Swatch x Audemars Piguet e o hype real do Royal Pop

Na era das colaborações, uma nova parceria aparentemente inverosímil veio abalar a indústria relojoeira e incendiar a internet. A junção entre a Swatch e a Audemars Piguet redundou no Royal Pop, que será comercializado a partir deste sábado mas que já tem praticamente a garantia de ser o lançamento mais badalado do ano. Aqui ficam os dados correspondentes e o devido enquadramento.

Começou com um simples post nas redes sociais e rapidamente se tornou no principal tema da indústria relojoeira. Houve céticos, tendo em conta a disparidade entre nomes e o facto de não pertencerem ao mesmo grupo. Mas as publicações seguintes foram mais convincentes e a colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet, através de leaks das próprias marcas, logo se tornou no segredo pior guardado da relojoaria ao longo das últimas semanas — na sequência de teasers crípticos, rumores alimentados por renders gerados por IA e frenética especulação online. A resposta chegou finalmente sob a forma do Royal Pop, oficialmente confirmada no início da presente semana; não se trata de um Royal Oak plastificado de uso convencional, mas sim um relógio pendulette/de bolso/de mesa colorido e modular inspirado simultaneamente no Royal Oak e nos Swatch Pop dos anos 80. Algo fora da caixa que gerou genuína surpresa entre as novas gerações. E talvez essa tenha sido precisamente a intenção: um extraordinário produto disruptivo e unissexo, mesmo havendo muita gente que o apelide de Royal Flop porque já esfregava as mãos perante a perspetiva de o poder meter no pulso.

Fundo do Swatch x Audemars Piguet Royal Pop
Arte gráfica chamativa no fundo do Royal Pop | Foto: Swatch

O lançamento é especialmente relevante por múltiplas razões e poderá ficar para a posteridade como o lançamento do ano. Em primeiro lugar, é primeira vez que a Swatch colabora com uma marca de alta-relojoaria que não pertence ao próprio Swatch Group; em segundo lugar, porque confirma que o modelo MoonSwatch deixou de ser uma simples operação de marketing e passou a constituir uma verdadeira estratégia industrial e mesmo cultural; finalmente, porque mostra uma Audemars Piguet inesperadamente confortável em brincar com a sua própria iconografia. Num mercado de luxo tradicionalmente obcecado com a exclusividade e o controlo de imagem, o Royal Pop surge quase como um gesto provocatório… como provocatória foi a Swatch quando surgiu nos anos 80 ou como a Audemars Piguet tinha sido aquando da apresentação do Royal Oak em 1972.

1. Conceito

O Royal Pop surge como a evolução lógica (mas também mais ousada) da estratégia inaugurada pela Swatch com o cronógrafo MoonSwatch de quartzo em colaboração com a Omega e inspirado no Speedmaster, depois continuada com o Bioceramic Scuba Fifty Fathoms mecânico desenvolvido com a Blancpain. A diferença fundamental reside no facto de a Omega e a Blancpain pertencem ambas ao universo do Swatch Group, pelo que a lógica das sinergias era evidente. Já a Audemars Piguet é uma companhia independente e integrante da ‘Santíssima Trindade’ da alta-relojoaria suíça (a par da Patek Philippe e da Vacheron Constantin). O estatuto da histórica manufatura de Le Brassus altera completamente o significado simbólico da operação Royal Pop.

MoonSwatch
O fenómeno MoonSwatch que acabou por promover mais o Speedmaster da Omega | Fotos: Swatch

No caso do MoonSwatch, a lógica era relativamente evidente: democratizar temporariamente o imaginário do Speedmaster e trazer uma nova geração para o universo Omega. A Swatch procurou depois repetir a fórmula através do Fifty Fathoms, embora com resultados menos explosivos devido ao menor mediatismo do ex-libris de mergulho da Blancpain. O Royal Pop, porém, entra num território muito mais sensível porque mexe diretamente com um dos símbolos máximos do luxo contemporâneo. E a Audemars Piguet sabe perfeitamente o que isso significa. O seu Royal Oak deixou há muito de ser apenas um relógio; tornou-se um código cultural associado a música, desporto, streetwear, hip-hop e riqueza aspiracional; também se tornou num campo conceptual através de modelos com técnica de ponta ou exercícios de estilo que incluíram super-heróis no mostrador — uma dimensão mais atrevida que, por exemplo, não se encontra na Patek Philippe ou na Vacheron Constantin.

