Integrando a tradicional feira joalheira Vicenzaoro, o certame VO’Vintage teve uma participação recorde de assistência e confirmou a fulgurante ascensão do mercado de segunda mão. A Rolex continua a ser a principal atração, a Cartier é a marca que mais tem crescido.
Não há dúvida de que o mercado de segunda mão tem crescido exponencialmente ao longo da presente década e as principais marcas relojoeiras têm acompanhado devidamente o fenómeno, com a Rolex a desenvolver o seu programa CPO (Certified Pre-Owned) para regular o mercado e oferecer aos seus clientes uma alternativa certificada aos seus modelos novos. O volume de negócio tem sido tal e a adesão dos aficionados tão convincente que a organização da Vicenzaoro resolveu mesmo concentrar-se completamente no formato VO’Vintage para acompanhar a tradicional feira joalheira que se realiza bianualmente no Complexo de Exposições de Vicenza.

Habitualmente, a edição de inverno (janeiro) da Vicenzaoro promove um salão complementar dedicado aos operadores do mercado vintage e secundário — denominado VO’Vintage. A edição de verão (setembro) da Vicenzaoro incluía até ao ano passado a VO’Clock, um salão com novidades apresentadas por marcas contemporâneas e manufaturas independentes. A partir deste ano, devido à crescente importância do pre-owned e sobretudo à superior afluência de público atraído pelo mercado vintage/secundário, passa a haver duas edições VO’Vintage. O que não deixa de ser lógico: a Itália foi a principal pioneira do negócio da segunda mão e os colecionadores italianos foram os principais impulsionadores do mercado vintage; a herança artística e cultural italiana teve uma influência decisiva nesse papel — e convém não esquecer que foi o distribuidor italiano da Jaeger-LeCoultre a assegurar a permanência do Reverso no catálogo, tal como foi o distribuidor italiano da Audemars Piguet a solicitar a criação de algo de novo que depois redundou no Royal Oak.

«Quando comecei, os leilões eram dominados por 20 colecionadores italianos, mais alguns franceses e poucos alemães, ingleses, americanos», disse-nos recentemente Aurel Bacs — o mais famoso leiloeiro de relógios da atualidade, protagonista das subastas da Phillips. Atualmente, os leilões de relógios de grande impacto mediático estão na moda e têm também proliferado as plataformas on-line associadas à temática. No VO’Vintage houve cerca de 60 expositores, com muitas centenas de peças para todos os gostos. E a esmagadora maioria apresentava modelos Rolex, não só porque a manufatura genebrina apresenta elevados índices de produção comparativamente a outras marcas (hoje em dia, o número de exemplares lançado anualmente no mercado ronda os 1,2 milhões), mas também porque os seus relógios continuam a ser os mais procurados.

Vários dos expositores confirmaram-nos de que a Rolex é responsável por cerca de 65 a 75 por cento do seu volume de negócio, pelo que foi perfeitamente normal ver relógios da marca da coroa em quase todas as vitrines. E todos concordaram relativamente à categoria e à marca que mais cresceram nos últimos anos: os relógios dos anos 70 e 80, mesmo aqueles que até há pouco tempo seriam considerados kitsch e/ou de mau gosto (incluindo relógios-bracelete, exemplares de quartzo, tamanhos quase minúsculos, formas assimétricas ou bizarras); e a Cartier. Na verdade, até há múltiplos pontos de contacto entre esses dois vetores, tendo em conta a riqueza do acervo da Cartier relativamente aos relógios de forma.

Também em crescendo está a oferta vintage da Piaget, outra marca relojoeira de grande pendor joalheiro. A Vacheron Constantin está igualmente em alta. E viram-se também exemplares da Jaeger-LeCoultre, da Panerai e mesmo da A. Lange & Söhne. Modelos específicos como o icónico Omega Speedmaster também têm acentuada procura. E, como não podia deixar de ser, tanto a Patek Philippe como a Audemars Piguet continuam a dar cartas — sobretudo no que diz respeito aos seus modelos mais emblemáticos, o Nautilus e o Royal Oak, cujos preços têm andado equiparados.

