Watches and Wonders: guia para as novidades Rolex 2026

A marca da coroa não costuma comemorar aniversários, mas abriu uma exceção no centenário da caixa Oyster. Se no ano passado a Rolex estreou uma nova linha e um movimento revolucionário no Land-Dweller, as novidades deste ano revelam celebração, continuidade e subtileza estratégica.

Um século: a Rolex patenteou o conceito Oyster de caixa estanque em 1926 e fez dela o fundamento da sua existência, com o segundo pilar a surgir em 1931 com a introdução do movimento Perpetual assente num sistema de corda automática com rotor livre de rotação completa. A combinação da caixa Oyster e do rotor Perpetual permitiu à Rolex estabelecer a base do conceito moderno de relógio de pulso automático, robusto e impermeável — uma arquitetura que permanece, essencialmente, inalterada até hoje.

O imponente stand da Rolex no Watches and Wonders | Fotos: Cesarina Sousa

A Rolex não tem por hábito celebrar aniversários de patentes ou datas marcantes associadas aos seus mais emblemáticos modelos (que são maioria entre os mais famosos relógios de pulso) e muito menos adicionar inscrições suplementares nos seus mostradores. Nem mesmo Roger Federer, considerado o mais perfeito embaixador de qualquer marca relojoeira e alguém que representa o espírito Rolex, alguma vez teve uma edição especial em seu nome. Mas por vezes abre exceções; em 2023, no centenário das 24 Horas de Le Mans, apresentou uma edição especial do Daytona com o 100 da escala taquimétrica a vermelho e este ano, na comemoração dos 100 anos da caixa Oyster, apresentou um Oyster Perpetual com a inscrição 100 Years no mostrador. E um Oyster Perpetual de mostrador particularmente celebratório.

Rolex Novidades 2026
As duas novidades mais emblemáticas da Rolex em 2026 | Foto: Cesarina Sousa/Espiral do Tempo

Esses dois lançamentos, que seguramente estarão confinados a 2026, estão intimamente ligados a um ano que marca um acontecimento fundamental na história da relojoaria moderna porque a Oyster foi mesmo a primeira caixa de relógio de pulso verdadeiramente hermética, combinando fundo de rosca, luneta rosqueada e coroa aparafusada para garantir resistência à água e ao pó. A eficácia do sistema foi demonstrada publicamente no ano seguinte, em 1927, quando Mercedes Gleitze atravessou o Canal da Mancha com um Rolex Oyster no pulso — o relógio manteve-se perfeitamente funcional após horas de imersão e o feito foi devidamente publicitado pelo fundador Hans Wilsdorf.

Mercedes Gleitze, nadadora britânica, primeira Embaixadora Rolex
1927: a nadadora Mercedes Gleitze tornou-se na primeira embaixadora Rolex | Foto: Rolex

Mais do que uma inovação técnica isolada, a caixa Oyster redefiniu o relógio de pulso como instrumento robusto e fiável de uso diário e nas condições mais adversas, abrindo caminho para toda a linhagem de relógios e modelos icónicos que hoje em dia estão associados à Rolex. Como os que a marca apresentou na recente edição do salão Watches and Wonders Geneva, na qual fez aquilo que apenas a própria Rolex pode fazer sem parecer conservadora: apresentou uma coleção inteiramente ancorada na continuidade, mas carregada de significado histórico e pequenas evoluções estratégicas.

Ao contrário de outras casas relojoeiras que utilizam o certame genebrino como palco para grandes complicações ou rupturas estéticas, a Rolex reafirma o seu território natural: a evolução incremental levada ao limite da perfeição. No ano passado surpreendeu com o inovador Calibre 7135 com escape Dynapulse integrado na nova linha Land-Dweller (que não recebeu qualquer adição neste ano, tal como a linha 1908); desta feita — e como já é habitual — não houve revoluções formais, mas uma série de deslocamentos subtis que, somados, revelam a estratégia que é apanágio da Rolex. O foco centrou-se mesmo na linha nuclear Oyster Perpetual, usada como plataforma para celebrar um século de inovação técnica e cultural.

100 Anos

O ponto forte das novidades desveladas no Watches and Wonders reside precisamente nessa capacidade que a Rolex tem em transformar o aparentemente simples em algo de significativo.

O Oyster Perpetual 100 Years foi o relógio mais destacado pela Rolex no Watches and Wonders | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

O novo Oyster Perpetual 41 em versão Rolesor, concebido como edição de aniversário, não introduz uma nova complicação nem uma arquitetura inédita; em vez disso, trabalha sobre códigos existentes — materiais e proporções — para construir uma discreta narrativa histórica que faz com que o modelo seja incrivelmente cobiçado. A inscrição ‘100 Years’ que substitui o tradicional ‘Swiss Made’ no mostrador pode parecer demasiado discreta, mas está carregada de simbolismo. E é rara.

