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Uma questão de cores

Mais do que um lado estético, cultural ou emocional, descobrir as cores no âmbito da relojoaria é imergir num mundo que vai além de simbologias, ideias feitas ou de simplesmente agradar gostos e que passa, muitas vezes, por uma vertente pragmática que vale a pena descobrir ou por elaborados processos de desenvolvimento que ultrapassam em muito aquilo que possamos imaginar. E no meio de tudo isto, uma coisa é certa: o uso da cor pode fazer de um relógio um verdadeiro sucesso ou um verdadeiro fracasso.

Crónica originalmente publicada no número 69 da Espiral do Tempo  (edição inverno 2019) e aqui complementada com mais imagens.

Imagem acima: O H. Moser Venturer Small Seconds Purity destaca-se pelo mostrador fumé com efeito degradé, que resulta de um processo difícil de concretizar. © Paulo Pires/Espiral do Tempo

Se tivesse de escolher um só relógio tendo como critério de seleção apenas a cor, que relógio escolheria? Pode parecer uma pergunta estranha, mas pedimos que o leitor reflita um pouco. Qual é a sua cor de eleição no que diz respeito a relógios de pulso? Que cor gostaria de ver no seu pulso durante anos e anos? Não é assim tão fácil de responder, pois não? No entanto, eis um problema que passa constantemente pelas mãos dos designers sempre que se desenvolve um novo instrumento do tempo. Isto porque, como em tudo ou quase tudo, no que diz respeito à criação em relojoaria, a cor assume um papel crucial e a sua utilização pode fazer de uma novidade um verdadeiro sucesso ou um verdadeiro fracasso. Que o verde simboliza a esperança, o vermelho vivo, a paixão e o amarelo, o otimismo talvez não seja grande novidade. Assim como pode não ser novidade que há cores que tendem a ser mais aceites. Outras mais usadas. E outras preteridas. Mas a verdade é que se há cores criteriosamente selecionadas de modo a satisfazer aspetos estéticos, culturais, funcionais ou meramente estéticos, outras vezes, descobrir as cores no âmbito da relojoaria é imergir num mundo que vai muito além do que à partida poderíamos imaginar.

Hublot Big Bang One Click Marc Ferrero © Hublot
O Hublot One Click Marc Ferrero Steel Turquoise distingue-se pelas cores vivas e pelos elementos decorativos. © Hublot

Complexidade dos materiais

A Hublot apresentou este ano o Big Bang One Click que vem, segundo a marca, prestar tributo às heroínas do século XXI, numa parceria com o francês Marc Ferrero que se materializou em 50 relógios disponíveis em duas versões: uma em tons azuis e outra em tons vermelhos. Para a decoração, a marca optou por um mostrador lacado e colorido do qual salta à vista a cara de uma mulher, evocativa da estética de Ferrero. Para animar a caixa foi escolhida uma luneta cravejada de topázios ou espinelas, consoante a versão. Depois, a bracelete em pele colorida tem mais impacto graças ao efeito de bordado obtido possível através do corte a laser. Estas referências mostram-nos como a cor é aqui aplicada através de elementos decorativos que dão vida ao relógio: por meio das cores escolhidas para as braceletes, por meio de delicadas técnicas de pintura, esmaltagem ou lacagem e até por meio da aplicação de pedras preciosas ou integração de parafusos coloridos. Podemos ainda acrescentar os revestimentos das caixas como as formas mais recorrentes de coloração, através da aplicação de camadas de materiais por meio de técnicas de evaporação em vácuo ou altas temperaturas, revestimentos de plasma, estimulação de reações químicas e deposição química em fase de vapor (PVD), garantindo não só diversidade de cores, como proteção extra na superfície. Mas, atualmente, as marcas estão empenhadas em surpreender e, no lugar de mascararem os relógios, procuram fazer com que os próprios componentes apresentem de raiz uma cor própria, integrada. A Rolex, por exemplo, tem o mérito de conseguir produzir anéis de cerâmica com duas cores individuais, que não se misturam entre si, a Hublot descobriu uma forma de fazer caixas de cristal de safira colorido e a Richard Mille deslumbra com as suas caixas multicoloridas feitas à base de fibra de quartzo. No caso da cerâmica, o processo de desenvolvimento deste material com cores que vão além do branco e do preto apresenta alguma complexidade porque implica a injeção de pigmentos que podem interferir com a própria estrutura do material – feito a partir de óxido de zircónio –, sendo imprescindível garantir a elevada qualidade da cerâmica para impedir que perca o tom adquirido com a passagem do tempo. Seja como for, estamos perante um casamento entre diversas áreas em prol de objetivos bem explícitos no domínio da cor: apresentar peças de caraterísticas únicas, com cores que não são para todos, mas que surpreendem pela originalidade e pelo pioneirismo no seu desenvolvimento.

