O relançamento da Corum tornou-se instantaneamente num dos acontecimentos relojoeiros mais importantes de 2026 na relojoaria suíça. E a linha Admiral ocupa lugar primordial na estratégia do regresso aos mercados, feito com a participação de um português: Jean-Paul Duarte.
O renascimento da Corum não começou com um relógio, mas com uma decisão estrutural: o management buy-out de 2025 liderado por Haso Mehmedovic — antigo relojoeiro da casa, depois diretor comercial e agora um dos mais jovens CEOs da indústria relojoeira aos 32 anos. O regresso a capital suíço não foi apenas simbólico ou um ato de paixão de alguém que passou quase toda a sua vida vinculado à Corum; foi a recuperação de uma identidade criativa que a marca parecia ter diluído ao longo da última década.

No salão da manufatura em La Chaux-de-Fonds e perante imprensa especializada vinda de todo o mundo, Haso Mehmedovic foi claro ao falar de «restoring Corum to its former glory and legitimacy». Falou em nome de uma experiente equipa que inclui o relojoeiro português Jean-Paul Duarte (que passou anteriormente pela Patek Philippe, Vacheron Constantin e a própria Corum) no papel de Chefe de Produto. E «restaurar a glória e legitimidade da Corum» é mesmo a intenção que define a primeira fase da nova era, após a perda gradual de relevância desde a aquisição, em 2013, pelo grupo asiático Cytichamp (antes designado China Haidian), que também levou a sister company Eterna para a hibernação. O primeiro objetivo da nova era é mesmo a restabelecimento da notoriedade da marca através da recuperação da sua identidade estética e argumentos comerciais, porque a Corum sempre foi mesmo uma marca ‘diferente’.

Mas não foi assente em históricos modelos tão fora da caixa como o Tabogan ou o Bubble que a Corum alicerçou o seu regresso. Foi no emblemático Admiral, mesmo que o relançamento também inclua a superlativa especialidade mecânica Golden Bridge e o peculiar Coin Watch numa primeira fase. O Admiral é mesmo o protagonista e o trunfo com que a marca de La Chaux-de-Fonds se apresentará dentro de poucos dias no Watches and Wonders: no total, onze referências assentes em quatro fundamentos — nova caixa em dois tamanhos, novos mostradores com múltiplas alternativas, nova bracelete integrada e novo calibre desenvolvido exclusivamente com a Concepto.
O eixo central
A nova geração do Admiral declina-se em dois tamanhos de diâmetro — o de 39mm e o de 36mm. Se o mais pequeno é teoricamente mais versátil porque tanto pode servir a preferências femininas como a um público asiático de pulsos mais pequenos ou à tendência atual de dimensões mais contidas, o maior é, conceptualmente, o relógio mais importante do relançamento da marca. E esse maior diâmetro de 39mm é já por si, uma redução tendo em conta as gerações anteriores do Admiral.

A estratégia de produto foi a de manter a arquitetura dodecagonal histórica, ganhar ergonomia contemporânea e recentrar a linha num segmento de luxo desportivo mais transversal inerente à categoria do design integrado que tem por chefes-de-fila os icónicos Royal Oak da Audemars Piguet e Nautilus da Patek Philippe… e que ao longo da última época recuperou toda a pujança dos anos 70 e mesmo 80, fase em que o design integrado e a predominância de relógios-bracelete dominavam o mercado.



Colocando especial foco na variante de 39mm, a Corum reposiciona o Admiral contra a vaga de modelos sport-chic de prestígio sem abdicar de vários elementos identificativos — como a força geométrica e, no modelo-bandeira, os índices náuticos em bandeiras coloridas (o ADN visual da coleção desde 1960). O Admiral 39 inclui execuções em aço com mostradores azul, antracite, dourado, openworked e meteorito cinzento, bracelete metálica integrada e uma opção em ouro com bracelete de borracha.
A novidade estratégica
Se o Admiral 39 se mostra como o pilar do relançamento da Corum, o Admiral 36 pode acabar por ser o Joker da marca e ganhar preponderância comercial inusitada. Pela primeira vez, a linguagem Admiral surge traduzida de forma plena num diâmetro de 36mm e em cinco referências. Não se trata apenas de uma versão mais pequena; é a abertura clara a um público unissexo, a resposta ao mercado de luxo desportivo elegante e um piscar de olho às proporções vintage do modelo histórico de 1983 em que se inspirou.