Rolex Oyster Perpetual 36 com mostrador lacado colorido
O motivo Jubilee foi utilizado pela Rolex em múltiplos suportes no Watches and Wonders | Foto: Rolex

Outro eixo importante da coleção é o reforço da dimensão estética através do trabalho de mostradores, área na qual a marca da coroa é especialista. Tradicionalmente, costuma mostrar-se contida no seu catálogo regular, mesmo que em 2023 tenha surpreendido com os mostradores ditos Puzzle (complementado por palavras inspiradoras e emojis nas janelas Day-Date) e Celebration. Em 2026, a Rolex apresenta uma diversidade de texturas, cores e materiais — desde padrões multicoloridos até mostradores em pedra natural e efeitos ombré lacados. Trata-se de uma evolução que, paulatinamente, aproxima a marca de uma linguagem mais expressiva sem comprometer a sua identidade formal.

Rolex Oyster Perpetual Day-Date 40
Aventurine verde no mostrador do novo Oyster Perpetual Day-Date 40 | Foto: Rolex

Do ponto de vista técnico, a inovação está mais localizada num único relógio — o Yacht-Master II de segunda geração, dotado do novo Calibre 4162 que representa a profunda revisão de uma das complicações mais incompreendidas do catálogo da Rolex: o cronógrafo de regata com contagem decrescente programável. A introdução de uma leitura mais intuitiva, incluindo a rotação contra-relógio dos indicadores, demonstra a preocupação de melhorar a experiência funcional do utilizador.

Rolex Yacht Master II
O novo Yacht Master II surge com um calibre aperfeiçoado e um mostrador mais legível | Foto: Rolex

Aqui fica uma breve apresentação das novidades do catálogo regular da Rolex (que, paralelamente e como é seu hábito, também apresentou em privado alguns modelos de versão mais joalheira e tiragem restrita):

Oyster Perpetual 36 e 41 ‘100 Years’

Rolex Oyster Perpetual 41, Oystersteel and yellow gold
Oyster Perpetual ‘100 Years’ em Oystersteel e ouro amarelo | Foto: Rolex

O Oyster Perpetual dos 100 anos surge como o epicentro conceptual das novidades de 2026 e foi o escolhido para ilustrar a entrada do stand da Rolex na Palexpo. Numa versão Rolesor (aço Oystersteel combinado com ouro amarelo), assume explicitamente o papel de peça comemorativa do centenário da caixa Oyster coma inscrição ‘100 Years’ e uma combinação de cores que faz recordar as dos modelos Datejust com mostrador dito Wimbledon: mostrador cinza e apontamentos verdes a complementar os ínices (em vez dos algarismos romanos verdes nos Wimbledon).

Rolex Oyster Perpetual 41, Oystersteel and yellow gold
O Oyster Perpetual ‘100 Years’ faz-se acompanhar de uma bracelete Oyster | Fotos: Rolex

Equipado com o Calibre 3230, está disponível nos tamanhos 36 e 41 — e mantém a pureza funcional que sempre definiu a linha Oyster Perpetual, que é a linha de entrada da marca. Mas introduz os tais detalhes simbólicos que reforçam a sua dimensão histórica. E é por isso que vai valorizar exponencialmente.

Oyster Perpetual 36 e 41 ‘Jubilee Motif’

À semelhança de 2023 com o chamado ‘Celebration Dial’ com bolas multicolores, os novos Oyster Perpetual 36 e 41 de mostrador pluricromático exploram uma vertente mais lúdica e estética que raramente se vê na Rolex. O destaque vai para o ‘Jubilee motif dial’ (a designação é da própria marca, não uma alcunha popular atribuída pelos aficionados), assente num padrão multicolorido obtido através de complexa impressão.

Rolex Oyster Perpetual 36 com mostrador lacado colorido
O mostrador lacado ‘Jubilee Motif’ do Oyster Perpetual comemorativo | Foto: Rolex

O ‘Jubilee Motif’ é uma peça celebratória — o termo Jubilee quer dizer isso mesmo — que revela uma Rolex menos austera e mais aberta à expressão gráfica, sem perder a disciplina formal que caracteriza a coleção. O grafismo Jubilee também foi usado nos sacos e gifts da marca no Watches and Wonders.

Oyster Perpetual 28 e 34 em ouro

Rolex Oyster Perpetual 28 Yellow Gold Green Dial
Oyster Perpetual 28 em ouro amarelo com mostrador em pedra verde três índices em heliotrope | Foto: Rolex

Os modelos Oyster Perpetual 28 e 34 em ouro amarelo ou Everose que a Rolex estreou este ano introduzem uma dimensão mais joalheira no universo Oyster Perpetual, tradicionalmente dominado pelas versões em aço Oystersteel. Para além do metal precioso, os vários Oyster Perpetual 28 e 34 desvelados têm também mostradores em pedra natural e índices igualmente derivados de materiais minerais — uma novidade relevante na produção da marca.

Rolex Oyster Perpetual 34, 18 kt Everose gold
Rolex Oyster Perpetual 34 em ouro Everose com mostrador em pedra azul e três índices em dumorrite | Foto: Rolex

Equipados com o Calibre 2232, os novos Oyster Perpetual 28 e 34 mantêm uma autonomia de cerca de 55 horas — uma boa autonomia para movimentos mais pequenos, alinhando técnica e estética de forma equilibrada.

