, mas inegavelmente contemporânea. Ao preservar máquinas antigas, formar artesãos e incorporar o guilhoché na identidade dos seus relógios, Kari Voutilainen garantiu que a guilhochagem não se mantém como um floreado nostálgico, mas sim uma arte vibrante e em constante evolução dentro da alta relojoaria moderna.
Preservação
No contexto da alta relojoaria, a arte do guilhoché sempre foi um símbolo de artesanato e de envolvimento humano. Contudo, nas últimas décadas, com a disseminação dos processos industriais e da gravação CNC, a tradicional maquinação mecânica correu seriamente o risco de se tornar uma nota de rodapé na história, em vez de uma arte viva. Poucos compreenderam este risco tão claramente como Kari Voutilainen, daí o seu papel enquanto protagonista de um movimento de preservação que deve ser elogiado.

O profundo respeito de Kari Voutilainen pela herança relojoeira é mais do que reconhecido na indústria. Para ele, as máquinas por detrás do guilhoché — as máquinas de rosetas, os tornos de linha reta, as cames e as rosetas — são tão importantes como os padrões que produzem. Sem tais ferramentas e as mãos hábeis que as operam, a disciplina corria o risco de desaparecer. A sua postura de preservação, que se pode mesmo dizer filosófica, encontrou uma expressão mais concreta com a aquisição da Brodbeck Guillochage, uma das raras oficinas que ainda operava com máquinas genuínas de guilhoché controladas manualmente e mestres torneiros capazes de extrair texturas subtis das superfícies metálicas.

A aquisição não foi totalmente uma jogada comercial, foi acima de tudo cultural: Kari Voutilainen garantiu que o conhecimento, as ferramentas e o capital humano da Brodbeck Guillochage permanecessem ativos e acessíveis, em vez de serem desmantelados ou perdidos. E depois há a toda a parte da formação — os ajustes precisos, a sensibilidade à pressão e ao ritmo, a escolha das rosetas, a capacidade de conceber padrões que ressoam com a linguagem de design geral de um relógio, a própria produção manual de utensílios adequados à morfologia de cada artesão.

O restauro e a utilização de máquinas históricas de torneamento mecânico (que são praticamente impossíveis de reproduzir) tornam-nas disponíveis para as gerações futuras de artesãos, em vez de serem relegadas para museus ou para escuros armazéns… ou mesma atiradas para o lago, como sucedeu durante a chamada ‘Crise do Quartzo’ na década de 70. Essa preservação passa a mensagem de que as técnicas artesanais merecem ser ativamente preservadas — não como curiosidades, mas como métodos de expressão funcionais e em constante evolução.

Numa era em que as marcas de relógios procuram cada vez mais complicações mecânicas e precisão digital, a gestão de Kari Voutilainen da Brodbeck Guillochage recorda-nos que o verdadeiro artesanato está enraizado na história e no toque humano. Ao preservar as máquinas e o conhecimento para as operar, garante que o guilloché permanece uma arte viva e pulsante na relojoaria moderna.





