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Pointer Date: apontar não é feio!

Certos relógios são capazes de ultrapassar a sua utilidade material enquanto instrumento de medição do tempo. E alguns, com as suas particularidades, levam-nos mesmo a refletir sobre a natureza do tempo. Assim foi o caso do meu Oris Big Crown Pointer Date, cuja complicação fora do normal me levou numa jornada algo metafísica.

Foto de abertura: © Bruno Candeias

Alguns relógios são capazes de ultrapassar a sua utilidade material enquanto instrumento de medição do tempo. Com o seu design e história, estes pequenos objetos podem servir como símbolo para exprimir os gostos e a visão do mundo por parte de quem os usa. E alguns, com as suas particularidades, levam-nos a refletir sobre a natureza do tempo. Assim foi o caso do meu Oris Big Crown Pointer Date, cuja complicação fora do normal me levou numa jornada algo metafísica.

A edição Big Crown Pointer Date da TAP baseou-se no modelo tradicional da Oris com luneta canelada
A edição Big Crown Pointer Date da TAP baseou-se no modelo tradicional da Oris com luneta canelada | © Espiral do Tempo

Mas, antes de mais, um breve enquadramento:
A indicação da data tende a ser considerada como a primeira complicação relojoeira a ser adaptada para relógios de pulso e terá sido a Mimo (empresa irmã da Girard-Perregaux na época) que, na década de 1930, patenteou e lançou a indicação da data através de uma janela. Desde então, o seu princípio de funcionamento sofreu poucas alterações ao longo de 90 anos de história: um disco impresso com os 31 dias do calendário esconde-se na traseira do mostrador e apenas um dos números é visível através de uma abertura retangular que se assemelha a uma janela. Por volta da meia-noite, um mecanismo move este disco para a sua próxima posição, avançando a data. Do ponto de vista mecânico, este ‘salto’ requer alguma atenção porque implica mais tensão nas engrenagens, uma vez que não é um movimento contínuo como o avanço dos ponteiros das horas, minutos e segundos.

Oris Big Crown Pointer Date
O novo Oris Big Crown Pointer Date, atualizado com o calibre in-house da marca e um design mais contemporâneo | © Oris

Um consumidor atento irá notar que a maioria dos relógios atualmente disponíveis possui esta janela, que assume ainda maior destaque nos Rolex, onde é ampliada pela lupa colada sobre o cristal. A indústria continua a incluir a data nos seus relógios, não só por considerar haver procura mas também por acrescentar valor sem implicar um grande investimento ou alterações no movimento (a título de exemplo, um Rolex Datejust moderno custa mais 1.400 euros do que o seu primo Oyster Perpetual sem data). Contudo, este pequeno retângulo causa um enorme desconforto em alguns colecionadores e entusiastas da relojoaria, que vêem a janela da data como uma afronta estética que deveria ser abolida. Não é difícil encontrar exemplos onde o design sofreu com a adição da data, ou outros onde esta foi simplesmente mal executada — desde o mau posicionamento à descoordenação com as cores do mostrador.

Oris Big Crown Pointer Date no pulso.
Oris Big Crown Pointer Date | © Bruno Candeias

Felizmente, a indústria relojoeira está atenta e oferece alternativas para quem precisa de saber a data, mas dispensa uma abertura no seu precioso mostrador. Conhecidos em inglês como Pointer Date, estes relógios usam um ponteiro adicional para indicar o dia do mês numa escala situada na periferia do mostrador. Este tipo de indicação popularizou-se nos anos 40, quando marcas de prestígio como a Vacheron Constantin e a Jaeger-LeCoultre a utilizaram nos seus relógios de calendário anual, embora nestes casos ainda tivessem janelas para indicar o mês e o dia da semana.

Pointer Date

Com a mais recente atualização do seu Big Crown Pointer Date, a Oris adaptou esta tradicional complicação aos tempos modernos. Este relógio, originalmente desenhado para pilotos em 1938 e considerado o ex-libris da marca, apresenta agora versões dotadas de um calibre in-house desenvolvido pela marca, com um módulo adicional que substitui o disco da data pelo célebre ponteiro indicador. Esta solução simples garante a robustez do salto da data e mantém a sua generosa autonomia de corda de cinco dias.