Rolex GMT-Master II © Rolex
A Rolex tem o mérito de conseguir produzir anéis de cerâmica com duas cores individuais, que não se misturam entre si © Rolex
J12 Paradoxe © Chanel
O recente Chanel J12 Paradoxe com caixa em cerâmica com duas cores © Chanel
A coleção Big-Bang One Click Saphhire Diamonds é composta por relógios com caixa em vidro de safira de várias cores. © Hublot
A coleção Big-Bang One Click Saphhire Diamonds é composta por relógios com caixa em vidro de safira de várias cores. © Hublot

Espírito racing

Nos relógios de perfil desportivo ou que estão ligados a parcerias com escuderias automóveis é habitual a utilização de cores fortes como o vermelho, o amarelo e o laranja. Nestes casos, muitas vezes, as tonalidades são rebuscadas das próprias equipas, como acontece com o amarelo vivo, vermelho e verde nos modelos BR 03-94 R.S.19 e BR V3-94 R.S.19, que celebram a parceria entre a Bell & Ross e a Renault F1 Team. O vermelho especificamente está muito associado ao universo do desporto motorizado por ser a cor da lendária escuderia Ferrari. É uma cor que simboliza velocidade, calor, extremo, e Jack Heuer soube bem usá-la em alguns cronógrafos Heuer dos anos 70. Depois dos coloridos anos 70 e inícios de 80, veio o dourado e a partir do novo milénio surgiu uma vertente mais monocromática assente no preto, até regressarem em força os mostradores coloridos na presente década. Mas a verdade é que o vermelho sempre foi uma cor usada nas variantes desportivas, sobretudo em detalhes, e não são raras as vezes que os ponteiros associados às funções cronográficas assumem a cor vermelha para se distinguirem de outras funções. Depois, existem os populares mostradores ‘panda’ – muito usados nas décadas de 60 e 70 – que se distinguem pelo seu particular design: em geral, uma base branca com contadores do cronógrafo em preto, numa solução contrastante e distintiva que facilita claramente a legibilidade e que tende a ser especialmente desejada. A título de exemplo, os Rolex Daytona apelidados «Paul Newman», com mostrador panda e indexes caraterísticos, são dos relógios mais colecionáveis que existem e o modelo original responsável pelo seu apelido alusivo ao ator foi leiloado em 2017 por mais de 17 milhões de euros.

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Bell & Ross BR V3-94 R.S.19, com amarelo vivo, vermelho e verde, que celebram a parceria entre a Bell & Ross e a Renault F1 Team © Bell & Ross
Personalidade geométrica e visual bicromático graças ao mostrador panda: o El Primero A384 Revival © Zenith
Personalidade geométrica e visual bicromático graças ao mostrador panda: o El Primero A384 Revival © Zenith