Datejust 36 e 41 ‘Ombré’

O Datejust 41 com mostrador ombré verde | Foto: Rolex

O Datejust reaparece com um mostrador verde ombré lacado, retomando uma estética já explorada no passado, mas agora com maior profundidade cromática e execução técnica refinada. Trata-se de uma evolução subtil de um dos modelos mais emblemáticos da Rolex, sem qualquer rutura conceptual. E com uma cor particularmente cara à marca da coroa.

Rolex Datejust 41 Green Dial
O novo Datejust com mostrador ombré tem luneta canelada em ouro na versão 41 | Foto: Rolex

O efeito gradiente do mostrador é particularmente atraente e constrasta vivamente com a aura metálica da caixa em aço com luneta lisa e bracelete Jubilee no modelo de 36mm e luneta canelada em ouro branco na variante de 41mm com bracelete Oyster. Um relógio perfeito para levar para Wimbledon na próxima edição do mais prestigiado torneio de ténis do mundo e que tão ligado está à Rolex. Paralelamente, e sem alarido, foram lançados também modelos Datejust com algarismos romanos reformulados.

Day-Date 40 ‘Jubilee Gold’

Rolex Oyster Perpetual Day-Date 40
Aventurine e diamantes baguete com ouro Jubilee no novo Oyster Perpetual Day-Date 40 | Foto: Rolex

Mais uma menção celebratória. O novo Day-Date 40 apresentado introduz uma nova liga de ouro propriedade da Rolex, apelidada Jubilee Gold e acompanhada por um mostrador em aventurina verde e marcadores com diamantes ou mostrador em Jubilee Gold com motivo em folha e algarismos romanos desconstruídos. A inovação material no plano joalheiro assume protagonismo, reforçando o posicionamento do modelo no segmento mais elevado da marca.

Rolex Oyster Perpetual Day-Date 40
Bracelete President e mostrador verde claro no Oyster Perpetual Day-Date 40 | Foto: Rolex

O Day-Date, conhecido por ‘relógio dos presidentes’ na sua versão em ouro com bracelete Jubilee, tem sido inesperadamente campo experimental para a Rolex nos últimos tempos — com menção especial para o mostrador puzzle de 2023. As novas versões com aventurina verde e ouro Jubilee no mostrador também serão muito cobiçadas.

Cosmograph Daytona

Rolex Oyster Perpetual Cosmograph Daytona
O novo e inesperado Daytona em Oystersteel e Rolesium | Foto: Rolex

O Daytona, talvez o modelo mais icónico da Rolex contemporânea juntamente com o GMT-Master II, surge com um novo mostrador em esmalte branco grand feu e luneta Cerachrom antracite. É uma evolução estética significativa, que aproxima o Daytona de um território mais artesanal, sem alterar a sua arquitetura mecânica fundamental.

Para mais, trata-se de uma versão de prestígio em aço que inclui platina (Rolesium) na base da luneta e um fundo transparente em vidro de safira particularmente raro na Rolex e em especial nos modelos Oyster Perpetual. E, para um aficionado da relojoaria mecânica, é sempre especial ter um relógio dotado de fundo transparente.

Rolex Oyster Perpetual Cosmograph Daytona
Luneta Cerachrom em tom antracite e fundo em vidro de safira | Fotos: Rolex

Yacht-Master II

Rolex Yacht Master II
A versão em ouro amerelo do reformulado Yacht Master II | Foto: Rolex

Por fim, a maior novidade intrínseca — uma vez que tanto o movimento como a caixa e o mostrador surgem completamente revistos na segunda geração do Yacht-Master II, que representa a intervenção técnica mais profunda do lote de relógios apresentados este ano no Watches and Wonders.

A versão em Oystersteel da nova geração do Yacht Master II | Foto: Rolex

Com o novo Calibre 4162 e uma reformulação da leitura da contagem regressiva — agora mais intuitiva e visualmente limpa — numa caixa de 44mm (manteve o diâmetro, mas melhorou a ergonomia) em Oystersteel ou ouro amarelo, o novo Yacht-Master II procura reposicionar-se como instrumento funcional credível e ganhar mais espaço no catálogo relativamente à geração anterior.

Observações finais

Mais uma vez, há um elemento que atravessa toda a coleção: a consistência. E nisso a Rolex é mestre. Num mercado cada vez mais fragmentado e orientado para o espetáculo, a manufatura genebrina opta por aprofundar a sua linguagem em vez de a expandir. E é precisamente essa disciplina que continua a distingui-la.

Em ano de Oyster Perpetual, o destaque técnico foi para o Yacht-Master II | Fotos: Cesarina Sousa/Espiral do Tempo

No conjunto, as novidades Rolex de 2026 não são sobre rutura, mas intenção. A marca não tenta reinventar-se — e nem precisa de o fazer, sendo incontestada número um. Em vez disso, reforça aquilo que sempre fez melhor: evoluir lentamente, com precisão quase obsessiva, transformando cada detalhe numa afirmação de continuidade. Num setor muitas vezes seduzido pela novidade efémera, a Rolex continua a ver mais longe. Mais longe do que todas as outras marcas.

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