O Admiral 36 é particularmente feliz nas variantes com mostrador branco em madrepérola, azul soleil e em versões joalheiras discretas. Porque a Corum percebeu uma importante mensagem do mercado através dos aficionados: a categoria dos chamados ‘relógios desportivos de luxo’ não tem de ser dominada por relógios sobredimensionados.

A pedra angular
O novo movimento automático exclusivamente desenvolvido pela Concepto para a Corum é a verdadeira pedra angular do Admiral. A Corum abandonou a dependência de bases mecânicas genéricas e introduziu um novo calibre automático desenvolvido com um parceiro especializado na concepção de movimentos também sediado em La Chaux-de-Fonds.

Tecnicamente, o novo calibre próprio da Corum apresenta uma arquitetura moderna, melhor eficiência de corda, espessura otimizada para caixas mais finas e maior robustez industrial. Estrategicamente, reforça a identidade suíça do relançamento, permite independência progressiva e dá margem para futuras complicações Admiral. No plano industrial, a parceria com a Concepto oferece uma séria capacidade de desenvolvimento os custos monumentais de uma manufatura totalmente integrada. Para mais, trata-se de um movimento automático especialmente bonito, com os seus belos acabamentos e contrastes. A massa oscilante vazada com o logótipo em destaque está especialmente bem conseguida.

Com 72h de reserva de carga, apresenta uma excelente eficiência de corda, uma espessura mais bem integrada e plataforma que foi preparada para uma futura expansão com o acréscimo de funções/complicações. Não é só um novo movimento: é uma plataforma de renascimento industrial.
A visão
Na sua apresentação, Haso Mehmedovic foi consistente e apaixonado. O objetivo de restaurar a glória e legitimidade da Corum não é marketing vazio, tendo em conta o seu trajeto profissional e mesmo pessoal. Descendente de bósnios, começou muito jovem na Corum como relojoeiro e passou depois a diretor comercial. Aos 32 anos, é um dos mais jovens CEOs de uma marca relojoeira ‘estabelecida’ (ou seja, descontando as micromarcas) e só tem à sua frente Federico Ziviani (30 anos; Gerald Charles) e Jean Arnault (27 anos; Louis Vuitton, Gerald Genta e Daniel Roth).

No seu discurso, Haso Mehmedovic reafirmou que se trata de um projeto com investidores suíços no setor e fora da indústria — e, respondendo à Espiral do Tempo, ainda deixou no ar a ideia de que poderá também resgatar a Eterna numa iniciativa semelhante. Mas a Eterna é uma marca que, apesar do seu papel histórico no desenvolvimento dos calibres automáticos e da força do seu modelo KonTiki, surgiria num mercado mais tradicional pleno de ofertas muito semelhantes. A Corum sempre se situou num patamar mais elevado e tem propostas de design verdadeiramente diferenciadas.

No que diz respeito especificamente ao Admiral, a Corum não tentou reinventar tudo. Em vez disso, refinou a caixa de um dos modelos do passado, acertou nas proporções, integrou a bracelete, introduziu um calibre credível e expandiu a oferta para um diâmetro de 36mm sem perder o ADN. Um relançamento assente em bases aparentemente muito assertivas. E, ao contrário de muitas ‘resurreições’ de marcas históricas, evidencia legitimidade interna (CEO foi formado na casa) e coerência patrimonial (a sede mantém-se). Uma equipa experiente com visão clara da sua missão e um produto forte.

O novo Corum Admiral representa mais do que um facelift, é a peça central de um renascimento cuidadosamente planeado em que o diâmetro de 39mm afirma a nova normalidade desportiva-luxo, o tamanho de 36mm abre a coleção a um mercado mais lato e o novo movimento com a Concepto assegura credibilidade mecânica.

