fbpx
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

GPHG 2018: o grande rescaldo

Em Genebra | O devido rescaldo da 18ª edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève, que este ano voltou a destacar – talvez mais do que nunca – a alta-relojoaria com a assinatura dos criadores independentes. Com as devidas notas de bastidores e dos eventos pós-cerimónia!

Após várias eleições um pouco por esse mundo fora, de Varsóvia (a reportagem pode ser encontrada aqui) ao México, o maior e mais reputado evento comemorativo da indústria relojoeira teve lugar em Genebra – mais precisamente na zona do Quai de Montblanc e no subterrâneo Théâtre du Léman, palco escolhido para as três últimas edições do Grand Prix d’Horlogerie. E, segundo se comentou, talvez a cerimónia dos chamados ‘Óscares da Relojoaria’ continue por lá num futuro próximo, mesmo após a conclusão das obras de restauro do Grand Théâtre.

© GPHG
Uma bela perspetiva do Théâtre du Léman © GPHG

Como profundo apreciador da cultura relojoeira e do percurso secular das manufaturas tradicionais, sou um admirador confesso do trajeto de grandes casas como a Patek Philippe, a Vacheron Constantin, a Audemars Piguet ou a Jaeger-LeCoultre (as chamadas ‘Big 4’) – mas obviamente que tenho também enorme simpatia pelas marcas independentes, especialmente numa era dominada por grandes conglomerados de luxo como os grupos Richemont, LVMH, Swatch e Kering. E a primeira impressão instalada após a conclusão da cerimónia foi a de que as companhias independentes e as jovens marcas de alta relojoaria dominaram o certame… com muito mérito mas também com o beneplácito de várias dessas manufaturas tradicionais. Porque, lá está, trata-se de um concurso exclusivo a marcas/modelos que são inscritos… e não de seleção livre. E o critério de participação dessas grandes marcas varia muito, não se percebendo bem porque nuns anos escolhem submeter os seus modelos a escrutínio e noutros não, muitas vezes andando ao sabor dos humores e da rotação dos respetivos CEOs ou responsáveis de marketing.

Juri e vencedores do GPHG 2018 © GPHG
Membros do júri e representantes dos relógios vencedores do GPHG 2018 © GPHG

Costuma dizer-se que quem não está não faz falta e esse adágio foi mais uma vez comprovado no Théâtre du Léman, porque felizmente a indústria relojoeira é tão vasta e rica que os laureados não empalidecem perante quaisquer outros modelos não submetidos a concurso – pelo contrário. E é muito bom ver jovens marcas ‘mileniais’ consagradas; afinal de contas, também a F.P. Journe e a Richard Mille, duas das mais celebradas companhias relojoeiras dos últimos 25 anos que escolheram não competir, também ganharam celebridade às custas de troféus no Grand Prix d’Horlogerie. E pude constatar o meu próprio contentamento pelos eleitos – de marcas jovens ou independentes – ao passar em revista o material fotográfico para ilustrar este mesmo artigo. Numa ou noutra imagem sou apanhado com ar de grande admiração ou a registar fotograficamente o momento para a posteridade para publicação no site ou nas várias plataformas (Instagram, Instagram Stories, Facebook) da nossa Espiral do Tempo…

© GPHG
Um momento que pode ser visto em vídeo nos destaques do Instagram da Espiral do Tempo (em @espiraldotempo) © GPHG

GRAND PRIX OUTRA VEZ PARA FLEURIER

Tal como no ano passado, e num evento fortemente promovido pela cidade de Genebra, foi uma marca associada à localidade de Fleurier no Val de Travers a sair com o galardão máximo. Karl-Friedrich Scheufele, co-presidente da Chopard e vencedor em 2017 com o seu LUC Full Strike de inovadora tecnologia acústica, entregou o troféu do Grand Prix ao seu ‘vizinho’ Pascal Raffy, dono da Bovet, como premiação máxima do seu Récital 22 Grand Récital – uma obra-prima com 705 componentes, dotada de uma notável coreografia astral que exalta igualmente funções mecânicas poéticas e artes decorativas.

Bovet 1822 Récital 22 Grand Récital © GPHG
Bovet 1822 Récital 22 Grand Récital © GPHG

No grandioso Récital 22 Grand Récital são destacados três corpos celestiais que regem a nossa vida (sol, terra, lua), sendo que o globo terrestre apresenta uma detalhada pintura luminescente que requer duas semanas de acabamento, tal como a gravação que recria a topografia da lua quase eclipsa a complexidade mecânica do conjunto; o sol é o turbilhão. A tridimensionalidade do mostrador é complementada por um fundo transparente que revela um calendário perpétuo retrógrado com três das cinco patentes associadas ao relógio. Incrivelmente, um único tambor de corda alimenta o turbilhão volante patenteado e todas as outras funções – ao mesmo tempo que garante uma autonomia de nove dias de reserva de marcha!

