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Montblanc: uma marca, dois sistemas

Uma visita a ambos os centros de produção relojoeira da Montblanc, em Le Locle e em Villeret, revelou duas formas distintas de fazer alta-relojoaria, dois sistemas de produzir e de olhar o objeto extraordinário que um relógio pode ser.

Originalmente publicada no número 44 da Espiral do Tempo.

O Monte Branco, a mais alta montanha da Europa ocidental, situa-se na fronteira entre Itália e França, e foi lá, no lado francês, em Chamonix, que se realizaram os primeiros jogos olímpicos de inverno, em 1924. Mas é alemã a marca de instrumentos de escrita que colocou o nome Montblanc, até hoje, nos píncaros do luxo.

Quando a Montblanc decidiu lançar-se na aventura de ascender ao cume da relojoaria, com a determinação que usualmente associamos ao espírito alemão, os aficionados e consumidores, bem como a própria indústria – naturalmente conservadora – ignoraram olimpicamente o facto. Após meros 17 anos, muito poucos para uma indústria centenária, torna-se cada vez mais difícil fazê-lo.

Foto-reportagem Manufaturas Montblanc
Centro de produção relojoeira da Montblanc, Villeret. © Espiral do Tempo Studio

Todas as marcas que produzem alta-relojoaria têm identidades muito próprias, cimentadas em décadas, ou mesmo séculos, de atividade, ou em criativos-relojoeiros geniais – isto numa indústria onde o peso da tradição, a par com o da inovação, é determinante.

Montblanc começou por produzir relógios a partir de um pequeno centro de produção em Le Locle, adquirindo, mais tarde, a centenária manufatura Minerva (o nome da deusa romana da sabedoria, das artes e da defesa na guerra), criando, assim, dois centros de produção que são duas formas diferentes de olhar, e de produzir, a alta-relojoaria.

Manufaturas Montblanc
Centro de produção relojoeira da Montblanc, Le Locle. © Espiral do Tempo Studio

Não é só, mas é também, a disparidade entre a idade dos gestores da Montblanc Montre e a dos da manufatura de Villeret que marca a diferença entre os dois conceitos de produção relojoeira. Thierry Junod é o diretor-geral da Montblanc Montre, e, apesar de toda a sua atividade profissional estar ligada ao setor, onde começou aos 19 anos, tem apenas 35 anos. Demetrio Cabiddu é o diretor técnico de Villeret e começou a trabalhar em 1967 na fábrica da Lemania – era Lemania o calibre que equipava o Omega Speedmaster – hoje pertencente à Breguet, sendo um dos mestres relojoeiros mais respeitados na indústria e fiel depositário da tradição relojoeira praticada pela manufatura Minerva.


Le Locle, high-tech

Manufaturas Montblanc
Montblanc Nicolas Rieussec Rising Hours © Montblanc

Le Locle é uma pequena localidade adjacente a La Chaux-de-Fonds que é, há séculos, um dos principais centros de produção relojoeira suíça. Situada num vale (outrora) perdido entre montanhas, alberga as unidades de produção de várias marcas de relógios, bem como muitas das empresas que produzem o equipamento de que aquela indústria necessita. Depois de uma série de fogos que a reduziram a cinzas, no século XVIII, La Chaux-de-Fonds foi reconstruída de uma forma original e muito própria da mentalidade protestante reinante, como uma modelar ‘cidade-fábrica’ – como Karl Marx a ela se refere no seu Das Kapital. A ideia terá sido a criação do que atualmente chamamos clusters – algo ainda hoje ambicionado em Portugal e que a indústria suíça de relojoaria concretizou há século e meio. Património mundial da UNESCO, reconhecida, justamente, pelo seu urbanismo original, nela nasceram pessoas como Le Corbusier, Blaise Cendrars ou Louis Chevrolet.

O palacete da Montblanc Montre data de 1906 e é um belo exemplar de arte nova, bem preservado na estrutura e nos detalhes decorativos, mas alterado de forma a incorporar a produção relojoeira ‘regular’ da Montblanc: as suas linhas Nicolas Rieussec, Star, Star 4810, Timewalker, Sport e Profile.


Villeret, cápsula do tempo

Manufaturas Montblanc
Montblanc Villeret TimeWriter I Metamorphosis © Montblanc

Villeret é, também, uma espécie de santuário da alta-relojoaria, mas de outra índole. A tradição aqui é mais do que uma palavra de marketing, é um culto e uma realidade que se sente serem epidérmicas, e que já raramente se encontra. Villeret tem pouco mais que uma dúzia de casas, apenas, das quais se destaca o edifício da antiga, histórica e respeitadíssima manufatura Minerva, fundada em 1858, e a casa do seu fundador, mesmo ao lado. Depois de várias vicissitudes, a Minerva foi adquirida pela Montblanc, em 2006, num golpe de génio, para produzir, exclusivamente, a sua linha Villeret. Aqui tudo é diferente de Le Locle, menos o ambiente familiar. De facto, será ainda mais desenvolvido, porque as pessoas trabalham aqui, juntas, há mais tempo, já que muitas aqui trabalham desde antes da aquisição.

A inovação, no entanto, não está afastada da tradição, em Villeret. Aqui foi desenvolvido o Institut Minerva de Recherche en Haute Horlogerie, que guarda toda a herança da casa, mas que, paralelamente, dá a oportunidade a jovens talentos de desenvolverem as suas ideias e enriquecerem a arte relojoeira de uma forma inovadora, como foi o caso do Metamorphosis. ET_simb

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