A geração anterior do Admiral era bem conseguida e com claro ADN náutico, mas presa a uma lógica de sports watch convencional com asas tradicionais. O projeto do novo Admiral começou com o conhecido designer Emmanuel Gueit (o criador do Royal Oak Offshore em 1993 e que recentemente causou impacto com as propostas da Dennison) e prosseguiu com outros designers; a silhueta mais arquitetónica da nova geração está muito alinhada com o gosto atual e apresenta excelentes proporções que dão à linha sofisticação vintage, versatilidade transversal e a desejada noção de luxo discreto. Na sua nova geração, o Admiral volta a parecer contemporâneo sem perder a alma náutica.
A inspiração
O novo Admiral só se percebe totalmente quando colocado ao lado do Admiral’s Cup dos anos 80 — sobretudo a geração consolidada a partir de 1983, que é a sua inspiração direta. Ao contrário de muitos outros exemplos das últimas duas décadas, o novo Admiral não é uma reedição ou reinterpretação nostálgica; é uma tradução contemporânea muito disciplinada do código original. A diferença no nome tem a ver com o facto de a Corum ter patrocinado a regata Admiral’s Cup desde a década de 60 até à década passada: o desvinculo implicou a passagem à nomenclatura Admiral.

Mas o Admiral’s Cup de 1983 representou o momento em que a Corum fixou a linguagem que ainda hoje define a coleção: luneta dodecagonal de 12 lados e bandeiras náuticas do International Code of Signals como marcadores horários. Essa fórmula nasceu da associação à lendária regata e transformou-se rapidamente num dos designs mais reconhecíveis da relojoaria. O Admiral de 2026 parte exatamente desse ADN, mas altera a forma como ele é vivido no pulso.

Visualmente, há três elementos que transitam diretamente dos anos 80 para 2026: luneta de 12 facetas, o espírito marítimo/regata, e — em modelos específicos — a manutenção das 12 bandeiras náuticas. Ao contrário de outros casos em que a modernização implicou alguma descaraterização, a inspiração do Admiral é assumida frontalmente. A data às 4 horas será o pormenor que menos consenso reuniu, tendo em conta que muitos aficionados preferem mostradores limpos de qualquer janela para a data; no modelo de 1983, surgia às 6 horas.

A maior diferença reside na combinação caixa/bracelete. O Admiral’s Cup dos anos 80 tinha uma construção muito própria da época: era um relógio com um luxo desportivo ainda muito dressy intimamente associado aos exclusivos ambientes old money da Côte d’Azur e da Riviera. No novo Admiral, há sobretudo a noção de luxo casual elegante e a transposição da sofisticação para um produto mais ergonómico. O contexto cultural mudou profundamente. O antigo Admiral’s Cup dizia «tenho barco», o novo diz «conheço a história da Corum e quero um design integrado diferente do habitual». Mesmo que o novo Admiral seja o herdeiro mais legítimo do 1983 do que qualquer outro Admiral lançado no presente século.
O posicionamento
O novo Admiral entra assumidamente no segmento de mercado mais difícil da relojoaria contemporânea: o do relógio desportivo de luxo entre 10.000 e 20.000 euros com design integrado e legitimidade histórica, dominado pelo Royal Oak e pelo Nautilus. Que estão num patamar à parte, com outras propostas contemporâneas (como o Odysseus, da A. Lange & Söhne) igualmente situadas numa fasquia de preço mais elevada. O terreno do Admiral é mais o do Alpine Eagle da Chopard e do Laureato da Girard-Perregaux, ou mesmo o do Ingenieur da IWC — e pode esgrimir fortes argumentos face à concorrência: um código visual imediatamente reconhecível e não genérico, baseado numa caixa dodecagonal e com a singular iconografia das bandeiras náuticas presente.

Para terminar, uma constatação: só o facto de, na imprensa internacional e nas redes sociais, o novo Admiral estar a comparado diretamente com icónicas e maduras linhas de design integrado bem estabelecidas no mercado já representa uma primeira vitória para a Corum. Veremos qual o seu impacto real no mercado.





