Os relógios do mestre François-Paul Journe têm alcançado preços exorbitantes em leilões e estabelecido novos recordes para a relojoaria independente. Porquê?
Por trás de uma grande marca relojoeira só pode estar uma grande personalidade e François-Paul Journe é a prova viva disso mesmo. Desde 1978 que o mestre de origem marselhesa se vinha evidenciando nos meandros da alta relojoaria pela capacidade técnica fora de comum, mas o seu trabalho (inicialmente de restauro e depois na conceção de movimentos para marcas de topo) só se tornou verdadeiramente conhecido quando resolveu estabelecer-se por conta própria em 1999. A emancipação ocorreu com o lançamento da marca F.P. Journe e o lema em latim ‘Invenit et Fecit’ — ou seja, relógios originais ‘inventados’ por uma mente iluminada e ‘feitos’ com mão de mestre.

Foi a concretização de um sonho: uma marca exclusiva com a sua chancela em caixas de ouro ou platina com fundos transparentes e mecanismos verdadeiramente únicos, sob mostradores personalizados em ouro com submostradores aparafusados em prata guilloché e ponteiros azulados. Essas soluções estéticas foram inicialmente aplicadas no sublime Tourbillon Souverain (dotado de um sistema de ‘corda de igualdade’) e no ainda mais extraordinário Chronomètre à Résonance (recorrendo ao princípio físico da ressonância como meio de auto-regulação).

François-Paul Journe passou então a ser encarado como um novo messias da relojoaria mecânica, mas ainda foram necessárias duas décadas até que os seus relógios começassem a bater recordes em leilões. Este ano, os preços atingiram níveis estratosféricos e ajudaram, por exemplo, a casa leiloeira Phillips (Phillips in Association with Bacs & Russo) estilhaçar todos os seus próprios recordes nos dois leilões que protagonizou em Genebra e Nova Iorque — não só separadamente como em conjunto.

A recente subasta ‘The New York Auction: XIV’ alcançou 75,8 milhões, dobrando as estimativas e com o F.P. Journe Chronomètre à Résonance ‘Souscription N.º 007’ a chegar aos 13,9 milhões… um recorde mundial para qualquer relógio de uma marca independente e, no que diz respeito ao presente século, um recorde mundial absoluto numa venda comercial (o Only Watch era um leilão de beneficência).
Choque emocional
Qual o segredo do sucesso? A F.P.Journe é uma marca contemporânea com raízes no Século das Luzes e François-Paul Journe é um iluminado que ‘inventa’ relógios brilhantes e ‘faz’ com que se tornem realidade — garantindo autenticidade de invenção e conceção a todos aqueles que desejam algo de verdadeiramente exclusivo. Ao longo das últimas décadas, as suas criações neoclássicas foram deslumbrando os mais exigentes colecionadores até à loucura absoluta que se vive na atualidade. «Os amantes da relojoaria sentem um choque emocional quando estão em contacto com os meus relógios», dizia ele à Espiral do Tempo… há já 25 anos. Imagine-se agora.

François-Paul Journe personifica de modo perfeito a ideia que se tem dos génios: é brilhante e temperamental. E personifica também o conceito que se tem de um mestre-relojoeiro: vive num mundo só dele, mas ao qual é possível ter acesso — precisamente através dos seus prodígios mecânicos. E se há uma conclusão que emerge dos leilões mais representativos do ano em curso é que a F.P. Journe se encontra numa dimensão própria. Em Nova Iorque, e numa subasta repleta de históricos Patek Philippe, Rolexes excecionais e marcas independentes de topo (da Voutilainen à De Bethune), foram novamente as criações de François-Paul Journe a monopolizar grande parte das atenções, confirmando que a marca está no centro do segmento mais sofisticado e disputado do colecionismo relojoeiro contemporâneo.