Icónico: o Royal Oak representa o advento da relojoaria moderna em 1972 | Foto: Audemars Piguet

É precisamente por essas razões que a escolha de um relógio que não de pulso foi especialmente inteligente. Em vez de produzir uma simples ‘versão barata’ de um Royal Oak (algo que poderia realmente diluir a identidade da marca), a colaboração desloca-se para um território lateral. O Royal Pop cita o Royal Oak sem tentar substituí-lo. É uma brincadeira estética e cultural mais do que uma tentativa literal de democratização de um ícone que tem sido associado a grande exclusividade ao longo da última década — e também de emancipação física: apresenta um cordão em pele e três comprimentos que permite um uso variado; existe também um pequeno suporte amovível que o transforma num relógio de secretária.

2. Inspiração Histórica

A grande chave conceptual da coleção está no próprio nome: Pop, reconhecido pelos mais velhos e por quem se deu ao trabalho de ir pesquisar quando a nomenclatura começou a aparecer nos teasers. A nova geração desconhece hoje os Swatch Pop originais, mas esses modelos lançados em 1986 foram uma das experiências mais delirantes e criativas dos primeiros anos da Swatch. Eram relógios modulares, destacáveis, coloridos e altamente personalizáveis, que podiam ser usados no pulso, pendurados ou transformados em pequenos objetos decorativos. Eram simultaneamente relógios e acessórios de moda — um reflexo perfeito da exuberante cultura pop dos anos 80.

Detalhes da correia do Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em cor de rosa
Os primeiros teasers remetiam imediatamente para o conceito de pendulette | Foto: Swatch

O Royal Pop recupera diretamente esse ADN irreverente. Os novos modelos podem ser usados pendurados ao pescoço, presos a roupa ou bolsas, colocados em suportes de secretária ou utilizados como pocket watches tradicionais. E essa versatilidade é talvez mais importante do que parece: desloca o objeto da relojoaria clássica para uma zona híbrida entre moda, design industrial e cultura popular. Num prisma mais feminino, acaba mesmo por ser uma espécie de Labubu relojoeiro.

Há também referências simultaneamente evidentes e subtis à própria história da Audemars Piguet. O formato octogonal, os oito parafusos bem à vista e o padrão decorativo Petite Tapisserie evocam imediatamente o Royal Oak original desenhado pelo incontornável Gérald Genta. Por outro lado, a manufatura de Le Brassus tem um longo historial de relógios de bolso e pendulettes desde a sua fundação no século XIX. O resultado final acaba por ser uma interpretação pop-art do Royal Oak — algo próximo de um brinquedo de luxo conceptual. A própria Audemars Piguet assume oficialmente essa faceta ‘Pop Art’ na sua comunicação.

Estojo aberto dos novos Swatch x Audemars Piguet Royal Pop
Colorida e divertida: a imagética associada aos novos Royal Pop | Foto: Swatch

Existe ainda uma vertente adicional que torna o timing ainda ‘mais perfeito do que a encomenda’: o recente renascimento do interesse por relógios de bolso no segmento ultra high-end. Nos últimos anos, várias peças históricas de bolso atingiram valores milionários em leilão, e até marcas contemporâneas começaram a revisitar esse território. Tem-se visto isso nas feiras e ainda esta semana salientamos o facto no rescaldo às subastas genebrinas da primavera. O Royal Pop pega nessa tendência séria e transforma-a numa proposta lúdica e humorada, cuja génese parece remontar aos tempos em que François Bennahmias era CEO da Audemars Piguet; a patente da designação Royal Pop foi emitida em junho de 2024.

3. Hype e Expectativas

Poucos lançamentos recentes geraram tanta especulação online em tão pouco tempo. Durante dias, a internet relojoeira viveu num completo estado febril. As palavras ‘Royal’ e ‘Pop’ foram surgindo em outdoors, redes sociais e vitrinas de lojas Swatch, desencadeando uma avalanche de teorias e o chamado wishful thinking. A maioria acreditava que iria ter uma espécie de Royal Swatch em biocerâmica que pudesse meter no pulso e/ou vender mais caro em segunda mão. A biocerâmica (uma espécie de material plástico reciclado e biodegradável) manteve-se, mas quando se percebeu que, afinal, não era um relógio de pulso, a reação inicial foi um misto de surpresa e incredulidade.

Pormenores da luneta do do Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em verde e azul claro
Elementos de estilo inconfundíveis: a luneta octogonal aparafusada e o padrão tapisserie | Foto: Swatch

A solução encontrada acaba por ser perfeitamente justificada e fascinante. E, apesar de muita frustração e várias assunções de desinteresse, o hype real após o hype virtual traduz-se em filas por várias cidades desse mundo fora dias antes do lançamento oficial de sábado, incluindo demonstrações de campismo em frente às lojas Swatch de rua. Para já, o que se sabe é que a marca limitou as compras a uma peça por pessoa e por dia nas lojas selecionadas, precisamente para tentar conter a especulação que se adivinha e os abusos que aconteceram aquando do MoonSwatch.