Bovet 1822 Récital 22 Grand Récital © GPHG
Bovet 1822 Récital 22 Grand Récital © GPHG

Se a Bovet tem raízes históricas seculares (embora tenha recuperado o seu brilho somente na viragem do milénio graças ao investimento de Pascal Raffy), entre as jovens marcas galardoadas este ano houve duas particularmente recentes. E, por uma questão de justiça poética, começo pela Singer Reimagined – uma marca fundada no ano passado enquanto ramificação da notável companhia Singer que refaz Porsches dos anos 70 com acabamentos de luxo. Logo que pus a vista em cima da versão original do Singer Reimagined Track 1, em meados de 2017, fiz questão de enviar uma mensagem ao mestre Jean-Marc Wiederrecht dizendo-lhe que iria seguramente ser o Cronógrafo do Ano pela sua base técnica (o AgenGraphe, idealizado no seu atelier AgenHor, é mesmo um calibre inovador de bela arquitetura e rotor colocado entre o movimento e o mostrador que coloca precisamente o foco nas funções cronográficas) e também estética, evocadora dos grandes cronógrafos da década de 70 e fiel ao espírito da Singer.

Marco Borraccino e o discurso que devia ter sido seu em 2017 © GPHG
Marco Borraccino e o discurso que devia ter sido seu em 2017 © GPHG

O Track 1 ganhou outras votações no ano passado (entreguei o prémio de Inovação ao co-fundador Marco Borraccino e a Jean-Marc Wiederrecht na cerimónia do Relógio do Ano em Varsóvia), mas não a do Grand Prix d’Horlogerie de Genève – perante a incompreensão generalizada da crítica e algum sentimento de injustiça. Mas o Fabergé Visionnaire Chronographe e o Singer Reimagined, ambos dotados do mesmo movimento AgenGraphe de base, dividiram muitos votos entre si e abriram caminho para a eleição do Tonda Chronor Anniversaire da Parmigiani. Um ano depois, foi ‘reposta’ a justiça com a consagração da terceira variante do Track 1 – uma tiragem especial Hong Kong Edition toda negra com retoques a laranja que, apesar de também ser visivelmente espetacular e particularmente desportiva, talvez até seja a minha menos preferida: prefiro claramente o original e a versão ‘Genève’ em ouro também é apelativa (mesmo não sendo eu um grande apreciador de dourados).

Singer Reimagined Singer Track1 Hong Kong Edition © GPHG
Singer Reimagined Track1 Hong Kong Edition © GPHG

A outra marca muito jovem galardoada foi a Krayon, com o seu Everywhere Horizon que ganhou a categoria de Inovação. Trata-se de uma peça que vale quase meio milhão de euros, mas está carregada de soluções mecânicas nunca antes vistas – sobretudo a capacidade de apresentar uma Equação do Tempo ajustável a qualquer ponto do planeta, quando até agora os relógios dotados da indicação do nascer e do pôs do sol estavam confinados a um único ponto geográfico (e muitas vezes ajustados ao pedido do cliente, consoante a sua localização preferencial).

Krayon Everywhere Horizon © GPHG
Krayon Everywhere Horizon © GPHG

Também muito jovem mas já com um punhado de anos, a AkriviA foi consagrada com o troféu de Relógio Masculino pelo seu Chronomètre Contemporain com a assinatura Rexhep Rexhepi no mostrador. Rexhep Rexhepi, um menino-prodígio kosovar que aos 14 anos já trabalhava na Patek Philippe e que depois passou para a F.P. Journe antes de se lançar por conta própria, é precisamente o fundador da AkriviA e trabalha juntamente com o seu também excelente irmão, Xevhdet Rexhepi, num pequeno atelier na parte velha de Genebra. Curiosamente, conheci-o pela primeira vez na edição de 2013 do Grand Prix d’Horlogerie, tendo-me ele então apresentado timidamente a sua primeira criação (um cronógrafo com turbilhão). Cinco anos depois, fiquei orgulhoso de o ver descer a escadaria rumo ao palco – como se pode constatar por esta imagem:

© GPHG
Rexhep Rexhepi a caminho do palco da sua consagração © GPHG

A consagração surgiu aos 31 anos (o que significa que fundou a AkriviA aos 25…) através de um modelo cronométrico mais clássico e aparentemente mais ‘simples’, mas com um excelente nível de acabamento – a anglage nos ângulos interiores do seu calibre é uma delícia para os puristas! Pessoalmente até prefiro a versão em ouro branco com mostrador branco, mas o modelo escolhido a concurso foi o de caixa em ouro rosa com mostrador preto.