«Há 15 anos, um Nautilus 27100 fazia 30.000 ou 40.000 euros, enquanto um Royal Oak de série A em aço fazia 10 mil euros. Dir-se-ia então que seria injusto. A vida não é justa e há sempre tendências; sempre que uma tendência se torna demasiado forte, outra nova tendência surge como reação. Hoje em dia, o Nautilus e o Royal Oak têm sensivelmente o mesmo valor», disse-nos Aurel Bacs.

Nos leilões, a proveniência tem grande importância. Entre a oferta de usados ‘anónimos’ do VO’Clock, a condição é primordial. Mas sem excessiva intervenção de restauro. Aurel Bacs também nos fez a radiografia sobre a valorização dos relógios antigos não restaurados comparativamente às obras de arte: «Tecnicamente e legalmente, quando alguém é dono de algo pode fazer o que quiser. Houve controvérsia quando a Capela Sistina estava a ser restaurada, muita gente achou que era desastroso e que não se devia fazer. Mas restauraram. Acho que se um carro, um relógio ou um quadro devem ser restaurados tem a ver com a abordagem intelectual, emocional e prática de cada um. A coisa mudou muito, porque quando comecei, há uns quarenta anos, tudo tinha de ser novo. Qualquer relógio que eu comprasse, levava-o ao relojoeiro para que fossem polidos os riscos ou mudar o mostrador porque estava sujo, ou mudar os ponteiros porque à noite não tinham luminescência. Também é uma questão de educação apreciarmos o facto de que o envelhecimento é uma coisa boa, algo de natural. Quando os concursos de elegância de carros começaram, até havia a expressão «it has been restored to concours condition»; basicamente, para ganhar era preciso restaurar o carro. Mas, há uns anos, estrearam uma nova categoria chamada Preservation Class — que premeia o carro com menos restauro. Isso também tem a ver com a sociedade, com o aceitar que se mostre algo que é antigo».

Para reforçar a ideia, Aurel Bacs faz uma analogia: «Não vou criticar quem se submete a cirurgias estéticas ao rosto porque prefere um nariz diferente ou tirar as rugas, mas até nesse caso há tendências. Houve uma altura em que o pálido era moda, depois apareceu o bronzeado, Botero preferia certas formas volumosas, depois o magro tornou-se moda. As modas vêm e vão. O que acho é que nunca se deve fazer algo que não possa ser reversível, porque fazer algo de errado e não poder voltar atrás vai-nos deixar com remorsos. Mas a manutenção é necessária, é preciso limpar tanto a mobília como o carro e o relógio — fazer a revisão, olear o movimento, mudar a correia, eventualmente mudar o vidro se estiver riscado ou mandar polir os riscos. Desde que o caráter original do relógio se mantenha, acho que deve haver restauro suave e intervenção artística».

Até setembro
Paralelamente ao VO’Vintage houve um cardápio de interessantes palestras e fóruns à volta do mercado vintage e da história da relojoaria em Itália — juntando-se o lançamento de um livro precisamente dedicado ao assunto: ‘História da Relojoaria Italiana; dos Anos 1300 à Renascença do Made in Italy’.

Face à adesão dos aficionados, Matteo Farsura — diretor dos eventos de joalharia do IEG (Italian Exhibition Group, entidade organizadora) — fez questão de sublinhar: «Mais uma vez, a Vicenzaoro promoveu a formação, a cultura empresarial e a informação económica: os compradores encontraram toda a cadeia de abastecimento e as empresas encontraram todas as experiências necessárias para competir nos mercados. Há cinco anos, a ênfase estava no potencial dos canais digitais para este setor; hoje, está na otimização do processo produtivo para equilibrar o custo das matérias-primas. E este é um exemplo do que entendemos por ‘Pessoas, Produtos, Lugares’».

Houve algumas marcas contemporâneas com stands numa secção mais relojoeira da principal nave dedicada à joalharia — como a Paul Picot ou a Matthey-Tissot, para além da marca de estojos/cofres Wolf. A edição estival da Vicenzaoro decorre de 4 a 8 de setembro de 2026 num Vicenza Expo Centre que surgirá renovado após as obras dos últimos tempos, sendo que o VO’Vintage tem lugar especificamente entre 4 e 7 de setembro. Vale a pena a visita.