A reação pública revela também algo muito interessante sobre o estado atual da cultura relojoeira. Existe uma geração inteira fascinada pela estética do Royal Oak mas completamente excluída do universo Audemars Piguet tradicional devido aos preços estratosféricos e às listas de espera intermináveis. O Royal Pop funciona como porta de entrada emocional para esse imaginário de prestígio. E a Audemars Piguet está consciente disso.

Pormenores da caixa e pormenor do Swatch x Audemars Piguet Royal Pop branco
O padrão Tapisserie e o sistema de acoplagem do relógio no suporte | Fotos: Swatch

Ao mesmo tempo, há também a registar forte resistência entre os puristas. Alguns analistas e colecionadores consideram que a colaboração banaliza excessivamente o Royal Oak. Outros acusam a Audemars Piguet de seguir a lógica hypebeast inaugurada com o MoonSwatch. Mas até essas críticas negativas acabam por alimentar a máquina mediática. O certo é que praticamente ninguém ficou indiferente ao Royal Pop.

4. Coleção e Preços

A gama Royal Pop divide-se em duas linhas : a Lépine e a Savonnette. Ao todo, são oito modelos diferentes — todos eles com vidros de safira dos dois lados, em biocerâmica e inspirados cromaticamente num visual pop particularmente vibrante. Cada peça recebe o nome da palavra ‘oito’ numa língua diferente associada a uma determinada cor — um detalhe conceptual divertido ligado ao número total de variantes existentes e ao octágono da luneta e correspondentes oito parafusos do Royal Oak.

Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em rosa, amarelo e verde e em azul

Os seis modelos Lépine seguem a configuração clássica do relógio de bolso com coroa às 12 horas e mostrador simples de dois ponteiros (horas e minutos); custam 385 euros e são designados Orenji Hachi, Ocho Negro, Blaue Acht, Green Eight, Huit Blanc e Otto Rosso. Já os dois Savonnette apresentam coroa lateral às 3 horas e pequenos segundos às 6; valem 400 euros e têm a designação Otg Roz e Làn Ba. Visualmente, os Savonnette parecem ligeiramente mais próximos da linguagem relojoeira tradicional, enquanto os Lépine assumem um lado mais minimalista e gráfico.

Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em branco e em verde e azul claro

Também particularmente interessante é a opção pelo movimento utilizado. Em vez do quartzo do MoonSwatch, a Swatch e a Audemars Piguet optaram por uma nova variante mecânica do conhecido Sistem51 de carga automática já utilizado no Scuba Fifty Fathoms. Mas com uma nuance muito importante: o calibre foi retrabalhado para funcionar em corda manual e oferece cerca de 90 horas de reserva de marcha — um valor bem superior à autonomia do Sistem51 original e impressionante para um produto deste segmento. A decoração do movimento foi também adaptada ao espírito pop da coleção.

Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em azul e laranja e em verde e em rosa e vermelho

O trunfo mecânico é absolutamente crucial porque legitima a entrada da Audemars Piguet na parceria e torna a colaboração mais convincente perante os entusiastas mais exigentes. Um relógio de bolso mecânico inspirado na tradição relojoeira suíça tem um peso conceptual muito diferente de um simples gadget de moda com movimento de quartzo.

Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em verde e em preto

A nova versão de corda manual do Sistem51 traz consigo 15 patentes ativas e é o único movimento mecânico Swiss Made cuja montagem é 100% automatizada. Para além disso, a espiral Nivachron antimagnética utilizada foi desenvolvida em colaboração com a Audemars Piguet e encontra-se, por isso, em vários relógios da manufatura de Le Brassus. O ajuste de precisão baseado em laser é efetuado diretamente na fábrica.

5. Impressões e Conclusões

O Royal Pop é a colaboração relojoeira mais brilhante — e arriscada! — dos últimos anos, senão mesmo do presente milénio… mesmo que não seja propriamente uma estreia absoluta, já que surge na senda do que se fez anteriormente entre a Swatch e as sister companies Omega e Blancpain. E do que fizeram a Studio Underd0g e a H. Moser & Cie, talvez uma comparação mais pertinente tendo em conta o espírito da parceria (embora o resultado redundasse em dois relógios de valores antagónicos e não num só).