Akrivia Chronomètre Contemporain © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
AkriviA Chronomètre Contemporain em ouro rosa e mostrador preto © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Prosseguindo com marcas jovens, a De Bethune não é tão jovem – mas é talvez a marca do novo milénio que emocionalmente mais mexe comigo, à frente de uma Richard Mille, de uma Urwerk ou de uma MB&F. É um coup de coeur! A De Bethune faz relógios que podem ser definidos como sendo retro-futuristas de pendor clássico, se é que alguém consegue perceber essa minha tentativa de caraterização. O certo é que faz relógios que mais ninguém consegue fazer, com uma estética verdadeiramente única e a genialidade técnica de Denis Flageollet.

De Bethune DB25 Starry Varius Chronomètre Tourbillon © GPHG
O celestial De Bethune DB25 Starry Varius Chronomètre Tourbillon © GPHG

O DB25 Starry Varius Chronomètre Tourbillon ganhou a categoria de Cronómetro graças à sua precisão cronométrica e tudo o que está por trás dela, nem sendo dos exemplares da marca esteticamente mais ‘diferentes’. Mas tem o tradicional mostrador estrelado de um azul ‘impossível’ (mas o azul tão caraterístico da De Bethune) e, por trás, o turbilhão inserido numa arquitetura mecânica excecional com um novo escape cronométrico. Felizmente, a marca de La Chaux L’Auberson parece relançada após o impasse de um ano que serviu para redefinir estratégias, com Pierre Jacques a regressar ao comando e a revigorar a coleção. Ao seu lado, fui o primeiro a cumprimenta-lo após o anúncio da vitória na respetiva categoria – o terceiro troféu para a marca após os sucessos da edição de 2011 (prémio Grand Prix absoluto graças ao DB28!) e de 2014 (prémio do cronógrafo com o DB29 Maxichrono Tourbillon).

Pierre Jacques © GPHG
Pierre Jacques e o cumprimento (literalmente em primeira mão!) da Espiral do Tempo © GPHG

Outro aspecto marcante para mim foi a inclusão do carismático tenista francês Gael Monfils no elenco do júri pela segunda vez consecutiva, tendo entregue o troféu da categoria ‘Relógio Desportivo’ ao Seiko. Anualmente a organização convida sempre uma personalidade famosa noutras áreas que seja também um grande aficionado da relojoaria e Gael Monfils, que até reside em Genebra, já tinha sido escolhido em 2017 e fez muita força para voltar a integrar o júri em 2018. Mesmo que o lugar de ‘vedeta convidada’ seja rotativo, o lobby surtiu efeito – e eu, enquanto jornalista de ténis e relógios, não poderia ter ficado mais contente com a sua presença… fazendo questão de tirar uma fotografia com ele, algo que não faço em ambiente tenístico. E depois ele próprio tirou uma selfie exatamente igual à do ano passado comigo e com a minha colega e amiga Elizabeth Doerr, precisamente filha de uma treinadora de ténis e júri do concurso.

O ténis representado no GPHG © Gael Monfils
O ténis representado no GPHG, com a vedeta Gael Monfils a reeditar a selfie de 2017 © Gael Monfils

Gael Monfils chegou a ser embaixador da extraordinária marca de alta-relojoaria contemporânea De Bethune, já fez uma masterclass na TAG Heuer e é um verdadeiro estudioso do fenómeno relojoeiro. Claro que no final tive de o apresentar a Pascal Raffy, o patrão da Bovet (grande aficionado de ténis e patrocinador de tenistas como David Ferrer e Pablo Carreño-Busta), depois de – ao lado do meu colega mexicano Carlos Alonso, ter entregue o prémio do relógio desportivo ao responsável da Seiko.

© GPHG
Atsushi Kaneko, diretor da Seiko, recebe o troféu das mãos de Gael Monfils © GPHG

A Seiko continua a ganhar o respeito de todos os especialistas e a sua qualidade foi premiada com o triunfo da reedição de um modelo histórico na categoria desportiva – o Seiko Prospex 1968 Diver’s Re-Creation, um tributo ao primeiro relógio de alta-frequência da marca: o SLA 025. Com mais de 100 anos na concepção de relógios mecânicos, não foi com excessiva surpresa que a marca nipónica foi consagrada em pleno coração do país da alta-relojoaria.

