A 125.ª edição do maior torneio do mundo em terra batida concluiu-se no passado fim-de-semana com o título a ser decidido por dois finalistas que jogaram de relógio e muitas marcas a brilharem durante a quinzena parisiense.
Roland Garros é o maior torneio de ténis do mundo jogado em courts de terra batida e um dos quatro torneios do Grand Slam que constituem os pilares da modalidade das raquetas. A edição deste ano foi deveras surpreendente numa primeira semana de elevadas temperaturas em que os resultados inesperados e as longas maratonas se sucederam a um ritmo alucinante — ficando concluída no passado domingo, com uma nervosa final masculina em cinco sets discutida por dois finalistas que jogaram de relógio no pulso: Alexander Zverev com Jacob&Co, Flavio Cobolli com Bianchet.

No plano relojoeiro, o título individual masculino a ser decidido por dois jogadores que atuaram de relógio no pulso acabou por ser o desfecho mais adequado para um evento no qual a temática voltou a estar na baila. Hoje em dia, qualquer jogador ou jogadora de nomeada deseja estar associado a uma marca de prestígio: há os contratos básicos de equipamentos (raquetas, roupa, calçado) e depois todos os outros ‘de prestígio’, com os relógios à cabeça. Sem esquecer o estatuto de official timekeeper dos próprios torneios.

Nesse aspeto, a Rolex não tem concorrência. Patrocina todos os maiores torneios do mundo, a começar pelos quatro eventos do Grand Slam (incluindo Roland Garros) e ATP Finals e WTA Finals, e continuando por todos os eventos ATP Masters 1000 e WTA 1000, Taça Davis, Billie-Jean King Cup, Laver Cup e muitos outros — para além de um impressionante contingente entre os melhores tenistas do mundo da atualidade, do passado e do futuro.

Mas houve espaço para muitas outras marcas brilharem na terra batida parisiense, talvez mais do que nunca antes em qualquer torneio do Grand Slam — e deu-se mesmo o caso de o grande protagonista de Roland Garros quase ter ficado mais preocupado com a escolha do relógio para a cerimónia da entrega de prémios do que em celebrar condignamente o maior feito da sua carreira!

Aqui ficam as histórias relojoeiras de Roland Garros, divididas por marcas.
Rolex
Há um ano, a Rolex fez mesmo o pleno tanto em Roland Garros como em Wimbledon — ou seja, o hat-trick perfeito: patrocinar o torneio e ter embaixadores como campeões individuais. Em 2025, sagraram-se vencedores Carlos Alcaraz e Coco Gauff, cinco semanas antes de a trifecta se repetir em Wimbledon com Jannik Sinner e Iga Swiatek. Desta vez, e com o detentor do título masculino Carlos Alcaraz ausente por lesão, a Rolex teve de se contentar com o título individual feminino e a recompensa por apostar em jovens promessas: a russa Mirra Andreeva, de apenas 19 anos e embaixadora desde os 18, chegou ao seu primeiro título do Grand Slam e promete muitos sucessos futuros para a marca da coroa.

Foi particularmente interessante ver uma tão jovem jogadora ter o discernimento de — logo após ganhar o seu primeiro título do Grand Slam e antes mesmo de ir celebrar com a sua entourage enquanto a organização preparava o campo para a cerimónia — se dirigir ao seu saco para tirar o Lady-Datejust e colocá-lo no pulso! Isso mostra o orgulho de usar relógio e a importância dada a um patrocinador conhecido pela sua generosidade (monetária).

No plano masculino, o hiperfavorito Jannik Sinner saiu de cena logo na segunda ronda ao claudicar fisicamente num encontro praticamente ganho. O testimonee da Rolex que mais longe chegou foi o jovem brasileiro João Fonseca, que atingiu os quartos-de-final após bater o campeoníssimo Novak Djokovic.
Jacob&Co
Tradicionalmente mais ligada ao mundo do espetáculo e ao futebol (já teve parcerias com Cristiano Ronaldo e Luís Figo), a Jacob&Co ganhou enorme visibilidade em Roland Garros graças à sua parceria com Alexander Zverev — que se sagrou campeão de singulares masculinos e celebrou o triunfo com três (três!) relógios diferentes da marca fundada por Jacob Arabo. O alemão tornou-se embaixador no ano passado e este ano começou a jogar de relógio no pulso. E foi com um Epic X no pulso que deixou de ser o melhor tenista de todos os tempos a nunca ter ganho um título do Grand Slam para passar a ser um dos sete jogadores em atividade com pelo menos um título do Grand Slam no currículo.