Mergulho no azul

Já no que diz respeito aos relógios de desporto ligados ao mar, o azul tende a ser a cor de eleição – seja em apontamentos leves ou elementos cruciais, como as lunetas, as braceletes ou os mostradores. Nesta vertente, os mostradores degradé, com tonalidades crescentes de azul, são bem nossos conhecidos, principalmente, nos relógios de mergulho, porque desta forma evocam a diminuição de luz associada ao mundo das profundezas marinhas. Por outro lado, também neste contexto, há a questão da legibilidade em ambientes escuros, uma das principais exigências da ISO 6245, que regulamenta as especificações associadas a estes instrumentos do tempo. Basicamente, os ponteiros das horas e dos minutos, o dispositivo de pré-seleção de tempo e o indicador de funcionamento de um relógio de mergulho devem ser legíveis a uma distância de 25 cm em ambientes obscuros. Para tal, as marcas apostam na combinação cromática certa e no recurso a formas específicas de iluminação. Como a água bloqueia a entrada de luz, quanto maior for a profundidade, menor será o espetro de cores percetíveis. Estudos revelam que abaixo dos 30 metros o azul é a única cor visível, antecedida do verde, do amarelo, do laranja e do vermelho. Não é por acaso que grande parte das espécies com capacidade para emitir luz, a designada bioluminescência, emite uma luz que oscila entre o azulado e o esverdeado. Infelizmente, não há forma de fazer um relógio brilhar debaixo de água tanto quanto uma anémona ou um peixe-lanterna, mas há soluções parecidas. As marcas adotam revestimentos luminescentes — substâncias sintetizadas aplicadas em camadas que emitem fótons (luz) quando sujeitas a um determinado estímulo — que fazem com que as indicações sejam legíveis debaixo de água ou em qualquer contexto de obscuridade. Neste âmbito, incluem-se os pigmentos fotoluminescentes, cujo efeito de luz é produzido por absorção eletromagnética. Depois de uma evolução histórica na sua aplicação em relojoaria que se estendeu desde o século XIX até aos nossos dias, o pigmento fotoluminescente à base de aluminato de estrôncio registado como SuperLuminova® é o mais conhecido e está disponível em diversas cores, sendo que a cor natural observada em condições normais de luz nem sempre equivale à que se vê no escuro. De qualquer forma, o seu efeito no escuro é semelhante ao de uma luz alimentada por pilhas. Mas há marcas que apostam com grande sucesso nos seus próprios revestimentos luminescentes, nomeadamente, a Seiko ou a Rolex.

O Bell & Ross BR 03-92 GREY LUM apresenta uma leitura de qualidade excecional, graças à utilização de Superluminova® C3 © Bell & Ross
O Bell & Ross BR 03-92 GREY LUM apresenta uma leitura de qualidade excecional, graças à utilização de Superluminova® C3 © Bell & Ross
O Seiko Great White Shark 2019 tem o mostrador azul decorado com motivos marinhos. Consegue o leitor descobrir a barbatana do tubarão? © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O Seiko Great White Shark 2019 tem o mostrador azul decorado com motivos marinhos. Consegue o leitor descobrir a barbatana do tubarão? © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Uma questão de tendência e de personalidade

«A cor é um produto cultural», refere Carlos Rosa, «(…) não existe se não for percebida, isto é, se não for apenas vista com os olhos, mas também e sobretudo descodificada com o cérebro, com a imaginação, mas acima de tudo com a memória! A cor diz-nos coisas, faz-nos sentir, dá-nos de estados de espírito e sensações. A cor é um magnífico e virtuoso veículo de emoções. (…) A adopção de certas cores para determinados fins leva-nos a conotar cores com emoções e sensações, estados de espírito e pessoas. Certas cores são vitória, outras são a morte, algumas são alegria.» Cada cor tem influência diversa em nós e pode ser espelho da nossa personalidade e maneira de ser. Talvez por tudo isto, também em relojoaria, há cores e cores. E há tendências também. O preto, o azul e o cinzento são, por regra, cores consensuais, apostas que não geram polémica, nem olhares indiscretos; depois existem as cores que nem todos têm a coragem ou o gosto para as usar.