Seiko Prospex 1968 Diver's Re-creation © GPHG
Seiko Prospex 1968 Diver’s Re-Creation © GPHG

Antes das considerações finais e dos prémios especiais, aqui fica uma curta revisão dos relógios vencedores nas várias outras categorias:

COMPLICAÇÃO MASCULINA: LAURENT FERRIER

Laurent Ferrier Galet Annual Calendar School Piece © GPHG
Laurent Ferrier Galet Annual Calendar School Piece © GPHG

Um relógio clássico saído da mente do antigo responsável do departamento de complicações da Patek Philippe, também ele fundador da sua própria marca no início da presente década. O Galet Annual Calendar School Piece apresenta um novo calibre de calendário anual num conjunto de tons mais contemporâneos do que o habitual na marca, mas com linhas clássicas. E venceu numa categoria habitualmente dominada por turbilhões. E é o terceiro galardão alcançado por Laurent Ferrier – um senhor da velha escola, gentil e incrivelmente humilde – no Grand Prix d’Horlogerie de Genève.

EXCEÇÃO MECÂNICA: GREUBEL FORSEY

Greubel Forsey Grande Sonnerie © GPHG
Greubel Forsey Grande Sonnerie © GPHG

Mais um galardão arrebatado pela Greubel Forsey (outra marca milenar), desta vez não relacionado com os turbilhões que são uma especialidade da casa mas sim associado a uma complicação acústica – e à resolução dos problemas técnicos que geralmente tornam as grandes sonneries mais vulneráveis a um manuseamento indevido. Um grande relógio que não é especialmente grande para tamanha superlatividade mecânica (43,5mm), assente na caixa de protuberância lateral tão cara à marca.

PETITE AIGUILLE: HABRING2

Habring² Doppel-Felix © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
Preço/qualidade quase imbatível: o Habring² Doppel-Felix © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

A marca austríaca Habring2, do casal Richard e Maria Habring, continua a ser desconhecida do grande público e até mesmo da maior parte dos aficionados, mas já vai na sua quarta consagração no Grand Prix d’Horlogerie de Genève – sempre na categoria Petite Aiguille, destinada a premiar as propostas com melhor relação preço/qualidade entre 4.000 e 10.000 francos suíços. O Doppel-Felix tem claramente essa valência: um espetacular cronógrafo rattrapante por cerca de 8.000 euros, disponível com mostrador branco ou cinzento. Se tivermos em conta que Richard Habring foi um dos mestres relojoeiros a levar a IWC para a linha da frente da relojoaria e o responsável pelo Portugieser Rattrapante, talvez a sua marca seja encarada com outros olhos…

CATEGORIA CHALLENGE: NOMOS

Nomos Glashütte Tangente neomatik 41 Update © GPHG
Uma sólida atualização: o Nomos Glashütte Tangente Neomatik 41 Update © GPHG

Uma nova categoria que surge como uma espécie de subdivisão da Petite Aiguille, mas com modelos de preços até cerca de 4.000 euros. Esperava-se que a Tudor, com o seu imensamente popular e cobiçado Black Bay GMT ‘Pepsi’ arrebatasse mais um prémio (seria o quarto na presente década para a marca), mas acabou por ser a  Nomos – também conhecida por apresentar uma coleção de excelente preço com movimentos de manufatura a triunfar. O Tangente Neomatik 41 Update é a atualização de um dos produtos mais populares no catálogo da marca de Glashütte.

© GPHG
Pesrepetiva do público com a fila dos galardoados centrada por Pascal Raffy e Jean-Claude Biver © GPHG

Como se pode facilmente constatar, a esmagadora maioria das marcas vencedoras dos prémios referidos (e já vamos às categorias mais ‘femininas’ e aos prémios especiais) são empresas fundadas neste milénio ou mesmo na presente década que beneficiaram do advento da internet e sobretudo da eclosão das redes sociais. São sobretudo marcas que arriscam e que têm uma dimensão menor que lhes permite fazer ajustes mais facilmente, que saem das normas mais rígidas às quais estão subjacentes as grandes marcas dos grandes grupos – tão presas à produção de grandes quantidades, ao ‘politicamente correto’ e às exigências de accionistas que não abdicam do lucro.