A estrela absoluta da venda novaiorquina foi o Chronomètre à Résonance Souscription N.º 007, um dos primeiros exemplares da mais emblemática criação do mestre marselhês. Lançado em 2000, o Chronomètre à Résonance representou então um avanço tecnológico na relojoaria de pulso, utilizando escapes duplos em ressonância natural para melhorar a cronometria. A peça Souscription em questão — uma das apenas 20 produzidas para clientes fundadores — está entre as mais raras, sendo o n.º 007 um dos dois únicos exemplares conhecidos em platina e ouro rosa com mostrador em ouro rosa. Apresentado com uma estimativa de um a cinco milhões de dólares, acabou por atingir cerca de 13,9 milhões de dólares. O resultado ultrapassou o anterior máximo da F.P. Journe alcançado pelo FFC (o protótipo do próprio Francis Ford Coppola) e demonstra até que ponto os colecionadores passaram a encarar os primeiros relógios de François-Paul Journe como verdadeiros artefactos históricos da relojoaria independente moderna.

O significado desse resultado vai muito além do valor monetário. O Chronomètre à Résonance é, desde o início, a peça que melhor sintetiza a filosofia relojoeira de François-Paul Journe: recuperar um fenómeno físico estudado por mestres como Antide Janvier e Abraham-Louis Breguet e transformá-lo numa solução contemporânea para a cronometria de precisão. Quando se trata de um exemplar de subscrição dos primórdios da marca — para mais com um número de série tão baixo — o mercado parece disposto a pagar praticamente qualquer valor para garantir a sua posse. O que se observou em Nova Iorque foi menos uma compra de relógio e mais uma aquisição de património horológico, com 100% dos lotes da marca a superarem largamente as estimativas.

Para além do referido Chronomètre à Résonance, um Chronomètre Souverain ‘Nacre’ abriu o leilão como Lote 1, atingindo os 508.000 dólares, contra uma estimativa mínima de 60.000 dólares, e o interesse só aumentou a partir daí, tendo sido posteriormente vendido um Octa Chronographe de 38mm por 711.200 dólares (quase nove vezes o valor estimado), seguido de um Tourbillon Souverain Anniversaire ‘Hong Kong’(‘Número 1 de 5’) por 4,4 milhões de dólares. Tais resultados no‘The New York Auction: XIV’atestam a crescente procura pelos relógios F.P.Journe, depois de vários recordes anteriormente alcançados.

O peso da marca no catálogo da subasta novaiorquina reforçou uma tendência já observada em Genebra no mês passado: os colecionadores continuam a privilegiar os exemplares mais precoces, as séries limitadas, os mostradores especiais e as referências associadas aos anos formativos da manufatura. A procura permanece particularmente intensa para peças que documentam a evolução criativa de François-Paul Journe e que ajudam a contar a história de uma marca que, em pouco mais de um quarto de século, ascendeu ao estatuto de clássico contemporâneo.

Outro aspeto relevante é que tais resultados surgem num momento em que o mercado secundário de relógios de luxo atravessa uma fase mais seletiva. Muitos modelos produzidos em larga escala corrigiram valores após os excessos do período pós-pandemia, mas o topo da pirâmide continua extremamente sólido no que diz respeito aos valores e à apetência. A Phillips tinha já sublinhado, antes da venda, que relógios excecionais de marcas independentes, frescos para o mercado e acompanhados por proveniência irrepreensível continuam a atrair uma procura internacional muito forte. Os resultados dos F.P. Journe em Nova Iorque confirmam isso mesmo.

Há ainda um elemento cultural que ajuda a explicar o fenómeno. Durante muitos anos, a F.P. Journe foi uma marca apreciada sobretudo por um círculo relativamente restrito de conhecedores. Mas hoje em dia assiste-se à entrada de novos intervenientes — grandes colecionadores de arte, investidores e instituições — que veem os primeiros modelos da mesma forma que gerações anteriores olharam para determinados Patek Philippe históricos. A consequência é uma competição muito mais intensa pelos melhores exemplares, especialmente quando surgem peças praticamente impossíveis de encontrar no mercado aberto.
Wall Clock milionário
No que diz respeito aos leilões do passado mês de maio em Genebra (Phillips, Christie’s, Antiquorum), uma das vendas mais comentadas nem sequer foi um relógio de pulso: foi um relógio de parede da F.P. Journe. O preço que atingiu (158.750 CHF dão para comprar um pequeno apartamento em Portugal…) e o entusiasmo em torno da marca dizem muito sobre o estado atual da febre à volta da F.P. Journe e do próprio François-Paul Journe.