© Paulo Pires / Espiral do Tempo
A versão negra do Tudor Black Bay Chronograph, que celebra a parceria com os All Blacks © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O novo Ulysse Nardin Freak X Magma com detalhes vermelhos na caixa e mostrador © Ulysse Nardin
O novo Ulysse Nardin Freak X Magma com detalhes vermelhos na caixa e mostrador © Ulysse Nardin
O RM 52-05 Tourbillon Pharrell Williams nasceu da parceria da Richard Mille com o multipremiado artista que dá nome à peça. Em destaque o mostrador esmaltado com elementos inspirados no espaço. © Richard Mille
O RM 52-05 Tourbillon Pharrell Williams nasceu da parceria da Richard Mille com o multipremiado artista que dá nome à peça. Em destaque o mostrador esmaltado com elementos inspirados no espaço. © Richard Mille

É ponto assente que este ano há tendências óbvias no que respeita a cores em relojoaria. Algumas são recentes, outras têm vindo a marcar posição. Os relógios azuis são protagonistas de há uns tempos para cá; já os relógios verdes têm vindo a surgir timidamente e, em 2019, descobriram-se em força, muito associados à utilização do bronze nas caixas, material que se revela perfeito para responder ao apelo da estética de inspiração vintage que continua a ditar tendências. Há mesmo quem diga que a cor verde e a cor azul são o novo preto em relojoaria. Mas, embora até percebamos a razão que está por trás deste ponto de vista, não concordamos completamente. O preto é sempre preto. E, como em tantas áreas, nunca passa de moda e é sempre uma aposta segura. Exemplo disso é a Tudor que, recentemente, lançou uma versão negra do seu Black Bay Chronograph, para celebrar a parceria com os All Blacks. Ainda este ano, o vermelho tem vindo a ser adotado com frequência nos mostradores e, para surpresa, está a ser utilizado nas mais variadas tonalidades. Por outro lado, gradualmente têm vindo a ser lançados relógios que jogam com uma palete de cores arriscada, e não são raras as edições lançadas em parceria com artistas que ostentam cores vibrantes, menos direcionadas para um público conservador e apelando antes a um público mais alternativo, jovem ou irreverente. A associação da Richard Mille a Pharrel Williams, por exemplo, deu origem a um relógio limitado a 30 exemplares com bracelete laranja e tons semelhantes no mostrador, evocativos do planeta Marte, elementos de design que evocam a infância do artista e o seu interesse pelo espaço, ao mesmo tempo traduzindo, através das cores, o lado divertido e criativo do artista. Na mesma linha, a Cvstos lançou há uns anos um relógio bem fresco de homenagem ao Brasil, selecionando como cores principais o amarelo e o verde que predominam na bandeira nacional daquele país. De qualquer forma, falamos de edições de tiragem limitada, naquela que é a solução ideal para se testar manobras perigosas no domínio do design que podem ser comprometedoras comercialmente, principalmente quando os elementos coloridos guardam consigo alguma complexidade no domínio da inovação, como vimos. E aqui, a aceitação das cores pelo público é mesmo determinante. Por isso mesmo, achamos bem deixar o leitor a refletir, voltando ao desafio com que iniciámos este artigo: se tivesse de escolher um só relógio tendo como critério de seleção apenas a cor, que relógio escolheria?

Montblanc 1858 Automatic Chronograph Limited Edition | © Paulo Pires/Espiral do Tempo
Montblanc 1858 Automatic Chronograph Limited Edition © Paulo Pires/Espiral do Tempo
As mais recentes novidades da H. Moser & Cie. 'Concept Series' com mostradores fumados azul 'funky' e vermelhor 'burgundy'. © H. Moser & Cie.
As mais recentes novidades da H. Moser & Cie. ‘Concept Series’ com mostradores fumados azul ‘funky’ e vermelhor ‘burgundy’. © H. Moser & Cie.

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