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Os dois relógios da dupla colaborativa H. Moser & Cie e Studio Underd0g | Foto: H. Moser & Cie/Studio Underd0g

Trata-se de uma iniciativa brilhante porque evita a armadilha óbvia — mas quem sabe tinha a certeza de que a Audemars Piguet nunca iria abastardar o grande pilar da sua existência contemporânea com a criação de um ‘Royal Oak barato’ ou um ‘Royal Oak para pobres’. A Audemars Piguet jamais aceitaria uma transposição direta do Royal Oak para um produto massificado de 400 euros porque isso destruiria instantaneamente parte da tensão aspiracional que sustenta o modelo. Em vez disso, surgiu um objeto híbrido, assaz inesperado e suficientemente bizarro para possuir identidade própria. Ou seja, a Swatch percebeu que repetir simplesmente a fórmula MoonSwatch seria demasiado previsível e arranjou outra maneira de garantir volume de faturação e publicidade gratuita. E a financeiramente saudável Audemars Piguet mostrou coragem suficiente para aceitar algo mais fora da caixa, estando seguramente consciente de que, ao contrário dos vaticínios negativos, as vendas do Speedmaster da Omega até dispararam quase 50 por cento a seguir ao MoonSwatch.

Detalhes do Swatch x Audemars Piguet Royal Pop verde
Pormenor da reserva de corda e os emblemáticos parafusos hexagonais em destaque | Fotos: Swatch

Se esse risco parece fora da equação, há outro tipo de risco que é inevitável: o lançamento do Royal Pop demonstra até que ponto o luxo contemporâneo se tornou dependente de hype, cultura visual e desejo viral. O Royal Pop é menos um relógio tradicional e mais um fenómeno cultural desenhado para circular nas redes sociais, gerar filas e produzir conversa global instantânea. Mas talvez seja precisamente isso que o torna relevante. Afinal de contas, a relojoaria suíça sempre viveu da sua própria reinvenção. Nos anos 70, o Royal Oak personificou o advento do relógio moderno com o seu design integrado. Nos anos 80, a Swatch ganhou a fama de salvar a indústria relojoeira suíça ao transformar relógios em objetos pop acessíveis e emocionais, oferecendo uma alternativa analógica à oferta digital vinda do Japão.

O Royal Pop tenta juntar essas duas revoluções históricas numa única peça, mas também assume outro tipo de relevância. Aliás, quanto mais se olha para o Royal Pop, mais interessante ele se torna: parece anedótico, mas se o for é uma piada cuidadosamente calculada sobre o estado atual da relojoaria, do luxo e da cultura pop. Nesse sentido, a AP percebeu perfeitamente o zeitgeist; por outro lado, ‘contamina’ controladamente as novas gerações com os códigos de design do seu ex-libris para um resultado triplo: ao capturar o imaginário da juventude e proporcionar-lhes uma primeira experiência emocional, faz com que elas aspirem a possuir um Royal Oak quando tiverem dinheiro para o apagar; por outro lado, faz com que prefiram um Royal Pop a um Royal Oak falso; por fim, habitua os jovens a lidar com um movimento mecânico e a ganhar o hábito de dar manualmente à corda.

Pormenores da caixa do Swatch x Audemars Piguet Royal Pop em cor de rosa, verde e amarelo
Pormenor da coroa e o suporte do relógio numa das duas variantes Savonette | Foto: Swatch

Nesse plano mais cultural, a própria Audemars Piguet já anunciou que todas as verbas que receber da colaboração irão ser diretamente revertidas para a preservação e promoção da relojoaria tradicional. Sabe-se que o Sistem51 é um movimento de obsolescência programada e descartável a partir do momento em que avaria (estando selado na caixa, não pode ser reparado ou substituído), mas esse é um reverso da medalha que se aceita tendo em conta a big picture associada ao conceito/preço. E a duração de vários anos é mais do que suficiente para se usufruir bem do Royal Pop… embora dificilmente dê para se passar para a próxima geração.

Por fim, vale a pena sublinhar a deliciosa ironia associada à reação negativa de grande parte do público quando teve a certeza de que não seria um Royal Oak acessível de pulso: critica-se tanto a relojoaria suíça por falta de criatividade e excesso de conservadorismo, mas quando surge algo de realmente inesperado e potencialmente referencial, a esmagadora maioria dos aficionados ficou furiosa porque não recebeu exatamente o produto previsível que tinha imaginado. E convém não desesperar: há já empresas de braceletes a imaginar um suporte para receber no pulso o módulo mostrador+movimento.

Estojo aberto dos novos Swatch x Audemars Piguet Royal Pop
A gama completa dos novos Swatch x Audemars Piguet Royal Pop | Foto: Swatch

Em Portugal, o Royal Pop está disponível a partir de sábado na loja Swatch do Centro Comercial Colombo e do NorteShopping. Só pode ser comprado um relógio por pessoa, por dia e por loja. Resta saber se haverá alguém a fazer um vai-vem diário entre Lisboa e o Porto… a gasolina está cara e os voos não estão baratos.

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