RELÓGIO DE SENHORA: CHANEL

Chanel Boy-friend Skeleton © GPHG
Sofisticação parisiense: o Chanel Boy-Friend Skeleton © GPHG

Um relógio particularmente feminino e tipicamente Chanel, cujo perfume parisiense nos levou a escolhê-lo para ser um dos destacados na rubrica Em Foco da edição de inverno da nossa revista Espiral do Tempo. É também um claro exemplo da crescente força do departamento relojoeiro da Chanel e a sua aposta em movimentos de manufatura, com toda a competência do seu pólo de Chatelain e a associação a Romain Gauthier na Vallée de Joux. A vitória na categoria de senhora vai obrigar-nos a acertar o texto, porque um galardão no Grand Prix d’Horlogerie de Genève não pode ser descurado…

COMPLICAÇÃO DE SENHORA: LADY ARPELS PLANETARIUM

Van Cleef & Arpels Lady Arpels Planétarium © GPHG
Planetásrio em três dimensões no mostrador: o Van Cleef & Arpels Lady Arpels Planétarium © GPHG

Um extraordinário relógio com uma extraordinária complicação planetária que tem o selo técnico do maior especialista mundial nesse departamento: a Christian Van der Klaauw. Para além de toda a sua força joalheira…

JOALHARIA: VAN CLEEF & ARPELS

Van Cleef & Arpels Secret de Coccinelle © GPHG
Joaninha deslizante que revela o segredo do tempo: o Van Cleef & Arpels Secret de Coccinelle © GPHG

Mais um notável exercício joalheiro de uma casa parisiense lendária na área da joalharia e que, como se sabe, também tem investido muito em complicações mecânicas de índole ‘poética’ (como se pode constatar pelos vários prémios ao longo da presente década e pelo galardão na categoria da complicação de senhora na edição deste ano). Mas o Secret de Coccinelle é sobretudo uma peça de joalheria, com a joaninha a deslizar para desvelar o relógio no meio de todas aquelas safiras.

ARTES TRADICIONAIS: HERMÈS

Hermès Arceau Robe du Soir © GPHG
Um mostrador fascinante pelos mosaicos e cor: o Hermès Arceau Robe du Soir © GPHG

A técnica do mosaico utilizada ao mais alto nível num mostrador de belo efeito visual e cromático.

PRÉMIO REVIVALISTA: VACHERON CONSTANTIN

Vacheron Constantin Historiques Triple calendrier 1942 © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
Puro: o Vacheron Constantin Historiques Triple Calendrier 1942 © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Na categoria especial que consagra as reedições ou interpretações do passado entre os relógios concorrentes nas diversas categorias regulares, impôs-se um belíssimo relógio de uma das grandes casas relojoeiras – o Vacheron Constantin Historiques Triple Calendrier 1942, concorrente na categoria de Relógio Masculino. Aquando do seu lançamento prendeu-me imediatamente a atenção e tive a possibilidade de o experimentar durante a Dubai Watch Week do final do ano passado. É mesmo uma maravilha…

PRÉMIO AUDÁCIA: KONSTANTIN CHAYKIN

Konstantin Chaykin Clown © GPHG
Um relógio mecânico bem mais sério do que parece (mas bem humorado!): o Konstantin Chaykin Clown © GPHG

Outra categoria nova, destinada a relevar um relógio especialmente ousado entre os concorrentes nas diversas categorias regulares. E o russo Konstantin Chaykin, membro da mesma Academie Horlogère des Créateurs Indépendants (AHCI) fundada em 1885 por Svend Andersen e Vincent Calabrese, tem sido especialmente imaginativo e ousado nas suas criações. Aliás, os membros da AHCI têm de ser relojoeiros que influenciaram o desenvolvimento do sector ou ganharam estatuto de ícone através das suas criações – e Konstantin Chaykin começou por impressionar com o seu Cinema Watch, chegando ao patamar icónico com o seu Joker de olhos que reviram (discos para as horas e para os minutos) e língua que se passeia (fases da lua); o Clown é a variante deste ano e é muito popular entre colecionadores, que não descuram a aquisição de uma peça especial e emblemática por um preço bem abaixo dos 10.000 francos suíços. No seu discurso, o moscovita foi contundente e chegou a criticar as “marcas grandes com zero ideias”, mas depois emendou um pouco a mão nas redes sociais.

PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI

Outra vertente que muito me impressionou na edição deste ano foi a entrega do ‘Prémio Especial do Júri’ a Jean-Claude Biver, uma lenda viva da indústria relojoeira – e que recentemente anunciou a sua reforma (ativa?).

