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Um trio de ícones azuis

Ricardo Menezes é um colecionador madeirense apreciador da fina relojoaria em geral e do design integrado em particular. No rescaldo do verão, apresenta-nos um trio azul de relógios favoritos seus que têm em comum a cor, o material e a chancela de Gérald Genta: o Royal Oak, o Nautilus e o Octo Finissimo. Aqui fica o seu relato na primeira pessoa.

Poder acordar de manhã e ver o mar é um luxo. Talvez não seja tanto para quem vive numa ilha como eu. Mas se por vezes os maiores luxos não têm preço, outras vezes têm — mas que preço? O tempo sempre teve um papel preponderante na minha vida; quer seja pela falta dele ou o que fazer com ele, será porventura o maior luxo que o dinheiro não pode comprar. Onde quer que vamos, é implacável: o ponteiro não pára.

Audemars Piguet Royal Oak 15202, segurado entre o polegar e indicador da mão direita, sobre fundo de mar e rochas | © Ricardo Menezes
Mar e mostradores azuis: a inspiração da História do Leitor de Ricardo Menezes, aqui com o seu Audemars Piguet Royal Oak | © Ricardo Menezes

Estávamos em 1987, quando troco o meu Casio G-Shock pelo meu primeiro relógio suíço — um Swatch. Estávamos então no ano do lançamento da marca em Portugal, representado na altura pela António Moura Lda e a encantadora Dona Lucinda Menezes. Aquilo que à data parecia ser um pequeno objeto de plástico, passou a ser quase um modo de vida. Nascia uma coleção que perdura até hoje, em diferentes moldes mas com a mesma essência e paixão. Devo confessar que ter um primo com uma relojoaria ajudou!

Escritório Ricardo Menezes | © Ricardo Menezes
No princípio era… o Swatch. O escritório de Ricardo Menezes | © Ricardo Menezes

Viagens, arte, eventos, e amigos; uma coisa em comum, relógios! Passam a ser tantos que o foco teria forçosamente de mudar, e assim foi: menos é mais e aquele que foi o relógio que salvou a indústria relojoeira suíça deixou de ter lugar exclusivo no meu pulso para dar lugar a um sem-fim de marcas relojoeiras suíças.

Patek Philippe Nautilus, sobre tecido colorido | © Ricardo Menezes
Outro símbolo histórico do design integrado: o Patek Philippe Nautilus | © Ricardo Menezes

Desafiado pelo Miguel Seabra da Espiral do Tempo a escrever sobre uma peça favorita da minha coleção, confesso ter sentido grande dificuldade na escolha. Assim sendo, resolvi escolher um trio com algo em comum. E que trio! É minha versão pessoal da famosa ‘Santíssima Trindade’ da relojoaria (que na sua versão original se refere às lendárias manufaturas de alta-relojoaria Patek Philippe, Vacheron Constantin e Audemars Piguet). No meu caso opto pelo Nautilus da Patek Philippe, pelo Royal Oak da Audemars Piguet e pelo Octo Finissimo da Bulgari.

Bvlgari Octo Finissimo Automatic, sobre tecido colorido | © Ricardo Menezes
Um ícone contemporâneo: o Bvlgari Octo Finissimo Automatic | © Ricardo Menezes

Não tenho absolutamente nada contra o Overseas, o excelente relógio desportivo de design integrado da Vacheron Constantin que tem as suas raízes no 222 desenhado por Jorg Hysek em 1975 — mas a minha escolha recaiu sobre peças que tiveram o dedo direto de Gérald Genta, como o Royal Oak em 1972 e o Nautilus em 1976, ou indireto, como o mais recente Octo Finissimo.

Audemars Piguet Royal Oak 15202, sobre fundos de praia | © Ricardo Menezes
Incontornável: o Audemars Piguet Royal Oak Ref. 15202 | © Ricardo Menezes

O célebre designer Gerald Genta é o génio por de trás do sucesso dos mais emblemáticos modelos desportivos de luxo no mercado. Mercado esse que enlouqueceu durante a pandemia, com preços a subir exponencialmente… mas as razões e explicações para esse fenómeno constituem uma outra, e longa, história.