O fenómeno ganhou tração porque vários colecionadores e dealers presentes em Genebra comentavam discretamente a circulação — em contexto privado e também em plataformas especializadas — de um dos famosos ‘dealer wall clocks’ da marca, produzidos no início do milénio enquanto objetos promocionais distribuídos a boutiques e revendedores autorizados e normalmente inspirados no design do Octa Réserve ou do Octa Lune. Há poucos anos, tais wall clocks eram vistos como curiosidades decorativas para fanáticos da marca; agora transformaram-se em objetos de culto autónomos. Em Genebra falou-se de valores na ordem dos 100 a 150 mil francos suíços para exemplares completos e corretos — um nível absolutamente surreal para um objeto promocional contemporâneo. Até a plataforma Chrono24 tem exemplares a 149.500 e a 167.794 euros!

Tamanha ‘loucura’ encaixa perfeitamente naquela que é a principal narrativa dos leilões deste ano: a transformação de F.P. Journe numa categoria própria dentro do colecionismo — o advento de um fenómeno de culto semelhante ao que aconteceu com os relógios Patek Philippe vintage nas décadas de 1980 e 1990, e os valores alcançados pela histórica manufatura genebrina ao longo da última década. Hoje em dia, tudo o que tenha ligação histórica à F.P. Journe (primeiras séries, material de boutique, documentação antiga, protótipos, peças de exposição) começou a adquirir aura museológica e qualquer artigo de promoção — de lenços a canetas! — vale ouro. Até o Restaurante F.P. Journe em Genebra está permanentemente cheio!

Vários analistas presentes nos grandes leilões das últimas semanas (Genebra e Nova Iorque) notaram precisamente que o ‘ecossistema Journe’ está a expandir-se muito para além dos relógios e a entrar numa dimensão quase irracional, como se tem vindo a constatar pelos valores absurdos que os Élégante (que, como se sabe, são de quartzo!) atingem no mercado secundário. E o contexto dos próprios leilões reforçou essa narrativa.
O exemplo de Genebra
Em Genebra, no mês passado, a Phillips já tinha tido resultados explosivos para a F.P. Journe: o Chronomètre à Résonance bicolor ‘Souscription No. 18’ — um dos apenas três exemplares conhecidos do Souscription nesta configuração, com caixa em ouro rosa e platina e mostrador em ouro branco — atingiu 4.875.500 CHF. Outros resultados de destaque incluíram o Chronomètre à Résonance ‘Pisa’ (exemplar único) por 2.334.500 francos suíços, e o Octa Chronographe ‘Straight Côtes de Genève’ , por 1.714.500 francos suíços. Vários modelos ainda dotados de movimento em aço e latão (a F.P. Journe adotou exclusivamente movimentos em ouro a partir de 2004) dispararam muito acima das estimativas.

O wall clock Octa Reserve vendido acima dos 150 mil euros acaba por funcionar quase como símbolo dessa nova fase, porque demonstra que o mercado deixou de valorizar apenas o relógio (de pulso ou de bolso) enquanto objeto funcional e começou a valorizar o universo cultural completo de certos criadores independentes. Tal como há décadas os colecionadores da Ferrari passaram a disputar sinais esmaltados, ferramentas de oficina ou documentação original, os colecionadores Journe começam agora a disputar objetos periféricos da marca.

E isso é simultaneamente fascinante e algo perigoso. Fascinante porque mostra a maturidade cultural alcançada por François-Paul Journe enquanto mestre/criador vivo e os frutos da sua atitude intransigente na defesa dos seus valores relojoeiros e da exclusividade da sua marca. Perigoso porque também sugere níveis de exuberância especulativa. Quando um relógio de parede promocional contemporâneo vale o preço de uma casa em muitas cidades europeias, é legítimo perguntar até onde pode ir tal escalada…