Alexander Zverev foi uma estrela do circuito júnior e a transição para o profissionalismo ainda enquanto teenager rapidamente o colocou na ribalta. Ganhou praticamente todos os títulos relevantes e derrotou todos os melhores jogadores do mundo, mas escapava-lhe sempre o troféu mais importante; após três finais de torneios do Grand Slam perdidas (US Open em 2020, Roland Garros em 2024 e Open da Austrália em 2025), beneficiou de uma conjuntura favorável para finalmente quebrar a malapata… mas teve de sofrer numa final em cinco sets e mais de quatro horas de duração.

E quando finalmente chegou a consagração, mostrou estar preocupado com os seus relógios enquanto a organização preparava a cerimónia da entrega de prémios: tirou do saco um Epic X Ceramic Blue (que vinha usando nas conferências de imprensa) e mostrou-o à sua entourage, como que a questionar se o deveria usar na entrega do troféu. E foi mesmo com ele que levantou a Coupe des Mousquetaires. Mas não é tudo: nas sessões fotográficas que se seguiram (na própria noite e no dia seguinte) usou um Caviar Tourbillon de 800.000 euros!

Não foi a primeira vez que alguém jogou uma final com um relógio e depois teve o discernimento de mudar para outro na cerimónia da entrega de prémios (Naomi Osaka, então com a TAG Heuer, usou um Aquaracer e depois um Carrera quando se sagrou campeã do Open da Austrália de 2021). Mas Sascha Zverev estabeleceu um novo recorde com três…

Talvez o alemão tenha querido provar algo a alguém: teve contrato com a Richard Mille e mesmo um relógio com o seu nome (tal como Rafael Nadal) até que uma enorme zanga com o seu agente levou ao término dessa parceria; assinou com a Rolex e até recebeu do CEO Jean-Frédéric Dufour um relógio comemorativo do seu título olímpico em Tóquio, mas alegações de violência doméstica terão levado à extinção da parceria (emora a razão oficial não fosse revelada); pelo meio ainda usou David Candaux. Ou seja, quis mostrar ao mundo relojoeiro que valia a pena terem apostado nele.
Bianchet
A jovem marca fundada por Leonardo e Emmanuelle Bouchet para se estabelecer no domínio da alta-relojoaria desportiva de luxo cedo se associou ao ténis, nomeadamente através do popular Grigor Dimitrov — o ex-top 5 que se tornou também investidor e que este ano perdeu com o jovem luso Jaime Faria na fase de qualificação. O atual top 10 Alexander Bublik também perdeu cedo, mas Flavio Cobolli chegou à final e esteve a somente um set do título.

Cobolli, tal como Bublik e Dimitrov (os três surgiam em destaque no stand da marca no Watches and Wonders), jogou com o Tonneau Ultrafino Carbon Skeleton no pulso exquerdo — um relógio cujo turbilhão volante foi especialmente preparado para aguentar choques até 5.000Gs e o impacto da raqueta na bola, já que o italiano executa a sua pancada de esquerda a duas mãos.
Gerald Charles
A Gerald Charles, marca fundada por Gerald Genta, tem-se afirmado como uma das mais apaixonadas pela modalidade — já que o seu jovem CEO, Federico Ziviani, é um grande aficionado de ténis. Quase todos os relógios desportivos lançados na presente década são inspirados pela modalidade e a marca tem tido vários embaixadores de destaque.

O atual ponta-de-lança é Alex de Minaur, que já se habituou a competir com o Maestro GC Sport no pulso (a nova versão em titânio escurecido e mostrador fumé branco) mas que não passou dos oitavos-de-final em Roland Garros. Mas houve quem saísse de Paris com um título: o especialista italiano de pares Andrea Vavassori, que usou um cronógrafo Maestro 3.0 Chronograph com mostrador ‘terra batida’ na conquista do título de pares mistos.

Federico Ziviani esteve recentemente em Lisboa e mostrou as novidades da Gerald Charles no Clube VII precisamente devido à ligação ao ténis, uma ligação sempre presente nos stands da marca nos grandes eventos de relojoaria (como o Watches and Wonders e a Dubai Watch Week). O Maestro GC Sport apresenta a coroa à esquerda (para não arranhar a mão) e está dotado de uma bracelete técnica com fecho de velcro adaptada para a competição; a mais recente versão ‘branca’ evoca os tradicionais equipamentos alvos do antigamente e a regra do ‘all-white’ que prevalece em Wimbledon.