Patek Philippe Nautilus, sobre fundo náutico e sobre um carregador wireless | © Ricardo Menezes
Um paradigma da relojoaria sport-chic: o Patek Philippe Nautilus Ref. 5711 | © Ricardo Menezes

E porque estou rodeado de tons de azul 24 horas por dia na Madeira, não é de estranhar que seja a minha cor favorita — seja ela interpretada num tom de mar profundo como sucede no Royal Oak Ref. 15202, num sóbrio azul como acontece com o Nautilus Ref. 5711 ou no azul elétrico evidenciado pelo Octo Finissimo Automatic. Não há como ficar indiferente. Todos eles instrumentos de precisão fantásticos e autênticas obras de arte realizadas num metal supostamente democrático como o aço, mas para alguns apenas símbolos de status. E deixo aqui a nota de que tanto o Royal Oak como o Nautilus foram adquiridos antes do frenesim que tem rodeado ambos os modelos nos últimos anos!

Bvlgari Octo Finissimo Automatic, no pulso, sobre o mar | © Ricardo Menezes
O Octo Finissimo Automatic, genial adaptação de Fabrizio Buonamassa ao design original de Gérald Genta | © Ricardo Menezes

A escolha que fiz para incluir o trio na minha coleção e para o apresentar neste testemunho para a Espiral do Tempo deve-se essencialmente ao apreço que tenho por esse artista e génio que foi Gérald Genta — e também pela sua capacidade de trabalho para marcas tão distintas, por um legado sem fim de desenhos ainda por explorar e pelo talento inesgotável que torna a sua obra inconfundível, fazendo-me acreditar que os anos 70 terão representado o apogeu em termos de design na indústria relojoeira.

Audemars Piguet Royal Oak 15202, sobre tecido colorido | © Ricardo Menezes
O Royal Oak Ref. 15202 é um dos mais cobiçados relógios da atualidade | © Ricardo Menezes

Hoje em dia, numa década onde se começa e bem a dar mais valor às experiências e vivências, ser colecionador é porventura algo fora de moda, mas continua a ser um desafio. O mundo muda a cada instante, mas aquilo que parecia ser uma enorme ameaça à indústria relojoeira tradicional (os smartwatches) não o foi — a avaliar pela recente euforia da frenética procura e dos preços exorbitantes, juntando-se pelo meio uma boa dose de ganância…

O derradeiro luxo

Quando somos movidos pela paixão, colecionar relógios não é só colecionar peças. É um mix de coisas mágicas, inclusivamente de amizades. Os nossos gostos mudam com o tempo, o nosso orçamento determina as nossas escolhas, as nossas prioridades por vezes estão todas ao contrário, mas há algo que fica para sempre: as pessoas que cruzamos pelo caminho. O processo é uma viagem, sem um fim definido à vista, não há um caminho único; o derradeiro luxo é saber gerir o tempo, esse sim, é limitado.

Patek Philippe Nautilus, deitado, sobre uma rocha, junto ao mar | © Ricardo Menezes
As tonalidades do mostrador do Nautilus Ref. 5711 variam consoante a incidência de luz | © Ricardo Menezes

Podia aqui falar tecnicamente e mais demoradamente sobre o Nautilus Ref. 5711, da dificuldade em o comprar, do quão frágil é e ao mesmo tempo perfeito. Ou mesmo do Royal Oak Ref. 15202, (provavelmente o meu preferido do triunvirato), pelo seu design, pela sua bracelete simplesmente genial, pela dor de cabeça que é acertar a data. Ou do excelente trabalho que a Bulgari tem feito nos últimos anos com peças de sonho que se tornaram autênticos ícones da relojoaria contemporânea, como sucede com o meu Octo Finissimo Automatic e os seus 5,15mm de espessura — uma extraordinária adaptação moderna do original de Gerald Genta assinada pelo designer Fabrizio Buonamassa, que começou com o Octo em 2012 e passou ao Octo Finissimo a partir de 2014.

Movimento Bvlgari Octo Finissimo Automatic, sobre o mar | © Ricardo Menezes
O movimento ultraplano com microrrotor do Octo Finissimo Automatic | © Ricardo Menezes

Mas prefiro concluir salientando a relação especial estabelecida com o meu revendedor autorizado (AD) no Funchal e os seus funcionários, as viagens, as visitas às fábricas, os contactos internacionais, as amizades que ficam… enfim, tudo aquilo que nos cria memórias — inclusivamente os riscos e as mossas que deixam marcas, e tornam cada relógio verdadeiramente único e pessoal!

Patek Philippe Nautilus, Audemars Piguet Royal Oak 15202 e Bvlgari Octo Finissimo Automatic, sobre seixos cinza | © Ricardo Menezes
Trio de luxo: o Royal Oak Ref. 15202, Octo Finissimo e Nautilus Ref. 5711 e | © Ricardo Menezes

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