Prix spécial du Jury © GPHG
Jean-Claude Biver agradece Prémio Especial do Júri © GPHG

A sala pôs-se de pé para o aplaudir; a entrega do troféu comemorativo de carreira – desde o original discurso de apresentação de Aurel Bacs formado somente por palavras-chave ao discurso do próprio JCB – foi emocionante. Afirmou que a sua maior qualidade sempre foi a de duvidar e que a dúvida sempre foi a sua maior amiga porque o ajudou a crescer. E contou que um professor da sua juventude lhe disse algo que foi uma lição para a vida: “Biver, és uma nulidade tão grande e trabalhas tão pouco que ou tens pais ricos ou és patrão vais ter de contratar gente melhor do que tu”. Daí ter agradecido efusivamente ao núcleo duro que o acompanhou na transição entre as várias marcas e grupos relojoeiros, acabando no pólo relojoeiro da LVMH com responsabilidades na TAG Heuer, Zenith e Hublot.

GPHG2018-G-Maillot_point-of-views-ch-1026 (1)
Uma plateia de pé a aplaudir a ‘Velha Raposa’, destacando-se um emocionado Julien Tornare que Jean-Claude Biver nomeou CEO da Zenith © GPHG

A apresentação da cerimónia esteve bem entregue nas mãos do ator e humorista Edouard Baer, que em várias ocasiões se mostrou muito iconoclasta e quase desrespeitoso – mas essa irreverência, feita com piada, pode ter feito torcer o nariz aos visados mas divertiu a esmagadora maioria da plateia. Com uma duração à volta dos 100 minutos, foi bem ritmada e não cansou muito… mesmo que alguns interlúdios musicais não tivessem sido especialmente felizes. E após a cerimónia propriamente dita, seguiu-se o exclusivo jantar reservado a um restrito lote de convidados – sendo que desta vez fui convidado para a mesa do jovial CEO da Zenith, Julien Tornare… também ele um grande apaixonado por ténis. Aqui fica uma perspetiva do jantar, no Hotel Kempinski (que fica precisamente por cima do subterrâneo Théâtre du Léman onde decorreu a cerimónia).

© GPHG
Jantar pós-cerimónia no restaurante do Hotel Kempinski © GPHG

Pessoalmente, e apesar de as entidades organizativas verem com bons olhos a continuidade no Théâtre du Léman, continuo a achar que o Grand Théâtre é o palco mais nobre para o certame – não só pela grandiosidade da sua entrada como pelo salão que acolhe o jantar pós-cerimónia. Quanto ao resto… o Grand Prix d’Horlogerie de Genève é um evento com tal pompa e circunstância que merecia uma adesão total, mas já se sabe que a concorrência entre grandes grupos de luxo e orgulhosas marcas é sempre complicada: ninguém gosta de perder e há aqueles que detestam não ganhar. Espera-se que o futuro seja mais abrangente nesse aspecto, mas entretanto quem vai beneficiando são as marcas de nicho e independentes de alta-relojoaria – que conseguem o destaque no lote dos pré-selecionados e dos vencedores que não têm nas milionárias campanhas publicitárias ao alcance das generalistas mais ricas. Mesmo que muitas dessas marcas façam relógios para ricos; a esmagadora maioria dos relógios consagrados tem a chancela de alta relojoaria e é completamente inacessível para 99 por cento da população… sendo exceção os exemplares eleitos nas categorias Challenge (Nomos) e Petite Aiguille (Habring2), e – este ano – também na categoria de Relógio Desportivo (Seiko).

© GPHG
Richard e Maria Habring em mais um momento de consagração: o Doppel-Felix valeu-lhes um quarto troféu © GPHG

A indústria relojoeira, apesar de assentar num objeto por demais conhecido (o relógio, obviamente) e com nomes reconhecidos mundialmente (a Rolex deve ser das marcas mais valiosas do mundo, a Omega também é especialmente divulgada), ainda é um sector relativamente restrito no contexto empresarial comparativamente com outras áreas, e por essa razão deveria suscitar uma maior solidariedade entre as diversas marcas e grupos. Infelizmente, essa solidariedade existe sobretudo entre os independentes, que fazem da união a sua força perante a força comercial por vezes demasiado agressiva das grandes marcas. Aqui ficam alguns momentos de solidariedade e felicidade recolhidos num vídeo para a posteridade:

E é tudo, no que diz respeito à 18ª edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève – para o ano há mais!

 

Outras leituras