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Museu L.U.CEUM: refúgio e contemplação

Hoje viajamos até Val-de-Travers, Fleurier, Suíça, onde se localiza a manufatura Chopard. Localizado no andar superior deste edifício está o museu que visitámos em 2011 e sobre o qual publicámos a reportagem que hoje trazemos. Um local que beneficia de um ambiente elegante proporcionado pelo teto esconso e pelas estruturas de madeira. Como um autêntico chalet suíço. Hoje viajamos outra vez no tempo e revisitamos assim o Museu L.U.CEUM.


Reportagem originalmente publicada na edição impressa da Espiral do Tempo 35 (Outono / Inverno 2010)


Paralelamente ao desenvolvimento da sua manufatura L.U.C e aos novos desenvolvimentos industriais com o lançamento da Fleurier Ébauches, a Chopard tem também acarinhado um notável acervo histórico no seu Museu L.U.CEUM – apresentado num enquadramento semelhante ao de um chalet suíço.

No Val-de-Travers, a indústria relojoeira tem renascido com todo o seu esplendor e a localidade de Fleurier está a transformar-se novamente num dos mais interessantes pólos relojoeiros da Suíça. Para além de marcas como a Parmigiani ou a Bovet, a instalação da Chopard tem sido o grande polo dinamizador – sobretudo a partir da criação da sua manufatura e da inauguração do seu próprio museu, sem esquecer o advento da Fundação Qualité Fleurier para certificar a mais alta qualidade técnica/estética dos relógios oriundos da localidade e a implementação da fábrica Fleurier Ébauches destinada a uma produção de mecanismos em maior número e não tão exclusivos como os da Manufatura Chopard.

Esquerda: Karl-Friedrich Scheufele; Direita: Relógios de bolso do espólio do museu
Esquerda: Karl-Friedrich Scheufele, co-presidente da Chopard; Direita: Relógios de bolso do espólio do museu | © Paulo Pires/ Espiral do Tempo

Por trás do progresso que se regista na região (a indústria do setor na zona remonta a 1730, mas perdeu-se a meio do século XX) está uma personalidade que até nem é suíça – é alemã. Reservado e perfeccionista, Karl-Friedrich Scheufele preside (juntamente com a sua irmã Caroline) aos destinos da Chopard e é sobretudo o responsável pelo departamento de relógios para homem, pela produção e pelas finanças de uma das marcas de luxo mais completas e glamorosas do planeta; personifica o charme discreto da família Scheufele e, simultaneamente, dos relógios da marca. Sofisticado, mas de trato simples, gosta de história e de histórias; é também um grande aficionado de automóveis históricos, vinhos de exceção e, claro, relógios. E, para além de ter projetado a Chopard para um elevado patamar na indústria relojoeira, também desenvolveu uma notável coleção que serve de base ao espólio do museu L.U.CEUM – localizado no andar superior do edifício da sua Manufatura Chopard e que beneficia de um ambiente elegante proporcionado pelo teto esconso e pelas estruturas de madeira. Como um autêntico chalet suíço.

O museu L.U.C.EUM. Fotografia do espaço e do tecto com vigas de madeira.
Um ambiente elegante proporcionado pelo tect esconso e pelas estruturas de madeira. Como um autêntico chalet suíço. | © Paulo Pires/ Espiral do Tempo

«Sempre me fascinou a coleção de relógios que o meu avô tinha começado; quando era criança gostava de ter os relógios na mão, de os sentir e de os observar – aqueles objetos antigos fascinavam-me. A certa altura, quando passei a estar mais ocupado profissionalmente, quase que me esqueci que essa coleção existia; redescobri a coleção mais tarde, adormecida num cofre; uma das peças é um notável relógio de carruagem – quando o revi como que sofri um baque e desde logo imaginei integrar esses relógios numa coleção, associando-a ao desenvolvimento da Manufatura Chopard para mostrar a história do tempo nos últimos 500 anos e também homenagear o fundador Louis-Ulysse Chopard», recorda Karl-Friedrich Scheufele.

Sistema decimal

«As peças que o meu avô tinha guardadas foram o início de uma coleção que se foi desenvolvendo ao longo dos anos – e, à medida que a coleção se foi alargando, fui ficando cada vez mais entusiasmado com ela e comecei a concentrar-me em certos temas, como os cronómetros, os relógios de Fleurier, relógios com a assinatura de Berthoud, relógios com mostradores de esmalte», afirma o co-presidente da Chopard. «O território é muito vasto e acaba também por ter a ver com a Manufatura e a coleção L.U.C; foi necessário uma década de dedicação para chegarmos ao nível que o museu apresenta hoje.»

Fotografia de uma frase de Albert Eisntein exposta no museu L.U.CEUM: "Tempo é o que cada um lê no mostrador do seu relógio"
«Tempo é o que cada um lê no mostrador do seu relógio» – Albert Einstein | © Paulo Pires/ Espiral do Tempo

E, numa bela coleção que tem desde relógios de sol portáteis e ampulhetas até marotas complicações eróticas, qual é a peça que o ‘curador’ mais destacaria? «Diria que é o cronómetro decimal de Berthoud, o primeiro cronómetro de marinha com essas características e um instrumento verdadeiramente excecional», refere. Concebido entre 27 de janeiro de 1792 e 19 de junho de 1793 pelo célebre relojoeiro parisiense Pierre-Louis Berthoud (conhecido por Louis Berthoud e nascido precisamente na Suíça, no Val-de-Travers), o ‘Cronógrafo n.º 26’ tem um enorme peso histórico porque assume uma diferente disposição do tempo – decimal! – na sequência das implementações tentadas pela Revolução Francesa de mudar racionalmente o sistema duodecimal pelo mais lógico sistema decimal. Apesar do princípio ser interessante, o sistema decimal nunca se impôs e foi abandonado oficialmente em 1806. Fica o ‘Cronógrafo n.º 26’ a testemunhá-lo.

Vários relógios antigos do espólio do museu L.U.C.EUM da Chopard
Da esquerda para a direita: Relógio de bolso em prata. Louis-Ulysse Chopard, aprox. 1860 | Relógio de bolso “planetário”. Jacob Auch, 1798 | Chronómetro de Marinha, n° 6. Ferdinand Berthoud, 1777 | Relógio “revolucionário” com sistema decimal. Pierre-Louis Berthoud, 1793 | © Chopard

«Também destaco o relógio de carruagem original do meu avô que tão importante foi para o arranque da coleção e o relógio de bolso de um mestre alemão chamado Auch que tem uma face dupla com o mecanismo astronómico completo de um lado, algo de excecional para o século XIX. Em geral, o fascínio que tenho por estas peças prende-se com o facto de pensar que estes relógios impressionantes foram feitos com ferramentas limitadas, numa altura em que não havia eletricidade, sem microscópios – basicamente foram feitos com um par de mãos hábeis e muita imaginação. Comparando com os recursos que temos atualmente, toda a pesquisa e desenvolvimento… é algo de incrível».

Em setembro de 2006, Karl-Friedrich e a família Scheufele convidaram os seus amigos e parceiros para comemorar o décimo aniversário do estabelecimento da Manufatura em Fleurier e, paralelamente, inaugurar o museu L.U.C (batizado L.U.CEUM/ Traços do Tempo). Em 2010, a Chopard comemorou os seus 150 anos e o seu investimento na história abriu um novo capítulo na história de Fleurier e do Val-de-Travers.

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