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Repetição de minutos: sonoplastia mecânica

Poucas complicações relojoeiras têm tantas nuances e exigem tanto do mestre relojoeiro como a complicação ‘repetição de minutos’. A multiplicidade de técnicas e métodos de construção exigem hoje, por parte do potencial comprador, um conhecimento aprofundado e uma atenção especial a determinados parâmetros.

Texto publicado no número 53 da edição impressa da Espiral do Tempo, mas aqui complementado com mais fotos.

Master Ultra Thin Minute Repeater Flying Tourbillon
Jaeger-LeCoultre Master Ultra Thin Minute Repeater Flying Tourbillon © Jaeger-LeCoultre
| Foto de abertura: Piaget Emperador Coussin Ultra-Thin Minute Repeater © Piaget

Em geral, os relojoeiros despendem um esforço considerável na elaboração de métodos com vista a transformar um movimento contínuo em passos discretos e mensuráveis, imbuídos do maior grau de precisão possível. Os escapes são o exemplo mais óbvio, assim como os mecanismos de calendário, mas são os mecanismos de repetição que, ao traduzir o movimento contínuo dos ponteiros num número específico de movimentos dos martelos, dão mais expressão a este trabalho do relojoeiro. Em todos estes casos, o artífice tenta construir um mecanismo capaz de reconhecer com exatidão um determinado estado no funcionamento do relógio, traduzindo esse mesmo estado numa ação que lhe é distinta e inerente. Estando este mecanismo totalmente sob controlo da máquina, a sua ativação em momentos de transição é automática, tal como se verifica no caso de um mecanismo de repetição de minutos.

Calibre 1731 © Vacheron Constantin
Calibre 1731 © Vacheron Constantin

As repetições de minutos são assim inequivocamente um dos exemplos mais sofisticados de uma complicação acústica. Têm a função de distinguir, sem nenhuma ambiguidade, estados radicalmente diferentes, separados apenas por segundos. O momento mais crítico, e também o mais agradável aos ouvidos de qualquer apreciador, é o que medeia a transição das 12 horas, 59 minutos e 59 segundos, para as 13 horas, quando, num só instante, o mecanismo tem de identificar que em vez de movimentar os martelos 32 vezes numa sequência específica, o deverá fazer apenas uma única vez.

Mas, hoje, o potencial comprador de um relógio com repetição de minutos já não se preocupa tanto com a arquitetura mecânica do mecanismo inerente a esta complicação, mas antes com aspetos que influenciam diretamente a qualidade do som emitido por estes relógios. Analisando os parâmetros que podem influenciar a qualidade acústica de um relógio com repetição de minutos, de fora para dentro, é essencial começar pela caixa.


Caixas — formato, dimensão e materiais

Audemars Piguet Millenary Repetição de Minutos
Audemars Piguet Millenary Repetição de Minutos © Audemars Piguet

A forma da caixa num relógio com repetição de minutos tem, em primeiro lugar, de se submeter às necessidades plásticas dos gongos, que apontam preferencialmente para uma secção redonda e um comprimento que ultrapassa largamente o diâmetro de um relógio de pulso. Solução? Alojar os gongos ao longo da periferia interna da caixa, numa disposição circular, evitando quaisquer desvios bruscos ou dobras, o que recomenda naturalmente um movimento clássico de forma redonda. Por isso, mesmo quando vemos um raro exemplar com repetição de minutos numa caixa de forma retangular ou em tonneau, no interior, o movimento não se desvia da forma circular. Um dos raros exemplares a manifestar-se como uma exceção a esta regra é o Audemars Piguet Millenary Repetição de Minutos, cujos gongos estão dispostos em elipse, provavelmente inspirados pelo próprio Calibre 2928 que acompanha a conhecida forma oval da caixa deste modelo.

Audemars Piguet Calibre 2928 © Audemars Piguet
Audemars Piguet Calibre 2928 © Audemars Piguet

Existe uma regra bem estabelecida num relógio com repetição de minutos do qual se pretenda um som forte e bastante audível. O som necessita de ar para se propagar, pelo que, quanto mais espaço livre existir dentro da caixa, mais audível será o resultado de cada batida do martelo sobre o gongo. Esta é uma das razões por que, frequentemente, os exemplares mais audíveis são também os que não apresentam complicações adicionais, reservando o espaço livre a uma boa reverberação do som. Mas nem sempre é assim, e uma exceção de relevo pode ser encontrada no Jaeger-LeCoultre Master Grande Tradition Grande Complication, cuja acústica é manifestamente surpreendente pelo volume e reverberação das suas batidas.

© Espiral do Tempo Studio
Jaeger-LeCoultre Master Grande Tradition Grande Complication © Espiral do Tempo Studio

No que se refere ao material com que é construída a caixa de um relógio com repetição de minutos, existe hoje um consenso generalizado de que o ouro, seja rosa, amarelo ou branco, pelas suas especificidades, é o metal preferencial para ser utilizado num modelo com complicações acústicas. A platina — apesar de existirem variados modelos que optam por caixas neste metal — é considerada menos adequada devido à sua densidade — 30% superior à do ouro —, o que, à partida, compromete a riqueza do som emitido pelos gongos. O mesmo se pode afirmar do titânio utilizado no Rotonde de Cartier Turbilhão Voador Repetição de Minutos ou no Vacheron Constantin Traditionnelle Calibre 2755, o que não significa que sejam exemplares inferiores dentro do seu género. Um caso pouco comum é o do Hublot King Power Repetição de Minutos, Cronógrafo e Turbilhão, cujos gongos ‘catedral’ se apoiam num anel de titânio inserido numa caixa em fibra de carbono.