Close-up do mostrador do Oris Big Crown Pointer Date
O mais recente Big Crown Pointer Date é dotado do Calibre 403 | © Oris

No campo da alta-relojoaria, destacam-se algumas marcas que continuam a desenvolver soluções criativas para incluir pointer dates nos seus modelos:

  • Richard Habring, o engenhoso inventor e proprietário da manufatura austríaca independente Habring2, encontrou uma forma de adicionar um ponteiro de data ao seu (complexo) Felix-Doppel Chronograph, formando a base numa pilha de cinco ponteiros centrais;
  • A Moritz Grossman gosta de usar mecanismos inesperados para as suas complicações, e a data não foi exceção. No Atum Date, a marca germânica utilizou um misterioso método para rodar uma moldura que enquadra a data na periferia do mostrador, em vez de um ponteiro central;
  • No início do ano, a Jaeger-LeCoultre atualizou o seu modelo Master Control Calendar. Com o novo movimento, o ponteiro da data agora ‘salta’ 90 graus entre os dias 15 e 16 para evitar sobreposições com o submostrador dos segundos e fases da lua. Apesar de ser uma função desnecessária, é uma forma sofisticada de a manufatura da Vallée de Joux exibir a sua experiência técnica enquanto fabricante de movimentos;
  • A Ochs und Junior criou uma solução híbrida entre um pointer date e a convencional janela da data, com o objetivo de aumentar a legibilidade e contribuir para a sua estética minimalista/brutalista. O seu mostrador contém 31 aberturas circulares dispostas em espiral e a data é indicada através da posição de um ponto colorido dentro de uma das aberturas. Esse sistema de ponto indicador numa das aberturas também é utilizado pela Isotope, do português José Mendes Miranda, no seu modelo GMT 0º.
Exemplos modernos de pointer date: Habring2 (esquerda), Moritz Grossmann (centro) e Jaeger-LeCoultre (direita) em fundo branco
Exemplos modernos de ponteiros datadores: Habring2 (esquerda), Moritz Grossmann (centro) e Jaeger-LeCoultre (direita) | © DR

A vantagem estética de um Pointer Date é clara: ao dispensar a janela da data, os mostradores ficam mais simples e elegantes, mantendo a simetria lateral que tantos entusiastas valorizam. Na maioria dos casos, este ponteiro adicional é mais fino que os restantes, pelo que acrescenta interesse visual ao relógio sem prejudicar a leitura das horas.

A janela da data mostra um número, mas um ponteiro da data aponta para um momento no loop infinito do tempo.

Para além da parte visual, o que mais me cativa é o elemento filosófico associado a esta complicação. Nestes relógios, a data segue a mesma trajetória que as horas e os minutos, completando lentamente o círculo à medida que o mês avança. Podemos acompanhar o seu progresso e sentir a passagem dos dias à medida que o novo mês se aproxima e o ciclo se repete novamente.

Tempo circular

Esta ideia do tempo circular surge em oposição ao conceito de tempo linear predominante na cultura ocidental, onde a maioria das pessoas tende a ver o tempo como uma progressão direta — do que se passou no passado, para o modo como as ações no presente poderão influenciar o futuro ainda por conhecer. Esta noção do tempo, associada às ideias de produtividade e individualismo, assume que estamos sempre a caminhar em direção a um determinado objetivo. Na sociedade industrializada, o ‘tempo é dinheiro’, pelo que deve ser bem gerido, sob pena de se tornar tempo perdido e nunca mais recuperado.

Tempo linear versus tempo circular

As recentes preocupações com o bem-estar e a vontade de fugir ao frenesim do dia-a-dia têm levado muitas pessoas em busca de tranquilidade nas filosofias e modos de vida do Oriente. A Roda do Tempo (Kalachakra) assume um papel essencial no Budismo e no Hinduísmo, crenças que encaram o universo como um processo cíclico — desde as órbitas dos planetas até ao ciclo da vida, passando pelos ritmos regulares das estações, aos meses e dias. Esta visão promete uma vida mais relaxante e livre que a tradicional pressão Ocidental focada em alcançar resultados num curto espaço de tempo, preferindo a apreciação das experiências em vez da procura constante do sucesso.

Oris Hölstein Edition 2021 e o estojo especial em que é entregue
O primeiro Big Crown Pointer Date com movimento Oris de manufatura surgiu na edição limitada Hölstein Edition 2021 apresentada no início do verão | © Oris

Regressamos ao ponto de partida. Conheço bem a sensação de tranquilidade que recebo ao olhar para o meu pointer date em momentos de ansiedade ou tristeza. Com atenção, observo o deslizar do ponteiro dos segundos enquanto define o ritmo para a passagem das horas e dos minutos. Durante esta dança, o ponteiro da data permanece imóvel enquanto aguarda para avançar até à sua próxima paragem — mais um passo na sua viagem sem princípio nem fim.

Talvez o mesmo se aplique ao nosso dia-a-dia: também nós precisamos de guardar a energia nos momentos difíceis e de estarmos preparados para saltar e agarrar as oportunidades assim que chega o momento certo.

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