As versões anteriores com mostradores granulados em amarelo ótico (inspirado nas bolas de ténis), terracota (replicando a terra batida), azul (evocativo dos hardcourts) ou em verde (inspirado nos courts relvados de Wimbledon) já estão esgotadas.
Norqain
A Norqain tem como embaixador e mesmo investidor o popular campeão suíço Stan Wawrinka, a quem a marca dedicou um relógio ultraleve em edição limitada com a sua assinatura: o Wild One Skeleton Stan the Man. Mas adotou mais recentemente o novo Wild One X-Lite Limited Edition e tem jogado com ele na sua época de despedida do circuito profissional masculino.

Vencedor de três títulos do Grand Slam (Open da Austrália em 2014, Roland Garros em 2015 e US Open em 2016) com um Royal Oak Offshore da Audemars Piguet no pulso, o veterano suíço de 41 anos disse adeus ao público parisiense logo na primeira ronda depois de um animado encontro que lotou por completo o Court Simone Matthieu.

Os adeptos portugueses terão a oportunidade de o ver a partir de 18 de julho no Millennium Estoril Open — a ele e ao seu Norqain, qualquer que seja o modelo que vai escolher para usar no pulso, mas tudo indica que continuará a ser o Wild One X-Lite Limited Edition de 45 gramas (o mais leve relógio jamais concebido pela jovem marca).
Cvstos
Há muito que a Cvstos tem procurado um embaixador adequado no mundo do ténis; há uma década esteve em conversações com o carismático Nick Kyrgios e considerou outros nomes até se fixar no vice-campeão olímpico de Tóquio e ex-top 10 mundial Karen Khachanov — um ‘gigante’ (1m98) russo que partilha a mesma ascendência arménia do fundador da marca genebrina, Sassoun Sirmakès. Essa foi uma razão que pesou na parceria, mas mais peso ainda teve a verdadeira paixão do jogador pela relojoaria mecânica.

Tanto que foi o próprio Karen Khachanov a sugerir muitos elementos de design do Challenge K.Khachanov que começou a usar em 2025. Entretanto, surgiram já outras variantes com diferentes materiais de caixa e distintas tonalidades. Como o recente Challenge K.Khachanov Black Carbon Limited Edition, ainda mais leve.

O jogador tem treinado muitas vezes com o ‘seu’ relógio para se habituar a utilizá-lo em encontros oficiais; em Roland Garros, onde já foi semifinalista, foi afastado nos oitavos-de-final da edição deste ano.
Vanguart
A Vanguart é uma das marcas de alta-relojoaria recém-chegadas à alta-roda do ténis mundial — entrou no ténis no ano passado e começou logo no pulso de tenistas de elite: Andrey Rublev (um habitué do top 10) no circuito masculino e Elena Rybakina (campeã de Wimbledon de 2022 e do Open da Austrália deste ano) no circuito feminino.

Tanto o russo como a cazaque têm utilizado o Orb, preparado para aguentar as violentas pancadas inerentes ao ténis de competição. Perderam mais cedo do que o esperado em Roland Garros (Rybakina na segunda ronda, Rublev nos oitavos-de-final após bater o ‘nosso’ Nuno Borges), mas terão uma palavra a dizer em breve na relva de Wimbledon — onde Elena, atual segunda do ranking mundial — está na linha da frente no que diz respeito ao título individual feminino.
De Bethune
A De Bethune é outra das marcas de prestígio que escolheu o ténis como modalidade desportiva para exibir as suas extraordinárias criações de alta-relojoaria contemporânea capaz de aguentar as mais exigentes provações — somando títulos no circuito e chegando frequentemente à segunda semana de torneios do Grand Slam no pulso de Tommy Paul, Lorenzo Musetti, Jessica Pegula e Emma Navarro.

Em Roland Garros, Lorenzo Musetti não pôde defender o estatuto de semifinalista em 2025 e esteve ausente por lesão; o trio restante também não logrou chegar muito longe, mas é sempre admirável ver o DB28XS Starry Seas ou o DB28XS Star Wheels brilhar nos courts do circuito.
Hublot
A Hublot era normalmente vista no pulso de Elina Svitolina, mas o acordo terminou e a marca de Nyon tem-se fixado exclusivamente no campeoníssimo Novak Djokovic. Aquele que é considerado como o melhor tenista de todos os tempos ainda não se habituou a usar relógio no pulso durante encontros oficiais, mas tem estado muito ativo na criação de edições comemorativas — e, na véspera de Roland Garros, participou num evento de apresentação da nova linha de três modelos com turbilhão declinados nas cores das três principais superfícies da modalidade (terra batida, relva, hardcourts).