Seja como for, não se deve desconsiderar que a ativação de um relógio com repetição de minutos é quase sempre um ato de alguma discrição e intimidade, onde o número de decibéis nem sempre é sinal de qualidade, contrapondo-se manifestamente à solenidade que o momento implica.


Gongos — formato e material

Esquema dos gongos no  Calibre 300 GS AL 36-750 QIS FUS IRM, que equipa o Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175 © Patek Philippe
Esquema dos gongos no Calibre 300 GS AL 36-750 QIS FUS IRM, que equipa o Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175 © Patek Philippe

Historicamente, a forma ideal para um gongo é a de uma campânula ou a de um sino, e os primeiros relógios com complicações acústicas, fosse alarme ou de outro tipo, seguiram inicialmente esta norma. No entanto, a crescente miniaturização dos mecanismos orientados para a dimensão cada vez mais reduzida dos relógios de bolso, entre os séculos XVII e XIX, e, posteriormente, de pulso, na transição para o século XX, ditaram uma evolução que reconheceu o gongo como a melhor solução para o objetivo em vista. Maioritariamente de secção circular, o gongo é selecionado entre uma multiplicidade de espessuras e comprimentos de forma a se encontrar a sonoridade pretendida. Mas mesmo aqui teimam em surgir exceções à regra, e o recente Breguet Tradition 7087 Repetição de Minutos Turbilhão, com os seus gongos de secção retangular e ativação vertical, são um caso extremamente interessante e inovador, mas não é, de longe, o único campo em que o modelo inova.

Breguet Tradition 7087 Repetição de Minutos Turbilhão © Breguet
Breguet Tradition 7087 Repetição de Minutos Turbilhão © Breguet

Já os famosos gongos do tipo ‘catedral’ distinguem-se pelo facto de terem quase o dobro do comprimento dos gongos tradicionais, sobrepondo-se a si mesmos nas perto de duas voltas que dão ao movimento. O resultado é um som rico com uma reverberação especialmente longa que nem sempre gera uma opinião unânime por parte de colecionadores e apreciadores. É, no entanto, inequívoco que os gongos ‘catedral’ são extremamente difíceis de afinar e representam um patamar de dificuldade adicional em qualquer complicação acústica.

Calibre 300 GS AL 36-750 QIS FUS IRM, que equipa o Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175 © Patek Philippe
Calibre 300 GS AL 36-750 QIS FUS IRM, Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175 © Patek Philippe

A escolha do material do qual são feitos os gongos parece, até agora, gerar algum consenso entre as manufaturas de alta-relojoaria, onde o aço reina pela qualidade acústica intrínseca que apresenta. A Patek Philippe conta, aliás, uma história anedótica do período que se seguiu à década de 60, quando procurava reaprender as técnicas de produção dos gongos, que entretanto se tinham perdido. Havia, nessa altura, quem acreditasse que a qualidade de determinados gongos se explicava pela água utilizada no arrefecimento brusco e consequente têmpera do aço utilizado, oriunda de determinados ribeiros que fluíam por pastos equinos. A crença apontava para que, indiretamente, a urina destes animais teria um efeito indisputável na qualidade dos gongos. Mas mesmo neste campo existe inovação, e ela surge, uma vez mais, por parte da Breguet, que está atualmente a desenvolver ensaios em torno de gongos produzidos em vidro metálico, um material com uma estrutura amorfa, e para a qual já submeteu um pedido de patente.


Ritmo

Finalmente, o ritmo, o aspeto mais palpável a seguir à qualidade do som que é dado a julgar a qualquer apreciador de um relógio com repetição de minutos. A duração e repetição de cada batida podem variar de marca para marca, e têm também variado ao longo do tempo, adaptando-se a gostos e preferências onde um som mais grave dita uma sequência mais longa, e um som mais agudo, uma sequência mais curta. Mesmo assim, o máximo de 32 batidas, verificadas às 12 horas e 59 minutos, exige um consumo elevado de energia, pelo que, habitualmente, a sequência não excede, em média, os 18 segundos de duração. Uma atenção especial é aqui dada às batidas duplas que assinalam os quartos de hora, e que têm de ter um equilíbrio perfeito entre os tons grave e agudo. Neste campo, e quando não há quartos de hora a assinalar, a excelência de um relógio com repetição de minutos é identificada pela ausência de um tempo morto entre a repetição das horas e dos minutos, uma falha que, infelizmente, surge com mais frequência do que seria desejável nesta complicação.

Dezenas de outros aspetos haverá para abordar por parte de quem tenha a intenção de adquirir um relógio com repetição de minutos, mas o prazer da escolha está também, afinal, na procura e na descoberta. E no caso da repetição de minutos, quanto mais mergulhamos no tema, maior é o fascínio que passamos a ter por esta complicação em específico. Um efeito que, afinal, a relojoaria mecânica parece conseguir gerar com alguma facilidade em quem quer que lhe dedique uma parte do seu tempo. ET_simb

Hublot Cathedral Minute Repeater Tourbillon Chronograph
Hublot Cathedral Minute Repeater Tourbillon and column wheel Chronograph © Hublot

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