Em Paris, colocou a versão Big Bang Tourbillon Novak Djokovic GOAT Edition de caixa inspirada na terra batida após os encontros que ganhou para o poder usar nas on-court interviews e depois nas conferências de imprensa. Esperava-se que o fizesse muitas mais vezes, porque, mesmo com 39 anos, estava entre os principais favoritos e porque tinha jogado a final do primeiro torneio do Grand Slam da presente temporada (o Open da Austrália). Mas, na terceira ronda, foi vítima de uma espetacular remontada do jovem brasileiro João Fonseca, naquele que foi o melhor encontro do torneio.
Artisans de Genève
O campeoníssimo Andre Agassi, atual capitão da seleção do Team World na Laver Cup, surgiu em Paris com um relógio muito especial no pulso — ele que ganhou o primeiro dos seus oito títulos do Grand Slam em Wimbledon 1992, com um Ebel no pulso. Depois foi patrocinado pela Swiss Army e esteve muitos anos com a Longines, que chegou a ser official timekeeper de Roland Garros. Mas o relógio que exibiu este ano é verdadeiramente especial, uma vez que se trata de uma personalização dedicada a ele mesmo.

O atelier Artisans de Genève pegou num Daytona e modificou-o com um mostrador translúcido de totalizadores num tom rosa-choque reminiscente dos emblemáticos equipamentos usados por Andre Agassi no início da década de 90. Nesse seu período iconoclasta de grande aparato visual, perdeu duas finais em Roland Garros (1990 e 1991) até conseguir finalmente quebrar a malapata em 1999. A Artisans de Genève alega que a personalização do Daytona requereu 1000 horas de trabalho entre 14 artesãos que prepararam a caixa em titânio e os restantes elementos do cronógrafo ‘Hot Lava’ dedicado ao norte-americano.
Nas bancadas
A Vacheron Constantin não está oficialmente envolvida no desporto e não tem sequer embaixadores… mas deu muito que falar no dia da final de singulares senhoras em Roland Garros. Porque um certo e determinado ator esteve a assistir à cimeira feminina com o novo Overseas Ultra-Thin de platina e mostrador salmão que a manufatura genebrina desvelou no Watches and Wonders, em abril.

Esse ator é Brad Pitt, que normalmente compra os seus relógios na boutique da Vacheron Constantin em Los Angeles. E que já tinha exibido um 222 vintage em aço e mostrador azul na épica final de Wimbledon entre Carlos Alcaraz e Novak Djokovic, em 2023. Em Roland Garros, a sua companheira também tinha um Overseas no pulso.

Por sua vez, Rami Malek surgiu na final com um Tank da maison parisiense Cartier… ou não estivesse ele em Paris. Entre as muitas personalidades de destaque que passaram pelo torneio durante a quinzena, vale a pena mencionar igualmente o também oscarizado ator Russell Crowe: apareceu com um Parmigiani Tonda PF, mas a sua recente paixão pelo ténis (por causa da namorada) e pelos relógios (até tem um canal no TikTok sobre o tema!) levou-o a comprar todas as edições do Rallymaster da Maurice de Mauriac.
Menção especial
Há várias outras marcas que estão associadas ao circuito através de embaixadores de destaque, mas que acabaram por não ter tanta visibilidade como outras na recente quinzena de Roland Garros. Por exemplo, a Bovet — cujo CEO, Pascal Raffi, é um grande aficionado de ténis — está associada ao ex-número um mundial Daniil Medvedev, mas o russo desiludiu ao sucumbir na primeira eliminatória após ter sido finalista no Masters 1000 de Roma.

A Maurice de Mauriac é outra companhia relojoeira muito ligada ao ténis, desde o patrocínio de torneios até à parceria com lendários campeões para a criação de modelos especiais — como sucedeu com Stan Smith (sim, o das famosas sapatilhas da Adidas!) na criação do ‘seu’ relógio. A marca de Zurique teve a ‘friend of the brand’ Jil Teichmann a atingir a terceira ronda, após um excelente triunfo diante de Karolina Muchova; a tenista helvética tem usado uma das edições do Rallymaster e vai servir de rosto na campanha de lançamento do Rallymaster Swiss Tennis, o relógio da federação de ténis suíça que será lançado no final deste mês.
A Rado já foi official timekeeper de Roland Garros no passado e regressou ao ténis no pulso da checa Barbora Krejcikova, que ganhou no pó-de-tijolo parisiense em 2021 e na relva de Wimbledon em 2024 — mas que este ano não foi muito longe na catedral da terra batida. O mesmo aconteceu com Tomas Machac, embaixador da Chronoswiss, que perdeu com o futuro vencedor Alexander Zverev no mesmo court onde se sagrou campeão olímpico de pares mistos.





